Thursday, July 15, 2010

Guilherme


(no dia do seu oitavo aniversário)

Um raio de luz tão pequenino e tão infinito.
Um filho é isso ao nascer.
Um filho é isso até ao fim.
Só o nosso coração envelhece
e é dessa luz a mais conseguida sombra.

Saturday, July 10, 2010

Tarde no terraço


Por vezes, a tarde foge-me do tempo. Os meus filhos andam a ver a série de desenhos animados do Marco, que eu vi quando era pequeno. No terraço, abro o guarda-sol, levo um chá de roíbos, amêndoa e pimenta, ponho o Carlos Gardel a tocar, e uma certa perfeição desce sobre aquela hora, no meu coração eternamente viandante, resistente à pequenez do mundo. Trago a Argentina para a minha tarde, o inverno daquele miúdo a quem a mãe deixara para emigrar, marcando encontro com o miúdo que também fui e que foi gerindo a música que às vezes não vinha e as perdas que não teve por não chegarem a haver conquistas.

Mudo-me com um chá e um tango para a Argentina e divirto-me com o verão íntimo e magnífico de ter os filhos por perto, um amor tão de pássion como o mais impressivo tango, uma família que nunca emigrou e a agradável impressão que para se ser feliz não é preciso muito, basta que se não abdique de viver, ou pelo menos de o querer fazer.

O compromisso

Pintura de Maria Helena Vieira da Silva

Teria que trazer para o mundo uma mão cheia de palavras, ordenadas à medida do meu sangue. Teria que as trazer para manter dignas as manhãs que me ensinaram tanto. Para manter livre a tristeza que me fez crescer tanto. Para manter livre a solidão que me ajudou a amar tanto.

E quando me perguntam por que escrevo. Apetece-me dizer que escrevo por estar ali. Por ser ali. Por não querer morrer ali, nem deixar que aquele instante sucumba. Mas, esta resposta, tão verdadeira, faz-me pensar que esta vocação da escrita parece ter alguma coisa de mal resolvido com Deus, dada a obsessão ininterrupta de estar sempre a criar alguma coisa, ainda que a não escreva de pronto. Por outro lado, também me parece que esta resposta poderia ser uma das mais bem conseguidas orações dado aproveitar cada instante desta tão curta vida para marcar o coração alheio, fruto das marcas do coração que Deus me deu.

Friday, July 09, 2010

Dias Breves 35


A fartura dessensibiliza.
Toda a estética morre aos pés do desperdício.
Toda a civilização adormece e odeia
junto dessa obesidade dos tempos.
A lição é que arte e o espanto
são o resultado da subtracção dos dias
com a soma dos dias.

Dois poemas em Ghent



1)
À volta do canal, a arquitectura da tarde.
A luz a pousar nas arestas da face.
A absoluta necessidade de apanhar um barco
para o coração que já tive.

2)
Desenhava geometricamente a busca.
As suas linhas eram uma história,
uma caligrafia sem frases, solta
nos códigos mais íntimos da distância
e da alegria que já fora sua.

Thursday, July 08, 2010

Uma abordagem a Joseph Bueys



(Final do dia nos Museus de Arte Contemporânea (SMAK) e de Belas Artes de Ghent. As visitas organizadas têm a grande virtude das explicações e o grandessíssimo defeito de me não darem tempo junto das obras. As pinturas expostas no museu de Belas Artes, da colecção dos séculos XVIII e XIX tocaram-me pela luz que cada génio lhes imprimiu. Apeteceu-me escrever sobre essa luz, mas não me detive o suficiente. Talvez recupere as obras por via de catálogos e trabalhe sobre a matéria mais tarde.
No Museu de Arte contemporânea, a única emoção foi a de Joseph Beuys. Curiosamente, quando expressei o meu espanto por me defrontar com a instalação, a guia perguntou-me: Are you german? No i am portuguese. Ela sorriu. Mais à frente, questionou-me se eu era apreciador de Beuys e eu respondi que sim. Que não sabia quase nada sobre a teoria da Arte que se construiu em torno da sua obra, mas que Beuys era um dos meus artistas favoritos)


Trago uma canção muito doce que se cantava no tempo da guerra aos soldados.
E trago-a para a intimidade da casa e para uma maior intimidade que têm os objectos.
Talvez nunca te tenho dito o quanto te tenho amado nas embalagens de farinha, nos frascos de compotas ou na manteiga que sempre temos para os pequenos-almoços e para cozinhar.
Talvez não saibas como me comove o passar do tempo reflectido nos talheres, nos copos e nas garrafas vazias que vou coleccionando, por aí ter depositado o nosso melhor passado.
Sabes? Há uma solidão que espalhei de propósito pela casa, para nunca deixar de amar os momentos que conseguimos ir amando ao longo dos tempos.
Os objectos são os meus guardadores de solidão. Por isso, são preciosidades. E, talvez não saibas, mas não paro de ouvir essas canções, lentas, fundas, de voz arrastada, no mais puro alemão dos tempos da guerra.
Há uma fronteira que gosto de rasgar no coração. A fronteira dos tempos. Não há nada mais divino no Homem como essa majestosa possibilidade de podermos ter um passado. Esse é uma característica dos Deuses, porque sobre ele podemos ser omnipresentes e sobre ele podemos construir o que bem quiser o coração. O passado é um tempo de funda liberdade.
E já sabes. No fundo, pouco mais me resta do que ser um velho revolucionário e, em regra, os revolucionários do meu tempo amaram demasiado a liberdade.
Apaga a luz. Deixa que descanse o tempo sobe os objectos, não pares de cantar, e vai-te distanciando a pouco e pouco, para dares ao mundo um último instante e só voltarmos pela mão da saudade.

Wednesday, July 07, 2010

Matilde



(para Matilde Rosa Araújo, em vez da flor que a distância me impede de levar. Pelo primeiro poema que li e que era seu, pela sua ternura, pelo tempo que me deu e pelo que deixou aos meninos de todos os tempos)

Uma vez cruzei-me com o primeiro poema
e percebi o abismo e a vertigem.
Mais tarde, tive a absoluta certeza de que a poesia
é um lugar secreto, tão secreto e fundo
quanto os nunca mais que coleccionávamos
e que, sem saber, os oferecíamos ao coração da beleza.

Mudar


De partida para Ghent, para a 1ª Convenção Europeia destinada a profissionais na área da Juventude. Há uma bagagem que nunca desfazemos, aquela a que sempre acrescentamos quando aprendemos algo de novo. Essa vai sempre mais vaga e vem sempre mais composta. A esperança nestes eventos é de trazer uma peça mais para ajudar a mudar as coisas para melhor. Na verdade, estas convenções valem pelos exemplos que se trocam e pela forma como isso se faz. Os modelos de participação, estão muito diferentes daqueles que se usavam há vinte anos. Esta não será uma convenção de oradores e de discursos, será um momento de trabalho entre todos, tentando que daí resulte uma experiência rica e sobretudo reprodutível.
O tempo dos discursos foi um tempo de algum desbaratamento de oportunidades. Bastava o esforço de um, o orador, e a passividade dos restantes para que houvesse um momento. Hoje, quase ninguém acredita neste modelo, sendo a actividade uma exigência que se aplica a todos os participantes. Ninguém se desloca para ouvir, mas para construir. Ninguém vai só para receber, mas também para dar. O tempo da unidireccionalidade da comunicação acabou. E ainda bem. O século XXI será marcado pela percepção generalizada de que o trabalho feito em comum é aquele que garante à partida um factor de ganho, por estarem envolvidas desde logo mais do que uma parte.
De partida para Ghent com a noção de que nunca se pode deixar de querer mudar o mundo e a certeza de que a cada um de nós cabe uma parte, por mais pequena, por mais apaixonada, por mais resistente, a parte que não cabe a mais ninguém.

Tuesday, July 06, 2010

A beleza.

Os dias claros de verão. As viagens que fazemos com o corpo e com a mente. Um copo de vinho neste almoço de subsistência do avião devolve-me a casa. Devolve-me a infância do meu pai nas margens do Douro, a sua vontade de não deixar morrer essa criança até ao fim dos seus dias.
Um copo de vinho para que me não esqueça que, provavelmente, serei o último humano a tomar conta da criança que ele foi, durante as férias grandes, nas margens do Douro, nas margens mais distantes que ele conseguia dar à infelicidade do resto ano, quando era muito novo e já tudo sabia sobre a perda. A minha avó, sua mãe, morrera em 1934, tinha ele 12 anos.
A criança que o meu pai foi, de mão dada comigo, a recuperar na paisagem o que ía partindo, o que fomos perdendo, mas crentes, ambos muito crentes no poder regenerador que tem a beleza. A beleza é das poucas coisas no mundo que desobedecem às leis do tempo. Por isso, vou aqui a caminhar com essa criança nas margens do Douro e orgulhoso pelo velho que o meu pai também foi, e que não me dei conta de o ter sido, não abandonar um dia que fosse esta ideia, esta crença no que é belo e que, por isso, merece viver para sempre.

Dias Breves 34









Pintura de António Loureiro
 
Tinhas um rio quando chegava o verão.
A felicidade era como os socalcos, degrau a degrau,
desenhando os sorrisos, necessariamente breves, estivais,
necessariamente infinitos no coração assistido de memória.
O coração como um rio
que guarda os rastos mas nunca há-de repetir as correntes.

Friday, July 02, 2010

Dias Breves 34

Pintura de Egon Schiele
Levanta-te onde caíram os teus heróis.
Só isso os honrará.
Só isso te fará pessoa do teu tempo.

Dias Breves 33

Pintura de Harold Sohlberg


Um dia saímos pelo monte à procura da liberdade que não tínhamos e, quando voltámos, éramos irmãos das pedras e respirávamos com o que aprendemos ds ervas a serem íntimas do vento.

Thursday, July 01, 2010

Dias Breves 32


Dou-te um pássaro para que sintas o prazer da música.
Dou-te o seu canto e a sua liberdade.
Mas nunca te esqueças que foi da sua fragilidade
que a liberdade e o seu canto nasceram.

Esse pássaro há-de não voltar um dia.
A partir desse momento nunca mais deixará de voar
no teu coração.

Então, saberás tudo sobre o seu canto.

Mas acima de tudo, saberás quanto te falta.

Saberás quanta falta te faz o que nunca soubeste sobre os pássaros
e as vezes que eles voaram e tu não viste, e mais do que isso:
as vezes que eles voaram e  não soubeste.

Dias Breves 31

Chegamos a Julho. Uma flôr tépida prepara a Liberdade dos aromas de verão. A luz da tarde envolve essa Liberdade. Os nossos olhos guardam e nesse guardar aprendem a morrerr.
Morreremos com a dignidade que encerra o termos visto, o termos dado às coisas do mundo os nossos olhos sem nunca nos despedirmos verdadeiramente.

A EXPOSIÇÃO DO DR LOPES DE OLIVEIRA

Por estes dias, fui à Biblioteca ver a exposição que CarIna Faria coordenou acerca do espólio e percurso de vida do Dr A. Lopes de Oliveira. A ideia de mostrar este Homem às gerações que o não conheceram pessoalmente e dar aos que o conheceram o privilégio de retomar o contacto com objectos pessoais, desenhos e fotos que foi guardando é, no mínimo, justa e inteligente.
Para Fafe, este «escravo das letras» foi uma estrela, uma espécie de estrela cadente a quem se pedia um desejo e ele, com aquele seu coração maior do que o mundo, ajudava a que tal acontecesse, ensinando o que sabia, entregando-se sem reservas, amando sem limites. Confesso que tenho imensas saudades dele. Saudades de ver um Homem que era o seu próprio sonho, saudades da sua voz rouquelha a aquecer a frieza dos nossos dias e a inflamar a nossa vontade de mudar o mundo. Tenho no meu escritório uma foto sua, há muitos anos, e tenho-a como tenho as dos meus familiares mais chegados e mais queridos. Emociono-me de quando vez ao vê-la, por me apetecer, e me fazer uma falta imensa, voltar a ouvi-lo e com isso recarregar baterias para conseguir mudar as coisas.
O Dr Lopes de Oliveira foi um milagre nas nossas vidas. O comunista mais apaixonado e praticante que conheci. Ao pé dele, até era desconfortável não se ser comunista, porque ele era o próprio ideal, o ideal que não foi traído por qualquer vulgata ou máquina de Estado. Com ele existia o comunismo de facto, pelo seu desapego às coisas materiais, pela sua capacidade de dádiva, pela forma como sentia efectivamente que as pessoas eram iguais e mereciam oportunidades iguais. Todos os dias ele era assim. Todos os dias nos educava desta forma. Quem poderá substituir um Homem assim? Não sei.
Esta exposição que esteve patente na Biblioteca tocou-me muito por tudo isto. Ainda bem que existiu, ainda bem que a Carina se lembrou dele e, na forma de exposição, devolveu-nos por uns dias o velho Lopes de Oliveira, devolvendo-nos os tempos felizes que tivemos a sorte de viver com ele e de manter para sempre na parte do nosso coração que mais aprendeu e que mais aberta está para se inquietar com o mundo.
Ele fazia anos a 31 de Março. Uma vez, a D. Odete, mãe do meu amigo Pascoinho, fez um bolo de bolacha para que com ele festejássemos o seu aniversário no jornal STOP. E assim foi. Ele lá veio e lá bebemos champanhe e comemos o bolo. Quando tenho saudades dele, peço um bolo de bolacha no restaurante, dou um golo no vinho e sempre me lembro que, esteja ele onde estiver, saberá como o amor tem destas particularidades: quando é genuíno, também é infinito.