Tuesday, March 31, 2009

A poesia do Victor.



Victor Oliveira Mateus apresentou há dias o seu mais recente trabalho em poesia: «A irresistível voz de Ionatos». Ando a lê-lo pelos mais impróprios cantos do mundo, onde vou arranjando tempo, procurando esse tempo como os cães procuram os ossos que esconderam nos jardins, com a mesma ânsia e, no caso, com o mesmíssimo prazer.

Este livro tem sido uma surpresa estupenda. Ando a vivê-lo com o vagar aconselhável às melhores obras. Ando a demorar-me em cada poema e a caminhar sobre ele, porque o Victor traz na sua poesia narrativas que são literatura com vida por dentro e também convites a que com ela se viva, a que o leitor frua e seja ele mesmo nas ilhas, nas manhãs, na dança e nas ausências.
Confesso-me em plena fase de paixão por este livro. Há muito que não me vinha parar às mãos um texto assim. E ainda por cima do Victor Oliveira Mateus, meu tão querido tradutor e Homem de invulgar generosidade e entrega à literatura.
Ando com um livro a fazer-me feliz e a melhorar substancialmente os meus dias, tão questionáveis na sua gestão e no que deles possa sobrar. E isso é muito para um livro. Quando falo de literatura aos mais novos alerto-os sempre para o facto de, em primeiro lugar, a literatura poder servir-lhes a felicidade, se for genuina, se for verdadeira, se tiver génio. E esta voz irresistível da poesia do Victor tem isso tudo. Há muito que não visitava uma poesia com tanta acção no seu interior, com tanta história e, sendo história, com tanta poética dentro.

Deixo a este livro e ao seu poeta, um último comentário em forma de poema:

Não tenho passos que cheguem, hoje.
Por isso vou nos teus pés caminhar pela ilha
e nos teus olhos dar testemunho
do coração que, por ali,
fizeste chegar à mais última das manhãs,

depois de ter sido perfeito o mundo,
depois de a teres abandonado
para que se não deteriorasse
quando fosse memória.

Sunday, March 29, 2009

Senta-te na minha manhã.


As visões matinais do mundo, da nossa varanda, ou do que imaginamos ser a nossa rua ou nossa mais perfeita terra. As visões a irromperem pelo território de impossíveis desejos, de utopias desmazeladas, de nunca mais consentidos.

- Senta-te na minha manhã e demora-te. Fica como se fosse possível e verdadeira a eternidade. Lê-me lentamente o olhar e descansa-me no fluir do mundo. Arranca flores das minhas palavras e colhe todas as chuvas quando me emocionar, por ser emocionante saber que andas a povoar-me as manhãs e que apenas o fazes porque tens uma forma muito própria e muito tua de seres o que nunca consegui que fosse a natureza dos meus dias.
Sê uma história. Apenas isso, para sempre isso. Uma história que não consiga erguer no dia a sua noção tardia, a noção de que tudo tem uma fímbria, uma linha de final de percurso, uma ameaça de final de vida, uma insuportável despedida e um desesperado adeus, sobretudo ao que se não foi.
Senta-te na minha manhã e planta na minha pele uma árvore do tempo e a sua sombra e o seu canto. Senta-te e sê um pássaro. E traz nesse pássaro as terras por onde passou antes de aqui chegar. Sê os ventos que conheceu e as tardes onde poisou os mais belos cansaços.
Senta-te na minha manhã porque precisamos de morrer alguma vez.

Monday, March 23, 2009

Pássaro do mundo.


instalação de Antoni Tapies
no dia do 87º aniversário do meu pai.

Vem, pássaro do mundo,
contar-me de novo as velhas lendas.
E que tudo possas dizer
no calor tão breve
das que, agora,
são as tuas tão longas asas.

Sunday, March 15, 2009

Uma ponte


O que é preciso é uma ponte.
Uma ponte entre o peito e a descontinuidade da dor,
uma outra entre a frase e a lentidão dos dizeres.

O que é preciso é uma ponte
para atravessar as lágrimas
que nos chegam da secura do coração.

Friday, March 13, 2009

Praga 2



Acabado de entrar no quarto, em Praga, com a cidade a descansar sobre a memória. Um lugar de intimidades extraordinário, um lugar de reencontro com o que se deseja a todo o tempo que uma cidade possa ser.
Praga é um refúgio, genuíno, cheio de verdade e de encanto, cheio de realidade e de possibilidades para que a imaginação se não renda.
Praga das histórias carregadas de ideologia e de desespero, de secretismo e de intimidade.
Noite dentro escrevi uns textos para a música do Nelson e noite dentro fui saindo pela idade como quando tinha a idade de não haver horas marcadas para certas fugas, para certas formas de irromper pelo silêncio do mundo e deixar, ao de leve, a marca indelével das utopias.
Praga a abater-se sobre a alma como quem consegue beijar o tempo e deixar que nesse beijo se acariciem todos os que amamos alguma vez e que foram partindo, mas nunca de dentro.
Praga a relembrar a eternidade dos que nos restam, dos que sempre nos acompanham e dos que não deixam nunca de aparecer, assim que a emoção começa, ou a impossibilidade ganha corpo. E de cada vez que há uma impossibilidade, há um sonho que se levanta e uma voz que ergue na alma uma desmedida paixão. A seguir, virá o amor, o amor é também a engenhosa maneira que vamos encontrando para sabermos o que fazer com o que já sabemos das nossas impossibilidades.
Praga a pesar-me nos olhos como só nos pesam as palavras que se não esquecem, as palavras que nos criaram o mundo.



Monday, March 09, 2009

Praga



Daqui a pouco, partirei para Praga. E levo no peito uma série de textos que gostaria de escrever por lá, mas, acima de tudo, levo comigo um acerto de contas com o coração adolescente, onde tudo fazia sentido nas incursões de Kundera e no assombro entre a ideologia e o resto da vida.
Vou para Praga com essa vontade de me encontrar com o adolescente que fui e de me espantar com isso, saboreando de algum modo esta qualquer coisa mágica que tem o tempo.
Daqui a pouco, lidarei com esse adolescente em pulgas, cheio de causas e de coisas desmedidas de razão, o que ainda conservo e que ainda me pede contas para as coisas que se medem.
Estarei em Praga, a deixar que entre a ideologia e o passado, como entra na nossa vida uma travessura ou um enormíssimo amor.

Sunday, March 08, 2009

Mulher


E onde começa o mundo senão no teu regaço?
E onde termina o horizonte senão no amor que foste bordando, nessa luz que incandescendo nos prende e, prendendo-nos, aí nos liberta para fruir o que do mundo imaginamos?

Saturday, March 07, 2009

Intocar.


pintura de Gómez Losada.

Hoje, é a importância da flor, do perfume, da beleza. A importância do intocável.
Hoje, é um exílio, uma fuga, um território com vista para o infinito. E isso será invencível, como invencível é o amor enquanto dura.

Monday, March 02, 2009

O endereço.


foto de Mikael Kennedy.

O endereço onde se guardam as coisas é o endereço das mãos, quando só elas descobrem a história mais reservada que as coisas deixaram assim que caíam sobre a desventura da voz.
O endereço onde se guardam as coisas é o endereço da pele, quando só ela testemunhou em diferentes temperaturas os diferentes meridianos que guardam a geografia do amor.
O endereço das coisas é o endereço do lume, quando só o lume soletra no silêncio da noite as madrugadas e as primaveras onde nunca rebentámos, mas que existem muito acesas no nosso coração futuro.