Wednesday, May 19, 2010

Dias breves 17

Pintura de Sisley
Há um rio que separa as margens e uma corrente que os liga, sendo todos uma parte da sua essência.
Essa energia é o que de melhor se guarda na sombra de todos os tratados sobre a Humanidade

Tuesday, May 18, 2010

Dias breves 16

Pintura de Henri Matisse
Poderias ser um braço na madrugada e roubar à mais ínfima península do desejo a ideia de que, vista do oceano, também a terra pode ser bela. Dessa imagem poderão seguir as rotas que te hão-de diluir o olhar, dilui-lo sobre o que uma vez te tenha comovido a esperança.

Dias breves 15

Pintura de Adriaen Van De Velde

A palavra é uma ponte entre a garganta e o firmamento. Quando partires, a palavra terá aportado já num certo para sempre, por estes lugares. E a ti e ao teu amor restará a missão de recolher os ventos e levá-los, imbuídos na mais pura saudade ou na explicação mais razoável que o tempo pode deixar aos seus viventes por, tendo por aqui passado, nunca serem daqui.

Sunday, May 16, 2010

Os 16 de Maio.


Hoje é o dia 16 de Maio. Dia de feiras francas na minha terra. Durante a tarde andei pelo espaço da feira. Como por cá se diz: andei como um gaio. Ainda há velhos que se vestem usando fato com colete e chapéu, trazendo carinhosamente os netos ou bisnetos à feira e aos divertimentos. E isso tem um valor incalculável. Porque essas pessoas trazem para este tempo uma ideia e um sentimento que, a pouco e pouco, se desvanece. Mas para mim, que teimo em andar por aí a fascinar-me com estas coisas, porque também são as minhas coisas, é um sinal de alegria e de reencontro. Na verdade, olho estas pessoas como sempre as olhei: tão simplesmente os senhores que trazem os netos à feira de Maio. Nada mais do que isto. Mas isto, hoje, é tanto! Estes fafenses das feiras de Maio vêm à feira para serem felizes e deixar felizes os seus. E este é um grande sinal de futuro. Não vale de muito andarmos com grandes teorias sobre a modernidade e pós-modernidade das feiras. O que há de poético e de futuro nisto é ver que ainda nos sentimos bem uns com os outros no espaço da feira e gostamos de levar aos 16 de Maio os nossos e encontrar por lá, com ar satisfeito, os outros que andando assim também nos satisfazem.


No meu tempo de criança os 16 de Maio eram no Largo e os divertimentos na Feira Velha. Da minha varanda via-se tudo. Hoje, já assim não pode ser. A casa do Largo já não existe e dos que comigo moravam já só vive a minha mãe. Mas o milagre do dia é saber que na festa ainda não morremos, ainda continuamos todos vivos, pelo menos no sorriso, pelo menos no som das pessoas que é o som da alegria de um povo. E a alegria de um povo é um dos mais bonitos poemas que ainda ninguém escreveu de forma tão elevada, mas que o sabemos por dentro, nós fafenses, nós os que somos daqui como uma criança é de um pai e de uma mãe, como um Homem é para sempre de um lugar que o define e lhe mostra as fronteiras do risco, da liberdade, do dia que há-de vir e nos surpreenderá como nos surpreendiam a magia dos carrosséis de Maio, em Fafe, sendo pequeno o nosso coração, mas muito longa a promessa de que nunca deixaríamos a terra, a terra que significa chão, que significa sangue, que significa o que somos com o nosso único mundo, mesmo quando não estamos e aí só conseguimos ser a tão grandiosa saudade e o seu tão íntimo e sublime reconhecimento.

Friday, May 14, 2010

Dias breves - 14

Pintura de Albert Bierstadt
Não sei quais são as linhas, nem sequer sei qual seria a palavra a perseguir. Mas há uma folha em branco que é uma pátria, com a alvura e a miragem dos velhos cabelos onde o poeta guardou o passar dos ventos e neles perguntou de onde viriam e que vidas teria tocado antes de si. Este é também o maior e mais intrigante mistério do Amor e da Arte.

Thursday, May 13, 2010

Dias breves 13

Pintura de Chagall

Talvez não saibas mas, quando a noite acaba, é o teu rasto no dia que me cria asas, não para que voe mas para que saiba que há uma parte de ti que o coração só alcança vista dos céus.

Tuesday, May 11, 2010

Dias breves 12



As giestas de Maio contam-me a Língua de Deus, mas também o único coprpo que partilhamos porque também somos uma montanha, e uma montanha também é o nosso mais limpo e mais fundo grito de liberdade.

Monday, May 10, 2010

Dias breves 11


Outra era a face que trazia, como as nêsperas antes do Outono, as que nunca colhíamos por serem belas e as não dispensarmos da memória que queríamos de um verão pelo nosso mundo.

Dias breves 10

Pintura de Jan Blencowe
Dias de chuva a abrirem no coração da primavera o esplendor da folhagem, aquilo que será a sombra mais íntima e regeneradora do inevitável verão.

Thursday, May 06, 2010

Dias breves 9


Pintura de Myron Clark

A fluência dos dias calmos e inteiros caindo-me nos dias futuros com a naturalidade dos ventos junto do mar.
Esse arrojo de sair do mundo para tudo mudar e ser dele o que nunca parte, por não ser partir o não ter lugar.

Tuesday, May 04, 2010

Dias breves 8

Pintura de Van Gogh
Quais pássaros, esses longínquos e demorados desafios que nos trouxeram até aqui.
Raízes que fomos agarrando à terra com tudo que uma árvore sempre quis deixar pelo deslumbramento ou utopia, aquilo que o céu sempre lhe reservou no correr natural e duro das estações, enquanto vivia.

Saturday, May 01, 2010

Dias breves 7

Pintura de Isabel Ferreira Alves

Sinais de lava, os teus. E quando te dava uma palavra, dava-te o corpo. Não o meu, mas o dos vulcânicos sonhos onde sou antigo e tu a mais bela montanha onde decidiram morrer no firmamento as erupções que o centro da terra guardara sobre o que sabíamos do infinito amor.

Dias breves 6


Eram as tílias de maio o meu primeiro corpo. Só depois perguntava pelo tempo e pela duração desse perfume na invisível arquitectura do vento.
Eram as tílias e era eu. Tão breves, tão no coração do seu próprio silêncio, segredando à passagem o seu cíclico adeus e o seu íntimo nunca mais.

Dias breves 5

Pintura de César Taíbo

Cobrava à nossa juventude, não os gestos, mas as perguntas, a ferida eterna de onde ainda chegam a bordo a doce fragilidade dos sonhos, o velho porto onde desaguam desejos e partem as coisas que nos mudaram num rasto de absoluta saudade, numa rota de absoluta semente.

Dias breves 4

Pintura de Apollinary Vasnetsov

Os limoeiros espalhados pela luz de agosto, chamando a sombra e o perfume de todas as estações. Esses limoeiros onde fomos tão ricos, por neles sermos um só corpo e desse corpo termos partido para o que melhor desconhecíamos do mundo.

Dias breves 3

Pintura de Edvard Munch


Vinhas à flor dos dias, minha impossível madrugada, lavar-me dos voos de que me não lembro por terem existido e dos que temo por os não ter alcançado.

Dias breves 2

Pintura de Edvard Munch

As portas de todas as casas onde guardaste a dureza da infância são hoje as janelas de onde só se avista a quietude e a distância. São os olhos depois do choro e o que quase esqueceste do tão escasso amor e do tão longo lamento.

Dias breves 1

Pintura de Edvard Munch
Repousa na minha boca a memória dos beijos e deixa-me um sol lento que seja a mais bela e difícil flor do nosso firmamento.