Wednesday, March 24, 2010

As nossas árvores

(em memória do meu pai e do seu amado jardim e do Dr Rui Adérito que nos ensinou como amar uma árvore, para sempre)


Quantas árvores contámos ao longo da vida?
Quantas plantadas por nós ou plantadas em nós?

Que vazio seria esse se não existissem?
Desalojado estaria o canto dos pássaros
e a imagem da sombra,
como se expulssássemos do coração as estações.

Quantas árvores nos nascem devagar
para que a geografia do olhar nunca perca
a funda raiz de um primiero passo,
o rumo sempre incerto de tonalidades
das estações futuras, das suas cores,
do seu canto, da sua sombra longínqua?

E como amo já essas árvores futuras
que serão um dia, na despedida, a rente voz,
a sombra desse amor
que deixará à folhagem o nobre gesto
de sermos nós e de, sem estarmos mais,
ser o nosso último fulgor.

Saturday, March 13, 2010

Nos 70 anos do «Povo de Fafe»

Os jornais são das coisas mais fascinantes que conheço. Venha quem vier, apareçam os maus exemplos que aparecerem, quando me refiro aos jornais, refiro-me à forma de ver o jornalismo com a paixão que os viam os meus velhos mestres. A paixão de expressar ideias que possam mudar o mundo, sem necessariamente ser fulanizadas, sem necessariamente ser de agrura perante a vida, sem necessariamente perder o perfume que tem uma certa maneira de olhar e mudar as coisas contra a combatividade básica e maniqueísta como é tão próprio de políticos trauliteiros e de jornalistas manhosamente escondidos atrás de interesses, sem chama, sem alma, sem vontade de ajudar a construir.
Escrevo no «Povo de Fafe» há uns anos. Fui-me fazendo da família, fui criando com o jornal uma relação natural, uma relação construída, uma relação de bem-estar, estando nas suas páginas com uma intimidade que não imaginava ser possível. Escrevo neste jornal sobre as minhas inquietações, mas também sobre o tempo, sobre Fafe, sobre uma ligação às pessoas e a esta terra que não sei explicar. Escrevo sobre o que devo às ruas da minha terra, à sombra das árvores, às pessoas que se deram e a quem me dei, ao património natural e construído, mas também às ideias e aos sorrisos, aos manifestos e às angústias, aos dias de medo e aos dias de esperança. Escrevo aqui livremente, tão livremente que esta minha página do costume, é dos sítios onde mais gosto de estar nesta nossa terra.
Escrevo e sempre escrevi com total liberdade neste jornal e esta é uma menção que devo ao Dr Ribeiro Cardoso, seu director. Ainda que sentados em lugares diferentes na política local e nacional, fui convidado para escrever sobre o que entendesse. E isso foi um gesto nobre, foi um gesto de confiança mútuo, por me sentir à vontade na escrita, mas também por saber que estaríamos todos empenhados em dar à opnião pública da nossa terra, visões do mundo de diferentes prismas, preocupações que têm na diferença um ponto comum: a dignidade da pessoa e o bem-estar e enriquecimento da nossa consciência colectiva.
Passados 70 anos, o «Povo de Fae» não é só um jornal que resiste, é um gesto de aprofundamento daquilo que merece ser destacado na sociedade fafense, é um jornal que é feito para que se evidenciem os talentos dos que são de cá, que se mostrem projectos para a nossa terra, que nos juntemos naquilo que mais queremos: ver Fafe como um canto do país onde a justiça, à nossa moda, é um grito de afirmação perante a protecção da nossa identidade, uma posição de combate face ao preconceito de que as terras pequenas estão condenadas a ser pequenas terras. Obrigado a todos quantos escrevem nestas páginas, obrigado por hoje, mas sobretudo obrigado pelo futuro. É sempre Fafe quem ganha. Longos anos a este Jornal, forte abraço ao seu militante Director, Dr Ribeiro Cardoso.

Friday, March 05, 2010

Uma cerveja nunca é só uma cerveja.


Os lugares valem pela forma como os olhamos, pelas conversas que junto deles ou sobre eles mantivemos, pelos gestos que nos inspiram a vida. Há dias, no Roy d'Espagne, o melhor sítio de Bruxelas para beber uma Trappiste, conversava sobre questões de família com o meu amigo João Araújo, demorando o assunto e alongando-o até aos sítios e aos pormenores que o tempo se encarregou de guardar sobre a infância, sobre a velhice dos outros, sobre a marca de uns e a falta de outros, sobre a paisagem única que vamos abrindo à medida que temos o privilégio de os ter por perto, seguindo o caminho que temos de seguir, olhando contudo o passado e sobre ele lançarmos o nosso melhor e mais emocionado olhar.
Quando estou fora, tenho-os sempre mais perto, mais dentro. Uma cerveja ao fim da tarde a servir de cenário a uma belíssima e antiquada conversa sobre valores, sobre atitude, sobre o que se aprende e o que se rejeita, sobre as razões de umas tantas lutas e os impulsos de outras tantas estéticas.
Neste tempo moderno, seja isso o que for, não sei quanto tempo gastarão as pessoas com este tipo de abordagem do mundo. E isso preocupa-me. Preocupa-me porque a impressão que dá é a de que se vai perdendo de vista a margem para a qual cada humano quererá atravessar para tocar o seu projecto de vida com os demais. Perde-se de vista essa outra margem, esse desafio de descobrir ideias, sentimentos, partilhas, motivos fundos para que se não caia na mais infame das misérias: o esquecimento. Às vezes, receio que este modelo de mundo leve a que se caia no squecimento, por não ser um modelo de aprofundamento dos mais íntimos e mais sérios desígnios do ser humano: a qualidade da sua própria liberdade, e nesta todos os sentimentos que a justificam e embelezam, o amor, a solidariedade, a lisura e a partilha.
No Roy d'Espagne a saborear uma trappiste e a levar para o futuro a ração de sobrevivência tão cara ao que será o devir dos dias inteiros. Um dia na vida de um Homem é uma pérola. Sabemo-lo quando vemos terminar os dias dos outros. Sabemo-lo quando nos supreendemos com a vida. E, de cada vez que isso acontece, percebemos como é curto, como é perigosamente curto o tempo de lutar contra o esquecimento. Por isso me indigno quando alguém passa pelo tempo e não faz dele o melhor de si mesmo, quando alguém dispensa a alegria do presente, que tão útil será às inevitáveis angústias e medos que os futuros sempre trazem.
Uma cerveja nunca é só uma cerveja. Como um Homem nunca é só um Homem, se não fôr só.

Monday, March 01, 2010

Brugge

Sentado na tarde de Brugge. Uma cerveja conventual a refrescar a ideia de que o tempo que resta é cada vez mais precioso, por ser cada vez menos. E ao mesmo tempo o desconforto por reduzir a emoção à aritmética do tempo. De facto, as revoluções fazem-se de inquietações e desconfortos, e na tarde de Brugge, junto a um dos muitos canais, dei-me ao luxo de parar e perguntar para dentro acerca dos passos que ainda não aconteceram para, a seguir, responder, em parte com os passos dados, com o que outros me deixaram, com o que havia prometido a mim mesmo e aos demais, e descobrir uma espécie de oasis feito de sombras e incêndios, mas um oasis, aquele a que temos o dever de chegar enquanto por cá estamos.
O oasis de uma existência é o sítio onde conseguimos equilibrarmo-nos com a sensação de dever cumprido. E o dever cumprido é o termos acrescentado uma palavra, um sorriso, um desejo a qualquer outro que não sejamos nós mesmos.
A andar a pé pelas ruas e pelas margens dos canais de Brugge, a desafiar em cada passo o impossível que justamente nos deve surgir quando somos tocados pelo amor. Pelo amor às pessoas, pelo amor às causas, aos objectos, aos lugares, pelo amor.
Uma vez consegui defenir a existência de Deus como o expoente máximo de tudo, desde emoções, a coisas, a sítios ou a pessoas. E de repente é como se essa minha ideia de Deus voltasse a significar mais e a perceber que a cada passo se evidenciava um caminho, uma certa sensação de não estarem completas uma série de coisas, e de querer rasgar no horizonte esse outro caminhar, apenas pela simplicidade de ter a sensação de continuar a cumprir um dever, apenas pelo simples arrojo de pensar que ainda há muita estrada pela frente, que é o mesmo que afirmar que ainda há muito para dar, mas para dar na simplicidade das pequenas coisas, no recato dos gestos, no sussurro das mais fundas inquietações, nas mais genuínas e sempre intermináveis fronteiras do que há-de ser o Homem novo.