Thursday, September 30, 2010

Dias Breves 46

 Pintura de  Zvonko Sigetic

Como seria se fosses a flor
e eu  terra ou chuva ou  luz?
Que impossibilidade nos libertaria
para construir a sempre estranha felicidade do mundo?

Dias Breves 45

pintura de César Taíbo
Se fosses uma pátria que soldado eu seria ou que morte?
Que palavra no abismo da memória?
Que fuga para o mais dentro da perdição?
Ou lago submerso no rasto da saudade?

Wednesday, September 29, 2010

Dias Breves 44

A memória que de ti guardo é uma varanda sobre o que falta no mundo, mas que nunca me faltou. A tua imagem é o que não existe. Só o que não existe é verdadeiro.

Dias Breves 43

Volta na perfeição das tardes recolhidas da infância. Volta na forma dessa sombra que me abraça todos os invernos e tudo explica sobre o tempo que é o nosso e que se esgota, cavando-nos tão bela e fundamente.

Wednesday, September 22, 2010

Recolher o verão.

Começar o outono em Tallin, longe de casa, e fazer contas às tarefas a desenvolver quando chegar: recolher a esteira que dava sombra ao terraço, guardar as almofadas das cadeiras, recolher os tangos de Gardel, os dias quentes, as fugas para a Argentina, a memória do que seria, um dia, adormecer no deserto. Guardar o oceano, as palavras mais lentas, o que vimos partir, o que vimos chegar.
Recolher o verão no peito e estar pronto para um recomeço noutra estação. Nada mais belo. Nada mais justo.

Peregrino

Acesas as velas na Catedral Alexander Nevsky.Acesa, uma vez mais, a casa desse Deus que só conheço pelos lugares de onde hei-de sair um dia com ideia de ter deixado tudo o que aprendi ao coração do mundo.

Monday, September 20, 2010

Parque de Outono

O outono deste parque fala-me do que aprendi com as estações.
Contudo, tenho saudades do que perdi ao longo de todas elas.
Percebo que se morre muitas vezes ao longo da vida,
desta maneira.
Teria que amar este parque, apenas para que o não mate
com o tempo. Mas não. Amo a saudade. E, mesmo assim,
nunca deixei de morrer.

Sunday, September 19, 2010

Oração.

Do meu quarto, em Tallin, vê-se a Catedral Ortodoxa de Alexender Nevsky. Habituei-me a orar em qulaquer templo. Todos me confortam. Ainda que, em quase todos, questione o seu lado social.
A sensação de me encontrar com o divino tem tido nos diferentes templos, dos mais diversos credos, uma expressão de intimidade que me reserva felicidade. A minha relação com Deus é uma relação de exílio. É uma relação de cais de desembarque. Desde a morte do meu pai, que essa relação passou também a ser de comunicação com aquilo que mais se desconhece: a língua que o amor fala, independentemente do seu receptor.
Amanhã lá estarei orando. Acendendo duas velas. que mais não significa do que dizer: também aqui nos lembramos, também aqui não esquecemos. E isso tem uma intimidade inesgotável. E isso traz uma paz e uma alegria que só cada um e o seu Deus conhecem.

O inverno que se prepara.

De regresso a Frankfurt, com a manhã clara perto do rio e a quietude dos domingos. Tempo suficiente para olhar a cidade uma outra vez e reconhecer a poética do espaço, feita também pelos seus habitantes, preparando o inverno. A prepaparação do inverno é das minhas actividades preferidas. Sempre foi. Mudamos de rosto, de sorriso, de andar, de disposição. Mudamos a estética, mudamos as emoções. E somos outros, regerssando ao abrigo, regressando ao profundo, regressando.
Os habitantes de Frankfurt estavam assim este Domingo de manhã. O regresso é das coisas mais belas que a vida possui porque só se regressa ao que se deseja e ao que se ama. Caso contrário, não regressamos: vamos ao encontro do que nos é neutro ou prejudicial. Isso não é regressar é ir em direcção a. Regressar é acessível apenas ao coração.
Indo até às margens do rio, pelo interior dos bairros económicos, como gosto de fazer, vemos as pessoas dali com esse ar de regresso a uma parte de si condizente com o inverno que há-de vir em cada um. Nunca troquei um palácio por uma pessoa sempre que viajo. Inesquecível é o que sentimos de íntimo num espaço que só é nosso pelo olhar que pousamos nos outros e aí descobrimos a sintaxe da cidade a que chegamos e onde somos estranhos ou descobridores, quase sempre o mesmo, pela intimidade de ambos, pela ousadia de ambos.

Friday, September 17, 2010

Dias Breves 42

Pintura de Makovskiy:

As coisas que têm os gestos estão no coração guardadas como memória futura do deslumbramento. Por isso, quem ama guarda.

Dias Breves 41


Os passos são a construção de significados mais rentes ao coração. A sua cadência e a sua música podem contar tudo para ser no fim uma geografia de amadas imprecisoes, de brevidades que ficaram e nos esculpiram a ausência como um tesouro.

Sunday, September 12, 2010

Varandim 2

As tuas mãos são o que sobra dos alperces
e da luz dos dias quentes.
As tuas mãos são o que falta à doçura do coração,
o que parte na mais bela escuridão dos tempos
para voltar no mais genuíno sufoco do espanto
e da liberdade naturalmente ilimitada pelo amor.

Dias Breves 40


O sorriso das folhas de morangueiro viradas ao céu.
O meu peito a encerrar o Verão, nele escondendo
o aroma das fruteiras e do vento nos teus cabelos,
saídos de um deserto longínquo, falando do que não disseram
as estrelas e os bichos que amámos e que não voltarão,

a não ser nos campos de palha e de sol deixados no corpo,
adormecendo os tão amados nunca mais
de todas as estações.

Dois poemas sobre o Tempo

1

Na tua mala
guarda todos os teus monstros.
Não para deles te vingares,
mas para saberes
o quanto é perfeita a imagem do Tempo,
de cada vez que recordares a tua face,
guardando-os.

Guarda-os
porque deles se abismou o amor
todas as vezes.

2
 
Quando tínhamos as roseiras,
havia um pássaro doce que suave
e secretamente nos invadia as manhãs
com esse aroma.

Maio transbordava um para sempre
sobre o nosso corpo tão jovem
e nele agarrava a mais sábia das visões:
o Tempo a passar com a evidência
dos aromas,

Tudo o que aprendemos é um perfume.

Wednesday, September 08, 2010

Varandim 1

Foto de Vasco Silva
As chuvas do verão trazem histórias.
As perdas do verão trazem silêncios.
As últimas paisagens da tarde trazem-nos,
são belas para sempre
e desaparecem no nosso espírito
anunciando o outono.

O segredo do mundo
está em nunca deixarmos
morrer as nossas estações.

Dias Breves 39

pintura de Edgar Degas

O verão acaba-me onde começa a saudade do oceano,
as promessas que aí fizemos, a lonjura que trazia o encanto.
Se decidires morrer,
nunca te esqueças do que prometeste a ti mesmo e ao mundo.
Faz essa difícil conta
e ao verão entrega um corpo de despedida e anseio.
Não há nada mais digno do que partir
com algo para contar no coração.