Thursday, March 13, 2008

Retratos de Bled


3
Entre o sol e o mundo
existem os Homens
sem que conheçam,
na sua dimensão,
a distância
que os deixa absolutos.

Absolutos se também
do olhar nada souberem
se até do olhar
apenas absolutas coisas
conseguirem abarcar.

Wednesday, March 12, 2008

Dois retratos de Bled


1
Em frente o lago de Bled
e a ideia de que um lago
espelhando o luar
conta mais do que séculos
de palavras vindas de quem
na face nunca sentiu o deslizar
de um lago,
nem nos olhos reflectiu um luar.

2
E as montanhas
poderiam ser o corpo eterno
que tudo guarda
e sem ser Deus
resiste à despedida e ao anoitecer
dos que partem e mudam as manhãs
do mundo, sem nunca mudarem o lugar.

Tuesday, March 11, 2008

Desterrar.


Ao sobrevoar Frankfurt lembro-me sempre da cidade onde a pequena Heidi foi infeliz e tenho, quase por osmose, um sentimento idêntico. Desterrado, longe da Vila, nunca aí cheguei com sol e muito menos sem a magoada impressão da distância.
Desta vez vinha a conversar sobre o tempo que se foi diluindo, comparando-o em muitíssimos elementos. Cheguei ao lugar comum da saudade mas também ao desembocar num certo sabor a decepção com uma série de avanços que acabaram em retrocesso civilizacional.
Lembrei-me da D. Aurora que se sentava num banco de madeira do outro lado da rua da loja do meu avô e que eu ajudava a levantar-se quase diariamente para o lado oposto quando o sol desaparecia, lembrei-me da D. Guilhermina que pedia esmola e que gastava uma parte do dinheiro a comprar sacos de rebuçados mulatos para oferecer às crianças com quem se cruzava, do Bolinhas que apregoava cautelas e cantava com um sorriso como nunca mais vi, do Sr Sousa da estação e de com ele aperceber-me dos sinais que se faziam aos comboios quando partiam e quando chegavam, da Emília leiteira que pendurava todas as manhãs no portão da casa do Largo o leite do dia, das idas à Loja do Sr Damião Monteiro pedir ao Paulino e o Sr Domingos bocadinhos de espelho partido para espreitar as pernas às mulheres, de ajudar o sr Alfredo a fazer a montra da mercearia do Tininho Barros com latas de atum Bom petisco empilhadas... Tinha então cinco anos e toda esta fortuna.
Lembrei-me de tudo isto em Frankfurt e fiquei num estado pleno e lastimoso, tal e qual a pequena Heidi, longe do avô e das montanhas, ou talvez um pouco pior pois do meu lado o conhecimento da finitude de tudo isto é uma certeza que só a memória e as emoções conseguem salvar.
E durante a conversa questionei se ainda exisitirá algo assim tão diverso para as crianças, para os meus filhos, se haverá tanta gente e gente tão diferente, lugares simples que eram mágicos, actos pequenos que a vida não apaga. Calei uma profunda incerteza. E perguntei-me se não teremos que repensar a riqueza do imaginário que aos nossos proporcionamos, e perguntei-me que riqueza maior poderemos dar aos vindouros senão o enraízamento na sua acepção mais profunda e mais pura, onde cabe gente e lugares, coisas criadas e conquistadas, emoções que sejam só emoções mas que se não esqueçam e contrariem heroicamente a lei da morte.