Thursday, January 31, 2008

O avô e o mundo.


Hoje, o avô completaria 115 anos, no mesmo dia em que o Fígaro anuncia na sua primeira página os prognósticos para as próximas eleições nos EUA onde se discutirá mais do mesmo na linha de McCain, pelo menos em termos de política externa, ou se, no plano da viragem, eleger-se-á uma mulher ou um negro, por parte dos democratas. Este é o retrato fiel do simplismo a que se votou a discussão política.
Com o avô aprendi que a vida é demasiado complexa para que haja uma omnipresente linearidade de argumentos. Mas, com ele também fui aprendendo que é muito importante que nos situemos e nos definamos em regras basilares que devem ser o mais ricas possível para que se garanta a coerência nos nossos actos.
Ao relembrá-lo, dedico o momento a reflectir sobre a falta que faz a ideologia. É que sem esta, sem as suas regras, sem o seu sempre necessário aprofundamento, rapidamente se cai em tentações de relativizar tudo e de quase todos os actos serem tolerados por falta de base.
A política, em sociedades democráticas, deveria sustentar-se na inteligência e assim não deixar escapar as conquistas civilizacionais a que fomos assistindo, devendo ser destas a feroz guardiã.
Se assim fosse, não se centralizariam as discussões em superficialidades nascidas de preconceitos que, pelos vistos, ainda não estão sanados. Hillary não será boa presidente por ser mulher, como Obama não será bom presidente por ser negro. Triste é vermos, ainda hoje, que se uma mulher ou um negro forem eleitos isso ainda constitui uma vitória de alguns princípios civilizacionais. A lição a tirar é a de que o que faz falta é aprofundar a luta pelos direitos cívicos que, afinal, se reconhece não estão senão em letra de forma. Para os tornar em letra d’alma, mais importante do que eleger um ou outro candidato democrata (espero vivamente que aconteça) é pensar e agir sobre as causas e as consequências desta discussão.
Aprenda-se a lição de que a democracia e a liberdade não estão tão asseguradas e maduras conforme parece face aos magníficos diplomas legislativos que muito poucos sentem e ainda uma menor percentagem lêem.
É aqui que as ideologias fazem falta, para que haja regra e alguém que militantemente pugne por ela e a cultive e a aprofunde. Quando assim for, poderemos com mais propriedade falar em desenvolvimento civilizacional.
Razão tinha o avô quando dizia que não era com duas tretas que se constrói uma vida! Assim o é no mundo, e que estranho que ele vai…, o mundo.

Saturday, January 19, 2008

Poemas da Cidade - 21



Na doçura da tarde, os pássaros de inverno
bordam as direcções do olhar, dispersando
aqui e ali as melhores intenções
sobre o que deverá ser a felicidade
ou a liberdade servida ao ritmo natural
das estações.
Como num tecido muito artesanal,
assim é bordada a inteligência do dia,
no coração quase domingueiro,
na esperança quase infantil
de ter algo melhor para ser ou oferecer
ao instante seguinte,
esse maravilhoso e intransmissível mistério.

Marselha


Nas ruas de Marselha, junto ao porto velho, percebe-se bem o significado das cidades que guardam um estilo de vida interior, restrito a alguns, aos do grupo, aos da partilha, aos de sempre.
Nos bares e nos restaurantes a impressão que fica é a de que se está com alguma persistência a comemorar algo ou reforçar os sentimentos.
Numa cidade de contrastes e altamente intercultural é interessante a abordagem que se pode ter com os lugares de um modo sereno, porém implicado.
As cidades assim excitam-me, por me excitar a ideia adolescente de passar a vida a reforçar sentimentos ou a solidificar velhos pactos.

Sunday, January 13, 2008

Gandhi de novo.


Enquanto esperava pelo voo para Marselha, comprei o livro de Gandhi, «La voie de la non-violence», uma leitura que me acompanhou durante as três horas de espera no aeroporto de Paris. A importância da mensagem de Gandhi deverá ser relançada em todos os sentidos da vida política de modo a que activistas, da esquerda à direita, possam reflectir de que forma e por que meio é legítima a indignação e sobretudo a militância.
É que, da esquerda à direita, vamos sentindo falta de alguma insistência e sistematização do trabalho político em profundidade, alinhando a classe política na feroz armadilha de deixar cair a ideologia em favor do espectáculo e de um poder, muitas vezes perverso, de alguma comunicação social, efectiva detentora da maioria das acções de educação popular.
A ausência de um rumo claro, para a construção de um modelo de sociedade, tem sido responsável por grande parte dos atropelos democráticos a que temos assistido um pouco por todo o lado.
Por seu turno, também a ausência de uma inscrição das acções individuais no seio da mudança social se tem verificado, a par de uma ainda mais prejudicial ausência: a de encarar cada acto individual como uma parte coerente com fins e meios que deverão constituir a identidade de cada um de nós a todo o tempo.
A mensagem e o exemplo de Gandhi estão assim mais do que justificados no nosso tempo, por razões diferentes daquelas que levaram o mundo a entendê-lo em diferentes épocas, mas não menos urgentes, não menos perigosas para o bem-estar de todos.

Saturday, January 12, 2008

Poemas da cidade - 20


Como ficam vazios os espaços
sem a alma que despejas sobre as coisas.

Aí entrego o peito
como um condenado se entrega às balas
para ser feliz uma última vez
com o que acreditou a vida inteira.

O ser e o fazer.


Não sei se as personagens que acabam por ser as próprias cidades serão gente. Não sei se existirão nalguma coisa para lá das ruas que identificam. Uma das primeiras vezes que estive em Paris vi uma adolescente a tocar acordeão, perto do Sacré-coeur. Hoje, passando no mesmo sítio, vi a mesma personagem, uns anos mais velha, vestida de modo diferente, no mesmo lugar com o mesmo género de decoração kitsch em volta.
A pergunta que me assaltou foi a de saber se se tratava da mesma pessoa ou da mesma rua. Assaltou-me e inquietou-me pela forma como as coisas ao fundirem-se podem anular identidades. Não será um problema apenas da jovem tocadora de acordeão daquela rua em Monmartre, será de toda uma civilização que decidiu identificar as pessoas pelo que elas fazem, muito mais do que pelo que elas são. Daí a inquietação, daí a pergunta sobre o que sobrará de tudo isto.

Friday, January 11, 2008

Poemas da cidade - 19


Talvez me demore a dizer as coisas

não aos outros, mas a mim mesmo.
Talvez assim possa morrer mais tarde
com mais outros onde nunca os outros
supuseram encontrar-se.

Thursday, January 10, 2008

Poemas da cidade - 18


ao pinheiro do parque de Marly le Roi, no INJEP

Esta árvore é um corpo erguido
à mais perfeita metafísica
e dá ao nosso olhar a mais feliz
condição humana.
A dimensão do tempo não se pode medir
mas pode perceber-se que a amplitude
dos seus ramos devolve tudo aquilo
que o primeiro silêncio das manhãs
terá para nos dar, assim que envelhecemos
o suficiente para o entender com o que sentimos.

Tuesday, January 01, 2008

Poemas da cidade - 17



O que temes raramente desaparece;
Mais depressa se anula do que se esquece.
O que temes é uma parte do desafio,
uma parte da alegria algures perdida
entre a conquista e o que está para vir,
do teu desconhecido a razão mais bela.

Desejos.


Ao abrir o ano de 2008, proporcionei a mim mesmo um primeiro tête-à-tête com o aristocrático cão que tenho no sofá da sala, bordado numa almofada belga.
Enquanto reparava no seu ar decidido e fundado, desejei um ano assim, com a serenidade e a segurança sufucientes para os dias, sendo estas elementos essenciais à felicidade.
Um ano de cão seria desta forma, ao contrário do que é habitual, um ano feliz.Daí que o primeiro desafio seja mesmo o de construir essa possibilidade nos primeiros dias de 2008.
Avançando pelo tempo, que seja essa a bagagem que me acompanha e acompanha os que me rodeiam, deixando espaço para o mundo e para a novidade, sem a qual desanimo e acredito menos, dois pecados capitais na minha hierarquia de maldades.
Avançando pelo tempo, que os dias tragam passado e tudo se compreenda e assim se consiga sorrir e sentir a alegre tristeza que também traz a saudade.