Sunday, October 25, 2009

Dois livros no Outono.


PMM
De regresso ao Outono de Bruxelas. Aproveitei para chegar umas horas mais cedo, gastando a tarde de Domingo no retorno aos alfarrabistas, um dos meus sítios preferidos desta e doutras cidades. Dois achados: um livro pedagógico sobre a obra de Alexandre Dumas «Les frères Corses» e um interessante texto sobre a memória, de Lydia Flem: «Comment j’ai vidé la maison de mês parents».


Um Outono com livros é uma imagem que se me assemelha ao paraíso. Amanhã, recomeçam as reuniões de trabalho na Comissão Europeia. Amanhã, à custa da tarde hoje, o mundo estará maior do que já esteve. E isso é o mínimo que podemos exigir aos nossos passos, à magnífica oportunidade de andarmos vivos.

Esta tarde em Bruxelas, à procura de livros, de imagens, de palavras para escrever mais tarde, ou quando calhar. Mas procurando, procurando sempre, porque nunca se vive eternamente, porque, inevitavelmente, há-de chegar a hora em que pararão todas as procuras e, se tudo correr bem, há-de ser outro alguém a procurar-nos pelo mundo, onde hoje procuramos o que queremos que em nós exista, nesses espaços tão inexistentes, mas tão nossos, tão o nosso para sempre.

Tuesday, October 20, 2009

Copenhaga por dentro.


Um frio literário em Copenhaga. Tão literário que tive de comprar um casaco de inverno e agasalhar-me enquanto calcorreava as ruas à procura das casas, das cores e das sombras que povoavam as histórias da minha infância.

Gosto de chegar às cidades e confrontar-me com as cidades que imaginei ao longo da vida. Não para me certificar se elas correspondem ao que tinha imaginado, mas antes para descobrir nelas aquilo que pensei, aquilo onde me demorei a construir estéticas, desejos, passagens pela vida em torno de uma qualquer coisa muito parecida com a liberdade, por se tratar de partidas constantes para lugares que só existem porque deles assim nos fomos apropriando, porque assim os fomos lendo para nós, num exercício muito íntimo e muito livre.

Quando era pequeno, imaginava as cidades do norte da Europa com cores quentes, muito diferentes do branco e do cinzento que tinham as nossas vilas. E nessas cores conseguia entrar para um frio que, também ele, era muito diferente do nosso e trazia consigo a lonjura que é das coisas mais belas de se sentir, a par da saudade.

Quando cheguei a Copenhaga, mudei-me para esse estado de alma e fui à procura de vozes, das vozes que me liam histórias na infância, a voz da minha mãe a incentivar-me à leitura com bocados de narrativas de uma caríssima colecção de livros que então me oferecera, mesmo antes de eu saber ler, da voz da minha avó que me contava continhos e de outras vozes que me fizeram chegar as fábulas de La Fontaine e os contos de Hans Christian Andersen. Andei pelas ruas a fotografar janelas e a esperar que tudo pudesse voltar, não por saudosismo, mas pela necessidade que sempre tenho de tornar intimas as coisas, as pessoas e os lugares.

Em Copenhaga, recuperei o olhar do meu primeiro palhaço e da contra-luz de inverno que sobre a sua face caía, quando entardecia na varanda das traseiras da casa do Largo e havia um silêncio, quebrado apenas pelo ruído das panelas sobre o fogão, quando a Dores preparava o jantar. Esse ruído das rotinas da casa a marcar o tempo, a marcar o ritmo das vidas de então, tão diferentes das de hoje, tão compassadas, anunciando-se uma a uma.

A casa tinha essa musicalidade: as janelas de guilhotina a abrirem-se soavam às manhãs de primavera, o abrir dos gavetões das cómodas anunciavam o começo dos dias, as idas para a escola, a saída matinal da família, o som dos pratos e os talheres anunciavam as refeições e a chegada de todos à mesa de família. Mas havia também os sons sazonais: o burburinho do Outono quando se punham as panelas ao lume para fazer geleia e marmelada, o som dos fritos de natal, o som dos copos mais finos e mais bonitos que tínhamos para celebrar a Páscoa e a visita do Senhor Cónego Araújo, o som que teve a velhice do avô Bernardino através do abrir e fechar da porta do seu quarto, com a sobriedade que sempre lhe reconhecemos.

As casas têm esta música, tão funda e tão importante para cada um de nós. Uma musicalidade de que só nós nos lembramos, por ser efectivamente a mais importante da nossa vida, às vezes por não voltar, ou por se ir despedindo como nós mesmos nos encontramos e nos despedimos do mundo, desde o dia em que nascemos.

Em Copenhaga, retomei tudo isto e tive uma espécie de ajuste de contas com a memória. Um ajuste que valeu por ter acrescentado ao tempo passado, por ter, outra vez, a magnífica sensação de que a maior riqueza que possuímos é a capacidade de não passar em vão pela vida, é não deixar que as coisas não signifiquem, é ter sempre um tesouro para usar assim que se chega ao tempo e aos lugares, ter um tesouro para esbanjar, um tesouro no coração.

Sunday, October 18, 2009

A Campanha


Durante a campanha eleitoral autárquica, reservei-me o direito e o prazer de regressar a lugares onde já não estava há muito. Quero dizer que, de algum modo, regressei à Vila. Uma campanha pode ser inúmeras coisas. Entre elas, estão a redescoberta, o contacto e o reencontro. No Largo, a tinta do Martins da Avenida já quase se não vê. Quando a olhei, da Arcada, regressaram as pessoas de outro tempo, os seus significados e as suas inspirações para o tempo presente. É assim a minha forma de lidar com a vida, nunca estando só, nem me limitando a um só tempo ou uma só circunstância.


As caminhadas da campanha são estimulantes pelo testemunho que vamos colhendo sobre o correr dos tempos, sobre as vontades das pessoas, sobre a história de cada um com quem se pára e que nos transmite, em tempo brevíssimo, porém eficaz, o que anseia para a nossa cidade e para o nosso concelho.

Um desses regressos foi ao Bairro da Fábrica do Ferro, local onde tantas vezes andei, primeiro com a minha avó, mais tarde com o meu primo Paulo e onde subiram as emoções ao reparar em pequenos pormenores que já, talvez, poucos notem. Ainda por lá existem alguns postes de luz do início do bairro, ainda se conservam as altas portas de entrada, da fachada original, ainda lá se encontra, pela tarde, uma quietude que faz lembrar o tempo em que eu e o meu primo levávamos o velho pastor alemão, o Roy, até ao parque infantil, local que o próprio escolheu para morrer, junto dos miúdos com quem fora um cão feliz até ao fim dos seus dias. Mas, também o Bairro da Fábrica que guarda a mais esclarecida e combativa classe operária de que tenho memória, os operários da resistência à ditadura, os operários que arriscaram tudo dentro do tão pouco que tinham. Os operários que continuam a ser para mim uma inspiração e um modelo de entrega e coerência para com as sua interpretação da dignidade humana.

Ao cimo, a Pegadinha e as primeiras casas que o meu pai construiu e a imediata memória, não dos edifícios em si, mas do que ali começava no tocante à realização dos seus sonhos e da conquista da sua própria liberdade. A Pegadinha é também o lugar da minha própria origem, esse bairro do meu bisavô, onde os meus pais se conheceram e alimentaram um amor que durou 41 anos. No fundo, é para isso que as coisas servem: para nos acrescentar à capacidade de sermos coerentes e capazes face á nossa tão própria e quase tão única noção de felicidade. Pensei para mim que o meu pai começou a ser realmente feliz a partir daquele lugar. Isso me basta para que o encare como uma marca, um ponto no mapa emocional que vou desenhando ao longo da vida. Todos nós os temos, um pouco por todo o lado.

É um pouco em tudo isto que também fundo a minha vocação política e a minha forma de encontrar razões para a política. É por sentir que o tempo não é uma coisa qualquer que possa passar ao lado do nosso próprio compromisso com a vida. A política deve emergir de um sentimento de pertença e de uma necessidade quase inexplicável de não conseguir deixar de cuidar das coisas. A política da acção, do fazer parte, do envolvimento, nunca restrita às instituições e aos lugares, mas fundada num estado de alma que inquieta e que nos impede de ignorar o pulsar futuro.

O que entusiasma na política, e o que faz realmente mudar o mundo, não é a obsessão por lugares de eleição, mas antes a insistência em participar, seja nas instâncias de decisão ou fora delas. Conheço bem os dois lados e asseguro que ambos possuem força suficiente para que se garanta o nosso espaço de intervenção. Mas sem a inquietação de que falava atrás, nem num lado, nem no outro, conheceremos esse prazer imenso que é a política.

Quando olho para Fafe reconheço as inúmeras inquietações de tantos e tantos cidadãos que ajudaram a erguer esta ideia de concelho. Grande parte não passou pelos locais de decisão mas fez parte da decisão, pela inspiração proporcionada, pela acção levada por diante, na sua rua, no seu bairro, no seu local de trabalho, nas suas associações ou nos seus partidos. Fundamental em política é perceber que a política é isto. E foi dessa política que andei à procura e foi essa que fui encontrando um pouco por todo o lado. Foi, também por isso, uma campanha coerente e obviamente feliz.

Regressos.


foto de Krzysztof Ludwig

De volta ao tempo do frio, às casas e aos lugares que guardo e que já só existem numa reserva de memória. Chegou à cidade um friozinho este fim-de-semana, trazendo-me as madeiras dos quartos da casa do Largo, as madeiras que ainda resistem, mais de cem anos após a sua compra pelo bisavô Rocha.
Tenho o privilégio de guardar as minhas roupas numa cómoda comprada para o enxoval da minha avó Arminda que morreu nos anos 30. E de cada vez que a uso, é como se voltasse às histórias e à vida do avô Bernardino, à minha infância ao seu lado, mas também a tudo quanto aquele móvel testemunhou e eu não soube, mas que faz ainda parte do lado íntimo da nossa família.
Com a chegada do frio, chego-me a estas memórias e, como as formigas, consigo preparar de forma mais amparada o futuro. Os dias chegam com uma espécie de moldura que conforta as angústias, que se interpõe ao medo, que nos faz sentir uma parte do tempo que é sempre um tempo de interpretação partilhada.
Do frio chegam notícias de todos, pequenos rasgos de ternura e dessa maravilha que foi conhecê-los, sobretudo os que partiram e que me deram o privilégio de ser alvo do seu amor, das suas preocupações e dos seus desejos.
Daqui a dois dias parto para Copenhaga, onde está um frio maior do que o de cá, mas tal como nos contos de Anderson levarei um coração que nem o fogo consumirá, por ter sido depositado já no peito de muitos, no tempo de muitos. E dos ciclos do tempo, nesta primeira incursão pelo frio deste ano, retenho a sua simples e complexa formação, a sua curta e longa duração, o seu lado palpável e intocável.
Como na história do soldadinho de chumbo, este fim-de-semana recordando os que foram atirados já ao fogo do tempo, recuperei os corações e as pedras preciosas que deixaram e que vou guardando, as mesmas que saem de mim para os que ficarão e que também desse fogo se aquecerão um dia.
Como nas histórias mais antigas, são imperecíveis os móveis, as casas, os lugares, quando são de dentro e, por dentro, vão passando como o grande testemunho dos viventes, como as histórias onde cada um nunca abdicou do seu não estar só.

Tuesday, October 06, 2009

L'infortune



Um texto ficcional sobre a exposição da obra gráfica e desenho de Júlio Cunha, em Fafe, no mês de Setembro de 2009. História ditada pelas obras «L’infortune», «Le Silence» e retratos, com a música de Nelson de Quinhones.