Wednesday, December 31, 2008

Floresta


imagem de Hadley Hooper

Às vezes caminho para o interior da floresta assim que anoitece. O vento corta mais, os animais ouvem-se mais nesse silêncio e o frio também se impõe de forma a ser parte do meu próprio corpo.
Às vezes caminho para o interior da floresta e só lá vejo uma criança caminhando à espera de ser vento, bicho,frio que faça parte do corpo; uma criança a querer ser uma floresta e uma floresta que seja como nas lendas o sítio onde as manhãs rebentam
e os animais vivem livres e felizes para sempre, uma espécie de floresta perdida tão perdida ao ponto de ser urgente criá-la de cada vez que lá nos encontramos.

Tuesday, December 30, 2008

Mudanças.



foto de Yann Orhan
Os equilíbrios da mente são um fundamento. Quando se agarra o motivo pelo qual se pretende mudar a vida deve fazer-se uma espécie de exorcismo sobre o que ensombra, sobre o que sobra e sobre o que se não justifica.
Começam, então, longas conversas interiores de que sairão dias novos, rebentamentos equiparáveis aos dos mares em dias tempestivos, mas também flores, luminosidades, velhas árvores, sonoridades distantes, rumores próximos e quentes.
Começa então a magnífica visão daquilo que em linguagem clássica significa a mudança: o teu retrato, porventura bíblico, do inferno, do purgatório, mas milagrosamente também do paraíso!

Guarda.


foto de Snjezana Josipovic

Guarda a imagem do tempo,
quieta, macia, cheia de coisas intensas
e muito pequenas.
Guarda-a na palma da mão
ou, como uma bala,
atira-a fatalamente ao dia,
ao seu mais secreto e íntimo coração.

Monday, December 29, 2008

O fiel inquilino


Há sempre uma razão para esperar e acreditar que seremos capazes de mudar o mundo. Seja o mundo aquilo que for.
As emoções são um tremendo edifício por onde se deve andar livremente e guardar lugares de intimidade, de pensamento ou de recreio. As emoções são uma casa enorme, cheia de compartimentos. Sobre eles pairam a infância e a idade de todos os sofrimentos, mas também as idades do amor e da paixão, as idades dos sorrisos mais soltos, as idades do que está para vir. O importante é cuidar das emoções como se cuida do sítio a que chamamos casa, seja também isso o que for.
Há sempre uma razão para sermos esse fiel inquilino, cuidando de tudo e nesse gesto construir o mais longo gesto da felicidade, porque partilhada com os outros, sejam os outros aquilo que forem.
Há sempre uma razão para esperar e ver essa comovente e infindável beleza, ser o tal inquilino, fiel e duradouro, quase eterno nesse sentir tão rente.

Sunday, December 28, 2008

É provável o dia.


Entretanto, é capaz de haver salvação para o dia,
é bem provável que uma nuvem faça desenhos no olhar
e possa ingenuamente ser a razão que inventa a alegria
o seu pormenor de infância ou de degredo
uma qualquer coisa bem funda para expulsar o medo.

Saturday, December 27, 2008

Erguer.


O tempo arrefeceu como manda a quadra. Ontem bebi uma colheita de Syrha com Touriga Nacional, de 2005, cozinhei um jantar que teve no prato principal um peru recheado com ameixas pretas, pasta de azeitona e presunto, acompanhado com batatas em leque recheadas com bacon. Acendi a lareira, as velas do centro da mesa. E esperei pelos amigos e pela felicidade. Aqui e ali foi aparecendo mas, no fundo, no fundo, eu queria mesmo era não ter chegado a este tempo.
Dizem os de fora e mais experimentados que faz parte da vida. E é verdade. Contudo, também é próprio que andemos algumas vezes em círculo e a perguntar por tudo e a refazer o ninho, como os bichos que, com regularidade, tudo perdem.
O frio continua e apesar da realidade em que vivi este Natal, até ajuda a que o ninho seja a primeira emergência da felicidade que se evidencia a partir da perda. Erguer a felicidade parece-me hoje um invento magnífico. A memória do Syrha de ontem também.

Thursday, December 25, 2008

Poema de Natal.


O que eu queria mesmo
era iluminar de tal forma esta noite
que a não visse
ou visse apenas aquilo que sempre soube
a seu respeito e que só existe em mim,

ou seja: em muitíssimo pouco.

Tuesday, December 23, 2008

A minha manhã em Delft


Quando Vermeer pintou «View of Delft», inventou uma cidade. Esta foi, dentro deste género, a sua última obra. Detenho-me neste quadro e na atitude de inventar a cidade e de o fazer enquanto última vez de qualquer coisa.
Ao longo da vida, por diversas circunstâncias, somos obrigados a reiinventar o mundo. E fazê-lo nem sempre é penoso ou significa dissonância com a realidade. Antes pelo contrário, às vezes significa misturarmo-nos emocionalmente com o que mais desejamos, fazendo daí emergir um novo corpo que é o resultado da nossa exsitência com a coisa amada.
Vermeer inventou uma cidade e talvez se tenha despedido dela assim. A poética dessa intenção segura-me, nas vésperas deste Natal, e acrescenta-me a ideia de que o seu contrário é igualmente possível: chegar a uma cidade nova e reinventá-la à escala da nossa história interior e do nosso velho rasto pelo mundo.
A grande visão que terei de colher nestes dias é a de um mundo novo, capaz de estrear uma nova roupagem, elevando em si a memória de um outro. Uma cidade onde chegaremos e teremos de ser inteiros, por respeito a nós mesmos e sobretudo ao que fomos vivendo durante o tempo em que não éramos daqui.
Uma cidade nova carregada de herança e de dúvida é o que nos espera nesse novo porto, nesse novo atracar. E como todos os viandantes, havemos de perguntar por quase tudo, menos por aquilo de onde nunca fomos capazes de partir. E a esperança será a de ir encontrando, passo a passo, rua a rua, os inícios de uma nova história, os primórdios da beleza por estes ainda tão estranhos lugares.

Saturday, December 20, 2008

A morte.


Soa a coisa distante. E isso é uma ferida demasiado aberta. Soa a uma forma estranhíssima de enunciar o nunca mais do mundo. E isso é uma forma injusta de se ser deste mundo. Mas a verdade é que há um número infinito de coisas finitas e um outro tanto de falta de jeito para saber como viver com o que já não vive.
Muitas vezes, nem sequer se espera que coisa alguma surja. Muitas vezes, é como se tivéssemos rendido o que nunca se imaginou poder render-se. Muitas vezes, parece que é o mundo que acabou por ser este tão fundamente diferente daquele que se foi construindo.
Soa a que, na realidade, não há nada que seja mais complexo do que dizer adeus, sem que também nos deixemos morrer.

Thursday, December 18, 2008

As flores e a eternidade.


Talvez haja um lugar onde as flores têm uma espécie de descanso, uma espécie de paragem sobre as múltiplas formas de morrer. Talvez nesse lugar morem os lugares eternos, talvez daí só saiam as coisas imperfeitas que deixamos para a nossa própria mortalidade ou para a infantil vontade de elevarmos tudo a um estado de perfeição.
Mas o que importa é que existe esse lugar de parada beleza e também a nossa descoberta da eternidade.

O café.


Um café onde guardar a manhã. Deixá-lo assim sobre o imponderável mais apetecível das coisas. Perguntar pelo nosso gesto na abertura do dia. Ser uma espécie estranha que confronta o silêncio contra o que ainda não foi erguido sobre a beleza ou a evolução do mundo. Perguntar aí pela liberdade. Perguntar por si. Marcar um pacto com o que fomos e sobre aquilo de que nunca nos arrependemos. Atirar para a manhã a desavergonhada certeza da mortalidade e, antes do último gole, dizer para dentro com o olhar não se sabe onde:
-ninguém viverá por nós!

Wednesday, December 17, 2008

Uma ilha.


Uma ilha talvez seja uma forma de cerco. Cerco de água e de céu. Uma ilha que possa morar no nosso olhar e aí encontrar todos os elementos: água e céu. É assim que normalmente sei dos meus olhos. É também assim que os ofereço ao mundo. Raramente consigo maior sinceridade acerca daquilo de que são feitos e de que vivem: água e céu. São uma ilha os meus olhos.

Tuesday, December 16, 2008

Para um dia.


A dormir te pesa a humanidade. As ruas são as impressões digitais do que foi passando. Deitado no fluxo dos sons e das impressões dos outros, és capaz de comunicar com os teus próprios olhos e perguntar. És capaz de erguer uma canção para a tua própria voz e entoá-la baixinho enquanto caminhas, tocando com a tua passagem a face do vento. Talvez, consigas ser livre nesse instante.
Contudo, o mundo não pára de morrer e de nascer e tu não páras de sentir e de te despedir das coisas. Se alguma vez fores um sábio, não deixes, por instantes, de chamar pelo coração e pára. Fica quieto a sentir a brisa que daí virá e sente que um dilúvio te poderia chegar aos olhos e só o que o olhar guardou seria a nau e a arca onde tudo depositaste para salvar, um dia.

Monday, December 15, 2008

Os oceanos.


Os oceanos são uma parte da comoção do mundo.
Por isso se atravessam e, também por isso, gostamos de os contemplar ao longe, de escutar o seu ritmo, guardando-os como se fosse possível deles acolher toda a profundidade e nada saber sobre a lonjura, sobre a lonjura que nos desliga do sofrimento do mundo e apenas nos relata viagens, como se fôssemos antigos, muito antigos, como se fôssemos uma carta de marear sobre os nossos próprios abismos, ou os nossos mais limpos sentidos.

Do teu olhar mais silencioso.


E se olhares para fora de ti, é possível que encontres um céu com qualquer coisa de infinito e de poderoso. Talvez consigas escutar-lhe a música e o desafio. Talvez até seja possível conhecer as estrelas pelo nome e dar um nome aos desejos todos que nunca foste capaz de pedir.
Talvez do medo consigas esboçar um sorriso e permitires-te aí encontrar um recanto onde possas visionar as coisas que mais ninguém vê e, sem saber, sejas a única pessoa que aí mora e sejas ainda um para sempre no coração imorredouro dos que escolheste para seres tu.

Saturday, December 13, 2008

História de Amor - 4


Voláteis são as coisas que não se atiram ao coração. Falhada é a fala que não faz eco quando atinge o fundo, desconhecendo as paredes e o percurso percorrido. Triste é não haver mãos que sejam flores e flores que não sejam o desenho perfeito do que é indizível, mas que do fundo da voz te oferece um bouquet de silêncio e o seu aroma, e aí tudo te pede.

Aforismo


Atesto a estrada, a civilização inteira às costas,
a ideia pouco original de haver uma rota.
Detesto a imprudência dos que se erguem
apenas para que seja superficial o percurso.
Digo-o porque sou como as árvores:
apenas importa aquilo que reside no abismo
e na distância que nos separa do céu
ou nas profundezas da terra.

Descansa do Mundo

Os portos.


Os portos onde atracámos invernos,
onde lhes escutámos a música,
onde guardámos os ventos
deixando no olhar a perdição e o espanto.

Os portos onde cerramos as mãos
e perguntamos por rotas
que foram da nossa o seu desvio
e a sua glória ou rendição.

Os portos onde atracámos invernos
e perguntámos por tudo,
como se isso estivesse guardado
no frio e no vento
e não no olhar que aos portos deixámos
tornando-os inesquecíveis e duradouros
na forma como escolhemos ir morrendo
pela novidade do mundo.

As datas.


Dentro das datas fechamos as vidas. A data em que festejamos aniversários, a mesma em que, um dia, havemos de os chorar; as datas em que rememoramos primeiros beijos, as mesmas que, um dia, se diluirão entre a alegria da memória e a cólica inexplicável da privação.
Durante a vida fechamo-nos em datas e atribuimos-lhes a condição de casa e de intimidade, a condição de resguardo face ao comum dos dias. Na verdade, o que fazemos é uma grande fuga à rotina do tempo, elevando as suas excepções, elevando a sua novidade.
Curiosamente, o que queremos, quando repetidamente celebramos as nossas datas, é repetir a novidade, e isso é aparentemente contraditório. Mas, é nesse contrasenso que se vai erguendo a felicidade; é aí que, tantas vezes, tem origem a alegria despropositada do dia, mas a alegria.

Monday, December 08, 2008

Os livros e as circunstâncias.


Amanhã apresentarei o meu novo livro em Fafe. Na Biblioteca nova. Ainda bem que não tenho de voltar à sala romântica da velha Casa da Cultura, onde, ao longo de dez anos, tive sempre o meu pai na plateia.
Pela primeira vez, estarei sem ele. Também por isso decidi apresentar este livro primeiramente na minha terra. Foi preciso. Faz parte do luto. Faz parte da sobrevivência. Nunca percebi tão bem o quanto amava o meu pai como desde o momento em que ele deixou este mundo.
O meu pai foi um homem extraordinário. Tinha ideologia e tinha valores, tinha sentido estético e era um contemplativo por natureza. Tudo o que sei sobre o lado contemplativo do mundo lhe devo, à sua expressão de espanto e de regozijo perante a vida, à sua crença nas pessoas, ao seu deslumbre perante o mundo.
Amanhã apresentarei o meu novo livro e quase tudo que lá está escrito foi o meu pai quem mo deu, como quase tudo que escrevo. E nem assim a dor é menor. E nem assim a saudade me deixa. A saudade existe como um bicho furioso que nos morde e só descansa quando já quase nada significarmos. O meu pai há-de ser sempre o meu melhor livro, penso eu nesta noite, nesta véspera.

Do Intangível


A Editora Labirinto apresenta o livro Do Intangível, a mais recente obra Literária de Pompeu Miguel Martins, com tradução e prefácio de Victor Oliveira Mateus e grafismo de Júlio Cunha sob desenhos de César Taíbo.
A sessão de lançamento com a Presença do autor, está a cargo do crítico literário César Freitas, com inicio as 21h30, do próximo dia 9 de Dezembro (Terça-feira), na Biblioteca Municipal de Fafe.

Monday, December 01, 2008

Natal.


Uma ou outra vez é provável que sintas o natal a cair da face dos outros, a rumorejar pela cidade.
Uma ou outra vez é provável que perguntes se sobrará alguma coisa para nascer por estes dias.
Uma ou outra vez é natural que peças um milagre e consigas esboçar um magnânimo sorriso se, por um instante que seja, conseguires descobrir, não a salvação do mundo, mas a constatação do que virá, abrindo-te no olhar a estrela de que te falavam em pequeno e que tão bem se avistava nos olhos de quem tudo te entregava e que não voltará mais.

O espectáculo.


Os lugares vazios. As histórias que são difíceis de acrescentar a essa evidência. A interpretação difícil do tempo. Os lugares povoados pela ausência. Os lugares cheios desse vazio.
Às vezes sinto saudades de um tempo longínquo e sou, ao mesmo tempo, feliz pela lembrança e inadaptado pela circunstância que traz dessa lonjura as suas repetidas impossibilidades, os seus flagrantes nunca mais.

-Do camarote da tua alma avista-se um espectáculo onde entras e não entras, onde és criança à procura de tudo e adulto a tentar gerir os nadas com que te foste deparando à medida que os dias se foram gastando. Desse camarote, vais-te preparando para o grande espectáculo, preparando os aplausos e as emoções, as saudades que irás reconhecer nessa noite e o entusiasmo que te fará bater outra vez o coração, à míngua de um instante, talvez fatal, talvez final, por te acrescentar o amor no seu estado mais novo e mais maduro. Serás o teu próprio e íntimo espectador, o mais cruel e o mais próximo. Serás uma espécie de fantasma a deixar sobre a ambiência do camarote o sofrimento e a alegria, na certeza de que mais ninguém dali voltará a assistir a essa grande representação, a essa ininterrupta e magistral despedida, que és tu a viver e a pensar no mundo que deixarás ao mundo, assim que morra o instante, assim que pares de aplaudir ou de te emocionares e em cena não estiver ninguém, nem sequer a tua própria ausência.