Tuesday, April 27, 2010

Relativa é a distância.



Noite de chuva em Istanbul. O Bósforo ao longe, quieto de gente a esta hora. As ruas perto de Sultan Hamet com cafés , almofadões, cachimbos de água e turistas que se refugiam à procura de alguma poética. Às vezes, penso que o turismo é um dos maiores investimentos na poética do mundo. Na verdade as pessoas vão-se demorando em alguma coisa que nem só o dinheiro é capaz de comprar, naturalmente que não todas, mas muitas pessoas envolvem-se assim com esse espaço diferente e com o seu tempo por esses lugares.

O meu regresso a Istanbul está carregado de emoção. Comecei aqui o «Caderno de Orações», em 2007, depois de uma ida à Mesquita Azul onde tive uma visão do ecumenismo que em muito me abriu o coração para essa ideia de Deus omnipresente, mas também para ideia dos Homens a partilharem diferenças e a serem felizes assim. Em Istanbul regresso ao que de melhor a condição humana pode almejar: uma liberdade que surja da forma como lemos e nos apropriamos da vida, como encaramos o mundo, com a lisura dos actos, com um amor inexplicável pela luz, pela sombra, pelos cheiros, pelos olhares, pela música da língua, pela música da música. Uma felicidade isenta de classes, de bens, de coisas palpáveis. Ando em Istanbul à procura da civilização, da civilização que dá conta dessa filigrana da alma, trabalhada ao mais ínfimo pormenor pela narrativa do tempo histórico no nosso tempo mais íntimo.

Nas ruelas junto ao Mercado das Especiarias e à Mesquita Nova, existem lojas que me trazem a infância ao olhar e uma naturalíssima saudade de Fafe há trinta anos. Parado em frente a essas lojas a lembrar a lentidão de um tempo em que me entretinha a conversar e a fazer a montra do Tininho Barros ou a brincar com as caixas das linhas Âncora assim que se esvaziavam, na loja do meu avô. E não há o que pague esta saudade boa de estar com a Ásia a uma distância da vista, a lembrar e a agradecer para dentro o tão grande privilégio que nos deram essas pessoas com quem vivemos, por poder tê-los na nossa vida mesmo quando estamos longe. E de repente, Istanbul torna-se uma espécie de quarto de memórias, onde não se resiste a uma conversa sobre a forma como correm as horas por esses lugares, em muito, parecido com esse correr do tempo que já não há na nossa terra, mas que tão bem conheci.

O chamamento para a oração, à noite, ecoa nas ruas, algumas já com pouco movimento. E, aí, volto ao Largo da nossa Vila, ao compassado e raro aparecimento dos automóveis, às vozes das pessoas que se destacavam no silêncio das praças, ecoando. Esta música da cidade que não temos mais e que me faz andar por aí, à procura. Nada disto se compra. Tudo se ganha na forma como acomodamos o coração ao longo da vida.

Enquanto jantava, ouvindo uma balada que contava a história de um soldado turco que se apaixonara por uma mulher grega e que a guerra separara, pedindo ele, ao vento, notícias da sua amada, guardei um silêncio breve mas muito fundo, um silêncio que me deu a visão rente dos que estão longe, longe da vista, e pude por segundos dizer-lhes o quanto os tempos se parecem, o quanto a Humanidade está dependente dessa estranha coisa que é o amor. O amor que nos deixa, quais soldados, a perguntar ao vento tudo o que o tempo foi roubando ao chão, mas nunca ao firmamento.