Monday, November 30, 2009

Nelson de Quinhones e Arthur Napoleão



filme de Jesus Martinho, na sua FALAF revista on.line de cultura.
aqui http://falafcult.blogspot.com/

Refúgios.


Esta noite, de descanso, de resguardo, regresso a Elis e a esse íntimo murmúrio dos sonhos. Levo a mão à escuridão do desconhecido e acarício-o como se fosse um rosto para amar nos últimos instantes de uma qualquer vida.
E pergunto, pergunto sempre, de que serve acordar para o mundo se não perseguirmos o lado adormecido e edílico das nossas coisas, das nossas palavras, dos nossos lugares?
Sou um vigilante do teu sonho e roubo-to porque te amo. Para to poder dar a seguir, do mesmo jeito que o mais belo bandido te foge com a idade, para te falar do paraíso, desse desconhecido e regrado paraíso onde enjaulou todos os deuses, para subjugar à tua própria infinitude, à tua incomparável maneira de lapidar o amor, para que só entre os dedos segures a ideia de Deus sem paraíso para ofertar, o que os teus dedos segredam e guardam, entre o que deixas e o que levas, esse teu tão justo e tão humano para sempre.

A sombra





Atira sobre a sombra os dias solheiros de que te lembras.
Ergue-os no fosso da saudade, mas não deixes de partir.

Não há beleza que seja suficiente para que preso fiques
ao que já só é teu porque não existe ou em ti ficou
como se tivesse de contigo morrer alguma vez.

Wednesday, November 25, 2009

A inspiração


(foto colhida por mim nos clubes de leitura que organizei na ESEF)

Há coisas que se ensinam e que não têm preço. Há uns vinte e tal anos, eu estava em Várzea Cova a estudar os núcleos rurais e a arquitectura da freguesia. Estava um dia de sol. O Zé brincava no banco de trás do carro, um Fiat branco se a memória me não engana, ele fumava entusiasmado um ventil e explicava-me, com um brilho no olhar que não esquecerei mais, a importância de salvarmos a paisagem, a importância que tudo aquilo tinha para o que éramos e para o que viríamos a ser. Ou seja, dito de outra forma, ele ensinava uma coisa maravilhosa de se ensinar e que só alguns conseguem. Ensinava a amar as coisas, os lugares, as pessoas, a sua História. O Dr. Miguel Monteiro teve a capacidade de educar a minha e outras gerações a olhar com intimidade o espaço público, a torná-lo nosso, a fazer parte do que pretendíamos construir em nós mesmos, na companhia dos outros.

Homens destes mudam o rumo dos lugares, são uma espécie de guardadores dos lugares, cuidadores permanentes, gente que veio para que nos demoremos por cá, mas que nos demoremos por dentro, a sentir cada gesto que outros deram antes de nós, os gestos que estiveram no alicerce do nosso próprio gestualizar. E isso é também uma grande lição acerca de como se pode combater a solidão do olhar e o isolamento das ideias. Esta visão implicada do tempo que ele nos deixou faz parte da forma como conseguimos erguer a nossa própria felicidade e o nosso jeito de não estarmos sós. E tudo isto nos era dito e explicado como se de uma aula se tratasse, uma aula para a vida, uma aula para sempre. Talvez todos os professores devessem começar por aqui. Devessem começar por ensinar para dentro e só depois enquadrar o lado mais materializado do conhecimento. Talvez fosse esse o segredo. Talvez fosse essa missão.

Há vinte e tal anos, ele trazia-me de regresso a casa e no carro trazíamos uma riqueza que não sei como se pode pagar, porque não tem preço esta transmissão de saber que empresta ao coração a capacidade de nos darmos ao que é de um território comum, e que, só na aparência, é uma coisa apenas pública. O Dr. Miguel Monteiro é uma inspiração para que possamos requintar os nossos contornos de entrega a esse magnífico e singular encontro com os outros, tirando daí o significado que se não pode desbaratar por ser tão curto o tempo que temos para estarmos com os outros, para mudarmos com os outros.

A ideia que defendeu sobre a cultura e que marcou tão fundamente a nossa terra, elevando a discussão cultural, a atitude cultural de forma ímpar, nomeadamente no tocante à criação do museu das migrações e das comunidades portuguesas, é um exemplo que se reproduz e reproduzirá pelo forma como nunca abdicou de pensar que uma terra pequena como a nossa não estava condenada a qualquer tipo de pequenez de pensamento, de criatividade e de iniciativa.

O Dr. Miguel Monteiro, meu professor, meu colega e meu amigo, estará connosco de cada vez que algum de nós ousar, de cada vez que algum de nós não trair o brilho no olhar que o estar vivo nos merece, de cada vez que algum de nós olhar o impossível e tiver a certeza de que isso é mesmo connosco, como aliás sempre nos ensinou, como nos inspira e como justamente ainda nos ajudará no que restar do nosso próprio caminho.

Tuesday, November 03, 2009

Ciclos



Há uma folha que se desprende durante o outono.
Depois disso, complexa se torna, retornando à terra,
originando vidas imensas, começadas no olhar
que lhe colheu o instante,
terminando no princípio de tudo o que desconhecemos,

seja isso um Deus ou um bicho, maravilhoso bicho,
tão descendente de nós quanto o que dissemos e amamos,
alimentando o dia, alterando-o, colocando-nos no ciclo
milagroso de sermos sempre essa alguma coisa
que prosegue, sendo parte de nós ainda.

Sunday, November 01, 2009

Dia de todos os santos.



Guardava o livro entre as mãos.

E, pelas mãos,
entravam os anos todos, as idades todas.
E, como na vida,
havia o livro de acabar um dia.
E, como na morte,
depois do fim alguém ficaria para o contar

uma outra vez, e outra e mais outra...