Monday, August 24, 2009

Breve de Verão 13


sobre esta foto de Isaac Pereira

Já desaguou nesta sala a luz de repetidos verões,
sem que se tivessem apagado do espelho as imagens da tua tristeza,
as tuas esperas e as tuas ânsias, quando à tarde uma brisa corria
e, anunciando a noite, a mesma luz te entardecia.

O espelho, esse sim, guardava a casa, guardava tudo.
Como hoje ainda guarda todos os corações que tiveste.

Hoje, que já não estás. Assim o sendo há muitos anos.
E ainda lá estão os verões, aquela sala
e os nossos nunca mais, à espera de um calor
que os faça ressurgir e aí te alcance
como só no coração de um velho espelho é possível alcançar.

Thursday, August 20, 2009

Breve de Verão 12


sobre esta foto de Isaac Pereira

Já não há jogo que defronte o que fomos.
A cadência das coisas é igual à cadência das bolas
que atirávamos no verão e que se não ouvem mais.

Contudo, ainda ameaçam as chaminés, os telhados
e os muros. Por dentro, tudo arde
como só no inverno se consegue que arda,
escondendo-nos, nesse jogo, os desaparecimentos.

Enterra-os na paisagem
como enterras o amor nesse coração
que vive em desgarrada e nunca parte,
inventando nesse gesto a sábia geografia
da solidão e da beleza.

Thursday, August 06, 2009

Breve de Verão 11



sobre esta foto do Isaac Pereira

Vou-te arrumar o vazio.
Falta-me quase tudo.
Nem sequer consigo começar
por te falar do medo ou da felicidade,
porque há paraísos
que são infernais de enunciar
e infernos claros no seu engano.

Comecemos pela matemática das coisas.
Devagar. Digo um. Tu és um.
Isso nos bastará aos dois.
Ou não?

Sunday, August 02, 2009

A casa do avô.



Pintura de Gustave Caillebotte.

No início de um curto período de férias, aproveito o verão para retornar à casa da infância, ao seu silêncio, às suas habituais distâncias, aos seus inevitáveis mistérios.
- Quantos dias tem uma vida?
poderia perguntar-te se, efectivamente, tudo soubesse sobre o desaparecimento. Mas como quase nada me ocorre a esse respeito ou sobre essa magnânima questão, apenas te garanto que enquanto houver a memória das limonadas no jarro esverdeado e os pássaros no quintal e a dança da cerejeira sobre as manhãs de agosto, esta estranha, mas tão pura, espécie de Liberdade há-de ser a razão e a solução que nos desamarra da tristeza e nos reforça o coração.