Tuesday, June 30, 2009

Oração da tarde


Há um momento em que a tarde
tem o corpo das idades que não chegaram

e aí exilamos todo o amor, todo o poder,
toda a esperança.

Há um momento em que a tarde é uma oração
e como todas as orações
reserva em si um mistério, uma fé,
um ter a absoluta certeza de que não somos
só daqui.

Breve de verão.


pintura de Henri Fantin-Latour

Atende a um certo silêncio do verão.
E amadurece o olhar na intimidade dos frutos.

Tuesday, June 23, 2009

O mundo dos outros.


Poderia deixar-te uma mão, ou só um gesto. A infância onde escondes o mundo. E se um dia morreres, talvez ninguém saiba. Talvez ninguém diga.
Poderia deixar-te nessa vertigem onde desvarias as palavras e o olhar, apenas para que nunca morra no teu pequeno peito o universo que te deram e sobre o qual jamais coube o entendimento, não o teu, mas o de uns outros que não sentes.
Nesses, perguntas pelo tamanho do mundo e, nessa inocência, repetidamente vais criando o vazio e o seu inerente sofrimento.

Poema sobre a espera


Sôfrega a respiração
no assalto aos gestos tardios.
A face a colocar no horizonte
o limite das estações e o seu ritmo.
O olhar esperando na companhia solitária
dos frutos e da sua doçura.

Saturday, June 20, 2009

Verões.


Com o sol de volta à cidade, com o verão a entrar pela casa, abro uma janela na manhã da memória e retomo o Largo e as suas sonoridades matinais que eram quase sempre de festa. O verão começava com os santos populares,as cascatas e as esmolinhas para o santo, mais tarde vinham os franceses e depois chegávamos a Setembro com um cheiro a recomeço e a outono. Na infância recomeçava-se em Setembro, porque em Outubro recomeçavam as aulas e avançava pé ante pé o inverno, onde sempre se descobriam as dores do crescimento.
Na altura, na Vila, até os riscos da calçada em cimento, aos losângulos, nos serviam para aí construir carreiras paras as caricas, estradas para os carrinhos, tudo bem limpo com os paus dos gelados de laranja, em gêlo, os mais baratos e os mais frequentes.
Os verões com os bonés azuis escuros, de pala redonda, as sandálias de fivela. Os verões esperançados pelo sorvete do Alcininho do Império, ao fim da tarde, a única máquina que por cá houve durante anos. Os Verões do Tang de laranja e das barracas de farturas e brinquedos, dos primos que vinham de férias e da duplicação de acidentes e arranhões.
Nesta manhã de sábado, está assim o meu verão, e assim tentarei manter-me, no doce engano de que se pode prolongar por muito mais tempo este estado de verdadeira e profunda felicidade.

Thursday, June 18, 2009

Poema breve sobre o amor


Às vezes, és uma ilha, uma rocha a boiar no oceano.
Outras, um coração submerso
a medir a lonjura entre a água e o céu,
entre o amor e o seu infinito.

Ricardo Rangel


No passado dia 11, morria em Moçambique Ricardo Rangel, um dos seus maiores fotógrafos de sempre.
Sobre a fotografia «Modelo de olhos tristes», tirada em 1962, fica este texto:

Há um mundo que começa e acaba na tua face.
As histórias que não foram escritas.
As danças que não sairam. As coisas por dizer.

Há um mundo que começa e acaba na tua face
e só tu sabes. E só o amor ou a arte
correrão o risco de revelar,
mudando-se para sempre.



Tuesday, June 16, 2009

Uma escada para a idade


foto de Eudora Porto
1
Uma escada em direcção à manhã que já não existe.
Uma escada em madeira, antiga, de sucessivas vindimas.
Uma escada que guarde risadas e cânticos
e toda a poética das uvas
antecipando o mel ou o vinho.

2
Quando uma criança olha a escada das vindimas
deseja-a.
Quando um velho olha a escada das vindimas
deseja-a.
Só há uma idade na vida em que se não deseja
a escada:
aquela em que se confunde o nosso com o seu
corpo.

3 poemas breves sobre a infância.


I
Eram ainda os pássaros breves da manhã
a erguerem uma cortina de lonjura e infância,
inacessível ao olhar mais estranho,
imprescindível ao dia mais puro.

II
Na tarde o aroma das videiras americanas
e um equivalente peito de desejo,
e lendária doçura.
Nunca mais esse erotismo da inocência.
Um nunca mais e um para sempre.

III
Provava então o frio. Os seus primeiros sinais.
As primeiras chuvas.
As primeiras vezes em que a casa ajudava imenso
à ideia de abrigo,
ao sentimento de haver uma intimidade impartilhável.

Monday, June 15, 2009

Na ilha de Malta.



Aterrar em Malta, a meio da tarde. O calor do Mediterrâneo e do norte de África. Os primeiros pensamentos foram para Bogart. Ou seja, a primeira reacção é a de fugir deste tempo e ficar noutro por momentos, estando aí muito bem. Estando como em casa, numa casa que nunca foi possuída mas da qual conhecemos os cantos e os refúgios.
Meio da tarde em Malta, para celebrar um amor que também já não é muito destes tempos.

O mediterrâneo tem o nosso corpo.
Não o nosso efémero, mas o de sempre.
Tem o nosso corpo nas rochas que se avistam
por debaixo das águas e nas esculturas e nas casas
e nas sombras que as pedras erguem.

Por isso, sente-o e pergunta pelo tempo.

Vieste cá para perguntar pelo tempo
e, nele, clarificar a imagem do amor
que foi mudando as rochas,
deslocando a sua luz,
esculpindo aí a infinitude que tem, não este mar,
mas a tua comoção ao pé de si e da nossa sombra.





Monday, June 08, 2009

Flores



Um dia, as flores terão uma luz perfeita e repousará sobre elas uma memória vagarosa. Um dia, o seu aroma trará longínquas histórias, terras calcorreadas, rostos revisitados, canções, passeios pelas estações do ano.
Um dia, serão assim as flores e só o coração delas saberá cuidar.

Sunday, June 07, 2009

O desaparecimento.


foto de Gerald Bloncourt

A casa das coisas antigas.
O móvel dos olhares guardados.
O quintal, quase virgem, com os pássaros
a saltitarem dolorosamente sobre a memória.

O desaparecimento
a ser um fiel companheiro

das horas em que vamos envelhecendo
e sobre elas apenas desejamos
ser felizes.

Thursday, June 04, 2009

Os pequenos jardins


Do meu quarto de Hotel, em Bruxelas, vê-se um pequeno jardim com duendes e um cão em porcelana branca.
Quando era muito jovem vivi com um limoeiro e umas roseiras num pequeno jardim, em Campo de Ourique.

Sabes, nunca mais amanheceu como nesse tempo.
O limoeiro a filtrar a luz pela manhã
e as rosas em Maio a explicarem no seu perfume
como morreríamos se poesia não houvesse
para segurar o mundo tão cheio de nomes
e de indispensáveis aromas.
Aquele mundo tão cheio de admiráveis vazios
que só uma vez se preenchem para justificar
um talvez digno e talvez belo envelhecimento.

Uma vela em Minsk


O mês passado, em Minsk, acendi uma vela em memória do meu pai, junto de um bonito icon da Virgem com o Menino. Foi numa Igreja Ortodoxa,cheia de luz, numa espécie de refúgio a um certo lado mundano que me era estranhíssimo e que me exigia tempo e intimidade para me poder relacionar.
Naquele lugar, lembrei-me muito da minha avó paterna que não conheci. Quando o meu pai partiu, a única alegria que me assaltou foi a de ter sido possível o seu reencontro com a mãe que perdera em menino. Sei que é uma questão de fé. Apenas isso. Profundamente isso.
Desde esse dia que as imagens da Virgem com o Menino me lembram essa hipotética felicidade. E devolvem-me a imagem do meu pai, ao fim de uma vida, sendo finalmente a criança feliz que nunca conseguiu ser. E quando acendo uma vela em memória desse instante, ilumina-se dentro mim uma das mais belas imagens que a perda me proporcionou: a sua expressão de novo amparada nesse regaço, há tanto tempo perdido.