Sunday, May 31, 2009

Santiago



para o Santiago que nasceu em Maio, para a minha amiga Margarida e para o avô Manuel Carneiro que pela mão lhe ensinará a liberdade.

Ainda de Maio, onde se escutam no sangue
as lições dos dias em revolução pelo mundo.
Ainda de Maio, onde esse som não é de guerra
mas de perigoso anúncio do amor.

Ainda de Maio, Santiago,
da magia aqui tão perto
ou das ruas muito livres.

Ainda deste Maio, Santiago,
que a luz te não falte quando o olhar lançares
sobre o murmúrio que te der a liberdade,

essas pedras que te erguerão a casa,
na hora luminosa e limpa,
onde da memória descobrirás a asa.

Estivemos lá!


Esta manhã, fomos ao cinema. A primeira sessão para crianças na Sala Manoel de Oliveira, no recuperado Teatro-Cinema de Fafe. Quando se volta a ter o que se perdeu em tempos, inevitavelmente damos-lhe mais valor. Quando disse aos miúdos que íamos ao cinema ver o «Hotel para cães» , eles dirigiram-se para a porta da garagem como sempre fazem.
- Não. Vamos a pé.
- Vamos a pé a Guimarães?
- Não. Vamos ao Cinema em Fafe.
Esta frase tão simples, demorou muitos anos para poder ser dita. E lá fomos os quatro ao cinema, ao Domingo de manhã. Um Domingo cheio de luz, com a nossa terra a tocar-nos de forma intensa. Quando regressámos, eu, que sou um tipo fora de moda, lá comentei:
-Estivemos na estreia desta sala. Daqui a uns anos havemos de recordar o momento com outro sabor.
Guardei o bilhete.
Depois, almoçámos com o João Pinto, quase eterno presidente do Cineclube e que continua a ser o grande responsável por haver bom cinema na nossa terra. Regressámos a casa com um espírito fora de moda, como se regressássemos ao século XIX.
Na verdade, não regressámos ao passado, mas colhemos dele a capacidade de nos espantarmos e de desejarmos o impossível. É que, às vezes, também se cumprem as utopias.

Saturday, May 30, 2009

Paredes imaginárias


foto de Mikael Kennedy
para Luis Vaz de Camões
Que poderás tu guardar na parede imaginária do sobressalto? Houve tempos em que se caminhava com a boca do medo presa à boca do estômago, houve tempos em que as chuvas tinham um cheiro a enxofre quando desabavam sobre a face mais escondida que tínhamos. E depois sempre chegaram os dias de revolução. E depois sempre fomos saindo pelas ruas à espera que o mundo mudasse, começando por mudar a nossa própria face com a esperança do mundo.
Que poderás tu guardar na parede imaginária do sobressalto, para lá dessa esperança, de toda a espera, da mais sublime espera pela mudança do mundo?

Friday, May 29, 2009

O muro.


foto de Ruy Vasco.

Ontem estive em frente a este pedaço do muro de Berlim. Um contraste interessante entre a limpeza que lhe impunha o regime comunista e o registo indignado dos alemães do ocidente. Não que seja particularmente simpatizante de maniqueísmos, mas antes porque tenho sempre uma tendência para chamar as ditaduras pelo nome.
Contudo, aquele pedaço de muro ergue no nosso coração outros espantos, outras indignações e outras histórias. Comove-me sempre o lado mais simples e comum das coisas. Olhando para o muro, questiono-me regularmente sobre as tristeza que guardou, o que foi separando e o que escondeu ao longo dos anos. Só depois, muito depois, chego à ciência política e aos seus ensinamentos.

Oração.


Na hora de almoço, uma visita à Igreja da Santíssima Trindade em Fátima. Um local de intimidade para a oração. Quando oro, uso esse momento com o melhor que a liberdade me foi dando ao longo da vida. As orações para mim são momentos de recriação do diálogo entre o Homem e Deus e por isso chamo sempre a liberdade para esse momento. O novo é uma condição para a oração. Não o repetido. Partilhar a novidade com Deus é partilhar o que de maior pode ter a nossa caminhada. Mesmo as orações que todos sabemos de cor, penso-as sempre em função do que de novo existe para contar e para oferecer a essa magnânime ideia que é a presença de Deus em nós.
O Cristo desta Igreja é uma invasão. Das mais belas, das mais profundas. Um Cristo a rebentar-nos na alma, como as ondas dos oceanos rebentam nos rochedos. Um Cristo tremendamente vivo em nós e no nosso mundo. Um Cristo de rua. De comunidade. Um Cristo salvador, mas irmão do outro, companheiro de luta. Um Cristo como deveriam ser os Homens, os que nunca resignam e não perdem a esperança.
Fui orar a Fátima. Regressar a Woytila. E pensar e prometer: não baixaremos os braços, nunca baixaremos os braços. E isto é também uma das maiores lições que fui tendo sobre o que Cristo que quis para mim, tantas vezes distante do que me mostraram ao longo da vida.
A minha catequista da 1ª classe, morreu há dias, julgo que com quase cem anos. A D. Rosindinha falou-me sempre de um Cristo de amor. A irmã Maria Antónia, que morreu há muitos anos, falou-me de um outro de liberdade. Fiquei com ambos até hoje. Guardo-os assim e guardo-as a elas. Uma espécie de Anjos. Uma espécie de contributo para abrir o dia e não esperar mais do que a luz. Que a luz nos seja favorável para seguir.

Monday, May 25, 2009

Sobre o passar do tempo.


pintura de César Taíbo - série Bustos

I
De tempos a tempos, o orvalho.
A frescura da erva
no modo de olhares
a comoção do mundo.

II
O sol da manhã
a abrir estradas antigas
no teu rosto
como se abrirão as flores
com a luz dos dias.

III
Não venhas com o Outono
das coisas.
Em cada coisa se guardam
todas as estações.
Anda só com o coração.


IV
Faltas-me por dentro.
E é do teu abraço
que me vem uma árvore,
o seu tronco, cada vez maior,
cada vez mais longe
de abraçar no seu todo.

Sunday, May 24, 2009

As crianças de Minsk



Nas ruas de Minsk perguntava-me com regularidade como seria possível vestir as crianças de soldados, ao estilo da segunda guerra mundial, propagandeando-lhes a libertação e depois esperar que delas nada sobrasse para reivindicar a liberdade.
Vim de lá sem a resposta, acreditando que não lhe falem apenas de bravura dos sovietes, da bravura a que aludem as pulseiras laranja e negro, distribuídas durante o victory day à população.
O tempo não chegou para quase nada, mas trouxe as crianças atravessadas no pensamento. O que pensarão? Para que lado do firmamento conduzirão os sonhos? Que respostas terão?
As crianças de Minsk, como as nossas a guardarem ao seu ritmo o mundo e a construírem outro, magnificamente, como só as crianças conseguem. Daí a dúvida, daí a inquietação.

Thursday, May 21, 2009

Poetas que não tombam.


Botella al mar.

Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.

Mário Benedetti

Partiu, há dias, Benedetti. Com a sua morte descobri-lhe a literatura. A morte tem sempre um lado benéfico para os artistas: aumenta-lhes o prazo de vida.
Embora haja sempre um lamento sobre quem parte, a descoberta de Benedetti abriu-me um sorriso e a razão para um lamento. Nestas circunstâncias nenhum destes sentimentos é triste porque só acontecem perante o que sabemos ou descobrimos de melhor.

Sunday, May 17, 2009

Poemas da Bielorrússia


1
Ainda que sobre o corpo anoiteçam
todas as margens de silêncio
e gritem dentro do sangue
as histórias que não renunciámos,

poderei adormecer sobre a tua voz
e plantar no silêncio uma flor
e daí fazer seguir todas as revoluções.



2
Ontem atravessei a tua voz
como se fosse uma estrada
e olhei até ao fundo,
medindo até onde poderia ecoar
o nosso mais desregrado amor.


3
Estou muito vazio.
A praça anoiteceu-me sobre os ombros.
Só uma ideia salvaria o cansaço.
A ideia de que, se viesses, espalharíamos
o que somos como uma peste
e só sobreviveria o que os outros
nunca sabem, às vezes o próprio amor.



4
E se fosses uma ave no parque?
Ou uma ave no coração da Humanidade?
Que sobraria da História?
Quem sobraria no parque que fosse despojado
de amor ou firmamento?



5
Voa sobre a cidade e descobre-me
no olhar mais distraído com o mundo.
Pousa nesse olhar
e gasta o resto da vida bordando aí o amor
que sempre provém da esperança.


6
Queria dar-te um corpo que fosse um país
ou uma manhã onde se acordasse
não com a luz do dia, mas
com o lume das coisas inacabadas.



7
Ouvem-se ao longe os soldados,
mas não importa. O orgulho é uma ave
que guardámos para desenhar as margens
da intimidade,
sem avenidas ou palácios
mas com a língua que as aves usam
quando não enunciam o céu que atravessam,
mas o seu infinito.

Minsk, 6 de Maio de 2009

Friday, May 15, 2009

Poema do amor ausente


aos meus pais.

Já não faltam as palavras que não dissemos.
Já nem o sol das avenidas se atrasa mais quando não passas.
Temos agora um coração desgarrado
e uma besta de silêncio amordaçada.

Há quem lhe chame eternidade.

Eu que chamar não sei

digo-te em fúria que não conheci pior lei
do que aquela de um amor
que nasceu sem ter idade.

Minsk II


Regressado de Minsk, trago no coração outras legendas para a esperança. As palavras ditas por lá a meia voz, palavras meias, aprofundando o que tantas vezes não se aprofunda por cá, arriscando o que repetidamente se não arrisca mais por estes lados. Trago as faces e os sorrisos dos que, na dureza árida dos dias, teimosa e ternamente ainda querem fazer rebentar primaveras.
Essa Bielorússia de inúmeras faces, de desequilíbrios geográficos e de desequilíbrios de gentes, a pousar-me no peito uma espécie de flor incendiada capaz de aquecer o rosto dos que ainda não podem mostrar a flor que lhes arde no próprio peito ou na pátria própria.
Trago essa espécie mágica de archote a alumiar a noite insinuada.
- Um dia havemos de salvar todos os sorrisos.
apeteceu-me dizer-lhes à despedida.
- Um dia seremos uma espécie de bichos a acordar na madrugada para que apenas o espanto do mundo sacie essa fome ou essa raiva que sempre vem do futuro desacatar todas as dores e seus insuportáveis silêncios.

Saturday, May 02, 2009

Minsk


Segunda-feira parto para Minsk no fito de contactar com organizações Bielorussas e aumentar os laços entre Portugal e os países do Cáucaso no âmbito do trabalho com Juventude.
O interesse é juntar pessoas e alargar actividades com os de cá e os de lá, alargando a alma e depois, talvez o mundo...