Monday, July 27, 2009

Breve de Verão 10


Pintura de Miguel Angelo

Pronta a imagem das árvores,
das aves em trânsito, dos mares.

Pronta a mão de Deus
generosamente à espera
que seja teu o Seu próximo gesto.

Thursday, July 16, 2009

Breve de Verão 9


Há-de existir uma cidade
onde sejamos uma coisa qualquer
despida de tempo,
vestidos tardiamente pelo que lembramos,
fugidos a cada instante pelos becos
onde se escondiam os ladrões, os amantes
e os que desejavam uma vida diferente,
aí deixando o rastejar inigualável dos sonhos.

Wednesday, July 15, 2009

Breve de Verão 8


foto de Mikael Kennedy

Sometimes, it happens like in a movie.
But, sometimes, a movie is nothing more than an empty cinema
or a town waiting for the seasons,
when the seasons are something hard to discover or understand.

Tuesday, July 14, 2009

Breve de Verão 7


foto de Stew Dean - Londres

A brisa da tarde e as ervas daninhas
prolongam as mãos e os olhos que temos
para a cidade que se ergue no verão
como um corpo que ainda não amamos
mas que era perfeito para nós.

Breve de Verão 6


Por entre a manhã, talvez se salvem
a imagem dos lírios, as casas velhas,
as portas gastas,

talvez se salve em ti a antiguidade
que poisas sobre a tua noção de finitude
ou de lonjura.

Monday, July 13, 2009

Recomeços



Recomeçar do branco o lugar.

Recomeçar as cortinas e o vento
os lavatórios e as manhãs.
Recomeçar no coração o que imaginaste
e que te inventou a tristeza
de onde sempre foges
com olhos de um para sempre.

Recomeçar a manhã, ainda branca
de esperança.

Sunday, July 12, 2009

Fecha-te.


pintura de Peter Paul Rubens - Leda and the Swan

Concreta a ignorância da alma sobre o momento. Nada há de mais concreto do que não entender o seu tempo e o seu contexto. Ainda que por poucos instantes, por dias, ou por horas. A ignorância da alma é mais palpável que um ferro em brasa, que um rochedo no corpo da terra, que uma tempestade face adiante.
Quando não sabemos o que fazer do espírito ou que fazer com o espírito, há algo que se desliga do mundo e abre no coração uma escuridão anónima. Toda a gente passa, uma vez que seja, por este sentimento.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Apaga o mundo. Despede-te das horas,
tentando ter algo para lhes dizer.
Não olhes vez nenhuma para o céu,
nem colhas do sol a luz crua
que tudo inventa à face da terra
e que te poderia gerar alguma frase
ou alguma réstia de expressão sobre as coisas.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Silencia-te e espera que da noite
possa emergir um lago de águas frias e puras
onde, a pouco e pouco, possas reerguer
a memória mais evidente
de quando um gesto tocava o dia
e o seu reflexo gerava a asa
que dele irrompia
deixando para trás a angústia
e a sua cruel e geométrica exactidão.

Saturday, July 11, 2009

Como amanhã.


Há coisas que o tempo aumenta. Uma delas é a saudade. O meu pai partiu há um ano. Está maior do que nunca em mim. Depois da sua partida, nunca mais a vida ficou igual ao que era. Está enorme a vida. Às vezes, é como se cortasse a respiração. Outras é como se tudo estivesse mais íntimo. No meio de tudo isto, a única beleza é a de estar provado em mim que a morte é uma coisa que existe de forma muitíssimo relativa.

Hoje, a casa do lobinho
tinha uma luz que vinha de sempre
e a nossa casa pela manhã parecia que cheirava
ao café com leite e ao pão torrado.
Hoje,os pássaros voltaram a comer na varanda
e o jardim voltou às hidrangeas e às japoneiras.

Hoje, voltamos a inundar a face do mundo,
como ontem e nos últimos tempos,
como amanhã, pai.

Friday, July 10, 2009

Encontro com Gérald Bloncourt



Esta tarde, na Casa Municipal de Cultura de Fafe, conheci pessoalmente Gérald Bloncourt. Já tinha escrito sobre as suas fotografias antes. O que mais me impressionou foi senti-lo em Fafe como se o encontrasse em casa. Deu-nos 200 fotografias para o espólio do museu da emigração. Veio cá para nos conhecer. Vai encontrar-se Domingo com Manoel de Oliveira que também cá vai tornar para almoçar cabrito e ver as festas.
Provinciano como me orgulho de ser, fico regalado quando gente desta dimensão se abriga aqui na nossa terra e nos visita porque lhes apetece. Ter Bloncourt e Manoel de Oliveira a ver a procissão da Senhora de Antime é algo que me remexe a pele e me consolida a esperança num futuro sempre a melhorar neste pedaço de paraíso onde nasci e pretendo morrer.
Voltando a Gérald Bloncourt não resisti a propor-me escrever uma nova série de poemas sobre cada uma das fotos que estão na exposição. Oferecê-los-ei ao museu.
O nosso Presidente estava, como mais gosto de o ver, implicado e a agarrar aquilo que é efectivamente a essência da nossa terra e que garantirá o futuro. Já ninguém nos tira Bloncourt, já ninguém nos rouba a magia desta tarde nas nossas vidas e na vida da nossa terra.

Breve de Verão 5


As calçadas no Verão parecem pontes.

Pontes entre os Tempos.

Pontes com vista para a saudade
ao fundo
onde sempre espera o Outono
e a lenta visão do cair da idade.

Breve de Verão 4


Corpo de bicho do Verão.
Lagarto a perguntar ao chão
a íntima história dos rastos
para envelhecer com a sensação
de ter vivido.

Monday, July 06, 2009

Breve de Verão 3


pintura de Qi Baishi

Qualquer dia, estarei a chegar onde só chegam os insectos
e beberei da manhã a luz toda e conhecerei dos frutos
o seu mais lento e perfumado entardecer.

Friday, July 03, 2009

Breve de Verão 2


pintura de Qi Baishi

Esta tarde ficaremos a comer lichias
e a testar o orvalho
que irrompe sobre o verão
para inundar de saudade
a mais reluzente e suculenta solidão.

Thursday, July 02, 2009

Uma flor para Pina Bausch


Pina Bausch parou ontem. Quando entendia que, na dança, «não importa como as pessoas se movem, mas o que as move» dava ao mundo uma interpretação extensiva a qualquer forma de expressão artística.
Ontem, acordei com essa paragem de uma das mais intensas vozes da arte do nosso tempo.

às vezes é um língua que nasce.
não uma linguagem. uma língua
onde a pouco e pouco se fossilizam as almas
e os corpos e os gestos e as cores e os aromas

até que a percamos de vista
e ao seu nascimento não voltemos
por ser fundo e ser longínquo
e ser já da mais limpa pertença do nunca mais
e do para sempre.