Saturday, January 23, 2010

Fafenses nascidos no século XIX - de Luis Gonzaga



Abrimos o ano com livros. Luis Gonzaga Ribeiro Pereira Silva publica, numa edição da Câmara Municipal, a obra «Fafenses nascidos no século XIX». Desta obra, que vem ampliar uma anteriormente publicada sobre a mesma temática, realço a importância deste género de trabalhos para o nosso desenvolvimento enquanto comunidade local. O autor, que confessou gastar o seu tempo livre a desenhar e a investigar sobre Fafe e as suas gentes tem contribuído para que os dias continuem num registo de referências, não só de pessoas, mas também de circunstâncias, de culturas e de lugares. Esta obra é importante porque faz falta, é importante porque é séria, uma vez eu no seu lado de recolha vai às fontes primárias, especialmente o jornal «O Desforço», e divulga apontamentos biográficos de fafenses que se ocuparam da liderança concelhia ao longo do século XIX. Mas também é importante porque mostra as faces, mostra-as em retratos expressivos, retratos com carácter, enfim, obras que ficarão para as próximas gerações, obras que farão parte do ser fafense das próximas gerações.

As terras devem muito a estes cidadãos que usam o seu gosto, o seu talento e o seu tempo numa entrega genuína à investigação dos nossos múltiplos tempos. Andar de volta da História e contá-la tem sido a missão de alguns para o coração e o conhecimento de muitos. Fafe tem tido a sorte de ser alvo desses estudos e desse amor. Alguns já só estão no que escreveram e no coração dos que com eles conviveram. Deste ambiente de investigação sobre a História do nosso concelho, retorno com saudade a Maria Miquelina Summavielle, que me deu o privilégio de a acompanhar durante a escrita e o trabalho de campo dos «Santos Padroeiros do concelho de Fafe», uma inquietação que a fez recolher uma parte importante da arte sacra da nossa terra. Uma mulher de cultura, de combate e de causas que tanto me tocava pela forma íntima como se referia ao património e como sobre ele gostava de actuar. Também Américo Lopes de Oliveira, que deu as últimas décadas da sua vida a Fafe, com a primeira monografia sobre o concelho e uma série de outras obras que retrataram a nossa contemporaneidade, para além de todo o seu espólio. A. Lopes de Oliveira deu-nos tudo o que tinha, dentro e fora do coração. E Miguel Monteiro, que tudo mudou, que relançou as questões da História Local para contextos e níveis nunca antes experimentados.

Na noite do lançamento deste livro de Luis Gonzaga fiz questão de lhe dizer o quanto lhe devemos e o quanto lhe deverá o futuro. Para sabermos o que tal significa, bastará imaginar como estaríamos se ele não tivesse ousado este livro, se ele gastasse o seu tempo de um outro modo, mais só para si e para os seus. Esta generosidade de alguns intelectuais e artistas têm reflexos muito positivos na forma como podemos abrir novas dimensões, novas metodologias de passar o nosso testemunho civilizacional. Felizmente que a Escola tem dado alguns passos no que toca à divulgação da História local, porque para além de conhecimento, esse saber dá a quem é das terras sentimento. E não há dinheiro que pague essa transmissão, porque fala fundo ao coração dos Homens, porque, como dizia Neruda, é uma voz que se escuta pelo sangue e com ele tem íntima comunicação.

Um livro para guardar, para aprender e para sentir o sabor do tempo a passar por cá, a passar por nós.

Tuesday, January 19, 2010

Encontro de Reis – um sinal de resistência cultural

No passado dia 17 de Janeiro, o Pavilhão Multiusos de Fafe encheu-se com cerca de 2500 pessoas para ouvir 32 grupos de cantares dos Reis durante cerca de três horas, reunindo nas suas formações desde crianças a idosos. Esta vontade em manter, pela música e pela performance, as tradições é um claro sinal de resistência cultural. Como cidadão de Fafe sinto-me orgulhoso por assistir e por saber que na minha terra há quem resista, há quem lute por manter vivo aquilo que ainda é motivo de alegria, de expressão e de criatividade. Porque as tradições valem não por uma questão de coleccionismo, mas antes por uma questão de significado. Este é um fenómeno de resistência cultural. E no tempo que vivemos que boa notícia é esta de saber que há tanta gente a resistir e tanta gente a apoiar este gesto resistente.

O sinal que deixam é que é possível ter uma vida cultural participada e que há gente pronta e com vontade de participar. É um sinal de esperança e, em tempos de crise, a esperança não é tudo, mas é um excelente começo.

Monday, January 18, 2010

José Miguel Dias - o pianista.



O tempo é dos mais mágicos elementos da nossa existência. Há dias, assisti no Teatro-Cinema de Fafe ao regresso de José Miguel Dias aos palcos da nossa terra. A primeira sensação foi a de quem ia apreciar o talento de um artista que conheci quando era ele ainda criança. Seria, portanto, uma audição condicionada ao desejo de que fôssemos surpreendidos, de que público e artista tivessem uma noite agradável, reconhecendo, numa corajosa escolha de vida que ele fez, um ter valido a pena. Ou seja, a primeira coisa que efectivamente procurei quando as luzes se apagaram foi uma certa segurança que viesse da sua capacidade de nos confrontar com a sua leitura das partituras e nos arrancasse um aplauso de satisfação no final.

Mas não saiu assim o concerto. Nem saiu assim o José Miguel Dias. No final da primeira peça, aquele pianista foi perdendo o nome e a referência e a idade. E foi a sua forma de existir ao piano que tomou conta daqueles momentos, entregando de forma intensa e inquieta a música, oferecendo-nos um concerto onde, de repente, estávamos dentro do que era interpretado e interpretando, fomos sabendo de nós no que ouvíamos e naquilo que íamos construindo ao longo da audição.

Por assim ser, já pouco importava que não houvesse uma única partitura à sua frente e que lhe saíssem todas as notas, nota a nota, como se fossem suas. Já pouco importava que fosse de Fafe e que me lembrasse dele quando era criança e que lhe conhecesse e estimasse a família. De repente, tudo isso, que é normalmente importante, perdeu importância por começar a ter a certeza que o uso que ele fez da sua liberdade teve, como resultado, o partilhar a arte na sua forma mais limpa com os outros, fossem os outros os de fora, os da sua terra, os seus amigos ou a sua família.

Naquela noite descobri um pianista, um pianista que teve tanto a dizer na forma como interpretou e que o fez maduramente durante todo o serão. Efectivamente, o José Miguel Dias que conheci nessa noite não o conhecia de parte nenhuma. Mas creio que conseguiu criar uma intimidade muito intensa com o seu público, a grande intimidade que só a arte consegue, aquela linguagem desprovida de tempo, aquela forma de chegar ao inacessível que há nos outros, aquela grandeza que os artistas percebem que possuem de cada vez que alguém é tocado pela arte e transforma aquilo que ouve no que já viveu ou está para viver, mas que sempre transforma, e que usa, neste caso escutando, neste caso usufruindo da sua sensibilidade e da sua mestria ao piano quando a projecta na mais limpa liberdade de cada um de nós.

Um concerto que fica na memória. Uma descoberta. Uma demorada alegria. No regresso a casa, comentava com a minha mulher o gosto que o Ruy Monte teria se ali estivesse, o gosto que ele teria primeiro pela ousadia que o José Miguel Dias teve em resolver arriscar tudo por uma carreira, mas, sobretudo, pela inequívoca forma como ele nos contou o que conseguiu fazer com a sua liberdade, com a sua ousadia, com o seu talento. Grandes notícias. Um longo bravo!