Sunday, June 22, 2008

O armário das bolachas.



Ao visionar o quadro de John Peto, «The poor man's store» (1885), lembrei-me do armário das bolachas torradas e das bolachas Maria em casa do avô. Tinha uma arrumação tremendamente misteriosa aquele armário. Os jogos de luz e sombra que ali havia eram interpretados à luz do desejo. Desse mundo da infância, tive a sorte de poder criar desejos e de levar por diante conquistas, o que me veio a ser muito útil, sobretudo para perceber melhor o preço das coisas.
Sou do tempo em que muito poucas coisas estavam garantidas. Mesmo as bolachas não eram oferecidas sem regra. Era preciso fazer algo por merecê-las e mesmo merecendo-as nenhum excesso era permitido. E isso não foi traumático, mas antes pedagógico e motivo de felicidade, pois de cada vez que as ditas bolachas apareciam ao lanche era um bom momento que com elas surgia.
Veja-se então como estas coisas são efectivamente importantes, mais de trinta anos depois ainda consigo relembrar tudo e todos com um nunca negado rasgo de felicidade e afinal era só um armário, só umas bolachas, só um desafio e uma família como tantas outras.
Importante, porém, é perceber como é que isto poderá continuar, como poderá o tempo manter vivos os pequenos significados, as pequenas coisas, tão grandes para a alma, tão decisivas nas horas em que se experimenta a solidão ou a privação das coisas que nos vão largando para sempre.

Sunday, June 15, 2008


Diz-me que há um barco sempre de partida
onde mora o desejo que ofereceste ao mundo.
Diz-me que sou o seu marinheiro
e que onda alguma rebentará em terra
antes de ter saído livremente dos meus olhos
por te ter visto.

A ignorância e a Liberdade.


Pelo mundo, é preciso que se erga a voz contra a subreptícia e calamitosa ignorância. É preciso que se diga que em cada pedaço de metódica indiferença são séculos de civilização que estão em risco de derrocada e que por cada silêncio em torno disto são décadas de medo e de solidão que se voltam a erguer e esperar que, de novo, algo muito novo e muito puro tente rebentar barreiras e lançar ao espírito a superação do próprio espírito.
A questão em torno do nosso grau de civismo não é um exclusivo da política, das lideranças ou das crenças. Por tempo demais se tem propagado a ideia de que o mundo não avança por culpa de alguma coisa que sempre está acima de nós mesmos, sem que consigamos ter a honestidade intelectual de nos questionarmos até que ponto temos contribuído para que o mundo, o nosso e o dos outros, tenha efectivamente avançado. É como se alimentássemos em nós um enorme ditador que predestina a nossa desgraça e o nosso fracasso.
Os países são aquilo que a governança faz deles, mas também são aquilo que os seus cidadãos conseguem fazer do seu próprio dia-a-dia, com o muito ou o pouco talento que vão demonstrando para mudar as suas próprias vidas. E esta é a tremenda falha de análise que sistematicamente se tem quando se determina o sucesso de uma aldeia, de uma cidade, de um país ou de uma união de Estados.
Claro está que a desresponsabilização dos cidadãos no seu próprio papel social fortalece autoritarismos básicos e faz com que cada vez mais a exploração se denuncie não só pelo que se não pode consumir com o que o dinheiro compra, mas sobretudo em tudo aquilo que se não pode erguer em virtude de uma militante inércia, de uma flagrante ignorância ou de uma tranquila aceitação dos dias onde repetidamente se não faz, se não pensa ou se não sonha.
A ignorãncia e a indiferença voltam a atacar com uma força inacreditàvel e só uma revolução de mentalidades poderá levar-nos a sair de uma crise que muito pouco tem que ver com a subida do petróleo, dos bens essenciais ou das catástrofes naturais.
A mais dolorosa circunstância é a circunstância Humana quando desprovida de alma e de exigência, de utopia e de empenho, de exigência e de entrega. Perante isto, todas as outras tragédias são menores, ainda que tragédias sejam, circunstaciais e conjunturais. Pois, mau mesmo é que estruturalmente o Homem se transforme na sua própria negação, ou seja: que por si mesmo interrompa o que julgávamos ser o ininterrupto caminho para a Liberade.

Wednesday, June 11, 2008

A praia.


Tenho a praia inteira para incendiar as palavras que sempre guardas e com as quais vais construindo a última hipótese de haver um nome e um corpo, um cais derradeiro para aquilo que é da pele e só a pele conhece quando agarrada ao íntimo rumor do mundo.
Pára para escutar o mundo. Podes começar pelo oceano que escondes. Pára nesse turbilhão de coisas que não deixas de sentir e segreda-me uma qualquer coisa que se pareça com um paraíso onde seja difícil a felicidade. Assim é melhor. Dura mais. Sabe mais a vez única.
Deita-te sobre o areal desse olhar mais quente e mais fundo e sê o seu próprio entardecer para, a seguir, conheceres do vento as vibrações e os segredos e só depois a infatigável entrega do coração selvagem e puro, deportado e regressado, fóssil ou sangue ainda fresco sobre o instante onde ainda teimas matar toda a tristeza como se a negasses para sempre, ou dela fizesses a mais insinuante fábula para depois adormeceres sobre o cansaço mais belo do mundo.

Sunday, June 08, 2008

Ainda.


em memória do meu amigo e colega Laureano Silveira


Ainda não é das árvores esse magnífico outono de silêncios,
nem do vento um lírico canto de promontório e de sede se aproxima.

Ainda não é do chão o peso da terra bordada
por inúmeras gentes, acalentando a finitude
e o seu mais belo e resignado colo.

Ainda não vem da chuva a memória mais limpa
do que a perda sempre acrescenta
à alma viandante, docemente incompleta.

Ainda não anoiteceu suficientemente
para se escutar o coração dos desertos
e a livre linguagem dos seus insectos.

Ainda nenhuma brisa fez lembrar
a secura da pele e o envelhecer do corpo
ateado à bravura da vida.

Ainda o fogo
não gemeu tudo sobre a lembrança,
nem deixou em cinzas o olhar mais último
que resuma uma vida inteira.

E mesmo assim, ela chega, funesta
e incompreensível, a levar do quase tudo
o quase tanto
e a abrigar no quase nada
esse abismo de impossíveis,
doloroso retrato, canção interrompida,
ininterrupta palavra que tudo guarda,
sendo esse o pacto possível, a promessa profunda
com os que não morrem.

O barqueiro.


Sobre a circulação da vida, há uma espécie de cais onde atraca, a todo o instante, o que sobra de digno e perdurável dos nossos passos.
Como velhos barqueiros, aí acumulámos viagens e vamos perguntando em que lado do mundo entregaremos o legado que meticulosamente guardámos sobre a tal dignidade dos dias.
Na sempre mutável pele da tarde, apreciciamos a obra humana e a sua brevidade para, a seguir, descobrir a sua beleza e ter aí a visão perfeita de que o nosso corpo do dia é muito mais extenso do que nós mesmos, por integrar magnificamente o corpo do universo, a visão emocionada de Deus, a infinita palavra, a vez onde morrem derrotados a ignorância e o desdém, para ver renascer ideias e sonhos, como na natureza do ciclo do húmus se evidencia a conclusão da flor e do fruto.