Sunday, April 26, 2009

Um Anjo chamado Elisa


Pintura de Chagall.

Muitas das coisas que nos acontecem aumentam o nosso sentido de religiosidade e de gratidão para com o destino.
Tenho a certeza de que, se a vida se me acabasse neste instante, teria de reconhecer que, mesmo com todos os normais pesares, o destino fez com que me rodeasse de alguns Anjos, pessoas que sempre significaram o devir do mundo, pela sua integridade, pela sua força, pela intensidade com que naturalmente se deram e se dão aos outros.
Ando a ler o novo livro de Maria Elisa Pinheiro e, mais uma vez, estamos perante uma obra de grande humanismo, de enormíssima entrega, de desmesurada generosidade, escrita numa forma muito sua, inimitável no estilo, no humor e na emoção.
Este texto estou a escrevê-lo sobre os céus de Nantes, a caminho de Bruxelas, enquanto descanso da sua avassaladora leitura e, ao mesmo tempo, agradeço ao Deus das crianças (que há-de ver-se daqui porque estou em pleno céu) o facto de, num belo dia, como nas histórias de encantar, me ter aparecido um livro e uma autora que foram uma espécie de interminável fantasia, de bênção, de prova que no olhar de Deus há uma grande força a povoar-nos o caminho, a povoar-nos a felicidade apesar de tudo e de todas as perdas.
Nos céus de Nantes consigo orar desta maneira, pela mão de uma amiga que é mais um desses Anjos em que acredito e que a sina do mundo depositou sobre um inesperado sorriso quando, há anos, disse que sim ao seu editor, que aceitaria apresentar o seu livro. E que Deus também deve ter dito que sim, que eu estava pronto para receber Dele mais essa dádiva, uma outra força que veio para sustentar o que, também por mais isso, terei para dar.

Friday, April 17, 2009

O que resta.



As flores, podes guardá-las. Ou guardar todos os verões. Ou até mesmo não saires da primeira vez em que nos vimos. Eu ficarei como ficam os promontórios, desgastados por ventos e marés, testemunhando os tempos e apreciando as distâncias.
Nas distâncias está o segredo de tudo. Quem as conhece nunca desmerecerá a beleza e nada saberá de fugazes desalentos.

Como relva fresca.


foto de Mikael Kennedy.

É importante que se possa sentir a frescura da relva sobre os pés despidos e assim descobrir o verão.
É isto importante ainda que corram no olhar do mundo pesados invernos, vozes que nos escapam e coisas que nunca chegaremos a fazer.
É importante que sejamos uma história, pois envelhecer deveria ser estarmos quietos a deliciarmo-nos com as vozes que nos contam à medida dos desejos e das utopias de cada um que tocámos, como a relva fresca nos pés, quando é verão, a legendagem possível do que é belo e surpreende, aparentando sempre a eternidade.

Monday, April 13, 2009

Saudade de José Gomes Ferreira


Esta noite estou cheio de saudades do José Gomes Ferreira, dos três volumes do seu «Poeta Militante», editado pela Moraes. Tenho saudades da sua lua e da balada para a heroína que ele mesmo inventou e que eu declamei em dezenas de programas de rádio.
Tenho saudades do José Gomes Ferreira a ecoar-me no coração mais puro e a apontar-me o caminho mais ilimitado e mais certo. Saudades de abrir o jornal e encontrar um poema novo, saudades de me indignar com coisas que já não existem ou que mudaram de nome e de combate.

Tenho saudades, qualquer coisa de animal a assaltar a alma.
Tenho esta noite no coração um poeta que escreve e se demora,
arpão de tormento e imaginação que à lua dos sem dia se ancora.

Só não choro, porque chorar não basta.
E é preciso trazer na voz
uma qualquer faca que a vida arrasta
e no peito um qualquer verso
que ao amor der jeito.

O amor



para a Landa, sobre esta foto de Gerald Bloncourt.

Já assim guardámos os mares e mesmo olhando-os demorada e fixamente, não descobrimos tudo: não precavemos todas as intempéries, nem todos os momentos gloriosos que nos esperavam. Éramos muito novos, nesse tempo e não descobrimos isso.
O milagre, o milagre mesmo é hoje continuarmos a olhar os mares e querer descobrir tudo, e a não descobrir continuadamente. Também isso é o amor, pelo menos o nosso.

Thursday, April 09, 2009

POEMAS PARA AMANHÃ




Para a minha amiga Pilar del Oro
que no seu percurso me ajudou
a escrever estes versos.


I

Começam uma viagem sobre o interior do Tempo
e aí ficam incansáveis até ao fim.
São o que suporta a vista dos oceanos
e a sombra dos verões,

pois tudo que é sentido precisa de razão
e só do coração do mundo essa Razão chega.

Aí moram os que, para sempre,
se ocuparam dessa visão,
o que é sentido na paisagem alheia
e nela encontraram a Razão que é a sua.

II

É preciso erguer no coração do dia
as pessoas que a Pátria fazem

e, depois, só depois,

perceber que coisa chamar
a esse Lugar, a essa Pátria de gente
erguida no coração do dia.

III

Talvez conheças o sentido das aves
e as marés que os promontórios
testemunham.

Talvez saibas
que só fazem sentido
porque alguém ousou perceber-lhes
a Força
e Nela a mais temida e genuína
semente de liberdade.

IV

Porque a cidade acorda com a forma
que sabes dar ao Tempo partilhado;
Porque o corpo da cidade
cabe no olhar que guarda aqueles que se levantam
e fazem o dia nascer no olhar mais fundo
dos que em frente seguem e o mundo mudam;
E porque conheces o rumor mais íntimo
que têm as vozes que ficam,


ninguém calará essa Força
e nela reconhecerás o teu sorriso
ou a Razão porque brilham sempre
os teus olhos.

V

Certo é haver vozes geradas
para substanciar o silêncio.
Vozes que sejam aves
e aves que rasguem no olhar quieto
a fímbria de Liberdade.

Certo é escutar essas vozes
como se fossem casas
e aí esperar o inverno e a mais pura noção
do aconchego,
ainda que da raiva nascido,
ainda que pelo tempo perdido.

Certo é escutar essas vozes
e usá-las para que alguém cante
assim que outro alguém parta
e o mundo pareça acabar
ou perder todo o sentido.

VI

Deixo a costa
como se deixam os heróis
nalguma idade.

Olho uma última vez para terra
e sei que há Oceanos que se não perdem

pois muito longa será a rota
e interminável o seu ensejo.

Wednesday, April 08, 2009

A Páscoa


foto de Claudio Naboni.

A Páscoa no sul a permitir ao meu pobre olhar humano
a ressureição das papoilas, as mesmas da adolescência,
as que anualmente apareciam e eram tão breves,
como tão breve foi o tempo em que as guardámos juntos.

As paisagens.


Foto de Brent Bennett.
para um amigo meu que anda enjoado por estes dias.

Pode até parecer que as manhãs não arrancam
e que não há meio de entardecer com jeito.
Pode até parecer que as coisas andam desarrumadas
e que o mundo anda deficiente,

mas não há nada que se compare às paisagens
de que falavas e que só tu conhecias
enquanto as ouvíamos.

Tuesday, April 07, 2009

Os imigrantes.


foto de Gerald Bloncourt.

Os imigrantes. Trazem longas narrativas. Contam parte delas na forma como olham, como cumprimentam, como esperam, como temem ou como vencem. Vêm de lados distantes para a nossa proximidade e ficam rentes de repente. São também a forma como palpita o coração das nossas cidades e a sua mais íntima narrativa.
Quem já nasceu cá pode colocar-se em silêncio a fruir as suas vozes muito novas, as novas pronúncias, as novas faces e os novos gestos. E tudo vai mudando. Mudando os nossos sentidos, mudando a leitura que fazemos dos lugares, mudando a interpretação que vamos tendo até da saudade.
Os imigrantes como uma musicalidade nova do nosso tempo partilhado, com um certo espanto, a aguçar a nossa melhor noção da lonjura. Quando os vejo e quando lhes falo, há uma espécie de ave em mim que vai migrando e se vai demorando nas histórias e nas expressões. Quantas vezes foi aí o melhor abrigo que encontrei para a minha própria liberdade? Alguns dos meus melhores amigos não são de cá e, por isso, algum do meu coração também o não é, é do mundo.

Friday, April 03, 2009

Decisões.


para a Isabel F. Alves no dia do seu aniversário, em diálogo com ela e com este seu quadro.

Fica decidido que é no céu
que devemos caminhar com os pés
e que à terra teremos que agarrar os sonhos.

Fica decidido assim
e também resolvidas ficam as utopias
e, de caminho, a felicidade.

Thursday, April 02, 2009

Devagar


foto de Zorba.

Entra devagar. Abre, uma a uma, as portadas da casa onde nunca moraste. Morre de saudades desse sítio e entrega-te à sua memória como um bicho se entrega ao mundo, quando esfomeado.
Sorve-lhe o silêncio e, como os lobos, uiva. Ou, como uma mulher de outros tempos, canta-lhe as desgraças e as infâmias.
Entra devagar e sobrevive ao peso que o pó vai guardando sobre os objectos e não desistas desse roubo.
Muito em breve saberás que há manhãs muito diferentes daquelas de que te falaram a vida inteira. E, mais breve ainda, saberás de ti nesse extremo desconhecimento, nesse promontório de espanto onde, pela primeira vez, saborearás o sabor que tem o mar, quando o quiseres medir com o infinito que guardam já os teus olhos.
Entra devagar no coração do dia e fecha-te nele como se só a ti coubesse a missão mais íntima de chamar a noite para o resto do mundo.

A flor e o orvalho



foto de Sara Heinrichs.

Apodera-te da luz do dia
e sê uma planta
à espera do orvalho.

Assim compreenderás
a travessia da noite,
ou do desejo.