Thursday, August 28, 2008

O meu Goya, o do Carlos Vaz e o de quem o apanhar.


Há um roteiro obrigatório na obra de Goya. O roteiro dos retratos. A genialidade com que consegue dar alma aos seus modelos, reais ou inventados.
Desta vez, em Madrid, detive-me nos retratos e vislumbrei uma série de histórias e de personagens, sobre as quais me apeteceu tirar o triplo das férias para as poder escrever e dar vida a novas figuras que aí teriam o seu berço criativo.
Antes de mim, já o Carlos Vaz se deteve em Goya e na companhia das suas gravuras escreveu o romance «Capricho 43». Revisitar Goya é também levar comigo este amigo de há vários anos e ousado artista do nosso tempo.
Por isso, a arte tem roteiros, múltiplos, quase todos fascinantes. Os roteiros que sigo, à margem de muitíssimas convenções, são os da alma. Aqueles que partem de um abraço, a um pedaço enorme de espanto, a uma descoberta, a uma releitura, a uma criação ou recriação, ou, tão simplesmente, a um prazer genuíno e profundo quanto baste, capaz de não ser só nosso para poder vislumbrar o abraço dos outros, a sua descoberta, o seu espanto e o seu justo prazer. Se assim for, valeu a pena ter uma alma. Uma alma para compartilhá-la.
Disto também se fez e faz o segredo da arte e dos artistas.

Te quiero Madrid!


Regressámos a Madrid. A Madrid das emoções fortes, da cidade íntima e quente e do que aí Nação espanhola, que é uma coisa que quase não existe, soube guardar ao longo dos tempos para provar a sua força e a sua existência.
Uns dias por ali, a engolir o melhor que o mundo tem para nos dar, a sentir cada rua por estar a precisar, mais do que nunca, de sentir o que quer que fosse. E há muito mundo para ver e sentir em Madrid. Há um inesgotável privilégio que nos é possibilitado. Digo possibilitado, porque nada é gratuito, tudo exige atenção, seja através do que já guardámos com a nossa História de vida, seja pelo que as nossas emoções são capazes de intuir e construir.
Andar por Madrid sequioso de espanto e de sobrevivência. Andar a perguntar e a chamar pelos que mais amamos e pelos que sempre acompanharam os nossos muros da alma. Lá estavam todos, os que amamos e os quadros do nosso espanto e do nosso crescimento. Lá estavam os jardins e as coisas que agora lhes fomos contar e que são muito novas e muito belas e outras também novas e muito tristes, mas nossas, profundamente nossas. As árvores que já nos conhecem e que nós conhecemos, as casas onde parámos e fazemos brindes, pedindo coisas como só aos santos se pedem, acreditando que sempre depois de um brinde as dores diminuem e a sorte aumenta. É impossível estar-se em Madrid sem esta percepção da vida, sem esta reacção quase natural e impulsiva perante o melhor do mundo.
E depois as coisas que se descobrem e nos comovem, aumentando os nossos níveis de esperança. Quando os filhos nos falam dos quadros que viram e do que neles projectaram. E desses mesmos quadros serem os de sempre, agora, aumentados pela interpretação que os miúdos lhes deram a partir do seu olhar infantil. Ou então, quando estamos a ver a colecção de tapeçarias reais, no Escorial, e o mais velho diz que são inspiradas nos motivos que inspiraram as pinturas de Bosch e o mais novo diz que preferiu os retratos dos Reis Magos que estavam no Prado. Tudo isto é o que possibilita Madrid, e não é pouco, vem até ao mais importante que pode alcançar a nossa alma, porque acrescenta, porque nos acrescenta ao sangue, à herança de que nos podemos orgulhar por ser e por vir da Humanidade, mais do que da família.
E amar profundamente em Madrid, com o seu cheiro a cidade intensa, com a sua luz e os seus recantos, com as coisas que sussurra como na música, como no vinho, como no que conseguimos ser de extremos e de não abdicar. Amar em Madrid. Ter o privilégio de estar perdidamente apaixonado e passar pela cidade assim, como quem não se esquece de uma obra-prima, como quem marca tudo com o fito de não perder nada, com o fito de reter esse retrato e essa visão como se pertencêssemos a um quadro protegido e vislumbrado pela própria Humanidade.
Regressámos a Madrid, como o fazemos de dois em dois anos. Uma espécie de peregrinação ao nosso coração do mundo. Regressámos para colher estas emoções, para sobreviver no próximo inverno e no que virá, como fazem os bichos que colhem numa estação para sobreviver nas seguintes. Voltámos de lá bichos, bichos sequiosos por não esquecer, sequiosos por emprestar aos dias que se seguem, o tanto que nos foi proporcionado, o tanto por que lutámos enquanto por lá estivemos.