Tuesday, July 29, 2008

As estrelas do verão.




Contaria contigo as estrelas e só muito tarde adormeceríamos outra vez sobre a real impressão do verão. Depois, viria a quentura das noites, os desertos a assolar-nos o olhar e a rumorejar que há sempre um pedaço de infinito e de lonjura onde os dias voltarão a ser mágicos e tu voltarás a ter a voz que só ao amor é conhecida, para desvendar nos olhos um do outro as estrelas e os seus nomes, as estrelas e os seus seres, as estrelas e as suas juras, as estrelas e os seus impossíveis.

Sunday, July 27, 2008

O corpo do verão.


Como se torna outro o corpo do verão. A serenidade perdida, o cais de longínquas paragens a não aparecer, a ser uma espécie de mentira, a não ser o merecido descanso.
Como o verão se transforma num corpo de inexistência a soar muito rente a uma existência enorme e avassaladora que invade as expressões, os sorrisos e as coisas onde se não descansa por se não ter.
Um verão de roubo e de partida para o desconhecido menos apetecível. Eu que sempre gostei e cultivei desconhecidos e mudanças, eu que sempre abominei rotinas e com elas marquei vencedores duelos. Eu que nunca quis dias iguais e que, agora, desejo dias iguais.
É assim a morte. É assim o retrato mais duro do irremediável. É assim que se desenha a perda que tantas vezes escrevi e que só agora conheço na sua dimensão maior.
É o verão a incendiar nos olhos todos os verões. É o calor dos dias a ser a expressão vazia do frio das horas. É o ter raízes e isso segurar tudo e o ter raízes e isso desabitar o presente e o futuro de tudo.
A morte é um engano. Aprendi isso. A morte é uma contradição à conquista tão dedicada do amor que sempre cultivámos e que nos fez sentir superiores a tudo. A morte a parecer que estraga o amor, mas não. É a nossa incapacidade que abre tréguas e pausas a essa forma de amar, como se abrem feridas e desânimos e desistências no corpo que tem a nossa alma mais antiga e mais genuína.
Como se torna outro o corpo do verão, quando somos arremessados para a desconhecida idade da privação, aí construindo novos pactos, novos desafios que estarão certamente a assegurar a felicidade futura, sobre as palavras futuras, sobre os sorrisos futuros, o que fará de nós, um dia, também um corpo de amor e depois de privação, a mudar verões, a ser em quase tudo o que se não toca, a ser em quase tudo uma espécie de desejo que arrastará consigo a saudade e a mais verdadeira felicidade que vem da serena língua do amor, assim a aprendamos, assim a soubermos ensinar.

Monday, July 14, 2008

Pai


Até onde o infinito der
e os ventos soarem a certa profundidade das raízes;
Até onde o mar devolver a lembrança
do que juntos espalhamos em suas orlas
durante longínquos verões;
E enquanto desse infinito
quase mais nada houver que um sorriso
devolvido ao coração que um dia também entregarei

estaremos juntos, estaremos vivos pai.

Tuesday, July 01, 2008

ENSALADAS




O VIDEO DO ESPECTÀCULO
A assistir no Teatro da Comuna de 11 a 13 de Julho.


A APRESENTAÇÂO DE PAULO BRANDÃO

Quando estava a frequentar o final do Curso Geral do Conservatório, (cerca de 1970/71) tive oportunidade de conhecer Constança Capdeville e nesse contacto fui despertado para uma outra estética que mais tarde Eduardo Sérgio denominou “Intermédia”,ou seja a possibilidade de uma fusão em que as várias gramáticas se interpenetram numa outra linguagem, criando um novo objecto. Um objecto de síntese. Não se trata, portanto, de uma mistura de várias expressões, mas antes uma nova linguagem verdadeiramente sincrética e de uma amplitude enorme, que sujeita os intérpretes a uma apreensão poliestética e a um domínio cabal da expressão em diversos géneros ( musical, teatral, corporal, etc ) Sob esse ideal, foi imaginado o espectáculo Ensaladas. Já no projecto de Mateu Fletxa está bem presente a ideia de multiplicidade e coexistência de expressões ao nível do poético e inevitavelmente no plano da estrutura composicional musical. O salto do cómico ao dramático ou do profano ao sacro tem também um paralelismo nas métricas ou em dialectos importados (Crioulo, Castelhano ou Catalão etc) assim se justifica o próprio titulo e se dignifica a universalidade.Justificado e defendido pela ideia primitiva, naturalmente se despertou o movimento e se solicitou interiormente os ecos de Gil Vicente no seu Auto da Barca do Inferno, para que a Ensalada seja mais vasta e se projecte para além do espaço. Por fim a revelação das Marionetas, como que uma multiplicação paralela dos personagens.
Assim se reuniram e motivaram as simbioses que caracterizam o ideário de uma linguagem de compromisso entre várias expressões.

Paulo Brandão