Wednesday, December 31, 2008

Floresta


imagem de Hadley Hooper

Às vezes caminho para o interior da floresta assim que anoitece. O vento corta mais, os animais ouvem-se mais nesse silêncio e o frio também se impõe de forma a ser parte do meu próprio corpo.
Às vezes caminho para o interior da floresta e só lá vejo uma criança caminhando à espera de ser vento, bicho,frio que faça parte do corpo; uma criança a querer ser uma floresta e uma floresta que seja como nas lendas o sítio onde as manhãs rebentam
e os animais vivem livres e felizes para sempre, uma espécie de floresta perdida tão perdida ao ponto de ser urgente criá-la de cada vez que lá nos encontramos.

Tuesday, December 30, 2008

Mudanças.



foto de Yann Orhan
Os equilíbrios da mente são um fundamento. Quando se agarra o motivo pelo qual se pretende mudar a vida deve fazer-se uma espécie de exorcismo sobre o que ensombra, sobre o que sobra e sobre o que se não justifica.
Começam, então, longas conversas interiores de que sairão dias novos, rebentamentos equiparáveis aos dos mares em dias tempestivos, mas também flores, luminosidades, velhas árvores, sonoridades distantes, rumores próximos e quentes.
Começa então a magnífica visão daquilo que em linguagem clássica significa a mudança: o teu retrato, porventura bíblico, do inferno, do purgatório, mas milagrosamente também do paraíso!

Guarda.


foto de Snjezana Josipovic

Guarda a imagem do tempo,
quieta, macia, cheia de coisas intensas
e muito pequenas.
Guarda-a na palma da mão
ou, como uma bala,
atira-a fatalamente ao dia,
ao seu mais secreto e íntimo coração.

Monday, December 29, 2008

O fiel inquilino


Há sempre uma razão para esperar e acreditar que seremos capazes de mudar o mundo. Seja o mundo aquilo que for.
As emoções são um tremendo edifício por onde se deve andar livremente e guardar lugares de intimidade, de pensamento ou de recreio. As emoções são uma casa enorme, cheia de compartimentos. Sobre eles pairam a infância e a idade de todos os sofrimentos, mas também as idades do amor e da paixão, as idades dos sorrisos mais soltos, as idades do que está para vir. O importante é cuidar das emoções como se cuida do sítio a que chamamos casa, seja também isso o que for.
Há sempre uma razão para sermos esse fiel inquilino, cuidando de tudo e nesse gesto construir o mais longo gesto da felicidade, porque partilhada com os outros, sejam os outros aquilo que forem.
Há sempre uma razão para esperar e ver essa comovente e infindável beleza, ser o tal inquilino, fiel e duradouro, quase eterno nesse sentir tão rente.

Sunday, December 28, 2008

É provável o dia.


Entretanto, é capaz de haver salvação para o dia,
é bem provável que uma nuvem faça desenhos no olhar
e possa ingenuamente ser a razão que inventa a alegria
o seu pormenor de infância ou de degredo
uma qualquer coisa bem funda para expulsar o medo.

Saturday, December 27, 2008

Erguer.


O tempo arrefeceu como manda a quadra. Ontem bebi uma colheita de Syrha com Touriga Nacional, de 2005, cozinhei um jantar que teve no prato principal um peru recheado com ameixas pretas, pasta de azeitona e presunto, acompanhado com batatas em leque recheadas com bacon. Acendi a lareira, as velas do centro da mesa. E esperei pelos amigos e pela felicidade. Aqui e ali foi aparecendo mas, no fundo, no fundo, eu queria mesmo era não ter chegado a este tempo.
Dizem os de fora e mais experimentados que faz parte da vida. E é verdade. Contudo, também é próprio que andemos algumas vezes em círculo e a perguntar por tudo e a refazer o ninho, como os bichos que, com regularidade, tudo perdem.
O frio continua e apesar da realidade em que vivi este Natal, até ajuda a que o ninho seja a primeira emergência da felicidade que se evidencia a partir da perda. Erguer a felicidade parece-me hoje um invento magnífico. A memória do Syrha de ontem também.

Thursday, December 25, 2008

Poema de Natal.


O que eu queria mesmo
era iluminar de tal forma esta noite
que a não visse
ou visse apenas aquilo que sempre soube
a seu respeito e que só existe em mim,

ou seja: em muitíssimo pouco.

Tuesday, December 23, 2008

A minha manhã em Delft


Quando Vermeer pintou «View of Delft», inventou uma cidade. Esta foi, dentro deste género, a sua última obra. Detenho-me neste quadro e na atitude de inventar a cidade e de o fazer enquanto última vez de qualquer coisa.
Ao longo da vida, por diversas circunstâncias, somos obrigados a reiinventar o mundo. E fazê-lo nem sempre é penoso ou significa dissonância com a realidade. Antes pelo contrário, às vezes significa misturarmo-nos emocionalmente com o que mais desejamos, fazendo daí emergir um novo corpo que é o resultado da nossa exsitência com a coisa amada.
Vermeer inventou uma cidade e talvez se tenha despedido dela assim. A poética dessa intenção segura-me, nas vésperas deste Natal, e acrescenta-me a ideia de que o seu contrário é igualmente possível: chegar a uma cidade nova e reinventá-la à escala da nossa história interior e do nosso velho rasto pelo mundo.
A grande visão que terei de colher nestes dias é a de um mundo novo, capaz de estrear uma nova roupagem, elevando em si a memória de um outro. Uma cidade onde chegaremos e teremos de ser inteiros, por respeito a nós mesmos e sobretudo ao que fomos vivendo durante o tempo em que não éramos daqui.
Uma cidade nova carregada de herança e de dúvida é o que nos espera nesse novo porto, nesse novo atracar. E como todos os viandantes, havemos de perguntar por quase tudo, menos por aquilo de onde nunca fomos capazes de partir. E a esperança será a de ir encontrando, passo a passo, rua a rua, os inícios de uma nova história, os primórdios da beleza por estes ainda tão estranhos lugares.

Saturday, December 20, 2008

A morte.


Soa a coisa distante. E isso é uma ferida demasiado aberta. Soa a uma forma estranhíssima de enunciar o nunca mais do mundo. E isso é uma forma injusta de se ser deste mundo. Mas a verdade é que há um número infinito de coisas finitas e um outro tanto de falta de jeito para saber como viver com o que já não vive.
Muitas vezes, nem sequer se espera que coisa alguma surja. Muitas vezes, é como se tivéssemos rendido o que nunca se imaginou poder render-se. Muitas vezes, parece que é o mundo que acabou por ser este tão fundamente diferente daquele que se foi construindo.
Soa a que, na realidade, não há nada que seja mais complexo do que dizer adeus, sem que também nos deixemos morrer.

Thursday, December 18, 2008

As flores e a eternidade.


Talvez haja um lugar onde as flores têm uma espécie de descanso, uma espécie de paragem sobre as múltiplas formas de morrer. Talvez nesse lugar morem os lugares eternos, talvez daí só saiam as coisas imperfeitas que deixamos para a nossa própria mortalidade ou para a infantil vontade de elevarmos tudo a um estado de perfeição.
Mas o que importa é que existe esse lugar de parada beleza e também a nossa descoberta da eternidade.

O café.


Um café onde guardar a manhã. Deixá-lo assim sobre o imponderável mais apetecível das coisas. Perguntar pelo nosso gesto na abertura do dia. Ser uma espécie estranha que confronta o silêncio contra o que ainda não foi erguido sobre a beleza ou a evolução do mundo. Perguntar aí pela liberdade. Perguntar por si. Marcar um pacto com o que fomos e sobre aquilo de que nunca nos arrependemos. Atirar para a manhã a desavergonhada certeza da mortalidade e, antes do último gole, dizer para dentro com o olhar não se sabe onde:
-ninguém viverá por nós!

Wednesday, December 17, 2008

Uma ilha.


Uma ilha talvez seja uma forma de cerco. Cerco de água e de céu. Uma ilha que possa morar no nosso olhar e aí encontrar todos os elementos: água e céu. É assim que normalmente sei dos meus olhos. É também assim que os ofereço ao mundo. Raramente consigo maior sinceridade acerca daquilo de que são feitos e de que vivem: água e céu. São uma ilha os meus olhos.

Tuesday, December 16, 2008

Para um dia.


A dormir te pesa a humanidade. As ruas são as impressões digitais do que foi passando. Deitado no fluxo dos sons e das impressões dos outros, és capaz de comunicar com os teus próprios olhos e perguntar. És capaz de erguer uma canção para a tua própria voz e entoá-la baixinho enquanto caminhas, tocando com a tua passagem a face do vento. Talvez, consigas ser livre nesse instante.
Contudo, o mundo não pára de morrer e de nascer e tu não páras de sentir e de te despedir das coisas. Se alguma vez fores um sábio, não deixes, por instantes, de chamar pelo coração e pára. Fica quieto a sentir a brisa que daí virá e sente que um dilúvio te poderia chegar aos olhos e só o que o olhar guardou seria a nau e a arca onde tudo depositaste para salvar, um dia.

Monday, December 15, 2008

Os oceanos.


Os oceanos são uma parte da comoção do mundo.
Por isso se atravessam e, também por isso, gostamos de os contemplar ao longe, de escutar o seu ritmo, guardando-os como se fosse possível deles acolher toda a profundidade e nada saber sobre a lonjura, sobre a lonjura que nos desliga do sofrimento do mundo e apenas nos relata viagens, como se fôssemos antigos, muito antigos, como se fôssemos uma carta de marear sobre os nossos próprios abismos, ou os nossos mais limpos sentidos.

Do teu olhar mais silencioso.


E se olhares para fora de ti, é possível que encontres um céu com qualquer coisa de infinito e de poderoso. Talvez consigas escutar-lhe a música e o desafio. Talvez até seja possível conhecer as estrelas pelo nome e dar um nome aos desejos todos que nunca foste capaz de pedir.
Talvez do medo consigas esboçar um sorriso e permitires-te aí encontrar um recanto onde possas visionar as coisas que mais ninguém vê e, sem saber, sejas a única pessoa que aí mora e sejas ainda um para sempre no coração imorredouro dos que escolheste para seres tu.

Saturday, December 13, 2008

História de Amor - 4


Voláteis são as coisas que não se atiram ao coração. Falhada é a fala que não faz eco quando atinge o fundo, desconhecendo as paredes e o percurso percorrido. Triste é não haver mãos que sejam flores e flores que não sejam o desenho perfeito do que é indizível, mas que do fundo da voz te oferece um bouquet de silêncio e o seu aroma, e aí tudo te pede.

Aforismo


Atesto a estrada, a civilização inteira às costas,
a ideia pouco original de haver uma rota.
Detesto a imprudência dos que se erguem
apenas para que seja superficial o percurso.
Digo-o porque sou como as árvores:
apenas importa aquilo que reside no abismo
e na distância que nos separa do céu
ou nas profundezas da terra.

Descansa do Mundo

Os portos.


Os portos onde atracámos invernos,
onde lhes escutámos a música,
onde guardámos os ventos
deixando no olhar a perdição e o espanto.

Os portos onde cerramos as mãos
e perguntamos por rotas
que foram da nossa o seu desvio
e a sua glória ou rendição.

Os portos onde atracámos invernos
e perguntámos por tudo,
como se isso estivesse guardado
no frio e no vento
e não no olhar que aos portos deixámos
tornando-os inesquecíveis e duradouros
na forma como escolhemos ir morrendo
pela novidade do mundo.

As datas.


Dentro das datas fechamos as vidas. A data em que festejamos aniversários, a mesma em que, um dia, havemos de os chorar; as datas em que rememoramos primeiros beijos, as mesmas que, um dia, se diluirão entre a alegria da memória e a cólica inexplicável da privação.
Durante a vida fechamo-nos em datas e atribuimos-lhes a condição de casa e de intimidade, a condição de resguardo face ao comum dos dias. Na verdade, o que fazemos é uma grande fuga à rotina do tempo, elevando as suas excepções, elevando a sua novidade.
Curiosamente, o que queremos, quando repetidamente celebramos as nossas datas, é repetir a novidade, e isso é aparentemente contraditório. Mas, é nesse contrasenso que se vai erguendo a felicidade; é aí que, tantas vezes, tem origem a alegria despropositada do dia, mas a alegria.

Monday, December 08, 2008

Os livros e as circunstâncias.


Amanhã apresentarei o meu novo livro em Fafe. Na Biblioteca nova. Ainda bem que não tenho de voltar à sala romântica da velha Casa da Cultura, onde, ao longo de dez anos, tive sempre o meu pai na plateia.
Pela primeira vez, estarei sem ele. Também por isso decidi apresentar este livro primeiramente na minha terra. Foi preciso. Faz parte do luto. Faz parte da sobrevivência. Nunca percebi tão bem o quanto amava o meu pai como desde o momento em que ele deixou este mundo.
O meu pai foi um homem extraordinário. Tinha ideologia e tinha valores, tinha sentido estético e era um contemplativo por natureza. Tudo o que sei sobre o lado contemplativo do mundo lhe devo, à sua expressão de espanto e de regozijo perante a vida, à sua crença nas pessoas, ao seu deslumbre perante o mundo.
Amanhã apresentarei o meu novo livro e quase tudo que lá está escrito foi o meu pai quem mo deu, como quase tudo que escrevo. E nem assim a dor é menor. E nem assim a saudade me deixa. A saudade existe como um bicho furioso que nos morde e só descansa quando já quase nada significarmos. O meu pai há-de ser sempre o meu melhor livro, penso eu nesta noite, nesta véspera.

Do Intangível


A Editora Labirinto apresenta o livro Do Intangível, a mais recente obra Literária de Pompeu Miguel Martins, com tradução e prefácio de Victor Oliveira Mateus e grafismo de Júlio Cunha sob desenhos de César Taíbo.
A sessão de lançamento com a Presença do autor, está a cargo do crítico literário César Freitas, com inicio as 21h30, do próximo dia 9 de Dezembro (Terça-feira), na Biblioteca Municipal de Fafe.

Monday, December 01, 2008

Natal.


Uma ou outra vez é provável que sintas o natal a cair da face dos outros, a rumorejar pela cidade.
Uma ou outra vez é provável que perguntes se sobrará alguma coisa para nascer por estes dias.
Uma ou outra vez é natural que peças um milagre e consigas esboçar um magnânimo sorriso se, por um instante que seja, conseguires descobrir, não a salvação do mundo, mas a constatação do que virá, abrindo-te no olhar a estrela de que te falavam em pequeno e que tão bem se avistava nos olhos de quem tudo te entregava e que não voltará mais.

O espectáculo.


Os lugares vazios. As histórias que são difíceis de acrescentar a essa evidência. A interpretação difícil do tempo. Os lugares povoados pela ausência. Os lugares cheios desse vazio.
Às vezes sinto saudades de um tempo longínquo e sou, ao mesmo tempo, feliz pela lembrança e inadaptado pela circunstância que traz dessa lonjura as suas repetidas impossibilidades, os seus flagrantes nunca mais.

-Do camarote da tua alma avista-se um espectáculo onde entras e não entras, onde és criança à procura de tudo e adulto a tentar gerir os nadas com que te foste deparando à medida que os dias se foram gastando. Desse camarote, vais-te preparando para o grande espectáculo, preparando os aplausos e as emoções, as saudades que irás reconhecer nessa noite e o entusiasmo que te fará bater outra vez o coração, à míngua de um instante, talvez fatal, talvez final, por te acrescentar o amor no seu estado mais novo e mais maduro. Serás o teu próprio e íntimo espectador, o mais cruel e o mais próximo. Serás uma espécie de fantasma a deixar sobre a ambiência do camarote o sofrimento e a alegria, na certeza de que mais ninguém dali voltará a assistir a essa grande representação, a essa ininterrupta e magistral despedida, que és tu a viver e a pensar no mundo que deixarás ao mundo, assim que morra o instante, assim que pares de aplaudir ou de te emocionares e em cena não estiver ninguém, nem sequer a tua própria ausência.

Friday, November 28, 2008

Fafe


À medida que vamos perdendo as pessoas e os lugares, vamo-nos tornando mais duros. Temos uma necessidade de sobrevivência cada vez maior, por sentirmos que, a cada instante, pode-nos ser tirado um pedaço de memória, sendo isso um roubo demasiado grande quando se começa a perder o que, efectivamente, é insubstituível.
Fafe, no seu melhor e no seu pior, é a terra que mais amo. E dizer isto é uma banalidade. É como dizer que a mãe ou pai que mais amamos são os nossos. Porém, dizer isto não é inconsequente, porque o facto de sentir assim fez-me sempre pensar que nunca se deve desistir de aplicar à nossa terra os nossos melhores sentimentos e as nossas mais preciosas utopias. E não é por ser pequena ou meia de interior que não está à altura de ter o melhor que queremos para o mundo.
Existe, contudo, uma visão provinciana (termo fascista inventado por alguns) que é fruto daqueles que pensam que, por estarmos aqui, teremos que ser modestamente acomodados na nossa capacidade de sonhar e de concretizar. Felizmente que os tempos mudaram e que há uma geração que quase nem sabe o que isto significa. Felizmente que há fafenses de grande nível espalhados por cá e por todo o mundo. Felizmente e não vaidosamente. Porque é por existirem, cá e lá, desses cidadãos que se tem conseguido estimular a relação que a nossa população mantém com a sua terra, com o seu presente e com o seu passado. Um passado sem ideias balofas e salazarentas de tradições que não existiram efectivamente, mas, antes com a tradição que cada um com os seus foi criando, mais a história que cada um com os seus foi acrescentando aos lugares, o que neles viveu, o que neles deu de si, o que melhorou, o que ambicionou e o que conseguiu fazer com essa mesma ambição. Numa só expressão: o que o amor dos fafenses foi acrescentando a Fafe, assim sintetizando o que de mais sério se pode dizer sobre a nossa terra e do quanto foi válida a entrega de tantos.
São esses lugares de intimidade e de empenho a que mais me apego, sendo parte de mim como o meu próprio corpo. São lugares intangíveis, histórias de pessoas que na miséria de outros tempos tiveram uma generosidade maior que o seu próprio tempo, gargalhadas que ficaram de encontros, festejos de vitórias de futebóis, rostos onde só de os ver aprendi a ternura, o respeito, a alegria, o medo ou a coragem. Lugares intangíveis, feitos de quem acreditou, de quem quis mais de si mesmo e nunca sentiu pequeno o seu lugar.
À medida que vamos perdendo as pessoas e os lugares, diminuímos ao ruído e ao supérfluo e é mais densa e silenciosa a nossa luta, porque a vida também nos vai ensinando dolorosamente aquilo por que vale efectivamente lutar.

Tuesday, November 25, 2008

Elevar o coração


Elevar à condição de genuíno o coração. Eis o desafio que o tempo sempre nos colocou. E, sempre que assim foi, a História deu passos em frente e a Humanidade foi conseguindo ficar mais coesa e mais junta.
Elevar o coração. A frase de ordem com que comecei o dia, a poucas horas de sair para Bruxelas e começar por lá umas jornadas de trabalho. Quando for noite, regressarei à place de Brouckere para um café quente e depois caminharei até Rogier, como se também aí se reconstruísse o coração para que em todas as manhãs se eleve e acorde com a genuinidade indispensável à felicidade e ao cumprimento das nossas missões.
Elevar o coração e não sair mais desse lugar infinito onde bela e desmesuradamente se avista o mundo inteiro e o tempo quase todo.

Monday, November 24, 2008

O prodígioso surgimento da simplicidade.


A tia Alice deixou-nos, faz hoje dois anos.Há um ano ainda guardava a última taça de marmelada que ela confeccionou e me ofereceu.

E então, parece que não somos daqui. Que não seremos daqui nunca mais. É assim porque um de nós morreu. E quando isso acontece é tudo tão injustamente novo, é tudo tão prodigioso que chega a ser preverso olhar para tanta coisa simples e julgá-la desmesuradamente especial. Ou será que tudo sempre foi prodigioso na exacta medida em que todos seremos finitos alguma vez?

Notícias do frio.


No centro do frio, se erguem os primeiros olhares sobre o mundo. A manhã está cinzenta, mas nem por isso a alma se lhe assemelha. Há uma vontade de progredir em determinadas direcções que acabam por aquecer as convicções e renovar as forças.
Aos poucos e poucos há um mundo que emerge, com novos desafios e com novos rostos. Traz com ele novas soluções para velhos problemas. E a questão não é estritamente o de pôr fim eterna e definitivamente aos problemas, é deles fazer uma análise onde de uma fraqueza se encontre uma oportunidade e de uma ameaça se possa encontrar uma esperança para o aparecimento de realidades que nos levam para o avanço civilizacional que tão bem liberta o espírito.
Tenho andado um pouco por todo país e, nesse encontro com uma geração de cidadãos que se apresenta sem vícios e preconceitos de outras eras, tenho encontrado grandes sinais de participação cívica, de grandeza perante as causas, de luta sem tréguas face às discriminações sejam de que natureza forem.
No centro do frio, tenho encontrado o calor para continuar e ser do mundo com a força com que se é do amor.

Coisas de te inquietares.


Durante um período de perguntas e respostas ao Dr. Jorge Nunes, após uma notável intervenção em torno das questões da inclusão social e o do diálogo intercultural por este proferida na Nazaré, fui motivado a escrever estes dois textos.

1
Quantas coisas não entendias? Que palavras foste perdendo, sem sequer deixar ao vento essa perda, para que fluísse noutros corações?
Quanto tempo te abandonaste à solidão dessa ignorância, dessa difícil e genuína forma de ir morrendo sem causa alguma?

2
Vem abrir uma janela e sê o corpo que não tens. Sê em ti a tua própria revolução e experimenta fundamente a felicidade para que nasceste.

Thursday, November 20, 2008

A liberdade do amor


para a Landa

Subitamente os corpos plantam-se
e julgam-se sobrevoando o azul de si
e não do mundo.

Subitamente os corpos dizem-se
e guardam as palavras que criaram
à revelia de todos os alfabetos.

Subitamente os corpos amam-se
e pensam que fugiram para sempre
não do que eram mas do mundo inteiro.

Wednesday, November 19, 2008

Quando se acabar o coração


Quando se te acabar o coração,
é porque morreste,
ou então porque fazes, finalmente,
parte do que é inteiro no mundo
e, daí, lei alguma te libertará.

Nesse instante,
o teu peso será muito maior
que a tua morte;
e o teu braço não abarcará mais
do que abarcou vida adiante,
até ao último bater,
o teu efémero coração.

Tuesday, November 18, 2008

Poemas da cidade 20


Quando o inverno
é uma folha em branco,
pelo frio,
mas também por ser no branco
onde depositaste todas as cores.

Poemas da cidade 19


No monte que se vê desta cidade, sobe devagar a luz e, nessa subida, é a manhã que se desdobra ou o rosto que já tivemos.

E pergunto sempre:

-Que vida tão grande é essa, que braço de Deus, que fugídia e bela asa do amor?

A espera.



Escrever sobre a espera num dia onde muito pouco é esperado. Desafiar a aparente ordem natural das coisas e tentar agarrar a manhã com a inquietude que não veio, tentar erguer no dia a liberdade, o desejo infantil dos amanhãs que cantam, a serena miragem de alguma coisa quase nova.
Escrever sobre a espera e esperar efectivamente uma canção vinda de longe, vinda de onde muito pouco se conhece e aí atracar o barco do nosso dia e gloriosamente começar a tecer a saudade.

Monday, November 17, 2008

Poemas da cidade 18


Que tipo de gente atravessa a cidade?
Que pedaço de musa confundida com o frio
e com a idade?

Poemas da cidade 17



Anoitece sobre o frio
e a rua, aos poucos,
traz-te a voz ausente
depositando no coração
o caminho que falta
e da vida a sua serena
e inevitável erosão.

Poemas




1
Atira-te de um nome
e espraia aí o que ainda não desejas
e o que ainda não sabes desse lugar.

Um nome é um lugar amplo
onde tudo é possível. Por isso, ousa
pronunciá-lo e espera. Espera profundamente
até que consigas aí deixar de ser quem foste,
até que consigas despedir-te e sentir a tua própria falta,
até que consigas anular-te e sentir o teu próprio vazio,
até que consigas voltar a nascer e assumir
que não há nada de novo no mundo
que não tenha vindo de ti e desse encontro.

Até que entendas que a criação de Deus
vem dessa terrena metafísica, dessa eternidade
tão comovente, tão imparável entre os viventes.

2
Os passos e os corpos falam-te da liberdade.
Os passos que arrastaste tempo fora,
fazendo do mundo um corpo rasgado
a teu jeito para a incisão do amor e da beleza.
Os corpos que encontraste
deitaste-os sobre o caminho
e amaste-os com a serena lonjura
de quem não desiste e nunca se despede.
E, assim mesmo, foste o eterno nómada,
tendo para o teu tempo e para o tempo
que foste dando
a resposta ininterrupta do espanto
ou uma canção demorada
no fogo evocativo da memória.

Bruxelas, 16 de Novembro de 2008.

Sunday, November 16, 2008

Aterrar no inverno


A manhã de domingo a levantar-se com a direcção de uma partida. Viajo daqui a nada para Bruxelas. Todos os sintomas são os de um reencontro com o inverno. Mudar-me-ei para os sítios habituais, os mais recônditos, aqueles onde já se somam algumas boas histórias.
O aeroporto ao Domingo de manhã, faz lembrar o quadro de Hopper «Early Sunday morning». É desse tipo de manhã que partirei, é dessa forma que certamente aterrarei num dia bem diferente, mais cinzento, mais frio, mas em contrapartida terei o privilégio de desembarcar no inverno, e isso sim anda a apetecer-me de sobremaneira.

Saturday, November 15, 2008

A minha cozinha de Vermeer



Do quadro «One night in the Kitchen», de Vermeer, retomo a infância e o tempo em que tinha uma cozinha muito idêntica a esta, com as suas sombras, as suas sonoridades e os seus cheiros.
As sombras da cozinha nasciam da luz que entrava por duas janelas que davam para o quintal e que projectavam no chão de soalho as pernas da mesa que ficava ao centro, onde almoçavam as empregadas e onde se estendia a massa para os rissóis e para os pasteis de carne à moda de Chaves. A mesma mesa onde eu lanchava e daí esperava o pardejo que, segundo a minha avó, me vinha visitar todos os dias para ver se eu comia. Mas as sombras da cozinha eram sombras de uma magia impressionante porque se impunham e entravam pelo meu imaginário dando àquele espaço dimensões e apropriações que só o coração teve acesso e guardou para sempre.
Era uma cozinha enorme, com um forno a lenha na parede ao fundo e um fogão em ferro onde diariamente se cozinhava e de onde saiam odores de comidas que nunca mais provei e de momentos de proximidade, quando era inverno e ali me aquecia, como nunca mais voltei a experimentar.
As vozes na cozinha eram raras e pareciam sempre distantes. A empregada raramente falava e só quando outros adultos povoavam a casa é que se ouviam dizeres, pairando sobre uma certa inquietude que me fazia agarrar cada instante e, a cada instante, tentar levantar outras narrativas onde tudo se apaziguasse em qualquer coisa de fantástico e sobretudo de belo.
Eu fui uma criança que perseguia a beleza das coisas. E pensar nisso, nos dias de hoje, é admitir que fui uma criança que desde muito cedo me expus a um sofrimento regular por ser tão difícil seguir a extensão da beleza que possuíam os objectos, as pessoas, as suas vozes e o aroma do mundo. Mas, no fim de contas, não posso dizer que fui uma criança infeliz, uma vez que não poderia ter sido outra criança e o mundo não se me podia ter aparentado de um outro jeito. Uma criança à procura da beleza das coisas é o mesmo que uma criança votada a desafiar o universo ou a desfiar do tecido das horas a sua ordem natural, o seu fatalismo e o seu impossível. E isso não é manifestamente mau.

Wednesday, November 12, 2008

A oriente da tristeza


Talvez te diga que há um lugar a oriente da tristeza, querendo apenas que lhe inventes as pisadas e não estejas triste nunca mais. Talvez admita que somos a criança que ainda guardamos e que às vezes a alma tem mais tráfego do que as cidades que são grandes e de que não gostamos e por isso não saímos muito e não deixamos a descansar em casa a nossa imprópria solidão.
Talvez te diga que há um lugar a oriente da tristeza e te sussurre isto para que possas viajar para esse lugar e reparar que estou ao fundo, muito perto do sol ou das chuvas, muito perto daquilo que estiver por todo o lado e viva para estar perto.

Tuesday, November 11, 2008

Nelson de Quinhones


A música serve para se transformar numa extensão do corpo, numa extensão das emoções e do espanto que dedicamos ao mundo.
A música de Nelson de Quinhones tem a capacidade de questionar intimamente quem a escuta, de perguntar para dentro, de criar narrativas, de elencar histórias onde podemos entrar e seguir com as viagens interiores que resultam das nossas próprias vivências.
A música de Nelson de Quinhones é uma oportunidade. A oportunidade de nos demorarmos a viver sobre a fluência maior das coisas que vindas do mundo nos devolvem a narrativa do essencial.
É comovente a forma como estabelece comunicação com aqueles que são os sentidos e os ritmos das nossas felicidades e das nossas angústias. É incrível como é tão bem conseguida a comunicação que estabalece com a mais ousada alegria e como toca habilmente a tristeza, como celebra chegadas e dá às partidas toda a profundidade e toda a lonjura.
Esta música é efectivamente absoluta, não só pelo conceito em si, mas sobretudo pela forma como preenche o outro e com ele consegue ser a tal extensão do corpo e das emoções, o mesmo que a tal extensão da vida onde somos convidados a viver e a deixar que cada momento seja nosso e do mundo, seja íntimo e partilhado.
A música de Nelson de Quinhones é a prova cabal do que toda a arte deve ser: pessoal e universal. Intransmissível na origem e transmissível às origens.
Ouvir esta música é um desafio no sentido de cada um escutar-se a si próprio e saber de si em cada instante onde há um som que nos liga ao mundo, sendo essa a música, a que foi composta para inquietar a razão e abrir ao coração a sua expressão alheia e rente, a sua expressão no que em cada um existe para vencer o esquecimento.

Estados do tempo.


Quando chegar a vez de escutar as folhas e, do seu lento tombar, se perceber o ritmo das coisas e das emoções; Quando chegar a desfiguração de todas as faces que construíram o lado deplorável da condição de estar vivo; Quando chegarem as estações e só o seu rumor trouxer o que é perto e, a pouco e pouco, se levantarem a distância e o desconhecimento e isso for só de si o alimento;

Quando essa vez chegar, estarei com a tua face sobre o meu peito e deixarei que em cada momento que ainda possa vir, seja o que não fomos a trazer todas as folhas que no mundo hão-de ficar e todos os ventos. E que nas faces seja tudo o que não vimos a inventar o espanto e a seguir.

Monday, November 10, 2008

História de Amor 3


Que te nasça uma árvore no dia. Uma árvore de flores vermelhas e sossêgos longínquos. Que te nasça um rio onde fores capaz de tocar com os lábios e delineares um beijo ou uma palavra que te salve o mundo.
Que te nasça uma árvore no dia. Uma árvore e a sua sombra ou uma árvore e a sua nudez. Que chames assim pelo Deus que não conheces, tendo, por isso, a certeza que o amas. Um Deus é uma árvore no dia e o amor que lhe dedicas tem a incerteza do tempo, das chuvas e dos ventos, das tardes tórridas ou das neves a segurarem-se fragilmente sobre os ramos.
Que te nasça uma árvore no dia onde possas descansar o sobressalto que te invade os olhos e humedece as mãos, assim que páras para escutar o coração e acabas por ouvir a solidão.
Que te nasça uma árvore e desmonte junto do vento as palavras todas e traga na sua aragem, alfabetos novos, palavras sem sentido, universos inteiros onde te possas desmembrar sem que alguma vez te esqueças que há na vida sempre uma razão entre o partir e o ficar.

Em frente.


Carregar a imagem do dia e seguir erguendo a imagem do amanhã. Daqui se levantam as guerras mais silenciosas e mais eficazes contra a retórica do mundo.
Seguir com a imagem do amanhã e ser esse o amor e o braço, o espaço onde se erguem, com a mesma intensidade, a finitude, a realização ou o cansaço.
Seguir com o que sabes do coração comum e assim seres inteiro na alma do mundo e não o seu mais um.

Thursday, November 06, 2008

Lagoa do Fogo


Há dias, estava parado em frente à Lagoa do Fogo, na Ilha de São Miguel. De lá, trouxe comigo este pensamento, como quem traz, numa espécie de bagagem antiga, os restos da vida ou o sustento dos dias.

E se te permitires um corpo
que seja uma lagoa espelhando o céu.
E se te permitires um céu
que seja o fogo a espelhar
a limpidez da água
surgida do choro
ou da doce liberdade
do riso e da inquietação.

A festa do tempo.


De ou outro jeito, teriam de vir segredar-te a memória da festa. De um ou outro vento, teriam de perguntar-te por que razões foste perdendo a felicidade. E se nada souberes responder, basta que fixes o horizonte e consigas aí descansar a tua expressão mais serena e mais pacífica. Basta que à adversidade tenhas respondido com a esperança e com um grandioso desconhecimento do que é essa linha imaginária do tempo, do que significa estar em festa, do que poderá signifcar o à beira do fim, ou o tão gasto recomeço.

Monday, November 03, 2008

Uma fotografia de Nan Goldin


NAN GOLDIN

Nan Goldin é uma das minhas fotógrafas favoritas pela violência poética que possuem as suas imagens, pela narrativa que estimulam, pela inevitável viagem por uma sensibilidade que vindo delas questiona a nossa e os nossos limites.

Do fundo das minhas histórias, existe uma estrada que leva a um quarto e do fundo desse quarto existe um país e personagens que roçam nos nossos olhos a estranheza com que erguemos corpos e respostas sobre um tempo que, estando longe de ser nosso, também é o nosso.
Espera-me. Talvez possamos ficar com essa máscara e sermos felizes ou infelizes como nas mais belas histórias. Eu trago uma canção para te falar dela. E enquanto eu te contar tudo que sei sobre isso, tu vais trauteá-la sem palavras, não porque as não saibas mas para que possas viver nessa canção com o quase nada que te trago acerca dela, mas que vem do mais fundo que o mundo possa ter experimentado.
Espera-me. Não desistas ainda, porque morrer por morrer que o façamos onde o amor é um risco de imprevistas linguagens e de coisas que nunca se julgaram dizer ainda que não distingas onde começa a sua estranheza e um odor que vem da pele que é a nossa e que não distinguimos, nem perguntamos nada acerca disso, por ser isso o amor e esse o seu pacto mais duradouro.
Espera-me. Estou do lado de dentro da pele e tenho uma casa com compartimentos cheios de sombras e de feridas, de canções e de frases onde nos acumulam e raramente nos alcançam. Espera-me, que eu estou em fuga e a morrer de cansaço por não me saíres do horizonte. Espera-me, que estamos a rir, ou a morrer de fadiga ou a morrer de qualquer coisa ou por qualquer coisa e, aí, nada há de mais genuíno no amor.

Sunday, November 02, 2008

Esconde-me.



Esconde-me a pele por detrás desse teu rumorejar
e constrói aí um exílio e a razão de uma guerra.

Esconde-me como só aos foragidos é possível
e anda comigo pelo mundo como se ambos pudéssemos
mudar de sítio os corações e de peito todos os gritos.

Esconde-me onde só o lamento chega e a felicidade se demora
com a comoção de ver parada no olhar mais fixo
a última lágrima do que julgaste ser a única causa
ou a última mão onde exilamos o gesto
e partimos devagar para a morte das coisas sem retorno,

tudo por que vivemos.

Saturday, November 01, 2008

As ruas, a vida e os «santos»


As ruas, quando as mostramos e quando falamos delas a alguém, rebentam-nos na intimidade de um modo muito semelhante ao que acontece quando falamos de nós próprios e das coisas que nos são mais sensíveis. É assim quando decidimos falar da sua história, mas é mais assim quando começamos a descodificar o que emprestámos de íntimo a esses lugares, convidando quem nos acompanha a ser parte dessa mesma intimidade e a partilhar connosco uma parte da vida.
Quis a sorte que há cerca de vinte anos andasse pelas ruas de Fafe na companhia de José Cardoso Pires, mostrando-lhe essa minha interpretação do mundo através das ruas da minha terra, mas acima de tudo escutar a sua resposta, entrando eu na íntima ironia que o caracterizava, no seu inteligente sarcasmo, na sua muito própria força de vida.
Andámos o dia todo a vaguear pela cidade e a conversar como se tudo aquilo fosse uma oportunidade, uma oportunidade de aprender com a vida e de perceber que tantas vezes mais vale o corrido que o lido, como tão bem gostava de dizer José Afonso, citando a sabedoria popular.
Neste dia de todos os Santos, recordo esse passeio com Cardoso Pires e aqui ficarei o resto do dia a pensar como efectivamente se cruzam nas nossas vidas espécies de «santos» que pela beleza e o espanto nos mudam a forma e a trajectória que vamos dedicando a essa estranha e apaixonante coisa que é a oportunidade de estarmos vivos.

Friday, October 31, 2008

Pai


De onde viera a incompreensão da saudade?
De que raízes profundíssimas a tristeza?
De que código se farão os gestos futuros?
De que alfabetos nascerão as palavras
sempre e nunca mais?

As cidades dos outros.


Algumas vezes, são as cidades que acompanham o coração. Algumas vezes, é agradável o seu abandono por lugares onde desesperadamente precisamos de deixar uma história para ficarmos de bem com o facto de existirmos e por consequência usarmos um espaço e um tempo que, por definição, será irrepetível.
As casas das cidades dos outros são espaços de distância e de proximidade. De distância suficiente para que sejam perfeitas por via da imaginação e do desconhecimento. Próximas porque podemos nelas construir alguma da nossa própria intimidade e prosseguir como se estivéssemos a construir a mais bela despedida do mundo que, a pouco e pouco, foi levantando o corpo de vida que tentámos animar desde o primeiro ao último instante.

-Às vezes questiono se andarás pelo mundo como quem anda a despedir-se e, dessa forma, empresta ao olhar a comoção necessária para a celebração da beleza, que se espera eterna e transbordante, sem direcção, nem alvo, do mesmo jeito que o vento, com origem distante e a mesma proximidade.

Thursday, October 30, 2008

História de amor - 2


E ao teu corpo deixei a sala inteira, os livros, os sofás carregados de histórias, a janela carregada de invernos e de passagens muito secretas pela solidão.
E ao teu gesto deixei a música, a mais antiga possível, a que só as minorias fora de moda ainda escutam e libertei da memória que ainda guardo do teu ombro quatro ou cinco espécies de bichos que não param de morder ou de rastejar pelas imagens que ainda são as imagens que me seguram a vida.
Poderia dizer que por ti teria libertado alguns pássaros, mas não. Não consigo sequer saber como podem os pássaros continuar a sua rota havendo sobre a miragem da tarde o cais que sempre fora o teu ombro ou sobre a miragem da vida o teu olhar mais fundo e silencioso.
O teu olhar sempre foi um oceano,tu que gostas de oceanos e que nem sabes o quanto não são aliciantes esses mares, comparativamente ao copo de chá que seguras enquanto olhas o jardim da sala. Atravessei continentes nesse copo e dobrei os cabos todos que havia para dobrar ainda que pudesses não entender que era uma rota aquilo que eu construía num silêncio abismal como só aos percursos solitários é dado construir quando são delineados para um encontro.
Deixo ao teu corpo a sala inteira e vou dormir com todos os livros e todas as histórias que ainda não escrevi, mas que vislumbro já do olhar que lanças ao mundo do alto do teu copo de chá, enquanto guardas o nosso jardim.