Friday, October 31, 2008

Pai


De onde viera a incompreensão da saudade?
De que raízes profundíssimas a tristeza?
De que código se farão os gestos futuros?
De que alfabetos nascerão as palavras
sempre e nunca mais?

As cidades dos outros.


Algumas vezes, são as cidades que acompanham o coração. Algumas vezes, é agradável o seu abandono por lugares onde desesperadamente precisamos de deixar uma história para ficarmos de bem com o facto de existirmos e por consequência usarmos um espaço e um tempo que, por definição, será irrepetível.
As casas das cidades dos outros são espaços de distância e de proximidade. De distância suficiente para que sejam perfeitas por via da imaginação e do desconhecimento. Próximas porque podemos nelas construir alguma da nossa própria intimidade e prosseguir como se estivéssemos a construir a mais bela despedida do mundo que, a pouco e pouco, foi levantando o corpo de vida que tentámos animar desde o primeiro ao último instante.

-Às vezes questiono se andarás pelo mundo como quem anda a despedir-se e, dessa forma, empresta ao olhar a comoção necessária para a celebração da beleza, que se espera eterna e transbordante, sem direcção, nem alvo, do mesmo jeito que o vento, com origem distante e a mesma proximidade.

Thursday, October 30, 2008

História de amor - 2


E ao teu corpo deixei a sala inteira, os livros, os sofás carregados de histórias, a janela carregada de invernos e de passagens muito secretas pela solidão.
E ao teu gesto deixei a música, a mais antiga possível, a que só as minorias fora de moda ainda escutam e libertei da memória que ainda guardo do teu ombro quatro ou cinco espécies de bichos que não param de morder ou de rastejar pelas imagens que ainda são as imagens que me seguram a vida.
Poderia dizer que por ti teria libertado alguns pássaros, mas não. Não consigo sequer saber como podem os pássaros continuar a sua rota havendo sobre a miragem da tarde o cais que sempre fora o teu ombro ou sobre a miragem da vida o teu olhar mais fundo e silencioso.
O teu olhar sempre foi um oceano,tu que gostas de oceanos e que nem sabes o quanto não são aliciantes esses mares, comparativamente ao copo de chá que seguras enquanto olhas o jardim da sala. Atravessei continentes nesse copo e dobrei os cabos todos que havia para dobrar ainda que pudesses não entender que era uma rota aquilo que eu construía num silêncio abismal como só aos percursos solitários é dado construir quando são delineados para um encontro.
Deixo ao teu corpo a sala inteira e vou dormir com todos os livros e todas as histórias que ainda não escrevi, mas que vislumbro já do olhar que lanças ao mundo do alto do teu copo de chá, enquanto guardas o nosso jardim.

Wednesday, October 29, 2008

Uma história de amor.


Havíamos de ter dado conta que o tempo não era muito. Talvez até fosse inteligente perceber que, de facto, por mais literatura que nos acompanhe, acabaremos sempre por ser mortais e, por consequência, estarmos expostos a desnecessárias despedidas.
Quando olhares em volta, hás-de ver qualquer coisa que seja a sombra ou o perfume de todos os teus sentidos. Hás-de guardar aí uma história ou uma vida e julgar que outras tantas ainda poderão vir. Mas o medo é uma espécie de planta da infância e o teu corpo é um muro onde se agarram antiquíssimos musgos, onde se preparam solidões e desgastes, onde inúmera gente já foi capaz de encostar lamentos, promessas, alegrias ou fugas.
E quando começares a fugir hás-de misturar-te com o vento e perceber que afinal a tua pertença não é apenas ao teu corpo e à carne onde se depositam desolações e esperanças.
Quando te misturares com o vento terás um corpo que será uma paisagem a valsar com a loucura com que valsam as macieiras e os limoeiros que te abriram os desejos e te contaram como pôde o mundo escancarar-se ao amor.
E ser o vento é o mesmo que ser árvore ou pedra. Como viver é o mesmo que ser o toque que coleccionamos e sobre o qual vamos morrendo a pouco e pouco no que é alheio mas que nos garante uma certa forma de continuidade.
A nossa metafísica é isso no começo: um toque, um ficar no outro com a naturalidade das plantas e a poética dos muros.
Quando me amarraste as mãos foi como se inventasses um Deus instantâneo e desvairado e, daí em diante, abençoado por uma louca decepção do tempo, fui entrando pela loucura com a mesma imponência que os exércitos entravam em portos e cidades e pilhavam ao dia a sua intima e inesquecível capacidade de amar a luz e de a apropriar. Contudo, continua a ser o toque essa primeira metafísica. Disse-te que eras uma pessoa e que te poderia dar o vento, como se dissesse que estava disposto a uma espécie de coisa impalpável para chegar ao indizível.

Se me chamares é porque Deus existe – pensava eu.

Se me chamares é porque talvez te lembres e se te lembrares significa que ainda é brutal o coração que acolhe o que já não sou. Envelheci. Fui andando, fui partindo e contudo não deixo de nos fixar, com o vigor do vento sobre os pomares ou a ilusão dos muros quando nas tardes mais longas se demoram na memória, na companhia das trepadeiras e dos olhares inocentes de quem se despede e só depois poderá morrer, sem que se dê conta, ou se lamente, ou até mesmo sem que o dia caia mais cedo por nada saber.