Wednesday, February 25, 2009

De longe


pintura de Isabel Ferreira Alves

Falo-te de um lado do mundo que desconheces. Inquieta-te esse desconhecimento. Falo-te de coisas que só eu sei, porque só eu as criei, ainda que as tenha feito com os mais engenhosos instrumentos que me vêm de ti. E mesmo assim estranhas-me.
Às vezes, penso que melhor mesmo era recolher-me nas tuas mãos, ou mudar-me de vez para os teus olhos sem que o soubesses. Talvez continuasse a ser esse estranho ser que te desperta e que te faz andar pelo mundo a perguntar por que raio há sinas assim.
Falo-te de longe. De muito longe. Mesmo quando te beijo e temo sempre que essa possa ser a última coisa que te faço, que me faço, que nos faço. Falo-te de longe, porque é sempre maior o amor quando mais longínquo se torna. O amor é como um horizonte que só encontra razão no que ainda desconhece, no ainda inavegado, no intocado ainda.

Tuesday, February 24, 2009

O entrudo.



Uma festa para a qual não me convoquei. Não sei se se convocam as pessoas para as festas ou se só se convidam. Vou atrás da aragem para ver se há alguma coisa armazenada na memória que me faça pertencer a esta quadra.
Afinal há. Estamos em Fevereiro de 1973. São cinco da tarde. Estou a chegar da Escola. Coloco na cara uma máscara de gato que eu próprio fiz. Era de cartolina azul clara, desenhada a borronas e com bigodes feitos de piaçá. Toquei à campainha. Esperei angustiantemente que a empregada abrisse e se espantasse com a máscara e com momento. Não me esqueço que o susto maior foi meu, dado o mau génio da criatura. Quando, por fim, ela abriu, em segundos respondi, evitando o que imaginei pudesse vir a ser a surpresa:
-Sou eu...
e de nada servira a máscara, nem um susto, nem uma pergunta, nem um comentário. Apenas um virar de costas e a indiferença.
Este foi o mais marcante gesto de Carnaval que tive. Desde então, aprendi que as máscaras mais eficazes são as que construimos para e por dentro. Nesse mesmo instante comecei outra: uma que afugentasse o medo.

Friday, February 20, 2009

Balancear.



Um porto. Uma tempestade. Um balancear imperceptível de desconhecidíssimo oceano, tão desconhecido quanto amado. Um balancear com mil léguas e mil tempos.

- Já fui pequeno alguma vez.
pensou o homem em frente ao mar.

Um porto. Uma tempestade. Um homem que baleanceia como as ondas e que chora em frente ao oceano por ter perdido a criança que fora e por estar sempre a encontrá-la no que não tem resposta, no que lhe parece infinito, como lhe disseram sempre que era inifnito o horizonte e o amor.

Tuesday, February 17, 2009

Talvez o amor.


foto de Gzegorz Minda.

Toma uma expressão que te possa vir do silêncio. Desenha pequenos objectos e junta-os num caderno ou na forma do olhar que vais guardando, apenas para que sintas que ainda não chegou a tua hora de morrer.
Desenha aí essa expressão e morde o pedaço de chuva que não veio, acaricia o corpo que não tenho e deixa-me que te conte, durante a vida inteira, histórias de inteiros amores.
Desenha a tua expressão de silêncio no meu coração e deixa que eu farei o resto pela nossa felicidade. Não vá ser também isso o amor.

Saturday, February 14, 2009

As árvores que ainda vivem.



Pintura de George Innes.

AS ÁRVORES QUE AINDA VIVEM.

Há que saber viver com o tempo. Esta manhã de sábado começou cedo para mim. A cidade ainda estava muito quieta. Numa volta de carro pelas ruas do centro, tentei reencontrar um outro tempo e, quando tentamos estas proezas, estamos quase que a desafiar as leis de Deus. Mas Deus quando nos fez também deixou no adro do nosso livre arbítrio os respectivos desafios e, por isso, lá continuei ciente da condição de mortal e de criatura deste mundo.
A tentativa de trazer outras épocas para esta é sempre um risco. Praticamente, só no Jardim do Calvário ainda continuam a crescer as mesmas árvores que já cresciam quando eu nasci. E isso, para o mundo, não é bom nem mau, uma vez que onde não estão as velhas árvores, estão novas árvores que são aquelas que estão a crescer neste dia em que outras pessoas estarão a nascer e que, com estas, envelhecerão. A vida é mesmo assim.
Mas, fiquemo-nos pelas velhas. É, efectivamente, extraordinário existirem seres vivos que guardam olhares e desejos e frustrações de quem por ali passou. Ter as árvores como cenários vivos, como testemunhas de um tempo, é um privilégio do universo. As árvores que estão naquele jardim são as mesmas que o meu pai via, assim que abria a janela do quarto dele pela manhã, e são as mesmas onde eu brinquei a esconder-me dos meus amigos ali do quelho. Hoje, posso continuar a viver com elas e a deixar que os meus filhos tenham as suas próprias histórias, a sua própria intimidade com essas árvores que também foram as dos seus pais e dos seus avós.
Pergunto-me: quantas pessoas sentem isto como uma boa notícia de um sábado de manhã? Penso: quantas pessoas subirão as escadas do Jardim e se demorarão a tocar as árvores, com as mãos ou só com o olhar, e se deixarão levar pelo tempo, a descobrir o privilégio de estar junto a algo que continua vivo e em crescimento e que testemunhou o tanto da nossa vida que só na nossa memória vive?
O meu amigo Pedro Quinhones regressou à sua casa de Moçambique, depois de 30 anos de ausência. Ainda lá estavam o pinheiro e o coqueiro que os seus pais plantaram no jardim, quando construíram a casa. A mãe já não está, a infância também não, nem os arranhões d’alma da adolescência que também se viveram junto àquelas árvores, naquela mesma casa e naquele mesmo jardim. O primeiro comentário que ele teve foi de uma profunda sabedoria: «o pinheiro do jardim e o coqueiro do quintal cresceram... têm agora mais de 35 anos…». Dizer isto das árvores é o mesmo que dizer de um filho, ou de uma criança que se não vê há trinta anos e que entretanto cresceu. Dizer isto de uma árvore é permitir-se à mais genuína e mais pura relação com o universo. Talvez tenha contado às árvores que tinha voltado, talvez tenha querido saber o que viram, talvez tenha perguntado como continuaram os dias, sim, porque elas ficaram e fizeram ali o seu percurso. Talvez não haja palavras para descrever aquilo que se sente quando se volta e se pode tocar o que nos viu crescer e ainda é tocável e ainda vive e ainda se pode perguntar e ter resposta na velha sombra, no velho aroma, na sua milagrosa permanência, no seu não desaparecimento.
Tudo isto nos dá uma árvore, também por isto são tão importantes, pelo oxigénio que ao planeta deixam e pelo oxigénio que nos depositam no coração.

Wednesday, February 11, 2009

O coração


desenho de Eduardo Salavisa

Soletra-me o silêncio como se me beijasses a alma
e incendeia a inquietação mais limpa.

Repara como eu estou onde te arde o coração,
à espera que dispas o medo e a desolação.

Tuesday, February 10, 2009

Manifesto.


pintura de Paula Rego.

Há um silêncio cortante na pobreza d'alma. Os seres que a experimentam mudam as regras do mundo. Mudam as idades, mudam o contexto e a ideia de contemporaneidade. Quando avisto esses seres fujo. Porque são seres de retrocesso e de escuridão.
Há um silêncio cortante quando te não consegues despir de ti e ser por instantes o outro que amas. Se assim o sentires alguma vez, reza para que não morras, pois quase nada saberás desse mistério, deste lado de todos os mistérios ou da sua fascinada contradição. Reza para que não morras, porque nem a Deus se perdoa o gesto de matar o que ainda nem teve começo.
Há um silêncio cortante se assim for e se o teu corpo estiver envelhecido nessa infame ignorância. Há um silêncio que te cega os dias que nunca mais virão e que esbanjaste num ignóbil desespero.
Há um silêncio cortante quando desse golpe nem o sabor do sangue e do seu preço conseguiste alcançar, apenas porque te julgaste a enriquecer e a aproveitar a vida, ainda que dela nada soubesses, ainda que rasto algum guardasses para ser a palavra do instante seguinte.
Os seres desse silêncio não têm instante e nem sequer corpo. Apenas gravitam sob o que imaginam ser o desejo. Se um dia desejassem, tocariam a sabedoria e se assim fosse, duro seria o pecado de os não ver e ignóbil todo o ódio. Mas existem e nem sei que mundo conhecem, nem hora que lhes possa valer.

Espelhos.


pintura de Vilhelm_Hammersh

É um jogo. Entre luz e sombra.
Entre o dizer mais rente
e a sua desistência.
Poderia morrer em ti.
E, mesmo assim,
tenho um milhão de lugares vazios
onde poderia facilmente criar-te
e abater-te sempre que o meu desamor
ordenasse.
É um jogo. Entre luz e sombra.
Há vezes em que não sei o teu nome
e outras onde és tudo que não sei.
Deixa-te assim, no início
de todas as idades. E, pronto, morre-me
onde as narrativas não chegam
para embalar a tarde e iludir o sofrimento
que é ver-te partir em cada coração
que já tive e que não soube agarrar,
por me morrerem todas as idades,
por se me acabarem as coisas que não disse
e que eras tu essas coisas, ou era eu
sem nada saber, nem disso ter o desejo.

Monday, February 09, 2009

O tempo.


pintura de Bierstadt.

Por vezes, é de um exílio que precisamos. De uma árvore que seja a infância, ou uma sombra que seja a véspera de uma angústia. O tempo, tenho hoje que to dizer, é uma interpretação do desejo. Não será muito mais do que isso. Sabe-lo desde o momento em que saíste de casa pela prieira vez e te perdeste na alegria, chegando atrasado ao tempo do resto do mundo.
Por vezes, é de um exílio de tempo que precisamos. Um tempo que seja um rio, ou um vale, ou um apontamento muito verde que traga uma fuga ou todos os regressos. Tinha que to dizer hoje: precisava de um exílio porque nem tu, nem Deus, me pareceram suficientes para que me despisse de tudo e entrasse na correnteza do mundo e me sentisse em casa, como só consegue a infinita sabedoria das crianças, no tempo em que o conseguem ser.

Ano Europeu da Criatividade e Inovação - reposicionar o Eu e do Outro


Na sessão de abertura do Ano Europeu da Criatividade e Inovação, o Prof Carlos Zorrinho referia a desvinculação desta iniciativa a qualquer imposição oficial ou oficiosa, emprestando-lhe uma certa brisa de liberdade que tão bem combina com as duas temáticas em comemoração.
O rasgo de levar por diante o sublinhado nestas duas dimensões temáticas, em toda a Europa, é um rasgo feliz e que, a ser devidamente implementado nas diferentes escalas (local, regional, nacional e europeia), gozará de um sentido de oportunidade que aproveitará às populações e poderá ser motor de saudável confronto com as questões do nosso tempo, no plano das artes e das novas tecnologias, mas também de um novo olhar, criativo e inovador, sobre as questões sociais, sobre o sistema democrático, as novas expressões de saúde económica e a tão urgente discussão e acção em torno das novíssimas regras da comunicação que, tal como evidenciou Don Tapscott na brilhante intervenção no CCB, estão a reconstruir-se e a criar sistemas identitários cada vez mais distantes de um tempo que se nos assemelha próximo, mas que na realidade, dada a vertiginosa transformação originada por esta nova eficácia comunicacional, já é um tempo distante.
Está, portanto, lançado o desafio aos cidadãos para se confrontarem neste ano europeu com a necessidade de emprestar à acção diária doses sustentáveis de criatividade e inovação de modo a que se assista à emergência daquilo que também deve ser um sinal de avanço civilizacional deste nosso tempo que é o da realização pessoal e do reconhecimento de cada um naquilo que faz.
O trabalho social (no seu sentido sociológico mais clássico e mais puro) tem hoje a hipótese e a obrigação de se valer de um sério investimento nestas duas áreas, reconhecendo que é por aqui que certamente se colherão os frutos de uma sociedade onde as diferenças sociais se esbatam de um modo mais substantivo, reorganizando o modo de fazer, o modo de pensar, mas também o modo de sentir dos seus membros.
A saudável utopia de tudo isto reside num ponto: o de centrar o desafio na realização e na afirmação plena de cada um, enquanto membro de um colectivo, tenha este a forma que tiver, mas reconhecidamente a caminho de um processo identitário mais forte e mais coeso.
Espera-se que esta nova era reconstitua a favor da Humanidade a relação entre o eu e o outro, estando cada um de nós convocado, como noutras eras, a decidir sobre o rumo e o horizonte de cada um dos nossos gestos.

Sunday, February 08, 2009

A diferença.



pintura de Jean-Léon Gerôme

Às vezes sinto muita falta da diferença, do confronto com o desconhecido. Tenho saudades do espanto. Se não andar espantado não consigo escrever. Isso é esgotante porque arrasta consigo a consequente ansiedade fruto da pergunta: e se mais nada aparecer que seja novo?

- Sai então do teu corpo. Esquece-te. Anda pela rua como se fosses um caçador de noites e de brisas. Exila-te nas primeiras árvores e na primeira música que vem das cidades. Ergue na sua sombra uma existência. Começa a lembrar-te do que não foste. Deixa que a saudade dessa ideia te invada e te faça diferente. Estás então a ter o teu momento único. Estás outro. Estás pronto a confrontar-te e a regressar ao que foste todo o tempo. Estás pronto a voltar. A voltar com a alegria serena de ainda haver mundo, de tudo continuar como o abismo onde sempre soubeste procurar a mais genuína felicidade.

Friday, February 06, 2009

Ao longe



Estava longe de tudo.
Do oriente chegavam-lhe um poema e uma chávena de chá.
Com isso, qualquer humano poderia ser feliz
bastando que em si existisse um céu próprio,
um bando de aves, uma ventania ou o correr de um rio.

Que desse céu distante pudesse diluir-se o olhar
mais emocionado e longo
e que daí se soltassem os instintos mais secretos
para que se ouvissem depois
onde só os deuses conseguem.

E um rio, um rio num corpo de passagem,
de travessia para o impossível,
de travessia para o que os dedos tocam
sendo só no que adivinham
que descobrem a foz do mundo,
o cair do dia ou o prazer que te rouba a evidência
para te entregar o amor.

Wednesday, February 04, 2009

Antes de morrermos.


cerâmica de Pablo Picasso.

Antes de morrermos que se ofereçam flores.
Que se entreguem as palavras e se veja o seu distribuir
pelo coração do universo.

Antes de morrermos que digamos o amor todo
que conhecemos e aquele outro a que nos atrevemos.

Antes de morrer que sejamos a flor
no céu da boca ou na memória profunda das mãos
a soltarem-se do que deveria ter sido
o infinito e único bater de um coração de pássaro.
Um coração partindo de uma lágrima,
e aí começando todos os oceanos,
aí descobrindo que o mundo é uma pequena coisa
entre a alma da gente e sua despedida do que é fugaz
e só importa ao esquecimento.

Poema para Eugénio de Andrade


Entre as mãos
ergui a manhã vertiginosamente
e juntei ao peito
o mais alto promontório
numa funda sensação de liberdade.

Retive no olhar
as casas e as pedras, deixando
às giestas em flor
a infância toda e o seu sublime,
tornando improvável a mortalidade,

pois tudo pode um poema.

Tuesday, February 03, 2009

Haikai matinal


Acordar com o corpo no outono e ter a sabedoria imensa de o deixar no limite de uma folha caída ou de um sopro.

A paisagem.


foto de Mikael Kennedy
As viagens são sempre o que não são. Talvez possas inverter o mundo e, ainda assim, o mundo parecer exactamente o mesmo para os outros. E esta coisa entre o nós e os outros é uma coisa quase de Deus ou do vento, que se não vendo sente-se.
Podes inverter o mundo quando olhas e a aspiração de qualquer mortal não é senão o de ser essa paisagem que olhas, esse espaço, essa vez do mundo ser íntimo.

Sunday, February 01, 2009

As perguntas.


foto de Mikael Kennedy.

As margens da manhã a acusarem as frases e os rumores da noite anterior.
Onde vais encostar a nova estante dos livros? perguntava ela.
Ele lembrava-se que arrumar os livros é o mesmo que arrumar planetas, cidades, rios, mares e tudo o que envolve, pelo coração, os lugares e os objectos. Por isso, olhou-a indefinidamente como sempre faz quando descobre uma narrativa, ou seja uma expressão extensa para se referir ao amor.
Depois, foi-a despindo e durante toda a noite rememorou-lhe as cidades que ardiam na sua sempre ansiosa forma de tocar o mundo e guardar os lugares, falou-lhe dos rios e decidiu descobri-los no prazer dela, para depois entrar nas longas cartas de marear, na luta certíssima com a força que tem a natureza e na outra luta com o espanto e com as partidas, com todas as partidas de que sente falta e de todas as outras que já realizou, só para lhe poder contar as coisas que viu e por que passou num mundo que sempre guarda para lhe oferecer, assim que chega, assim que lhe chega com uma parte do corpo e a inteireza do desejo.
Quanto à pergunta, acerca do lugar que ocuparia a nova estante dos livros, tinha, agora que a manhã surge, a resposta mais exacta e mais adequada. A estante nova ficará encostada ao coração.