Sunday, May 25, 2008

A Mãe da Farmácia.


Talvez eu tenha sido a nona pessoa a tratá-la por Mãe. A Mãe da Farmácia. Não era minha Mãe, mas muitíssimas vezes foi quase isso. Quando era pequeno, ia lá casa todos os dias. E todos os dias me acolhia um sorriso e uma voz que palavra alguma será suficiente para caracterizar a forma como aquele sorriso e aquela voz se caracterizavam no imenso coração que tinha o meu pequeno corpo.
As outras pessoas tratavam-na por D. Maria Eugénia e faziam-no de uma forma que, até nas coisas mais simples e quotidianas, revelava um permanente encantamento. A Mãe não parecia deste mundo, tal era a forma como conseguia todos os dias reservar uma dose de condescendência, de paz e de entrega aos outros.
À hora do lanche, saíamos ambos da salinha e íamos para junto do fogão a lenha preparar o leite. Ainda tenho na memória o cheiro do leite que às vezes caía sobre o ferro durante a fervura, dado que nessa altura não havia ainda leite pasteurizado mas havia um leite com um sabor e um cheiro que nada tinha de idêntico ao de hoje. Durante os lanches ia-me ensinando coisas, perguntando outras e, com um ar inesquecivelmente terno, ia verificando os meus progressos de linguagem, sorrindo sempre que eu não caía numa armadilha de português ou demonstrava conhecimento sobre uma personagem qualquer que estivesse aparentemente distante da minha idade. E sempre houve ali um tesouro, na forma como era capaz de cuidar e de sentir como sua cada pessoa que entrava naquela casa. Talvez, também por isso, permitiu e achasse natural que eu a tratasse por Mãe.
A existência de pessoas assim é que nos fazem manter viva a esperança na humanidade e que essa mesma humanidade há-de sempre revelar-se nos momentos mais difíceis. Não consigo medir o quanto lhe devo, para além deste enormíssimo amor e da forma como não desaparecerá do lado melhor de cada um de nós.
No momento em que nos despedíamos, ouvi a minha mãe dizer:
A D. Maria Eugénia foi a melhor pessoa que conheci na vida.
Fiquei em silêncio, perguntando-me quantas mais pessoas estariam a pensar o mesmo naquele instante, e como a vida valeu tanto a pena, querida Mãe.

Um quadro à tarde.


O quadro «View of the Ducal Palace in Venice», que Canaletto pintou em 1755, acompanhou-me durante uma parte da tarde, dando sentido a esta instabilidade metereológica de Maio. Veneza com os seus canais é uma das minhas imagens de infância, ainda que nunca lá tenha estado. A literatura de Sophia encarregou-se disso, desde o primeiro instante em que contactei com o «Cavaleiro da Dinamarca».
Alguma vez, em algum lugar, haverá um canal onde será possível navegar sobre a tranquilidade dos dias e o seu enigma, sobre a calmaria da noite e o seu perfume a histórias de intermináveis pactos.
Alguma vez, em algum lugar, haverá de ser possível uma gôndola que nos leve a esse lugar nenhum, revelando nesse sítio que é finalmente possível adormecer sobre a infinita voz do amor.

Saturday, May 24, 2008

Contornos.


O que fazer aos contornos deste abismo de encontros com o que é longínquo e perto, morto e revivido, partido e nunca desmarrado?
O que fazer com esta parte humana de nós que morde de sofreguidão a finitude e renega o seu mais doloroso silêncio e a sua mais que provável entrega ao esquecimento do mundo?
O que fazer a esta condição humana de erguer sonhos como se fossem flores, tão breves e tão frágeis, mas tão mágicos e tão puros que nos enfeitiça a hora e larga no olhar a aparente eternidade que têm todas as dúvidas?

Thursday, May 22, 2008

dez anos de solidão


(um vídeo do Pedro sobre Santa Maria, a ilha do Daniel)

Na passada segunda-feira, apresentei o livro «Dez anos de solidão», de Daniel Gonçalves, em Ponte da Barca. Uma noite de profunda intimidade literária, capaz de me salvar de algumas nuvens negras que por cá têm andado.
O Daniel é o poeta português que melhor sabe cantar o silêncio e tem-nos dado a honra e a amizade de sermos com ele compagnons de route.
Caminhar neste livro é desbravar importantítissimas faces do que também somos e do que nunca devemos adiar. Um livro enquanto objecto de vida, enquanto passo, enquanto decisão do momento, enquanto transformação vigorosa do que jamais acabará entre os viventes: o amor.
Da noite em Ponte da Barca, a descoberta do Pedro e da Susana e a sensação perfeita de que também eles são, da vida, coleccionadores de pequenas coisas, responsáveis por grandes rastos.

para o daniel

Toma no olhar este arquipélago de palavras indolores
e não deixes nunca que os seus pássaros e os seus peixes
abdiquem da poesia que guardam e que só eles sabem incrustar
nos horizontes onde se diluem a vida, a morte e a eternidade.

Monday, May 12, 2008

A arte de viver.


Este final de noite, regressei ao quadro de José Malhoa, «A praia das maçãs», e aí redescobri as idades e a importância de certos objectos perdidos na luz que apenas na memória habita. Os bancos em madeira com a cor moldada pelo passar do tempo, os muros caiados e disformes, mudados pelo Homem na eterna recepção das estações quentes, a sombra das coisas e as nossas sombras. Tudo a entrar por uma lenda de verão, tudo a chegar a uma espécie de quietude que só se conquista com a preserverança de olhar os dias de hoje com a sobranceria da simplicidade.
Nos últimos tempos, tenho andado, na medida do possível, a lavrar nos meus espaços os lugares onde pretendo colher alguns dias calmos, a sorver luzes inesquecíveis, brisas, sons de pássaros e de gente que não tolham a inteligência do dia.
Por isso voltei a este quadro, para daí ganhar renovada força e ir em frente nessa conquista de inenarrável contemplação, de recomendável forma de orar e agradecer a Deus o facto de nunca ter deixado de nos fazer chegar as estações quentes, as brisas, os pássaros, ficando em nosso arbítrio o difícil engenho de saber amar tudo isso.

Saturday, May 10, 2008

Misérias.


Já sabes: a vida é um poço de mistérios. De águas difíceis, quanto mais superficiais se tornam ou quanto estejam mais à mão dos que nunca se reviram na grande oportunidade que é andar vivo.
As manhãs sucedem-se e nelas cabem a irrepetível luz, as sonoridades que nos referenciam, as memórias, as dores e as injustiças. Já sabes que é assim. Que sempre foi assim. Que é assim com quase toda a gente. Contudo, difícil mesmo, é lidar com a pequenez do mundo, com a miserabilidade alheia, quando dela se sabe que é escolhida e desejada.
Talvez por ser crente me custe tanto perceber a aceitação da miserabilidade. A miserabilidade nada tem que ver com economia, mas com estados de alma, com decisões e com atitudes. O verdadeiro miserável é o que fica, o que mora e cultiva o lado obscuro do tempo, aí se erguendo e erguendo em seu torno a imoralidade do contraste.
Digo-te isto porque sabes bem o quanto tem custado somar misérias e miseráveis e admitir que neste ponto não existe um ponto de fuga de modo a que a vida se confine ao que descobrimos puro e ao que nessa simplicidade decidimos erguer.

Tuesday, May 06, 2008

O Jardim da minha terra.


O jardim do calvário, em Fafe, é um jardim suspenso, como muito poucos. Tem espécies de árvores, poucas, mas centenárias e algumas raras. E tem uma infinidade de memórias.
Por lá, vivi muito na infância e alguma coisa na adolescência. No jardim brincava-se a tudo, com cenários à altura da imaginação, e quando se perdia a inocência começava-se a perceber que aquele mesmo jardim tinha recantos que só o coração conhecia e que faziam das tardes lugares de incendiadas paixões, de amores aparentemente infinitos e seguramente secretos.
O jardim do sr Adriano que nos corria à cachaçada do parque infantil a partir dos dez anos, e que já morreu, e cuja falta se notará nos dias muito novos deste jardim restaurado. O jardim dos concursos do vestido de chita, com o Nelinho da Electra a tratar do som e a malta do Nun'Alvares a apresentar. O jardim dos concertos de música e dos encontros de verão das gentes que emigravam e que ali se passeavam para contar coisas boas e bonitas da vida que erguiam muito longe e que iam vencendo.
No dia 25 de Abril, fiquei emocionado e feliz por ver a requalificação do jardim sem se ter morto a memória. Até a terra é vermelha como no tempo da minha infância. Até a terra nos abre o coração e chama ao velho jardim os que, já não estando, são, como as árvores, as vozes de sempre que nos ensinaram a amar aquele espaço e senti-lo como uma espécie de coração que fazemos bater no peito de todas as idades e das criaturas que não deixamos morrer enquanto vivemos ou enquanto pudermos viver nos outros.

Sunday, May 04, 2008

As tardes de Maio.


As tardes de Maio a fazerem desaparecer o inverno, a levar-nos para sempre a última oportunidade que tivemos de haver frio e sermos íntimos, no ano que ainda corre.
As tardes de Maio, ao domingo, com coisas que se abandonam para fazer outras coisas que servem sobretudo a idade interior e para a qual não deve haver resistência que lhe cause danos maiores por força de uma imposta indiferença ou medo.
As horas circulam pela nossa vida como o vento circula pelas montanhas, arremessando coisas, suavizando outras, às vezes refrescando o dia, outras denunciando temores ou realçando a beleza, tudo sem que se veja, mas sentindo-se plenamente.
As horas passam pela nossa vida e difícil mesmo é colher delas a verdadeira dimensão, saber o quanto são únicas e o quanto serão sementes de alguma coisa naquilo que não é só nosso, nem é só deste nosso tempo.
As tardes de Maio, a morrerem muito devagar sobre o olhar sereno, como deveriam ser todas as mortes, todas as formas que Deus encontrou para nos fazer começar uma nova etapa no que não conhecemos, mas que temos destinado como parte da missão, essa sim a maior pergunta que a nossa luz e a nossa cruz não saberão, por enquanto, responder.

Friday, May 02, 2008

Guardar o coração.


Gostava de poder prender-te na memória, guardar-te numa série de palavras para fechar num caderno de acesso reservado, e criar um universo completamente novo e ordenado segundo as leis de um tempo que desconheço e que sempre me sorriu.
Tenho tendência para fugir, para correr atrás de coisas que, não existindo ainda, são fulgurantes e contam já inúmeras narrativas onde hei-de criar raízes e sentir-me em casa.
Parece um contra senso esta coisa de andar a refazer o mundo e querer criar raízes ou sentir-me em casa. Mas não há aí contra senso algum, é mesmo assim, a única forma que engendrei para a felicidade passa sempre por este alimentar o sempre novo que o vivido e o contado possuem.
Por isso, queria tanto guardar-te e desenhar continuadamente um lugar de fuga, um lugar de recomeço, um deixar que o mundo se molde e não acabe nunca por existir no coração de quem cria esse milagre, o único em que verdadeiramente vou acreditando.A partir dele, ergo também a única oração de que sou capaz: a de nunca interromper o amor.

Os lanches.


No centro dos dias, pouco povoados por emoções que fiquem, retomo através do quadro de Claude Monet, «Le Déjeuner», a idade em que as tardes tinham cheiro, quando só muito longe e compassadamente me dava conta de uma civilização que emergia e causava no seu caminho os desaparecimentos próprios que o crescimento produz.
O desconhecimento desses desaparecimentos trazia uma tranquilidade ingénua, muito estética, muito capaz de não morrer, pese o passar dos dias e as cicatrizes que a si se aliam.
No quintal da casa onde nasci, havia uma ramada de uvas americanas e uns muros cobertos de musgo que emprestavam ao verão um cheiro a liberdade que ainda trago na memória e que ainda consegue trazer-me felicidade.
A Vila tinha sons muito diferentes dos sons de hoje. Ouviam-se as pessoas que conversavam pelas ruas e que chamavam umas pelas outras de modo a que se reconhecessem histórias de convivência entre elas, a passarada, os ventos leves, os poucos carros.
O lanche era diferente dos lanches de hoje, porque dividia o tempo. O tempo para comer, mas também para que se estivesse junto de outras pessoas, para que se interrompesse a tarde, para que soasse a uma última etapa, antes de anoitecer.
Esta tarde, agarro a infância deste jeito e exilo-me por instantes aí, que é uma forma de questionar o que fazer do tempo que resta e não tarda há-de ser memória também. O desafio, contudo, é saber se se consegue levar a qualidade o suficiente para que possamos daqui em diante regressar a estes dias e segurar na face uma réstia de felicidade, uma reserva de alegria para iluminar os dias futuros, para distinguirmos a vivência da sobrevivência.