Sunday, September 14, 2008

Dois desenhos de Orlando Pompeu


Como os animais a mudarem de pele, também assim cultivo as estações no afecto que lhes dedico, colhendo de cada instante a sua beleza única.
Estes frutos, que sempre se renovam e que da beleza os vou roubando, provocam-me um desejado exílio sob o qual vou criando e recriando recantos que se oferecem à memória e à identidade, sendo essa a única fortuna com que se pode contar e a única atitude por que vale a pena o esforço dos dias.
Nos recantos da memória, estações dentro, abrigamo-nos nos que nos são mais próximos, estando vivos ou mortos, e aí vamos cuidando de nós como os velhos cuidam das suas flores e dos seus objectos.
Na mudança de estação, preparei a parede da sala com dois desenhos de Orlando Pompeu, criados numa noite de Abril, em Paris, no Café de Flore. Há muito tempo que Pompeu conhece a minha relação com o Flore e com o envolvente bairro de Saint-Germain des Près. Nesse registo de cuidar os tais recantos de memória, teve a amabilidade de criar para mim dois desenhos e de mos enviar.
Este gesto tem um significado que excede a própria obra, tem a decisão de alguém partilhar o momento e criar a memória desse mesmo momento com aquilo que sabe acerca do fascínio do outro. E isso é de uma beleza extraordinária.
Os dois desenhos que agora habitam a minha casa têm a eles agarrada a amizade que eu e o seu autor partilhamos e o deslumbramento que sentimos pela cidade e pelos cafés onde os pensadores do século passado e os artistas que mudaram o mundo frequentavam.
As obras de arte têm esta facilidade de irromper sobre a nossa intimidade e sobre os nossos sentimentos. Olhar um quadro e ver o seu significado enquanto algo que nos é exterior e depois acrescentar-lhe a história da sua intenção autoral e do que fica connosco para sempre.
Quando passeio em Saint-Germain lembro-me sempre dos tempos em que o pintor Pompeu saiu de Fafe e arriscou uma carreira por aqueles lados. Acabo sempre por fazer um brinde à sua memória e ao seu sucesso, nem que seja com uma vitel gelada no pico do verão. E sabe bem olhar o bairro de Camus e de Sartre e saber que um dos nossos por ali arriscou e ganhou, trazendo a sua história e a sua intimidade para junto de nós. Ser de Fafe passa por saber trazer para o nosso coração a felicidade dos nossos, as suas conquistas, os seus riscos, as suas marcas na mudança do mundo.
Neste mudar de estação, acrescentando dois quadros à sala, acrescento duas longas histórias, próximas e quentes o suficiente para entrarmos no Outono e nos Invernos que nos restam até que habitemos um para sempre na memória de alguém.
Neste mudar de estação, trago isto à intimidade da casa e entram cidades e pessoas, outras estações e outras ideias, outra companhia para romper a vulgaridade dos dias, essa sim insuportável e mortífera.