Thursday, December 09, 2010

Regresso


para Vítor Oliveira Mateus, após a leitura do seu novo livro «Regressos».
Estavam as Praças esperando-te os passos ao entardecer
com o peso que os teus olhos carregam
ao fim de todos estes anos.

Estava a cidade vazia de ti,
perguntando às horas que passavam se sempre vinhas.

Estavam o oceano e as tuas pessoas pelas ruas,
questionando se alguma vez terás atravessado
um gesto que fosse do seu regular aceno.

E estava tudo no teu  coração.
Só tu não vinhas
por nada saberes depois de si, de fora dele.

Wednesday, November 24, 2010

O que fica.

Zagreb- 2010
Quando tínhamos sonhos em frente de toda a gente, saíamos demoradamente para os lugares e falávamos infinitamente do que não tínhamos e do que estaria para chegar.
Quando nos mudámos para o peito mais resguardado da nossa vontade, sentimos falta de nós mesmos nas praças, nos cafés, nos lugares onde se apontavam a infinidade de nomes que dávamos ao mundo.

- Às vezes ainda chamo por ti, distraidamente. E só no sossego que a saudade guarda és capaz de estender o olhar e levar-me agora pelas ruas que não existem e pelos cafés onde nunca nos viram. Nas praças, nas praças incendiaremos o coração para que nunca sucumba a tua voz tão nova a mudar quase tudo. Só depois seguiremos na trajectória do vento para que, se tudo correr bem, nos confundamos com ele, desaparecendo suavemente pela face e pelos cabelos dos que ficam e hão-de recolher no seu olhar o que nunca dissemos e o que nunca fizemos. A única razão de sorrirmos uma última vez será essa: a constatação de que fomos seguindo no nosso desaparecimento e nunca o espanto faltará ao mundo.

Wednesday, November 17, 2010

Dias Breves 56

PMM - Brugges

As estações passam por nós.
Coleccionamo-las e sempre partimos.
E sempre morremos em cada uma delas,
porque morrer é o que de mais belo
possui uma existência que não se resigna
a repetir-se até que acabe.

Dias breves 55

PMM - Zagreb
Talvez nos baste a música da chuva
evocando os invernos idos.
Talvez nos baste o que aprendemos na infância
sem que nunca o entendêssemos.
Talvez nos baste a certeza
de que nunca nos faltará a desafiante
aparição do desconhecimento.

Recuperar o coração

PMM - Bruxelas

Recupero o coração das coisas. No anoitecer de Bruxelas, de regresso do trabalho, evoco um tempo a que temos de voltar. O tempo de haver tempo para o significado. A atenção dada pelas pessoas que se conheciam e se preocupavam com a identidade do outro. A memória das mercearias em que os comerciantes sabiam dos gostos dos seus clientes, a memória dos livreiros que conheciam e sabiam enquadrar os livros na vida de cada um, a sazonalidade dos produtos que vinham de pequenos produtores de outras terras fazer as delícias da nossa.

Ainda cultivo uma certa forma de viver assim. Vou a Vila Real comprar ao oleiro do costume os nossos tachos em barro negro, conversamos sobre a sua durabilidade, sobre o frio dos últimos dias, sobre estes tempos. Ou comprar vinho nas adegas. Doces nos doceiros de Fafe. Queijo da serra, azeite, enfim comprar nos sítios onde as pessoas se implicam no fabrico do produto e no afecto que lhes dedicam por lhes terem entregado a vida.

Mas não é fácil fazê-lo. É caro. É preciso tempo. Mas já alturas houve em que faziam isto por nós e traziam os produtos com as suas histórias de afectos que eram o melhor selo de qualidade que se apresentava. Demorávamo-nos a saber a história de como o nosso merceeiro encontrou o homem das alheiras no meio de uma aldeia transmontana, ou de um fornecedor de Bacalhau da Noruega que só ele o representava na nossa terra, ou o queijo que vinha das beiras, mas de uma família que sempre se dedicou ao seu fabrico e à pastorícia. Demorávamo-nos nos afectos dos produtos para consumir mais o afecto e a narrativa, do que o produto em si.

Quantas histórias eram melhores do que o comprávamos. Mas também, quem precisa mais: a boca ou coração? Sei que esta costela conservadora me desloca do mundo. Mas não a deixo por nada. Um dia destes, como toda a gente, morrerei e o desafio é o de nunca desperdiçar o coração. Tudo mais é sobrevivência e biologia básica, que só importa para que o corpo se aguente em pé e espere uma outra história, uma outra lágrima, um outro sorriso, um outro amar o próximo e a vida como a nós mesmos. Tudo mais morrerá connosco ou antes de nós. Só as histórias permanecerão.

Tuesday, November 16, 2010

Dias Breves 54

PMM - Bruxelas

Uma vez trouxe-te os livros. O chão obsessivo da tua única pátria.
Colocam-se aí um a um sobre o desespero e sobre a alegria.
Colocam-se-te no peito e és então uma península
onde passam para terra o que vais guardando sobre a memória
dos oceanos. Não porque alguma vez gostasses do mar
mas porque sempre soubeste roubar do horizonte a sua distância
e a sua dificuldade.

Thursday, November 11, 2010

Dias Breves 53

Zagreb, 11-11-10
Ainda o Outono.
A história da folhagem no chão da cidade.
As árvores com a sua narrativa
na narrativa dos Homens.

Zagreb a entardecer e, nessa luz,
o relembrar que não há forma mais bela
de nos despedirmos,
que não seja a de nunca desperdiçarmos
um único adeus.

Dias Breves 52

Zagreb, 11-11-10
Podia haver um nome
para chamar o nosso desconhecimento do mundo.
Mas não há.
Se houvesse, seria um nome muito parecido
com o Amor,
por ser admiravelmente infinito,
por ser inacreditavelmente belo.

Dias Breves 51

Zagreb-11-11-10
Ainda me lembro desse frio
que narrava lentamente o sofrimento
e dele a mais explícita miragem da felicidade.

Tuesday, November 09, 2010

Uma Catedral com intimidade

Zagreb, 09-11-10
A Catedral de Zagreb tem intimidade. Como a Sé de Braga também a tem. As Igrejas com intimidade são locais que contam para o exílio do coração. As emoções são como os vinhos: precisam de ser amadurecidas. E estes pedaços de mundo são locais muito propícios para isso, por serem íntimos e por serem nossos, embora deslocando-nos do tempo.
Um altar lateral com a imagem da Virgem segurando o Menino, como em tantas outras. Uma paragem sempre obrigatória para voltar a sentir que também o meu pai voltou ao colo de sua mãe. A vida e a morte cruzam-se assim na beleza do mundo. A vida e a morte a lembrar-nos que existem e que somos sempre temporários em ambos os sítios. Também se é temporário na morte. Ou porque se acredita que existe mais vida para além dela, ou porque nunca morremos para sempre no espírto dos outros. E a dúvida é saber durante quanto tempo se morre na alma alheia. Uma pergunta tão díficl de responder como a de saber quanto tempo se vive na alma alheia.A

Sunday, November 07, 2010

Machico


à Landa
Começar o dia em Machico. Já lá não ía há seis anos. Olhar o mar e a serra. Sentir a ilha. Aprender a navegar com os olhos para o mais longínquo porto que ainda trago no peito. Sentir essa viagem a começar dali e a não ter tempo, nem lugar. Apenas a noção de haver um cais, um porto, onde envelheceremos juntos a sorrir sobre as coisas que nunca nos hão-de passar, apesar de muito velhas.
O amor é um barco. E o oceano e a terra são o que não acabámos de dizer. E a vida, a vida não é muito mais do que aquilo que vamos dizendo sobre esse porto enquando entardece.

Thursday, November 04, 2010

Funchal

Não estávamos em Junho. A Avenida do Mar não cheirava aos jacarandás em flor. A brisa não trazia a memória recente do sol. Nem o Golden Gate nos recolhia as tardes.
Estava na Ilha a fitar o nosso corpo e a desconstruir nas horas de Novembro as fugas de um antigo verão, roubado para sempre ao mais íntimo e ao mais belo exílio que guarda o que nunca saberá o alheio coração. 

Wednesday, October 27, 2010

Orar na casa de João Paulo II

Este fim de dia, estive a orar na Basílica de S. Pedro, em Roma. Mas o mais íntimo da visita ao Vaticano foi a chegada. O olhar preso à janela onde João Paulo II apareceu a última vez, preso também à varanda onde o vimos no dia da sua nomeação.
Fui lá como se o fosse visitar, a ele, não a São Pedro, nem sequer a Deus. Fui lá com um sentido de reencontro. Um reencontro com uma grandeza intraduzível: estava no sítio onde aquele homem foi dia após dia mudando o mundo, à medida das suas forças.
Tenho por João Paulo II um respeito civilizacional e um carinho muito particular. O resistente que foi, o destemido que também foi, o homem que acrescentou aos dias e que ainda acrescenta com o seu exemplo. Não se trata de idolatria. Detesto idolatrias. Trata-se de respeito. E o respeito é dos sentimentos mais belos que nos pode tocar o peito. Aquela varanda foi uma varanda sobre a esperança e aquela janela foi uma janela aberta à não resignação. Duas orações muito belas sobre a História do mundo. Graças a Deus que vivi para o testemunhar. Saudades do Papa que veio do frio aquecer o coração das gentes. Saudades do tempo em que era tão fácil vê-lo pelo mundo, agora que apenas o sentimos pelo mundo.

Wednesday, October 20, 2010

Os sinais interiores de pobreza

Pintura de Fernando Botero
Em Bütgenbach, numa sessão de trabalho acerca do que deverá ser o novo quadro das políticas europeias direccionadas à Juventude. À mesa de jantar, a memória de duas vozes que trazem o inconformismo e a transformação do mundo de uma forma muito bela: Paco Ibañez e Leo Ferré. E daí a certeza, o exemplo que deles chega. Para mudar o mundo e dominar as sucessivas crises não bastam paleativos materiais. É necessário mudar as consciências.
Face aos evidentes sinais exteriores de pobreza de muitos e aos evidentes sinais exteriores de riqueza de poucos, a resposta para equilibrar o desenvolvimento social terá que passar por um sério ataque aos sinais interiores de pobreza. Só por essa via se poderá lançar uma clara transformação que tornará distante o próximo ciclo de crises que nunca são unicamente económicas.
Combater a pobreza humana no seu lado interior deverá ser tão, ou mais, mobilizadora do que contrariar somente a resposta às necessidades materiais do momento, que não deixando de ser importantes, vão tendo resposta por via Estatal. O que não custa dinheiro, mas militância, é a mudança das mentalidades. Um certo liberalismo amado por uns e um certo capitalismo selvagem que pulula estão sempre interessados na resolução misericordiosa das crises, mas não na mudança dos Homens. Se os mudarmos mudará muita coisa, mas também o status quo. E isso,  é algo que incomoda muitos e confronta outros tantos.
Nas fileiras dessa revolução silenciosa, mas eficaz, vão estando os que têm boas histórias para contar, através de actos que efectivamente mudaram vidas e procedimentos que tornaram mais justas as nossas comunidades. O caminho, como a História o tem demonstrado, é por aí. Por isso, escolas, cultura, participação cívica são elementos fundamentais para seguir em frente. O capitalismo, que é o grande responsável pela actual crise, não gosta, mas já não tem condições para publicamente discordar desta solução, o que por si só já é uma vitória. Ua vitória de alguns para todos. Pois um mundo justo e de efctiva prioridade do interesse colectivo face ao individual é certamente um mundo onde as gerações vindouras serão e farão melhor.

Sunday, October 17, 2010

Alfredo Margarido

Aguarela da autoria do Prof. Alfredo Margarido
Soube, pelo Expresso, da morte do Professor Alfredo Margarido, um nome maior das nossas letras, do ensaísmo literário, especialmente das letras africanas, um tradutor dos mais consagrados escritores à escala mundial, Professor de Socilogia em Portugal, na Unversidade Autónoma de Lisba e em Paris na Sorbonne.

Alfredo Margarido foi meu Professor de Sociologia, na cadeira de Classes Sociais. E ensinou-me muito daquilo que é o sentido mais fundo desta Ciência. Ensinou-me o sentido. E aprender o sentido das coisas significa estar apto para aprender os aspectos técnicos e as conquistas epsitemológicas, significa estar-se apto para tomar o pulso aos batimentos do que se estuda. Conquistado isso, todo o resto é só esforço, é só trabalho.

O Homem que convencia o mítico Alain Touraine a acompanhá-lo nas feiras de Paris para sentir o povo na sua forma mais real e no seu pulsar mais fundo. O comunista que lamentava as mortes da Primavera de Praga. O Humanista que nos mostrava sem reserva a necessidade da não propaganda no discurso científico para explicar e contribuir para o verdadeiro desenvolvimento das sociedades.

Os meus colegas de curso diziam-me que eu era dos poucos alunos que ele respeitava. Não seria o caso. Mas o que ele provavelmente sentia é que das nossas conversas no final das tardes de Terça-feira, quando vinha de Paris a Lisboa para nos ensinar, as minhas questões tinham na sua origem a vontade de conhecer e nos comentários que fazia reconhcia-me a seriedade intelectual de tentar contextualizar o que dizia com o pouco que sabia. Era só isso. Mas sabia-me bem essa relação e eu percebia o privilégio que era tê-lo disponível para me ensinar para lá das horas de aula.

O Professor Alfredo Margarido era um monumento para nós. Faláva-nos do conhecimento com o sofrimento e a alegria que só quem o experimenta entende, seja a que nível for. O conhecimento dói. Como a verdade. Como a rectidão.

Esta notícia da sua morte entristeceu-me mais do que poderia contar. A Sociologia que aprendi com ele estará diferente. Nunca mais será a mesma. Ele era um duro, mas um duro que nos apontava o mais acolhedor dos destinos: a sempre temporária verdade. A verdade conquistada com a seriedade e a independência que se nos exige. Ele não era muito afável, mas fazia-nos chegar à afabilidade que tem o degrau a seguir do conhecimento.

Uma vez disse-me para nunca desistir. E que acreditava que era possível e que eu seria capaz. Daí os colegas dizerem que ele me respeitava.

 Apetece-me dizer-lhe, hoje, como dizem os velhos: cá vamos teimando Professor, cá vamos teimando. Graças também a si que passou a ocupar um dos lados do meu espelho matinal, aquele onde me confronto diariamente e onde muito poucos estão do lado de lá a questionar, a confrontar, mas também a dar força. Cá vamos teimando, Professor!

Friday, October 15, 2010

Dias Breves 50

Uma esplanada para revisitar a solidão.
Uma forma de espreitar o paraíso através dela.
Só quem conhece a solidão tem acesso ao lado maior da felicidade.
Todo o resto é a arquitectura do Tempo.
E a arquitectura do Tempo serve-nos a mais perfeita medida
para a comparação das idades: o último segredo.

Dias Breves 49

Nas margens do Garonne guardo as tardes, as vinhas, o inverno que há-de chegar e a sua saudade.
Entretanto vive-se. Vivemos como os barcos, de passagem, levando a correnteza na mais antiga linguagem da esperança.
E havemos de morrer um dia para nós mesmos, sem saber quando estaremos mortos para os demais, sendo esse o mais justo mistério, e o mais belo, também.

Wednesday, October 13, 2010

Os mineiros do coração

Esta tarde, os trabalhadores das minas de São José, no Chile regressaram à superfície, depois de vários meses soterrados. Dizem que são homens novos. Volto a Platão e a Saramago. Volto ao grande enigma que move o espírito humano. As viagens que aqueles homens fizeram às mais estranhas e desconhecidas cavernas do seu próprio coração foram viagens de uma vida. Mais intensas que todas as travessias que imprimiram no espaço, desde que nasceram.
Hoje, o coração do mundo aprende com o coração destes homens. Aí está uma lição de paz e de grandeza, certamente. O que nos falta, tantas vezes, é essa viagem, sem estarmos soterrados, sem distâncias, sem nada que nos tire do mundo. O que nos falta é partirmos para as cavernas do nosso próprio coração. Não muito mais, nada muito mais heróico que isso.

Wednesday, October 06, 2010

Dias Breves 48


Chove no século das músicas palacianas.
Uma cantora invade-me o silêncio
e rouba-me as obscuras paredes
onde esperava as estações
para nelas guardar o tanto
que o amor tinha ensinado.

Friday, October 01, 2010

Dias Breves 47

Pintura de Le Pho
Amanhece o coração dos nossos dias até ao fim.
Só assim poderemos partir como se o não soubessemos,
como se nunca o tivéssemos sabido, apesar de termos vivido.

Thursday, September 30, 2010

Dias Breves 46

 Pintura de  Zvonko Sigetic

Como seria se fosses a flor
e eu  terra ou chuva ou  luz?
Que impossibilidade nos libertaria
para construir a sempre estranha felicidade do mundo?

Dias Breves 45

pintura de César Taíbo
Se fosses uma pátria que soldado eu seria ou que morte?
Que palavra no abismo da memória?
Que fuga para o mais dentro da perdição?
Ou lago submerso no rasto da saudade?

Wednesday, September 29, 2010

Dias Breves 44

A memória que de ti guardo é uma varanda sobre o que falta no mundo, mas que nunca me faltou. A tua imagem é o que não existe. Só o que não existe é verdadeiro.

Dias Breves 43

Volta na perfeição das tardes recolhidas da infância. Volta na forma dessa sombra que me abraça todos os invernos e tudo explica sobre o tempo que é o nosso e que se esgota, cavando-nos tão bela e fundamente.

Wednesday, September 22, 2010

Recolher o verão.

Começar o outono em Tallin, longe de casa, e fazer contas às tarefas a desenvolver quando chegar: recolher a esteira que dava sombra ao terraço, guardar as almofadas das cadeiras, recolher os tangos de Gardel, os dias quentes, as fugas para a Argentina, a memória do que seria, um dia, adormecer no deserto. Guardar o oceano, as palavras mais lentas, o que vimos partir, o que vimos chegar.
Recolher o verão no peito e estar pronto para um recomeço noutra estação. Nada mais belo. Nada mais justo.

Peregrino

Acesas as velas na Catedral Alexander Nevsky.Acesa, uma vez mais, a casa desse Deus que só conheço pelos lugares de onde hei-de sair um dia com ideia de ter deixado tudo o que aprendi ao coração do mundo.

Monday, September 20, 2010

Parque de Outono

O outono deste parque fala-me do que aprendi com as estações.
Contudo, tenho saudades do que perdi ao longo de todas elas.
Percebo que se morre muitas vezes ao longo da vida,
desta maneira.
Teria que amar este parque, apenas para que o não mate
com o tempo. Mas não. Amo a saudade. E, mesmo assim,
nunca deixei de morrer.

Sunday, September 19, 2010

Oração.

Do meu quarto, em Tallin, vê-se a Catedral Ortodoxa de Alexender Nevsky. Habituei-me a orar em qulaquer templo. Todos me confortam. Ainda que, em quase todos, questione o seu lado social.
A sensação de me encontrar com o divino tem tido nos diferentes templos, dos mais diversos credos, uma expressão de intimidade que me reserva felicidade. A minha relação com Deus é uma relação de exílio. É uma relação de cais de desembarque. Desde a morte do meu pai, que essa relação passou também a ser de comunicação com aquilo que mais se desconhece: a língua que o amor fala, independentemente do seu receptor.
Amanhã lá estarei orando. Acendendo duas velas. que mais não significa do que dizer: também aqui nos lembramos, também aqui não esquecemos. E isso tem uma intimidade inesgotável. E isso traz uma paz e uma alegria que só cada um e o seu Deus conhecem.

O inverno que se prepara.

De regresso a Frankfurt, com a manhã clara perto do rio e a quietude dos domingos. Tempo suficiente para olhar a cidade uma outra vez e reconhecer a poética do espaço, feita também pelos seus habitantes, preparando o inverno. A prepaparação do inverno é das minhas actividades preferidas. Sempre foi. Mudamos de rosto, de sorriso, de andar, de disposição. Mudamos a estética, mudamos as emoções. E somos outros, regerssando ao abrigo, regressando ao profundo, regressando.
Os habitantes de Frankfurt estavam assim este Domingo de manhã. O regresso é das coisas mais belas que a vida possui porque só se regressa ao que se deseja e ao que se ama. Caso contrário, não regressamos: vamos ao encontro do que nos é neutro ou prejudicial. Isso não é regressar é ir em direcção a. Regressar é acessível apenas ao coração.
Indo até às margens do rio, pelo interior dos bairros económicos, como gosto de fazer, vemos as pessoas dali com esse ar de regresso a uma parte de si condizente com o inverno que há-de vir em cada um. Nunca troquei um palácio por uma pessoa sempre que viajo. Inesquecível é o que sentimos de íntimo num espaço que só é nosso pelo olhar que pousamos nos outros e aí descobrimos a sintaxe da cidade a que chegamos e onde somos estranhos ou descobridores, quase sempre o mesmo, pela intimidade de ambos, pela ousadia de ambos.

Friday, September 17, 2010

Dias Breves 42

Pintura de Makovskiy:

As coisas que têm os gestos estão no coração guardadas como memória futura do deslumbramento. Por isso, quem ama guarda.

Dias Breves 41


Os passos são a construção de significados mais rentes ao coração. A sua cadência e a sua música podem contar tudo para ser no fim uma geografia de amadas imprecisoes, de brevidades que ficaram e nos esculpiram a ausência como um tesouro.

Sunday, September 12, 2010

Varandim 2

As tuas mãos são o que sobra dos alperces
e da luz dos dias quentes.
As tuas mãos são o que falta à doçura do coração,
o que parte na mais bela escuridão dos tempos
para voltar no mais genuíno sufoco do espanto
e da liberdade naturalmente ilimitada pelo amor.

Dias Breves 40


O sorriso das folhas de morangueiro viradas ao céu.
O meu peito a encerrar o Verão, nele escondendo
o aroma das fruteiras e do vento nos teus cabelos,
saídos de um deserto longínquo, falando do que não disseram
as estrelas e os bichos que amámos e que não voltarão,

a não ser nos campos de palha e de sol deixados no corpo,
adormecendo os tão amados nunca mais
de todas as estações.

Dois poemas sobre o Tempo

1

Na tua mala
guarda todos os teus monstros.
Não para deles te vingares,
mas para saberes
o quanto é perfeita a imagem do Tempo,
de cada vez que recordares a tua face,
guardando-os.

Guarda-os
porque deles se abismou o amor
todas as vezes.

2
 
Quando tínhamos as roseiras,
havia um pássaro doce que suave
e secretamente nos invadia as manhãs
com esse aroma.

Maio transbordava um para sempre
sobre o nosso corpo tão jovem
e nele agarrava a mais sábia das visões:
o Tempo a passar com a evidência
dos aromas,

Tudo o que aprendemos é um perfume.

Wednesday, September 08, 2010

Varandim 1

Foto de Vasco Silva
As chuvas do verão trazem histórias.
As perdas do verão trazem silêncios.
As últimas paisagens da tarde trazem-nos,
são belas para sempre
e desaparecem no nosso espírito
anunciando o outono.

O segredo do mundo
está em nunca deixarmos
morrer as nossas estações.

Dias Breves 39

pintura de Edgar Degas

O verão acaba-me onde começa a saudade do oceano,
as promessas que aí fizemos, a lonjura que trazia o encanto.
Se decidires morrer,
nunca te esqueças do que prometeste a ti mesmo e ao mundo.
Faz essa difícil conta
e ao verão entrega um corpo de despedida e anseio.
Não há nada mais digno do que partir
com algo para contar no coração.

Tuesday, August 31, 2010

Dias Breves 38

Pintura de Camille Pissarro
Os gestos são todos derradeiros.
A memória muda-os consoante a intensidade da ausência ou do desejo.
O mundo muda porque vamos partindo.

Dias Breves 37

Pintura de Camille Pissarro

O meu coração é uma mala.
De viagem e de resguardo.
Nunca foi dura a distância
mas antes a proximidade.
Só no que é rente
se permite molhar o olhar.
Tudo mais são rastos
que as tempestades desfazem
e a memória abandona.

Monday, August 16, 2010

Dias Breves 36





As floristas são um exercício do coração.
Do coração que há-de vir,
mas também daquele que, sendo passado,
encontrou num ramo de flores uma frase
a justificar uma vida, um fundo adeus,
uma interminável vontade de parar o tempo,
um sorriso que deu de comer à solidão mais dura:
a de nunca esquecermos a cor e o perfume
de quando éramos felizes e de termos mudado
sem nunca mais voltarmos a ser os mesmos.

Thursday, July 15, 2010

Guilherme


(no dia do seu oitavo aniversário)

Um raio de luz tão pequenino e tão infinito.
Um filho é isso ao nascer.
Um filho é isso até ao fim.
Só o nosso coração envelhece
e é dessa luz a mais conseguida sombra.

Saturday, July 10, 2010

Tarde no terraço


Por vezes, a tarde foge-me do tempo. Os meus filhos andam a ver a série de desenhos animados do Marco, que eu vi quando era pequeno. No terraço, abro o guarda-sol, levo um chá de roíbos, amêndoa e pimenta, ponho o Carlos Gardel a tocar, e uma certa perfeição desce sobre aquela hora, no meu coração eternamente viandante, resistente à pequenez do mundo. Trago a Argentina para a minha tarde, o inverno daquele miúdo a quem a mãe deixara para emigrar, marcando encontro com o miúdo que também fui e que foi gerindo a música que às vezes não vinha e as perdas que não teve por não chegarem a haver conquistas.

Mudo-me com um chá e um tango para a Argentina e divirto-me com o verão íntimo e magnífico de ter os filhos por perto, um amor tão de pássion como o mais impressivo tango, uma família que nunca emigrou e a agradável impressão que para se ser feliz não é preciso muito, basta que se não abdique de viver, ou pelo menos de o querer fazer.

O compromisso

Pintura de Maria Helena Vieira da Silva

Teria que trazer para o mundo uma mão cheia de palavras, ordenadas à medida do meu sangue. Teria que as trazer para manter dignas as manhãs que me ensinaram tanto. Para manter livre a tristeza que me fez crescer tanto. Para manter livre a solidão que me ajudou a amar tanto.

E quando me perguntam por que escrevo. Apetece-me dizer que escrevo por estar ali. Por ser ali. Por não querer morrer ali, nem deixar que aquele instante sucumba. Mas, esta resposta, tão verdadeira, faz-me pensar que esta vocação da escrita parece ter alguma coisa de mal resolvido com Deus, dada a obsessão ininterrupta de estar sempre a criar alguma coisa, ainda que a não escreva de pronto. Por outro lado, também me parece que esta resposta poderia ser uma das mais bem conseguidas orações dado aproveitar cada instante desta tão curta vida para marcar o coração alheio, fruto das marcas do coração que Deus me deu.

Friday, July 09, 2010

Dias Breves 35


A fartura dessensibiliza.
Toda a estética morre aos pés do desperdício.
Toda a civilização adormece e odeia
junto dessa obesidade dos tempos.
A lição é que arte e o espanto
são o resultado da subtracção dos dias
com a soma dos dias.

Dois poemas em Ghent



1)
À volta do canal, a arquitectura da tarde.
A luz a pousar nas arestas da face.
A absoluta necessidade de apanhar um barco
para o coração que já tive.

2)
Desenhava geometricamente a busca.
As suas linhas eram uma história,
uma caligrafia sem frases, solta
nos códigos mais íntimos da distância
e da alegria que já fora sua.

Thursday, July 08, 2010

Uma abordagem a Joseph Bueys



(Final do dia nos Museus de Arte Contemporânea (SMAK) e de Belas Artes de Ghent. As visitas organizadas têm a grande virtude das explicações e o grandessíssimo defeito de me não darem tempo junto das obras. As pinturas expostas no museu de Belas Artes, da colecção dos séculos XVIII e XIX tocaram-me pela luz que cada génio lhes imprimiu. Apeteceu-me escrever sobre essa luz, mas não me detive o suficiente. Talvez recupere as obras por via de catálogos e trabalhe sobre a matéria mais tarde.
No Museu de Arte contemporânea, a única emoção foi a de Joseph Beuys. Curiosamente, quando expressei o meu espanto por me defrontar com a instalação, a guia perguntou-me: Are you german? No i am portuguese. Ela sorriu. Mais à frente, questionou-me se eu era apreciador de Beuys e eu respondi que sim. Que não sabia quase nada sobre a teoria da Arte que se construiu em torno da sua obra, mas que Beuys era um dos meus artistas favoritos)


Trago uma canção muito doce que se cantava no tempo da guerra aos soldados.
E trago-a para a intimidade da casa e para uma maior intimidade que têm os objectos.
Talvez nunca te tenho dito o quanto te tenho amado nas embalagens de farinha, nos frascos de compotas ou na manteiga que sempre temos para os pequenos-almoços e para cozinhar.
Talvez não saibas como me comove o passar do tempo reflectido nos talheres, nos copos e nas garrafas vazias que vou coleccionando, por aí ter depositado o nosso melhor passado.
Sabes? Há uma solidão que espalhei de propósito pela casa, para nunca deixar de amar os momentos que conseguimos ir amando ao longo dos tempos.
Os objectos são os meus guardadores de solidão. Por isso, são preciosidades. E, talvez não saibas, mas não paro de ouvir essas canções, lentas, fundas, de voz arrastada, no mais puro alemão dos tempos da guerra.
Há uma fronteira que gosto de rasgar no coração. A fronteira dos tempos. Não há nada mais divino no Homem como essa majestosa possibilidade de podermos ter um passado. Esse é uma característica dos Deuses, porque sobre ele podemos ser omnipresentes e sobre ele podemos construir o que bem quiser o coração. O passado é um tempo de funda liberdade.
E já sabes. No fundo, pouco mais me resta do que ser um velho revolucionário e, em regra, os revolucionários do meu tempo amaram demasiado a liberdade.
Apaga a luz. Deixa que descanse o tempo sobe os objectos, não pares de cantar, e vai-te distanciando a pouco e pouco, para dares ao mundo um último instante e só voltarmos pela mão da saudade.

Wednesday, July 07, 2010

Matilde



(para Matilde Rosa Araújo, em vez da flor que a distância me impede de levar. Pelo primeiro poema que li e que era seu, pela sua ternura, pelo tempo que me deu e pelo que deixou aos meninos de todos os tempos)

Uma vez cruzei-me com o primeiro poema
e percebi o abismo e a vertigem.
Mais tarde, tive a absoluta certeza de que a poesia
é um lugar secreto, tão secreto e fundo
quanto os nunca mais que coleccionávamos
e que, sem saber, os oferecíamos ao coração da beleza.

Mudar


De partida para Ghent, para a 1ª Convenção Europeia destinada a profissionais na área da Juventude. Há uma bagagem que nunca desfazemos, aquela a que sempre acrescentamos quando aprendemos algo de novo. Essa vai sempre mais vaga e vem sempre mais composta. A esperança nestes eventos é de trazer uma peça mais para ajudar a mudar as coisas para melhor. Na verdade, estas convenções valem pelos exemplos que se trocam e pela forma como isso se faz. Os modelos de participação, estão muito diferentes daqueles que se usavam há vinte anos. Esta não será uma convenção de oradores e de discursos, será um momento de trabalho entre todos, tentando que daí resulte uma experiência rica e sobretudo reprodutível.
O tempo dos discursos foi um tempo de algum desbaratamento de oportunidades. Bastava o esforço de um, o orador, e a passividade dos restantes para que houvesse um momento. Hoje, quase ninguém acredita neste modelo, sendo a actividade uma exigência que se aplica a todos os participantes. Ninguém se desloca para ouvir, mas para construir. Ninguém vai só para receber, mas também para dar. O tempo da unidireccionalidade da comunicação acabou. E ainda bem. O século XXI será marcado pela percepção generalizada de que o trabalho feito em comum é aquele que garante à partida um factor de ganho, por estarem envolvidas desde logo mais do que uma parte.
De partida para Ghent com a noção de que nunca se pode deixar de querer mudar o mundo e a certeza de que a cada um de nós cabe uma parte, por mais pequena, por mais apaixonada, por mais resistente, a parte que não cabe a mais ninguém.

Tuesday, July 06, 2010

A beleza.

Os dias claros de verão. As viagens que fazemos com o corpo e com a mente. Um copo de vinho neste almoço de subsistência do avião devolve-me a casa. Devolve-me a infância do meu pai nas margens do Douro, a sua vontade de não deixar morrer essa criança até ao fim dos seus dias.
Um copo de vinho para que me não esqueça que, provavelmente, serei o último humano a tomar conta da criança que ele foi, durante as férias grandes, nas margens do Douro, nas margens mais distantes que ele conseguia dar à infelicidade do resto ano, quando era muito novo e já tudo sabia sobre a perda. A minha avó, sua mãe, morrera em 1934, tinha ele 12 anos.
A criança que o meu pai foi, de mão dada comigo, a recuperar na paisagem o que ía partindo, o que fomos perdendo, mas crentes, ambos muito crentes no poder regenerador que tem a beleza. A beleza é das poucas coisas no mundo que desobedecem às leis do tempo. Por isso, vou aqui a caminhar com essa criança nas margens do Douro e orgulhoso pelo velho que o meu pai também foi, e que não me dei conta de o ter sido, não abandonar um dia que fosse esta ideia, esta crença no que é belo e que, por isso, merece viver para sempre.

Dias Breves 34









Pintura de António Loureiro
 
Tinhas um rio quando chegava o verão.
A felicidade era como os socalcos, degrau a degrau,
desenhando os sorrisos, necessariamente breves, estivais,
necessariamente infinitos no coração assistido de memória.
O coração como um rio
que guarda os rastos mas nunca há-de repetir as correntes.