Monday, November 30, 2009

Nelson de Quinhones e Arthur Napoleão



filme de Jesus Martinho, na sua FALAF revista on.line de cultura.
aqui http://falafcult.blogspot.com/

Refúgios.


Esta noite, de descanso, de resguardo, regresso a Elis e a esse íntimo murmúrio dos sonhos. Levo a mão à escuridão do desconhecido e acarício-o como se fosse um rosto para amar nos últimos instantes de uma qualquer vida.
E pergunto, pergunto sempre, de que serve acordar para o mundo se não perseguirmos o lado adormecido e edílico das nossas coisas, das nossas palavras, dos nossos lugares?
Sou um vigilante do teu sonho e roubo-to porque te amo. Para to poder dar a seguir, do mesmo jeito que o mais belo bandido te foge com a idade, para te falar do paraíso, desse desconhecido e regrado paraíso onde enjaulou todos os deuses, para subjugar à tua própria infinitude, à tua incomparável maneira de lapidar o amor, para que só entre os dedos segures a ideia de Deus sem paraíso para ofertar, o que os teus dedos segredam e guardam, entre o que deixas e o que levas, esse teu tão justo e tão humano para sempre.

A sombra





Atira sobre a sombra os dias solheiros de que te lembras.
Ergue-os no fosso da saudade, mas não deixes de partir.

Não há beleza que seja suficiente para que preso fiques
ao que já só é teu porque não existe ou em ti ficou
como se tivesse de contigo morrer alguma vez.

Wednesday, November 25, 2009

A inspiração


(foto colhida por mim nos clubes de leitura que organizei na ESEF)

Há coisas que se ensinam e que não têm preço. Há uns vinte e tal anos, eu estava em Várzea Cova a estudar os núcleos rurais e a arquitectura da freguesia. Estava um dia de sol. O Zé brincava no banco de trás do carro, um Fiat branco se a memória me não engana, ele fumava entusiasmado um ventil e explicava-me, com um brilho no olhar que não esquecerei mais, a importância de salvarmos a paisagem, a importância que tudo aquilo tinha para o que éramos e para o que viríamos a ser. Ou seja, dito de outra forma, ele ensinava uma coisa maravilhosa de se ensinar e que só alguns conseguem. Ensinava a amar as coisas, os lugares, as pessoas, a sua História. O Dr. Miguel Monteiro teve a capacidade de educar a minha e outras gerações a olhar com intimidade o espaço público, a torná-lo nosso, a fazer parte do que pretendíamos construir em nós mesmos, na companhia dos outros.

Homens destes mudam o rumo dos lugares, são uma espécie de guardadores dos lugares, cuidadores permanentes, gente que veio para que nos demoremos por cá, mas que nos demoremos por dentro, a sentir cada gesto que outros deram antes de nós, os gestos que estiveram no alicerce do nosso próprio gestualizar. E isso é também uma grande lição acerca de como se pode combater a solidão do olhar e o isolamento das ideias. Esta visão implicada do tempo que ele nos deixou faz parte da forma como conseguimos erguer a nossa própria felicidade e o nosso jeito de não estarmos sós. E tudo isto nos era dito e explicado como se de uma aula se tratasse, uma aula para a vida, uma aula para sempre. Talvez todos os professores devessem começar por aqui. Devessem começar por ensinar para dentro e só depois enquadrar o lado mais materializado do conhecimento. Talvez fosse esse o segredo. Talvez fosse essa missão.

Há vinte e tal anos, ele trazia-me de regresso a casa e no carro trazíamos uma riqueza que não sei como se pode pagar, porque não tem preço esta transmissão de saber que empresta ao coração a capacidade de nos darmos ao que é de um território comum, e que, só na aparência, é uma coisa apenas pública. O Dr. Miguel Monteiro é uma inspiração para que possamos requintar os nossos contornos de entrega a esse magnífico e singular encontro com os outros, tirando daí o significado que se não pode desbaratar por ser tão curto o tempo que temos para estarmos com os outros, para mudarmos com os outros.

A ideia que defendeu sobre a cultura e que marcou tão fundamente a nossa terra, elevando a discussão cultural, a atitude cultural de forma ímpar, nomeadamente no tocante à criação do museu das migrações e das comunidades portuguesas, é um exemplo que se reproduz e reproduzirá pelo forma como nunca abdicou de pensar que uma terra pequena como a nossa não estava condenada a qualquer tipo de pequenez de pensamento, de criatividade e de iniciativa.

O Dr. Miguel Monteiro, meu professor, meu colega e meu amigo, estará connosco de cada vez que algum de nós ousar, de cada vez que algum de nós não trair o brilho no olhar que o estar vivo nos merece, de cada vez que algum de nós olhar o impossível e tiver a certeza de que isso é mesmo connosco, como aliás sempre nos ensinou, como nos inspira e como justamente ainda nos ajudará no que restar do nosso próprio caminho.

Tuesday, November 03, 2009

Ciclos



Há uma folha que se desprende durante o outono.
Depois disso, complexa se torna, retornando à terra,
originando vidas imensas, começadas no olhar
que lhe colheu o instante,
terminando no princípio de tudo o que desconhecemos,

seja isso um Deus ou um bicho, maravilhoso bicho,
tão descendente de nós quanto o que dissemos e amamos,
alimentando o dia, alterando-o, colocando-nos no ciclo
milagroso de sermos sempre essa alguma coisa
que prosegue, sendo parte de nós ainda.

Sunday, November 01, 2009

Dia de todos os santos.



Guardava o livro entre as mãos.

E, pelas mãos,
entravam os anos todos, as idades todas.
E, como na vida,
havia o livro de acabar um dia.
E, como na morte,
depois do fim alguém ficaria para o contar

uma outra vez, e outra e mais outra...

Sunday, October 25, 2009

Dois livros no Outono.


PMM
De regresso ao Outono de Bruxelas. Aproveitei para chegar umas horas mais cedo, gastando a tarde de Domingo no retorno aos alfarrabistas, um dos meus sítios preferidos desta e doutras cidades. Dois achados: um livro pedagógico sobre a obra de Alexandre Dumas «Les frères Corses» e um interessante texto sobre a memória, de Lydia Flem: «Comment j’ai vidé la maison de mês parents».


Um Outono com livros é uma imagem que se me assemelha ao paraíso. Amanhã, recomeçam as reuniões de trabalho na Comissão Europeia. Amanhã, à custa da tarde hoje, o mundo estará maior do que já esteve. E isso é o mínimo que podemos exigir aos nossos passos, à magnífica oportunidade de andarmos vivos.

Esta tarde em Bruxelas, à procura de livros, de imagens, de palavras para escrever mais tarde, ou quando calhar. Mas procurando, procurando sempre, porque nunca se vive eternamente, porque, inevitavelmente, há-de chegar a hora em que pararão todas as procuras e, se tudo correr bem, há-de ser outro alguém a procurar-nos pelo mundo, onde hoje procuramos o que queremos que em nós exista, nesses espaços tão inexistentes, mas tão nossos, tão o nosso para sempre.

Tuesday, October 20, 2009

Copenhaga por dentro.


Um frio literário em Copenhaga. Tão literário que tive de comprar um casaco de inverno e agasalhar-me enquanto calcorreava as ruas à procura das casas, das cores e das sombras que povoavam as histórias da minha infância.

Gosto de chegar às cidades e confrontar-me com as cidades que imaginei ao longo da vida. Não para me certificar se elas correspondem ao que tinha imaginado, mas antes para descobrir nelas aquilo que pensei, aquilo onde me demorei a construir estéticas, desejos, passagens pela vida em torno de uma qualquer coisa muito parecida com a liberdade, por se tratar de partidas constantes para lugares que só existem porque deles assim nos fomos apropriando, porque assim os fomos lendo para nós, num exercício muito íntimo e muito livre.

Quando era pequeno, imaginava as cidades do norte da Europa com cores quentes, muito diferentes do branco e do cinzento que tinham as nossas vilas. E nessas cores conseguia entrar para um frio que, também ele, era muito diferente do nosso e trazia consigo a lonjura que é das coisas mais belas de se sentir, a par da saudade.

Quando cheguei a Copenhaga, mudei-me para esse estado de alma e fui à procura de vozes, das vozes que me liam histórias na infância, a voz da minha mãe a incentivar-me à leitura com bocados de narrativas de uma caríssima colecção de livros que então me oferecera, mesmo antes de eu saber ler, da voz da minha avó que me contava continhos e de outras vozes que me fizeram chegar as fábulas de La Fontaine e os contos de Hans Christian Andersen. Andei pelas ruas a fotografar janelas e a esperar que tudo pudesse voltar, não por saudosismo, mas pela necessidade que sempre tenho de tornar intimas as coisas, as pessoas e os lugares.

Em Copenhaga, recuperei o olhar do meu primeiro palhaço e da contra-luz de inverno que sobre a sua face caía, quando entardecia na varanda das traseiras da casa do Largo e havia um silêncio, quebrado apenas pelo ruído das panelas sobre o fogão, quando a Dores preparava o jantar. Esse ruído das rotinas da casa a marcar o tempo, a marcar o ritmo das vidas de então, tão diferentes das de hoje, tão compassadas, anunciando-se uma a uma.

A casa tinha essa musicalidade: as janelas de guilhotina a abrirem-se soavam às manhãs de primavera, o abrir dos gavetões das cómodas anunciavam o começo dos dias, as idas para a escola, a saída matinal da família, o som dos pratos e os talheres anunciavam as refeições e a chegada de todos à mesa de família. Mas havia também os sons sazonais: o burburinho do Outono quando se punham as panelas ao lume para fazer geleia e marmelada, o som dos fritos de natal, o som dos copos mais finos e mais bonitos que tínhamos para celebrar a Páscoa e a visita do Senhor Cónego Araújo, o som que teve a velhice do avô Bernardino através do abrir e fechar da porta do seu quarto, com a sobriedade que sempre lhe reconhecemos.

As casas têm esta música, tão funda e tão importante para cada um de nós. Uma musicalidade de que só nós nos lembramos, por ser efectivamente a mais importante da nossa vida, às vezes por não voltar, ou por se ir despedindo como nós mesmos nos encontramos e nos despedimos do mundo, desde o dia em que nascemos.

Em Copenhaga, retomei tudo isto e tive uma espécie de ajuste de contas com a memória. Um ajuste que valeu por ter acrescentado ao tempo passado, por ter, outra vez, a magnífica sensação de que a maior riqueza que possuímos é a capacidade de não passar em vão pela vida, é não deixar que as coisas não signifiquem, é ter sempre um tesouro para usar assim que se chega ao tempo e aos lugares, ter um tesouro para esbanjar, um tesouro no coração.

Sunday, October 18, 2009

A Campanha


Durante a campanha eleitoral autárquica, reservei-me o direito e o prazer de regressar a lugares onde já não estava há muito. Quero dizer que, de algum modo, regressei à Vila. Uma campanha pode ser inúmeras coisas. Entre elas, estão a redescoberta, o contacto e o reencontro. No Largo, a tinta do Martins da Avenida já quase se não vê. Quando a olhei, da Arcada, regressaram as pessoas de outro tempo, os seus significados e as suas inspirações para o tempo presente. É assim a minha forma de lidar com a vida, nunca estando só, nem me limitando a um só tempo ou uma só circunstância.


As caminhadas da campanha são estimulantes pelo testemunho que vamos colhendo sobre o correr dos tempos, sobre as vontades das pessoas, sobre a história de cada um com quem se pára e que nos transmite, em tempo brevíssimo, porém eficaz, o que anseia para a nossa cidade e para o nosso concelho.

Um desses regressos foi ao Bairro da Fábrica do Ferro, local onde tantas vezes andei, primeiro com a minha avó, mais tarde com o meu primo Paulo e onde subiram as emoções ao reparar em pequenos pormenores que já, talvez, poucos notem. Ainda por lá existem alguns postes de luz do início do bairro, ainda se conservam as altas portas de entrada, da fachada original, ainda lá se encontra, pela tarde, uma quietude que faz lembrar o tempo em que eu e o meu primo levávamos o velho pastor alemão, o Roy, até ao parque infantil, local que o próprio escolheu para morrer, junto dos miúdos com quem fora um cão feliz até ao fim dos seus dias. Mas, também o Bairro da Fábrica que guarda a mais esclarecida e combativa classe operária de que tenho memória, os operários da resistência à ditadura, os operários que arriscaram tudo dentro do tão pouco que tinham. Os operários que continuam a ser para mim uma inspiração e um modelo de entrega e coerência para com as sua interpretação da dignidade humana.

Ao cimo, a Pegadinha e as primeiras casas que o meu pai construiu e a imediata memória, não dos edifícios em si, mas do que ali começava no tocante à realização dos seus sonhos e da conquista da sua própria liberdade. A Pegadinha é também o lugar da minha própria origem, esse bairro do meu bisavô, onde os meus pais se conheceram e alimentaram um amor que durou 41 anos. No fundo, é para isso que as coisas servem: para nos acrescentar à capacidade de sermos coerentes e capazes face á nossa tão própria e quase tão única noção de felicidade. Pensei para mim que o meu pai começou a ser realmente feliz a partir daquele lugar. Isso me basta para que o encare como uma marca, um ponto no mapa emocional que vou desenhando ao longo da vida. Todos nós os temos, um pouco por todo o lado.

É um pouco em tudo isto que também fundo a minha vocação política e a minha forma de encontrar razões para a política. É por sentir que o tempo não é uma coisa qualquer que possa passar ao lado do nosso próprio compromisso com a vida. A política deve emergir de um sentimento de pertença e de uma necessidade quase inexplicável de não conseguir deixar de cuidar das coisas. A política da acção, do fazer parte, do envolvimento, nunca restrita às instituições e aos lugares, mas fundada num estado de alma que inquieta e que nos impede de ignorar o pulsar futuro.

O que entusiasma na política, e o que faz realmente mudar o mundo, não é a obsessão por lugares de eleição, mas antes a insistência em participar, seja nas instâncias de decisão ou fora delas. Conheço bem os dois lados e asseguro que ambos possuem força suficiente para que se garanta o nosso espaço de intervenção. Mas sem a inquietação de que falava atrás, nem num lado, nem no outro, conheceremos esse prazer imenso que é a política.

Quando olho para Fafe reconheço as inúmeras inquietações de tantos e tantos cidadãos que ajudaram a erguer esta ideia de concelho. Grande parte não passou pelos locais de decisão mas fez parte da decisão, pela inspiração proporcionada, pela acção levada por diante, na sua rua, no seu bairro, no seu local de trabalho, nas suas associações ou nos seus partidos. Fundamental em política é perceber que a política é isto. E foi dessa política que andei à procura e foi essa que fui encontrando um pouco por todo o lado. Foi, também por isso, uma campanha coerente e obviamente feliz.

Regressos.


foto de Krzysztof Ludwig

De volta ao tempo do frio, às casas e aos lugares que guardo e que já só existem numa reserva de memória. Chegou à cidade um friozinho este fim-de-semana, trazendo-me as madeiras dos quartos da casa do Largo, as madeiras que ainda resistem, mais de cem anos após a sua compra pelo bisavô Rocha.
Tenho o privilégio de guardar as minhas roupas numa cómoda comprada para o enxoval da minha avó Arminda que morreu nos anos 30. E de cada vez que a uso, é como se voltasse às histórias e à vida do avô Bernardino, à minha infância ao seu lado, mas também a tudo quanto aquele móvel testemunhou e eu não soube, mas que faz ainda parte do lado íntimo da nossa família.
Com a chegada do frio, chego-me a estas memórias e, como as formigas, consigo preparar de forma mais amparada o futuro. Os dias chegam com uma espécie de moldura que conforta as angústias, que se interpõe ao medo, que nos faz sentir uma parte do tempo que é sempre um tempo de interpretação partilhada.
Do frio chegam notícias de todos, pequenos rasgos de ternura e dessa maravilha que foi conhecê-los, sobretudo os que partiram e que me deram o privilégio de ser alvo do seu amor, das suas preocupações e dos seus desejos.
Daqui a dois dias parto para Copenhaga, onde está um frio maior do que o de cá, mas tal como nos contos de Anderson levarei um coração que nem o fogo consumirá, por ter sido depositado já no peito de muitos, no tempo de muitos. E dos ciclos do tempo, nesta primeira incursão pelo frio deste ano, retenho a sua simples e complexa formação, a sua curta e longa duração, o seu lado palpável e intocável.
Como na história do soldadinho de chumbo, este fim-de-semana recordando os que foram atirados já ao fogo do tempo, recuperei os corações e as pedras preciosas que deixaram e que vou guardando, as mesmas que saem de mim para os que ficarão e que também desse fogo se aquecerão um dia.
Como nas histórias mais antigas, são imperecíveis os móveis, as casas, os lugares, quando são de dentro e, por dentro, vão passando como o grande testemunho dos viventes, como as histórias onde cada um nunca abdicou do seu não estar só.

Tuesday, October 06, 2009

L'infortune



Um texto ficcional sobre a exposição da obra gráfica e desenho de Júlio Cunha, em Fafe, no mês de Setembro de 2009. História ditada pelas obras «L’infortune», «Le Silence» e retratos, com a música de Nelson de Quinhones.

Sunday, September 20, 2009

O outono que vier



Saímos de casa para receber o outono. As palavras eram cada vez mais lentas como se tentássemos hibernar a espontânea existência de quando é verão. Coleccionávamos a cidade, cada pedaço, cada sonoridade, cada pessoa, mesmo aquelas que já havíamos coleccionado em outonos anteriores.
Sabíamos que estava para chegar o frio e o mais terno confronto com a intimidade.  Sabíamos que ninguém nos consegue roubar o coração por esta altura. E sentamo-nos. Sentamo-nos como se um longo filme passasse pela nossa vida e não resistisse a contar o quanto já vivemos, mesmo sendo futuro o outono.
Neste tempo, diz-nos então o silêncio que o devir é uma espécie de paixão entre as idades, é um doce desconhecimento, uma equação intraduzível, um resultado que, mesmo pondo-nos mais próximo do fim, nos distancia e nos exila nesse lugar futuro com vista para o que é de sempre e nos ampara e reinventa.

Tuesday, September 15, 2009

Breve de Verão 14

Sobre esta foto de Isaac Pereira

Atiram-se a nós as memórias. São bichos.
Feras que nos mordem e deixam a agonizar no mundo a idade.

O tempo não morre nunca. Mas despede-se.

Monday, August 24, 2009

Breve de Verão 13


sobre esta foto de Isaac Pereira

Já desaguou nesta sala a luz de repetidos verões,
sem que se tivessem apagado do espelho as imagens da tua tristeza,
as tuas esperas e as tuas ânsias, quando à tarde uma brisa corria
e, anunciando a noite, a mesma luz te entardecia.

O espelho, esse sim, guardava a casa, guardava tudo.
Como hoje ainda guarda todos os corações que tiveste.

Hoje, que já não estás. Assim o sendo há muitos anos.
E ainda lá estão os verões, aquela sala
e os nossos nunca mais, à espera de um calor
que os faça ressurgir e aí te alcance
como só no coração de um velho espelho é possível alcançar.

Thursday, August 20, 2009

Breve de Verão 12


sobre esta foto de Isaac Pereira

Já não há jogo que defronte o que fomos.
A cadência das coisas é igual à cadência das bolas
que atirávamos no verão e que se não ouvem mais.

Contudo, ainda ameaçam as chaminés, os telhados
e os muros. Por dentro, tudo arde
como só no inverno se consegue que arda,
escondendo-nos, nesse jogo, os desaparecimentos.

Enterra-os na paisagem
como enterras o amor nesse coração
que vive em desgarrada e nunca parte,
inventando nesse gesto a sábia geografia
da solidão e da beleza.

Thursday, August 06, 2009

Breve de Verão 11



sobre esta foto do Isaac Pereira

Vou-te arrumar o vazio.
Falta-me quase tudo.
Nem sequer consigo começar
por te falar do medo ou da felicidade,
porque há paraísos
que são infernais de enunciar
e infernos claros no seu engano.

Comecemos pela matemática das coisas.
Devagar. Digo um. Tu és um.
Isso nos bastará aos dois.
Ou não?

Sunday, August 02, 2009

A casa do avô.



Pintura de Gustave Caillebotte.

No início de um curto período de férias, aproveito o verão para retornar à casa da infância, ao seu silêncio, às suas habituais distâncias, aos seus inevitáveis mistérios.
- Quantos dias tem uma vida?
poderia perguntar-te se, efectivamente, tudo soubesse sobre o desaparecimento. Mas como quase nada me ocorre a esse respeito ou sobre essa magnânima questão, apenas te garanto que enquanto houver a memória das limonadas no jarro esverdeado e os pássaros no quintal e a dança da cerejeira sobre as manhãs de agosto, esta estranha, mas tão pura, espécie de Liberdade há-de ser a razão e a solução que nos desamarra da tristeza e nos reforça o coração.

Monday, July 27, 2009

Breve de Verão 10


Pintura de Miguel Angelo

Pronta a imagem das árvores,
das aves em trânsito, dos mares.

Pronta a mão de Deus
generosamente à espera
que seja teu o Seu próximo gesto.

Thursday, July 16, 2009

Breve de Verão 9


Há-de existir uma cidade
onde sejamos uma coisa qualquer
despida de tempo,
vestidos tardiamente pelo que lembramos,
fugidos a cada instante pelos becos
onde se escondiam os ladrões, os amantes
e os que desejavam uma vida diferente,
aí deixando o rastejar inigualável dos sonhos.

Wednesday, July 15, 2009

Breve de Verão 8


foto de Mikael Kennedy

Sometimes, it happens like in a movie.
But, sometimes, a movie is nothing more than an empty cinema
or a town waiting for the seasons,
when the seasons are something hard to discover or understand.

Tuesday, July 14, 2009

Breve de Verão 7


foto de Stew Dean - Londres

A brisa da tarde e as ervas daninhas
prolongam as mãos e os olhos que temos
para a cidade que se ergue no verão
como um corpo que ainda não amamos
mas que era perfeito para nós.

Breve de Verão 6


Por entre a manhã, talvez se salvem
a imagem dos lírios, as casas velhas,
as portas gastas,

talvez se salve em ti a antiguidade
que poisas sobre a tua noção de finitude
ou de lonjura.

Monday, July 13, 2009

Recomeços



Recomeçar do branco o lugar.

Recomeçar as cortinas e o vento
os lavatórios e as manhãs.
Recomeçar no coração o que imaginaste
e que te inventou a tristeza
de onde sempre foges
com olhos de um para sempre.

Recomeçar a manhã, ainda branca
de esperança.

Sunday, July 12, 2009

Fecha-te.


pintura de Peter Paul Rubens - Leda and the Swan

Concreta a ignorância da alma sobre o momento. Nada há de mais concreto do que não entender o seu tempo e o seu contexto. Ainda que por poucos instantes, por dias, ou por horas. A ignorância da alma é mais palpável que um ferro em brasa, que um rochedo no corpo da terra, que uma tempestade face adiante.
Quando não sabemos o que fazer do espírito ou que fazer com o espírito, há algo que se desliga do mundo e abre no coração uma escuridão anónima. Toda a gente passa, uma vez que seja, por este sentimento.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Apaga o mundo. Despede-te das horas,
tentando ter algo para lhes dizer.
Não olhes vez nenhuma para o céu,
nem colhas do sol a luz crua
que tudo inventa à face da terra
e que te poderia gerar alguma frase
ou alguma réstia de expressão sobre as coisas.

Fecha-te como um cisne sobre o teu corpo.
Silencia-te e espera que da noite
possa emergir um lago de águas frias e puras
onde, a pouco e pouco, possas reerguer
a memória mais evidente
de quando um gesto tocava o dia
e o seu reflexo gerava a asa
que dele irrompia
deixando para trás a angústia
e a sua cruel e geométrica exactidão.

Saturday, July 11, 2009

Como amanhã.


Há coisas que o tempo aumenta. Uma delas é a saudade. O meu pai partiu há um ano. Está maior do que nunca em mim. Depois da sua partida, nunca mais a vida ficou igual ao que era. Está enorme a vida. Às vezes, é como se cortasse a respiração. Outras é como se tudo estivesse mais íntimo. No meio de tudo isto, a única beleza é a de estar provado em mim que a morte é uma coisa que existe de forma muitíssimo relativa.

Hoje, a casa do lobinho
tinha uma luz que vinha de sempre
e a nossa casa pela manhã parecia que cheirava
ao café com leite e ao pão torrado.
Hoje,os pássaros voltaram a comer na varanda
e o jardim voltou às hidrangeas e às japoneiras.

Hoje, voltamos a inundar a face do mundo,
como ontem e nos últimos tempos,
como amanhã, pai.

Friday, July 10, 2009

Encontro com Gérald Bloncourt



Esta tarde, na Casa Municipal de Cultura de Fafe, conheci pessoalmente Gérald Bloncourt. Já tinha escrito sobre as suas fotografias antes. O que mais me impressionou foi senti-lo em Fafe como se o encontrasse em casa. Deu-nos 200 fotografias para o espólio do museu da emigração. Veio cá para nos conhecer. Vai encontrar-se Domingo com Manoel de Oliveira que também cá vai tornar para almoçar cabrito e ver as festas.
Provinciano como me orgulho de ser, fico regalado quando gente desta dimensão se abriga aqui na nossa terra e nos visita porque lhes apetece. Ter Bloncourt e Manoel de Oliveira a ver a procissão da Senhora de Antime é algo que me remexe a pele e me consolida a esperança num futuro sempre a melhorar neste pedaço de paraíso onde nasci e pretendo morrer.
Voltando a Gérald Bloncourt não resisti a propor-me escrever uma nova série de poemas sobre cada uma das fotos que estão na exposição. Oferecê-los-ei ao museu.
O nosso Presidente estava, como mais gosto de o ver, implicado e a agarrar aquilo que é efectivamente a essência da nossa terra e que garantirá o futuro. Já ninguém nos tira Bloncourt, já ninguém nos rouba a magia desta tarde nas nossas vidas e na vida da nossa terra.

Breve de Verão 5


As calçadas no Verão parecem pontes.

Pontes entre os Tempos.

Pontes com vista para a saudade
ao fundo
onde sempre espera o Outono
e a lenta visão do cair da idade.

Breve de Verão 4


Corpo de bicho do Verão.
Lagarto a perguntar ao chão
a íntima história dos rastos
para envelhecer com a sensação
de ter vivido.

Monday, July 06, 2009

Breve de Verão 3


pintura de Qi Baishi

Qualquer dia, estarei a chegar onde só chegam os insectos
e beberei da manhã a luz toda e conhecerei dos frutos
o seu mais lento e perfumado entardecer.

Friday, July 03, 2009

Breve de Verão 2


pintura de Qi Baishi

Esta tarde ficaremos a comer lichias
e a testar o orvalho
que irrompe sobre o verão
para inundar de saudade
a mais reluzente e suculenta solidão.

Thursday, July 02, 2009

Uma flor para Pina Bausch


Pina Bausch parou ontem. Quando entendia que, na dança, «não importa como as pessoas se movem, mas o que as move» dava ao mundo uma interpretação extensiva a qualquer forma de expressão artística.
Ontem, acordei com essa paragem de uma das mais intensas vozes da arte do nosso tempo.

às vezes é um língua que nasce.
não uma linguagem. uma língua
onde a pouco e pouco se fossilizam as almas
e os corpos e os gestos e as cores e os aromas

até que a percamos de vista
e ao seu nascimento não voltemos
por ser fundo e ser longínquo
e ser já da mais limpa pertença do nunca mais
e do para sempre.

Tuesday, June 30, 2009

Oração da tarde


Há um momento em que a tarde
tem o corpo das idades que não chegaram

e aí exilamos todo o amor, todo o poder,
toda a esperança.

Há um momento em que a tarde é uma oração
e como todas as orações
reserva em si um mistério, uma fé,
um ter a absoluta certeza de que não somos
só daqui.

Breve de verão.


pintura de Henri Fantin-Latour

Atende a um certo silêncio do verão.
E amadurece o olhar na intimidade dos frutos.

Tuesday, June 23, 2009

O mundo dos outros.


Poderia deixar-te uma mão, ou só um gesto. A infância onde escondes o mundo. E se um dia morreres, talvez ninguém saiba. Talvez ninguém diga.
Poderia deixar-te nessa vertigem onde desvarias as palavras e o olhar, apenas para que nunca morra no teu pequeno peito o universo que te deram e sobre o qual jamais coube o entendimento, não o teu, mas o de uns outros que não sentes.
Nesses, perguntas pelo tamanho do mundo e, nessa inocência, repetidamente vais criando o vazio e o seu inerente sofrimento.

Poema sobre a espera


Sôfrega a respiração
no assalto aos gestos tardios.
A face a colocar no horizonte
o limite das estações e o seu ritmo.
O olhar esperando na companhia solitária
dos frutos e da sua doçura.

Saturday, June 20, 2009

Verões.


Com o sol de volta à cidade, com o verão a entrar pela casa, abro uma janela na manhã da memória e retomo o Largo e as suas sonoridades matinais que eram quase sempre de festa. O verão começava com os santos populares,as cascatas e as esmolinhas para o santo, mais tarde vinham os franceses e depois chegávamos a Setembro com um cheiro a recomeço e a outono. Na infância recomeçava-se em Setembro, porque em Outubro recomeçavam as aulas e avançava pé ante pé o inverno, onde sempre se descobriam as dores do crescimento.
Na altura, na Vila, até os riscos da calçada em cimento, aos losângulos, nos serviam para aí construir carreiras paras as caricas, estradas para os carrinhos, tudo bem limpo com os paus dos gelados de laranja, em gêlo, os mais baratos e os mais frequentes.
Os verões com os bonés azuis escuros, de pala redonda, as sandálias de fivela. Os verões esperançados pelo sorvete do Alcininho do Império, ao fim da tarde, a única máquina que por cá houve durante anos. Os Verões do Tang de laranja e das barracas de farturas e brinquedos, dos primos que vinham de férias e da duplicação de acidentes e arranhões.
Nesta manhã de sábado, está assim o meu verão, e assim tentarei manter-me, no doce engano de que se pode prolongar por muito mais tempo este estado de verdadeira e profunda felicidade.

Thursday, June 18, 2009

Poema breve sobre o amor


Às vezes, és uma ilha, uma rocha a boiar no oceano.
Outras, um coração submerso
a medir a lonjura entre a água e o céu,
entre o amor e o seu infinito.

Ricardo Rangel


No passado dia 11, morria em Moçambique Ricardo Rangel, um dos seus maiores fotógrafos de sempre.
Sobre a fotografia «Modelo de olhos tristes», tirada em 1962, fica este texto:

Há um mundo que começa e acaba na tua face.
As histórias que não foram escritas.
As danças que não sairam. As coisas por dizer.

Há um mundo que começa e acaba na tua face
e só tu sabes. E só o amor ou a arte
correrão o risco de revelar,
mudando-se para sempre.



Tuesday, June 16, 2009

Uma escada para a idade


foto de Eudora Porto
1
Uma escada em direcção à manhã que já não existe.
Uma escada em madeira, antiga, de sucessivas vindimas.
Uma escada que guarde risadas e cânticos
e toda a poética das uvas
antecipando o mel ou o vinho.

2
Quando uma criança olha a escada das vindimas
deseja-a.
Quando um velho olha a escada das vindimas
deseja-a.
Só há uma idade na vida em que se não deseja
a escada:
aquela em que se confunde o nosso com o seu
corpo.

3 poemas breves sobre a infância.


I
Eram ainda os pássaros breves da manhã
a erguerem uma cortina de lonjura e infância,
inacessível ao olhar mais estranho,
imprescindível ao dia mais puro.

II
Na tarde o aroma das videiras americanas
e um equivalente peito de desejo,
e lendária doçura.
Nunca mais esse erotismo da inocência.
Um nunca mais e um para sempre.

III
Provava então o frio. Os seus primeiros sinais.
As primeiras chuvas.
As primeiras vezes em que a casa ajudava imenso
à ideia de abrigo,
ao sentimento de haver uma intimidade impartilhável.

Monday, June 15, 2009

Na ilha de Malta.



Aterrar em Malta, a meio da tarde. O calor do Mediterrâneo e do norte de África. Os primeiros pensamentos foram para Bogart. Ou seja, a primeira reacção é a de fugir deste tempo e ficar noutro por momentos, estando aí muito bem. Estando como em casa, numa casa que nunca foi possuída mas da qual conhecemos os cantos e os refúgios.
Meio da tarde em Malta, para celebrar um amor que também já não é muito destes tempos.

O mediterrâneo tem o nosso corpo.
Não o nosso efémero, mas o de sempre.
Tem o nosso corpo nas rochas que se avistam
por debaixo das águas e nas esculturas e nas casas
e nas sombras que as pedras erguem.

Por isso, sente-o e pergunta pelo tempo.

Vieste cá para perguntar pelo tempo
e, nele, clarificar a imagem do amor
que foi mudando as rochas,
deslocando a sua luz,
esculpindo aí a infinitude que tem, não este mar,
mas a tua comoção ao pé de si e da nossa sombra.





Monday, June 08, 2009

Flores



Um dia, as flores terão uma luz perfeita e repousará sobre elas uma memória vagarosa. Um dia, o seu aroma trará longínquas histórias, terras calcorreadas, rostos revisitados, canções, passeios pelas estações do ano.
Um dia, serão assim as flores e só o coração delas saberá cuidar.

Sunday, June 07, 2009

O desaparecimento.


foto de Gerald Bloncourt

A casa das coisas antigas.
O móvel dos olhares guardados.
O quintal, quase virgem, com os pássaros
a saltitarem dolorosamente sobre a memória.

O desaparecimento
a ser um fiel companheiro

das horas em que vamos envelhecendo
e sobre elas apenas desejamos
ser felizes.

Thursday, June 04, 2009

Os pequenos jardins


Do meu quarto de Hotel, em Bruxelas, vê-se um pequeno jardim com duendes e um cão em porcelana branca.
Quando era muito jovem vivi com um limoeiro e umas roseiras num pequeno jardim, em Campo de Ourique.

Sabes, nunca mais amanheceu como nesse tempo.
O limoeiro a filtrar a luz pela manhã
e as rosas em Maio a explicarem no seu perfume
como morreríamos se poesia não houvesse
para segurar o mundo tão cheio de nomes
e de indispensáveis aromas.
Aquele mundo tão cheio de admiráveis vazios
que só uma vez se preenchem para justificar
um talvez digno e talvez belo envelhecimento.

Uma vela em Minsk


O mês passado, em Minsk, acendi uma vela em memória do meu pai, junto de um bonito icon da Virgem com o Menino. Foi numa Igreja Ortodoxa,cheia de luz, numa espécie de refúgio a um certo lado mundano que me era estranhíssimo e que me exigia tempo e intimidade para me poder relacionar.
Naquele lugar, lembrei-me muito da minha avó paterna que não conheci. Quando o meu pai partiu, a única alegria que me assaltou foi a de ter sido possível o seu reencontro com a mãe que perdera em menino. Sei que é uma questão de fé. Apenas isso. Profundamente isso.
Desde esse dia que as imagens da Virgem com o Menino me lembram essa hipotética felicidade. E devolvem-me a imagem do meu pai, ao fim de uma vida, sendo finalmente a criança feliz que nunca conseguiu ser. E quando acendo uma vela em memória desse instante, ilumina-se dentro mim uma das mais belas imagens que a perda me proporcionou: a sua expressão de novo amparada nesse regaço, há tanto tempo perdido.

Sunday, May 31, 2009

Santiago



para o Santiago que nasceu em Maio, para a minha amiga Margarida e para o avô Manuel Carneiro que pela mão lhe ensinará a liberdade.

Ainda de Maio, onde se escutam no sangue
as lições dos dias em revolução pelo mundo.
Ainda de Maio, onde esse som não é de guerra
mas de perigoso anúncio do amor.

Ainda de Maio, Santiago,
da magia aqui tão perto
ou das ruas muito livres.

Ainda deste Maio, Santiago,
que a luz te não falte quando o olhar lançares
sobre o murmúrio que te der a liberdade,

essas pedras que te erguerão a casa,
na hora luminosa e limpa,
onde da memória descobrirás a asa.