Saturday, January 31, 2009

A cidade da tua pele.


Tenho uma cidade para levantar na tua pele. Com chuva. Com silêncio e escuridão. Com sonoridades exteriores a arrombar no coração as histórias que não sendo suas fazem-lhe acelerar o ritmo.
Tenho uma cidade para levantar e percorrer. Absorvo-lhe ao máximo a solidão. Não há imagem mais bela do que a da solidão sobre a pele de um corpo que espera. Não digo uma palavra. Vou andando. Espero que me adivinhe e me deseje. Deixo que a noite me acompanhe nessa investida.
Recordo um trecho de música e permito-me pensar que já tiveste uns olhos muito parecidos com ela. Paro. Solto na face o frio nocturno da cidade. Invento nisso a liberdade toda que aprendi ao longo da vida.
Recordo que tens uma cidade na pele. Toco-lhe plena e fundamente. Fossilizo-me aí como quem se lança sobre o tempo e decide não lhe dar mais importância. Sigo o caminho e olho para trás, porque do lugar onde estou deitado conseguem-se ver os teus olhos e isso mostra que esta é também uma cidade com luar, com o mais belo luar de que falam todas as fábulas que eternizaram encontros e desencontros em cidades encantadas como esta onde me deixas, sempre que do amor descansas.

A linguagem do corpo.


No mundo a que chegámos, há por vezes um corpo. Há uma elevação e um ruborescer de coisas que se fazem explodir e que nos roubam de um modo profundo. Quando se misturam as coisas do corpo e da alma, rouba-se tudo que fica em volta e quase todo o mundo se subjuga ao feitiço que tem essa linguagem e as palavras de duração mínima que pronunciamos e que sustentam para sempre esses momentos.
Quando se misturam corpo e alma somos passageiros muito breves da idade e, ao mesmo tempo, viemos das mais imorredouras histórias de amor de todos os tempos.
Esta tarde gostava de te ter contado a vida de Hércules, mas não deu. Só deu para que tudo te sugerisse sobre o amor.

Thursday, January 29, 2009

A tua margem.


foto de Sean Marc Lee
Se houver um abismo entre o olhar
e o que aprenderes sobre o toque,
essa será a tua margem de liberdade,
a tua margem de amor,
porque aí tudo se pode guardar.

Wednesday, January 28, 2009

Os objectos.


obra de Joseph Beuys - Felt Suit

Toma a história dos objectos. Contenta-te com ela. Entra nos objectos e encontra-me. Ama-me dessa forma. Só existe amor verdadeiro se conseguirmos amar a ideia do outro nos seus objectos, permitindo que nos invada nos nossos.
Vai fundo nessa viagem. Encontra-me e reencontra-me por ai. Olha até que doam os olhos ou até que desse instante possa nascer uma frase qualquer em que te sintas e te revejas na pluralidade que conseguimos ser.
Toma-me nos objectos. Habita-os. Cria aí a casa e a alegria, a fuga e o desespero, a liberdade.
Deseja-me como se desejam as coisas de que ainda desconheces o nome, e enquanto desconheceres o nome chama-me e chama por essas coisas. Se não souberes, isso será o amor, o amor é esse desejo de chamar pelo que se desconhece. Toda a História da Humanidade sabe disso e sempre soube viver com isso.
Toma-me nos objectos. Há mais de mim aí do que por vezes no meu corpo. Há muito que viajei para fora do corpo e só o uso quando me apetece contar as histórias sobre esses objectos onde me encontras e te surpreendes ou em todos os outros de que ainda nem sequer suspeitas. Só uso o meu corpo para te contar histórias. Histórias bonitas sobre as coisas que ainda não conseguiste inventar mas que já sou eu, só porque tu queres. Só por isso.

Tuesday, January 27, 2009

O que se não diz.


O mais inquietante nos humanos é o que resguarda o seu rosto, os seus gestos, a sua postura. Tudo que é óbvio é um desperdício de condição, dado que a condição de viventes é extrema e perversamente curta.
Em todas as histórias, mesmo nas mais longas, o território do indizível ou do subjectivo é o seu maior tesouro. Que seria da arte sem esse espaço? Que seria da sensualidade e do amor? Que seria do mundo?

A margem de liberdade do indizível é a margem de liberdade do universo. A mais pura, a mais duradoura e a mais consequente.

Por isso, mesmo quando objectivamente dizemos coisas como:
-pronto não te suporto mais, vou mudar de vida!
estamos, no fundo, a abrir um promontório de subjectividades em nós e no outro que farão disparar os níveis de livre arbítrio de forma tão profunda e eficaz como das vezes em que dizemos:
-pronto, é infinito o amor que sinto e acho que seremos felizes para sempre.

O que mora no que se não diz é o paraíso e o inferno de cada uma das nossas marcas e isso, objectivamente é um tesouro, se mais não for para que haja o que dizer, por parte dos outros, acerca e depois de nós.

Sunday, January 25, 2009

As árvores e o nosso tempo.


foto de Margarete colhida em http://assobiodasarvores.blogspot.com/

As árvores resistem-nos inúmeras vezes. É bom que assim seja. É melhor para o depois de nós. Mesmo assim, ainda me entristece o facto de não haver muito tempo para vivermos com elas, como se vivia antigamente. Já não há grande espaço para que nos encontremos à sua sombra e possamos partilhar com os filhos o seu crescimento, ou gravar nos seus troncos os nomes e as vontades de infindáveis amores.
Tenho a sorte de ter no jardim uma nespereira que foi plantada pelo meu pai. Já falei dela aos meus filhos. De algum modo, é algo que continua vivo e que foi obra sua. Este ano comeremos as nesperas da árvore do avô e um dia, um de nós há-de descansar do calor do verão na sua sombra, e aí será também o sorriso do avô a devolver-nos a frescura. Pelo menos é assim que entendo as árvores e é deste modo que as vou entregando, para ser melhor o depois de nós.

O tempo e os lugares.


Há momentos em que o tempo é tão curto e a cidade parece uma casa gradualmente vazia. O desaparecimento das pessoas torna óbvia essa circunstância.
De repente, vamos pensando quantos dos nossos sítios já se esvaziaram, sendo que a tendência é que aumente o número de coisas inabitadas e a sensação de quarto vazio, de casa vazia. Porém, essa é a narrativa possível, ainda assim com alguma beleza, ainda assim agarrada fundamente ao privilégio que foi termos andado por cá, assistindo e partilhando o tempo em que tudo estava cheio, em que tudo parecia transbordar e tinha a fascinante e enganadora sensação de infinito.
Há coisas assim banais e rotineiras mas que não deixam de pertencer aos tesouros do nosso tempo, àquele pedaço da nossa vida que entregámos ao inesquecível, ao nosso, tão protegido, para sempre.

A lenda do rei e do pássaro


quadro de Roberto Chichorro.

para o Pedro, no dia do seu aniversário e regresso a casa.

Havia um rei que foi transformado em pássaro
e quando, de repente, lhe anunciaram que voltaria,
o rei olhou o céu, uma última vez, e perguntou-se
acerca de tudo o que lhe faltaria e de tudo
que uma vez mais deixaria à lonjura.

Nesse último instante,
o rei permitiu-se uma última lágrima de pássaro
e quando poisou sobre a forma de homem
a primeira coisa que fez foi perguntar como tratam os pássaros
no seu reinventado reino.

Saturday, January 24, 2009

Pergunta ao coração.


pintura de Frida Kahlo.

Teria ideia de quantas árvores povoam o coração,
de quantas aves planam sobre o mais longínquo dos céus
e de quantos rios correm pela extensão em terra
dos seus múltiplos países e de suas múltiplas crenças?

Teria ideia de tudo isto sobre o coração?

Teria um rasgo que fosse para erguer aí a intimidade?
E de seu infinito silêncio saber quantas léguas e quantos dias
são precisos para que, de cada um dos seus desertos, abrisse um sorriso
que irrompesse sobre o mundo e não dissesse nunca que foi do coração que veio
mas que é para ele que caminha, como só o sabem os peregrinos
e os que nada tendo para esse nada caminham,
julgando que aí reside todo o amor,
julgando que aí tudo reside?

Friday, January 23, 2009

O corpo de utopia.


pintura de Antoni Tapiés - One is not anybody

De noite pode ver-se a esquina das emoções.
Ficar parado nisso, contrastá-las com o céu,
dissolvê-las em muitos luares e outras tantas estrelas.

De noite pode soltar-se
um ser estranho, pouco perceptível à consciência diurna
e regular, e deixá-lo assim a perguntar a vida inteira
sobre o que não existe, sendo que isso mesmo é o seu corpo
e dele a utopia mais verdadeira que o mundo experimenta
de cada vez que anoitece nessa estranheza.

Thursday, January 22, 2009

Serenata à chuva.


E, supostamente há um lugar onde se possa parar à chuva e conseguir agumas boas frases para desencadear a razão do momento. E talvez, nesse mesmo lugar à chuva, se possa perguntar se tudo sabemos já sobre o tempo, sobre o ritmo dos invernos e sobre o que surpreende assim que este mesmo tempo aqueça e a natureza rebente.
Ter um corpo à chuva é uma simetria que se equaciona com os Deuses, sobretudo no domínio do desejo, do pensamento e só muito depois do gesto.
Antiquado e vivendo desajustado com os tempos, sempre que esta simetria se me proporciona, não resisto a chamar para o lugar a expressão desaparecida da «serenata à chuva» e a época em que falar de amor era uma coisa bem diferente.

Monday, January 19, 2009

A luz, a saudade e a liberdade.


Suportável é a luz dos objectos, a segurar o que resta para lá de nós na nossa própria vida. A luz que conta histórias, como contou sempre nos quadros de Edward Hopper, ou nas mais infantis e medonhas histórias da nossa infância, ou das esperas durante a nossa longa e quase infindável adolescência.
Acrescento: a luz dos objectos suporta-nos, além de ser suportável. Esta noite rememoro a luz que incidia sobre as cadeiras castanhas da velha cozinha, da sombra da maceira e do forno a lenha ao canto. Essa luz que vinha da janela que dava para o quintal e que também se reflectia na banca em granito que depois de seca ainda deixava brilhar alguns cristais. A luz sobre os objectos a trazer-me a luz sobre as minhas emoções em tempos longínquos. A permanência da saudade que não dói e que acrescenta.
A saudade e a liberdade caminham muito juntos em mim. É no território da saudade que encontro um dos mais preciosos elementos da liberdade: a intimidade. Não há liberdade que não seja íntima, que não reflicta a nossa marca e o nosso querer sobre o correr dos tempos. Daí estar para aqui a conviver com a luz dos objectos e com o que essa luz fez incidir em mim e como tudo isso, só de o pensar, me deixa feliz e mais livre. Porque ninguém nos rouba a memória, ninguém consegue penetrar nesse magnífico espaço tão nosso, nem regime, nem filiação, nem tão pouco os que amamos e que vão partindo.

A lava.



inspirado neste quadro de Isabel Ferreira Alves

Se o corpo fosse um risco negro
sobre a lava do desejo
e as palavras o azul
que na voz rasga
um desconhecido céu,

fugiríamos sem direcção nem regra
à procura de um deus que fosse de nós
não a memória da cratera ou do seu início
mas a pedra, a negra e eterna pedra
que do seu negro
pergunta as cores e confronta o céu
e é da lava o seu para sempre,
e do amor o segredo, o seu íntimo véu.

Sunday, January 18, 2009

Flor despida.




Pintura de Diego Rivera

Despe-te. Acontece o mesmo às flores em dias de brisa, em dias de chuva. Pronuncia assim o corpo e que apenas a luz e o tempo te possam tocar a pele assim que desabroches.
Despe-te, para que entardeça sobre as palavras rumorejadas e o lume possa soltar-se como se soltam as promessas de teres um corpo de flor despida e eu uma face de chuva sentida.

Que obra há em mim?




Que obra há em mim que não seja de mim
o entendimento do mundo?
Que mundo há em mim que o não entendo
e sendo obra apenas alcanço
se por naufrágio ou só descanso
meu amor nunca abandono?

E se assim for que sina vã
trará meu rasto, que louca e vazia
marca deixará meu dia,
que de amor seu coração nunca esvazia?
Pois os meus textos sepultados,
em fogo ou água despedaçados,
não sairiam nunca de seus olhos,
já que mais não foram essas palavras
que sobre si uma oração
e desta vida o gesto ténue e a condição.

Saturday, January 17, 2009

O fato do tempo.


pintura de César Taíbo - série «Bustos»

Talvez te vista de festa. De fato riscado, de camisa lilás. Talvez te prepare o mundo como o mundo já não é.
Digo que poderias ser uma espécie de homem sem tempo e sair pela noite à espera de te surpreenderes com o silêncio e com a beleza. Com o silêncio que advém da roupa das mulheres e na música que liberta essa indumentária que poderás pensar que é para ti, uma vez que já não existe nem é deste mundo.
Já morreu essa beleza e desse silêncio poderá abrir-se um infindável pacto com as idades que ainda não viveste e que já morreram também.
Talvez te prepare o mundo como o mundo já não existe.
Ouve. Há uma música qualquer, uma aragem, uma noite, uma rua e um desconhecimento que te empulga o que sabes não ser dos teus dias.
Pronto. É só assim que consigo expressar-te a saudade, a melhor de todas, a que te fala do que talvez nunca consiguerás ser, mas que alimenta tão bem o melhor que diariamente de ti rebenta.

Thursday, January 15, 2009

Querer saltar o dia.


foto de Cole Rise.

Queria saltar sobre o dia e não ser daqui. Ter um planeta inteiramente desconhecido e, se sobrevivesse ao espanto, começar a escrever. Começar a escrever como Deus deve ter começado o universo e morrer depois (como Deus ainda não fez) sobre o que provoca a obra criada, nomeadamente no que também nos devolve no domínio do espanto.
Queria saltar o dia e aterrar no teu corpo e não saber quase nada de mim. Assim estaria bem, e estaria tão bem abrigado no veneno mais doce que é, no teu corpo, o esquecimento.

Tuesday, January 13, 2009

A chave.


pintura de César Taíbo

As chaves com que te fechas ao mundo
são o meu enigma. Aí coloco as palavras
e delas faço nascer portas e estranhas fechaduras
onde tento arrombar a parte dos sonhos
que reservaste para mim.

A inocência.



Música de Chico Buarque - título João e Maria.

Desde que a inocência se não perca, havemos de viver para sempre. Tu ficarás com um corpo infinito e eu com uns olhos onde sempre cabem mais planetas e mais estrelas e constelações de espanto e de viagem.
Desde que a inocência se não perca, o desejo crescerá como só o fogo cresce quando soprado pelo vento e aí serão as tuas palavras o vento com o meu eterno rumorejar ao teu ouvido.
Desde que a inocência se não perca, havemos de inventar vendavais de coisas que ainda não disse, só para que o mundo se não feche numa adivinhada solidão , caso da inocência se desistisse.

Monday, January 12, 2009

O frio de hoje.


pintura de Xavier Cortada - título Wilkins

Esta manhã suporta-se, ainda que as guerras continuem pelo mundo, bem como todas as desgraças que continuam a empatar a humanidade.
Esta manhã em que o frio está longe de trazer toda a infância e a Vila que já não existe. Uma manhã em que o frio está longe de trazer tudo que aquecia o coração, mesmo quando os dedos doíam, assim que descia os caminhos em terra até à escola e nos entretíamos a quebrar os pendentes em gelo junto às bermas, como quem quebra a rotina e começa cedo a ser educado pelas difíceis, apetecíveis e, às vezes, perversas regras da beleza.

Sunday, January 11, 2009

Entrar-te nos sonhos.


foto de Abbey Drucker

Pronto. Agora é entrar-te nos sonhos, como quem entra para um autocarro, sem reparar na placa que indica o destino. É encontrar o lugar mais confortável e com melhor vista, o mais arejado e o que menos gente tiver por perto. Entrar-te nos sonhos e esperar encontrar-me com frequência, numa versão mais bonita e muito menos real e esperar ser feliz com essa imagem que cultivas de mim, mesmo quando não me reconhecer ou tropeçar numa irrealidade tão grande que se acerque da mentira.
Pronto. Agora é só não fazer de conta que esse lado irreal que são os teus sonhos não provocam efeitos neste meu lado agendado com o despertador e com o resto do mundo e fruir com outra leveza tudo o que ainda não sei sobre a calmaria das manhãs ou a subtileza das plantas, ou o nadar sempre tão para sempre dos peixes, ainda que de aquário.
Pronto. Estou pronto para acrescentar outro braço ou outra perna a este corpo que é mais do que um corpo e seguir por essas ruas que são mais do que ruas, são cidades invisíveis onde costumo morar e ser feliz. Pronto. É só entrar-te nos sonhos e ficar nesse promontório a originar vertigens e oceanos e esperar acordar muito tarde, como só acontece ao Domingo, quando não há nada para fazer.

Saturday, January 10, 2009

Revolver


Desenho de Egon Schiele

Deixa lá, há noites onde é preciso revolver o mundo.
E mais do que isso, há noites onde é preciso revolver
para se poder baralhar tudo e tudo perder,
só para que se conheça o ruborizado sentimento
do voltar a encontrar.

O Rapaz de Dickens.


Quando voltar ao frio estarás onde ninguém souber, numa rua de Dickens. Terei, então, sabedoria suficiente para ser um desses rapazes. Sabedoria porque só um sábio sobreviveria a esse contexto. E sendo eu um rapaz de Dickens e tu um segredo no seu coração, deixaremos o frio a erguer sobre o mundo a mais íntima e sofrida visão do amor.

Friday, January 09, 2009

Se o Henry Miller aqui passasse.



Se o Henry Miller passasse em frente a minha casa, a melhor coisa que aconteceria era eu poder pensar que estávamos vivos noutro tempo. Contudo, o Henry Miller era um malcriadão que nunca deve ter reparado num único pássaro na sua vida, ainda que fosse o melhor "fotógrafo" de um certo tempo e de uma certa gente.
Se o Henry Miller passasse em frente a minha casa eu fechava as janelas todas e só descansaria a ouvir a Marlene Dietrich no café Paris, enfiado no meu sofá da sala, que já foi o do meu pai, há mais de trinta anos, bebendo um bourbon com a mesma idade e depois perguntaria se me cabia a mim sair de casa também para amar-te longamente, nesse tempo, passando por gente que mais se parecesse comigo, ou seja, com uma espécie de gente que repara em pássaros e contorna em cada passo e em cada época a mais velada vertigem de um qualquer voo, ou apenas aquilo que encerra o mais simples canto.
Se o Henry Miller passasse em frente a minha casa confesso que ficaria tentado a queimar todos os seus livros que aqui vou conservando. Mas como não passa, continuo a reparar nos pássaros, a amar-te longamente e a encontrar nas suas palavras o meu melhor passaporte para um tempo que só existe em mim, também graças a ele.

A neve - 2


foto da Landa. O nosso jardim no dia de hoje

Aí te ofereço um corpo muito jovem, escandalosamente cheio de inocências e de mentiras por experimentar. Aí te ofereço a virgindade que é um estado desesperadamente entregue à desinocência que se segue.
Neva sobre o calor desse corpo antigo. Nele desenhámos uma série de rotas e de formas por onde equacionámos o frio dos tempos. Neva sobre o calor desse corpo que já mal me lembro, apenas sei que to poderei devolver e, se assim for, talvez te possa contar a seguir a mais bela história sobre dias com neve e terras distantes e distantes idades.
Neva se nevar sobre nós. O resto é tão só a aparência do mundo, o dos outros, meu amor.

A neve.


foto da Landa, mãe eternamente bababa, a guardar o momento assim que os miúdos chegaram do colégio

Não nevava assim desde os meus tempos de liceu. Eu não estava em Fafe. O que é lamentável. Não pude andar pelas ruas a ver a cara dos meus mais novos conterrâneos. Não pude espreitar uma estranha alegria que sempre vem quando neva, por nevar tão pouco por aqui.
Não nevava assim desde os meus tempos do liceu e mesmo assim não nevou dentro de mim.

Paisagens


pintura de Cathleen Rehfeld
1
Natural era agarrar as maçãs
e isso chegar para que tudo confundíssemos
com o verão.

2
As uvas, tu tinha-las na memória,
na mais funda e aveludada expressão da pele,
ou no vinho que inventava a alegria
no que era líquido no teu corpo
e me embriagava sobretudo a saudade.

Thursday, January 08, 2009

Chegar ao corpo


foto de Sean Marc Lee

Chegamos ao corpo. Como se chega ao fim do mundo.
Perguntamos em silêncio tudo o que possa ser confundido com o amor.
Desejamos que nenhuma parte de nós morresse nesse instante
e decidimos correr juntos e imensamente
apenas para que se pudesse ousar uma pequena dúvida sobre o destino:

- onde poderia ficar o fim do mundo, senão ali,
ali onde incendiados corriam os nossos olhos,
os que não conseguiam ver para trás, ter passado,
ter qualquer coisa que desmentisse haver um mundo
que tivesse fim.

Wednesday, January 07, 2009

Atreve-te


foto de Sean Marc Lee

Atreve-te a abrir uma varanda nos teus olhos
e a deixar que um rio parta daí,
um rio para justificar a vista
e nunca para que,de algum modo,
possas desculpar a tristeza.

O tempo e a felicidade


pintura de Kim Roberti

Quanto tempo leva a felicidade? perguntava ingenuamente o homem, muito antes de morrer e de perceber que o tempo que a felicidade leva é exactamente aquele em que nada é preciso fazer para a sentirmos, depois de tudo termos feito para chegar a esse instante, normalmente imorredouro, porque primordial à existência.

Tuesday, January 06, 2009

Os dois mundos.


desenho de Edward Hopper

Ao centro, há uma figura. Uma figura que é um tempo. A felicidade, às vezes, redunda nas figuras e nos tempos que não existem.
Quando as personagens da infância entravam na nossa vida e cometiam estragos, ou provocavam desvarios, eram figuras de tempo e tinham uma realidade efectiva.
Na idade adulta, o engenho reside na capacidade que vamos tendo para deixar correr no nosso tempo as figuras que se nos afiguram capazes de acrescentar ao mundo, sem que cobrem a este mundo mais rotineiro o que quer que seja. É assim com quem já não está entre nós, mas também assim com quem e com o que vamos vivendo, tendo absoluta consciência de que só se é feliz no equilíbrio que se vai conseguindo entre os nossos mundos: o tangível e o que só existe porque intocável, o das emoções, sejam elas pessoas, objectos, narrativas, sejam elas o que forem nessa parte do universo onde o que menos importa é o que as coisas são.

Monday, January 05, 2009

Até que.


Até que possamos ser uma cidade muito livre, pousemos os olhos no horizonte e fitemos todos os pormenores de que fomos capazes sobre a nossa liberdade e a dos outros.
Até que cheguemos aí, morramos onde já ninguém mora e comecemos no medo a erguer a casa que há-de ser a nossa verdadeira casa de nascença, até porque nunca existe uma idade certa para nascer.

Sunday, January 04, 2009

O ano em 40 segundos


One year in 40 seconds from Eirik Solheim on Vimeo.

Ser outro.


foto de SEAN MARC LEE
Existem noites que surgem da distância que tem a solidão efectiva. Um homem que espera é, quase sempre, um homem afortunado, ainda que o não saiba. Ainda que espere o breve instante em que se deparará com a sua própria finitude, saberá antes disso preparar a enorme ceia de que se compuseram todos os auges, todas as despedidas, todas as esperanças goradas e todas as glórias. E isso tudo é muito.
Existem noites em que se diluem as horas, por se não saber o que fazer delas. Mas mesmo aí se costumam abrir portas que dão para estradas muito longínquas e muito diferentes daquelas que ficam em frente da casa e do jardim. Nesse diluir das horas, corre o nosso homem pela ironia do tempo, para chegar ao fim da estrada e achar-se tão perto do primeiro gesto que o fez ter a enganadora e doce impressão de que era um pássaro, um carro veloz durante o verão, ou um homem, um homem qualquer que nunca tivesse sido, que desconhecesse profundamente, e que gostasse dele à primeira vista, como só no amor acontece.

Friday, January 02, 2009

Entreaberta.



Tenho uma janela entreaberta para o mundo. Vou-a abrindo cuidadosamente, para que não fuja a intimidade, para que não entre frio algum que eu não seja capaz de suportar, para que não saia rumor de nada que não possa ser oferecido à liberdade.
Tenho uma janela entreaberta e deixo aí testar o sol, a sombra das chuvas, a luz da manhã e o seu desmaiar muito cedo nas tardes de inverno.
Tenho uma janela como se tem um braço capaz de abarcar quem é de dentro ou uma mão muito sábia que para além da própria carícia sabe devolver em verdade a sua memória e a sua sevícia.

Thursday, January 01, 2009

Destas flores.



foto de Rion Nakaya

Destas flores, descobre a história do mundo e do momento. Descobre a cidade e a narrativa dos instantes onde ficarás para sempre. Deixa-te assim a conversar sobre a intensa luz que guardam os objectos, aqueles em que quase ninguém repara. Guarda aí toda a infância, descansa aí todos os excessos e pensa no que afinal ainda é fiável em ti e na tua história.
Destas flores, parte para o meio da cidade e pergunta o que nunca te ocorreu. Espera então que o mundo te responda e, só assim, retornes ao que é teu.

Os sonetos do meu pai.


Abro o ano remexendo os sonetos do meu pai, lendo-os pela primeira vez.

Uma folha que se arranca ao outono
é uma pétala que se acrescenta à eternidade,
se devolvida ao olhar primeiro
e aí roubando o que nunca teve idade.