Tuesday, June 29, 2010

Dias Breves 30

Pintura de César Taíbo

Saberemos contar o pulsar do mundo
escutando o coração fraterno.
Todos os demais batimentos
são o que nos morre dos dias.

Dias Breves 29

Vou perguntar aos pássaros pelas estações
e adivinhar no seu voo a distância
que nos separa de todas as despedidas,
o tempo que nos resta para amar ilimitadamente.

Dias Breves 28

Pintura de Elisa Tenenbaum
As laranjeiras perfumam a tarde. Quase não há tempo.

Se eu pudesse morrer, morreria assim a lembrar-me do mundo
E a perguntar quando chegaria a ti esse perfume
E quando dele construirias a saudade ou só o amor.

As laranjeiras têm-nos no seu aroma
Pela forma tão livre como cada humano é capaz de amar
O perfume que entende e que narra, pelo menos, ao coração.

Friday, June 25, 2010

Dias Breves 27

Pintura de Van Gogh

No teu vazio caberá tudo, um dia. As paisagens, as pessoas, os objectos. Se arranjares uma cadeira onde instalar o que soubeste do mundo fecharás o ciclo. O mundo é sobretudo o que resulta da soma dos teus vazios com o espanto que acumulaste e que desfruta. A cadeira pode ser Deus, mas só se o não souberes.

Dias Breves 26

Pintura de Egon Schiele
Despe-te do mundo. Parte onde puderes partir. Abandona-te. O que, então, encontrares será o teu inferno e o teu paraíso. E não terás um corpo nunca mais. Não terás um rasto ou um nome.

Que aí te dediques à amar a liberdade. E, desse amor, talvez conheças a sua real dimensão. Ama o teu vazio e estarás pronto.

Dias Breves 25


É uma flor cheia de música a desmaiar no centro do azulejo. No meio do coração, guardas a memória dessa flor. E uma canção rega-lhe as raízes que se não vêm mas que rebentam ainda, como rebenta no meio da tarde uma oração, trazendo-te a imagem de Deus e da sua saudade.

Dias Breves 24

Em Lisboa colhi a sombra das coisas e guardei-a. A sombra é o mais sublime indício de luz, por ser livre e ser só teu o seu conhecimento.

Dias Breves 23


Os fósseis são linhas muito ténues onde apodreceu a memória e se agarram ideias novas onde alguém nascerá para morrer um dia com a sensação de tudo ter percebido acerca do mundo.

Dias Breves 22

Arte Pré-colobiana
A minha alma, um dia, há-de esquecer o corpo e não compreender a sua saudade. Isso lhe bastará para que fique justificada toda a eternidade.

Dias Breves 21

A minha alma é um corpo que combate o corpo que ainda tenho e que adormece e há-de findar um dia. Quando nele se comove, nasce uma outra vez, ainda que morrendo. A morte e a vida têm este mistério e esta intimidade.

Thursday, June 24, 2010

Dias breves 20

Pintura de Frida Kahlo

Existe para que sejas sol
e quando chuva fores
que possas ser as lágrimas
do coração que já amou.

Tuesday, June 22, 2010

Saramago

Nos momentos felizes dos sítios, registo um momento que as paredes da velhinha sala de conferências da Casa da Cultura guardarão para sempre: o olhar apaixonado de Saramago para Pilar quando nos visitaram há muito anos. Não posso jurar se foi o tempo todo assim, mas naqueles instantes em que Saramago nos falava dos seus livros, fê-lo muitas vezes com o coração nos olhos do coração da sua derradeira companheira. E isso não se esquece.


No Hotel do Elevador, em Braga, nos finais de 1998, eu, o pintor César Taíbo e o compositor Nelson de Quinhones, celebrávamos com um burbon a chegada do meu primeiro livro «O Lugar dos dias», um livro com poemas meus e os magníficos «Oráculos de Paris» do César. Durante este encontro, chegavam para a Feira do Livro José Saramago, Clara Ferreira Alves e José Manuel Mendes. O César, pintor a tempo inteiro, foi falando connosco e desenhando Saramago. No final, ofereceu-lhe o desenho.

Anos mais tarde, vimos registo desse gesto nos «Cadernos de Lanzarote», sem que Saramago soubesse a quem agradecer, uma vez que o desenho não estava assinado. Fica assim fechado o processo: o resto do texto que falta aos Cadernos fica publicado aqui: César Taíbo.

Estas duas memórias de Saramago, no momento da sua morte, aconchega-me a perda, eu que sempre tive por ele uma relação de profundo respeito e admiração, mas também de proporcional irritação com um ou outro gesto que me pareceram caprichosos. Dizia-me uma amiga: ele tinha direito a isso. Eu rspondi-lhe: tinha, como todos nós temos, porém dói mais quando se trata daqueles a quem mais queremos e a quem mais depositamos a esperança de puderem transformar o mundo.

O Portugal sem a voz de Saramago não será igual. Mas não o perdemos. Nunca mais o perdemos. Cada ilimitado nos seus livros, será para sempre o ilimitado que demos ao mundo com o seu génio. E, aí, sem margem para dúvida um enormíssimo e comovido, obrigado Saramago.

Friday, June 18, 2010

Mia Couto

Enquanto Mia Couto lia um pequeno texto do seu mais recente trabalho, «Pensageiro Frequente», na Biblioteca Municipal de Fafe, tive a nítida sensação de que estávamos perante um momento que não sairá da memória de cada um mas também das memórias que registam os momentos felizes da nossa biblioteca, sim porque os sítios também têm memórias e momentos, mesmo seja que por via daqueles que os frequentam.


Mia Couto tem uma expressão simples e funda que dá verdade e dá tempo à sua marca por esta vida. Vê-lo nesse íntimo gesto de partilha é um privilégio. Distribuíram-se sorrisos, cumplicidades, questões, umas respondidas outras por responder, mas acima de tudo houve na noite de Mia uma noite com gente por dentro e isso é muito.

Thursday, June 17, 2010

Carlos Afonso

A apresentação da obra «Os Rios também choram», da autoria do Dr Carlos Afonso, foi um momento de genuíno pulsar da cultura na nossa cidade. Foi genuíno e foi intenso por estarmos perante um Homem que não tem uma breve paixão pela literatura, mas antes uma intensa e aturada dedicação às letras exportada para lá do seu coração.

Carlos Afonso é exemplarmente um professor que ensina com o coração à boca da razão e os resultados estão à vista. Os jovens que ele fez despertar para os prazeres da literatura tem sido um fenómeno de tal forma crescente que podemos afirmar que a nossa terra voltou a ter uma nova vaga de cidadãos que estão aptos e estão com vontade de acrescentar ao panorama cultural local.

A entrega que tem demonstrado às letras e às artes, também no plano local, tem-se efectivado num elevado sentido de cidadania e de disponibilidade para o outro, o que nem sempre se verifica. Carlos Afonso é um intelectual e um escritor que está para a sua arte mas também está de coração aberto para a arte dos outros. E que falta fazem Homens assim na vida cultural das comunidades! Não me canso de lamentar as perdas de outros que já partiram e que tinham idêntica perspectiva, nomeadamente A. Lopes de Oliveira, Manuel Ribeiro, Rui Adérito Valente e Miguel Monteiro. A partida destes deixou danos irreparáveis na sociedade local, mas outros continuam, e dos que continuam o Dr. Carlos Afonso é certamente uma alegria que nos chegou pelo destino mas que já deixou raízes na nossa comunidade. Ao longo do ano lectivo, estudou com os seus alunos também os autores locais e isso tem um significado na cidadania dos nossos jovens enorme. Tem o significado de mostrar que é possível criar na nossa terra e haver gente que se demora e é feliz a reinterpretar as criações dos que são de cá, provando a esses que interpretam que poderão, também eles, passar ao papel de criadores, que não há castas, não há classes, não há elites quando se trata de criação, mas antes vontades, dedicação, amor à arte e consequentemente aos outros e ao mundo.

O Dr. Carlos Afonso é uma alegria para a nossa terra. Os jovens que o digam. Conquistou já um lugar da maior nobreza, o lugar que o manterá para sempre no coração dos alunos e de todos os que por cá amam a cultura. Isso já ninguém lhe tira. Por isso, fomos tantos a levar-lhe um abraço no lançamento do seu livro, que espelha tão bem esse amor aos sítios, às pessoas e às suas culturas. Por isso, continuamos tantos a dizer-lhe que fique e vá em frente e cada vez mais fundo nesse gesto que ajuda a cultura de Fafe, mas que o faz da melhor forma: com gente empenhada até ao coração. Foi sempre assim que fomos crescendo, será sempre esta a melhor forma de haver rasto, de haver marca, de nenhum esquecimento pairar sobre nós ou sobre o emudecimento da nossa sempre tão urgente palavra.

Wednesday, June 16, 2010

Barcelona de Tàpies


Nestes dias, em Barcelona, o reencontro com os meus artistas de sempre, sobretudo Picasso e Tàpies. A cidade com o charme das grandes cidades europeias, associada ao salero que Espanha empresta aos seus lugares e à forma como ali se afirma a intimidade individual naquilo que é o espaço público. As varandas, as janelas, os pormenores da iluminação pública, entre outros, estão cheios de sublinhados íntimos que fazem da cidade uma cidade assinada com o espírito do seu povo. Uma cidade assinada, como um artista assina um quadro. O meu sonho de cidade é assim: que as pessoas se demorem a comunicar com aquilo que é seu, acrescentando à cultura do outro. Por isso, me sensibilizam os pormenores, por serem pequenas notas de vida de quem por ali passou. Uma janela não é só uma janela, uma janela pode ser uma longa história, uma longa lição, ou um breve suspiro, uma breve alegria, mas nunca é só uma janela.

Escrevi uma série de textos poéticos, entre os dias 12 e 14 de Junho de 2010, após uma visita à Fundació Antoni Tàpies, ao todo 12, todos dedicados à obra deste gigante da arte mundial. A primeira vez que visitei uma exposição de Tàpies ocorreu nos inícios dos anos 90, na Fundação Calouste Gulbenkian. Denominava-se «A celebração do Mel». Na altura, já tinha lido um número significativo de entrevistas e ensaios de sua autoria e revia-me entusiasticamente na forma como caracterizava a sua obra, bem como na definição que avançava acerca do papel da Arte e dos seus criadores no mundo contemporâneo.

Na manhã de 12 de Junho de 2010, com a minha companheira de há mais de vinte anos, sentei-me em frente da obra do Artista e tive uma das mais emocionantes e genuínas experiências sobre a criação e a consequência da Arte na vida do outro. Experimentei esse papel de outro com uma intensidade e uma elevação tais que não consegui conter as lágrimas.

Desta vinda a Barcelona, fica o registo desse encontro. Uma espécie de para sempre que decidi entregar a esses momentos. Uma espécie contagiante de inquietude que só o espanto é capaz de abrir à sempre incompleta travessia dos significados, ou do estarmos vivos, muito aquém daquilo que poderíamos ser ou interpretar sobre nós mesmos quando estamos com os demais e tão pouco sabemos dos seus abismos e das suas revelações face à imparável e transtornante matéria do mundo.

Fica para os leitores da Máquina Royal, um dos 12 textos que escrevi, este inspirado na obra

«ARMARI» - 1973

Estamos presos nos múltiplos corpos que já tivemos dentro de todas as peças de vestuário que usámos.

É uma obsessão guardar as conversas, os gestos, o toque, as carícias que levaram essas roupas.

É uma obsessão tão grande e tão dolorosa como a de não querer perder um só instante.

Há um ser que nos enterra todos os dias. É um coveiro que trazemos a cada segundo, o coveiro que nos escava o tempo e provoca a alma.

Um armário é um jazigo, mas um jazigo onde desenterramos o que mais desejamos: a aparência de morte e de amor que tem tudo o que não alcançamos mais.

Wednesday, June 09, 2010

Dias breves 19

Pintura de Christian Mourier-Petersen (1858-1945)

Aguardar o que ficou na doce invenção dos passados e acreditar que em cada coração há um velho artista que sabe ler o tempo e fazer dele a razão de uma espera que sempre chega para matar a solidão.

Dias breves 18

Pintura de Antoni Tapies
Ao centro do coração, o nome destituído de memórias. Só como as pedras das montanhas, mas livre e disponível para os tempos como as mais antigas pedras das montanhas.

Monday, June 07, 2010

O espanto e a ética

Pintura de Marc Chagall

Chagall. Quantas vezes um quadro pôde ser um pedaço de exílio, um extracto de fuga, um abrigo das coisas que queremos distantes pelas razões menos óbvias, menos perceptíveis, mas mais claras ao coração. Quantas vezes descansei, e ainda descanso, do cansaço e do suor que as utopias sempre trazem, nesses quadros, nessas formas tão íntimas de recolhimento do mundo? A Arte é uma bênção, uma bênção comparável ao sentido teológico das bênçãos. Porque a Arte confronta as nossas aspirações perante a existência com a língua íntima com que desenvolvemos a nossa própria vida. Uma bênção também é muito essa participação divina que dialoga com as nossas aspirações humanas e deixa fluir nesse diálogo o pacto entre Deus e o Homem.

Chagall é um mestre dessa forma de devolver a pintura ao olhar dos outros, esses tantos autores de outra tantas leituras, quase tão importantes quanto as do executante da obra. Muitas vezes, passa desapercebida a ideia de que a Arte, seja ela qual for, só é importante porque é interpretada e sentida por alguém. Se não houver esta comunicação não há Arte, não há sequer o produto artístico, há qualquer coisa de incompleto que não chegou ao fim do seu trajecto. Um quadro é um quadro, mais a intenção de quem o produziu e a interpretação de quem o olhou, juntando-lhe pensamento e essa nova coisa, essa nova energia, que perpétua e justifica a obra.

As personagens de Chagall são inúmeras vezes os meus estados de alma. Uma partida para o que poderia ser temporariamente perfeito. Há uma grande verdade que tenho perseguido: não há nada mais belo do que o espanto sem a perda de ética. O espanto embarcado no fascínio fácil e no abandono dos pilares da individualidade é algo frequente e que se tem reflectido no aligeiramento dos povos. Mas o espanto, mantendo a ética, é algo de extraordinário. É o poder fruir do que é belo e do que é novo, confrontando, questionando e construindo algo sob o antigo, engrandecendo-o. O progresso em que acredito faz-se desta massa, daí nunca saber responder à recorrente questão se sou liberal ou conservador.

As personagens de Chagall que pairam sobre o universo e têm sempre um grande contraste com as coisas desse mesmo universo, partindo delas e recriando-as, soltando-as na liberdade que o ser guarda em si mesmo sem nunca se perder.

O que me faz falta, seja gente, lugares, objectos ou o que seja, parte sempre do mundo, sem nunca ficar escravo deste. As pessoas que transformo no coração, para serem minhas para sempre, as coisas que levo vida adiante, os objectos que transporto e que são o que são mais a memória que deles guardo, são fruto do espanto e da ética que me sustenta.

Preocupa-me que as pessoas sejam extemporaneamente os bodes que tocam violino nos quadros de Chagall, sem nunca terem escutado um violino ou ter visto um bode. Quero dizer que me preocupa que as pessoas se disponibilizem, cobarde e facilmente, para o que é novo e é espantoso, sem desse gesto nada saberem. Isso sim, desgraça as civilizações e torna as sociedades escravas de um marketing que nada tem de sustentado por serem só os que dominam que disso tiram real proveito.

Mas quando regresso aos quadros de Chagall regresso ao que mais quero na vida, regresso ao que me ensinaram e ao que aprendi por mim a desejar e a ser objecto de luta. As personagens de Chagall são um estímulo e uma casa para o que tem de ser novo nesta vida, pela forma como nos desafiam na sua poética infinita, como infinita também é a poética que têm as nossas mais terrenas alegrias, o nosso mais justificado choro, o nosso mais sincero gesto para que nunca morramos, para que nada possamos saber da nossa própria morte, que é o mesmo que admitir que alguma vez estaríamos capazes de cair no esquecimento daqueles onde eficaz e maravilhosamente semeamos o amor. Cristo que o diga, com o seu exemplo.