Tuesday, November 20, 2007

Poemas do Hospital - 4


Tudo tem a tua brancura, quando a brancura é o que dizes, é o que fazes, é o que sentes e depois desaparece para que alguma vez, fora daqui, possa amanhecer e de um qualquer branco surja o sal, o leite, o primeiro malmequer na mais distante colina, a primeira vez em que rasgaste o corpo e descobriste aí a sua alvura, por ter sido do amor o rude golpe, por ter nascido aí a primeira vez em que começaste a não morrer para o mundo.

Poemas do Hospital - 3


Há um conjunto de livros para incendiar as horas, caixas de chocolate para tornar menos humana e menos normal a dor destes locais.
Formas inebriantes de enganar, exercícios de fuga, desenho de exílios, mentiras de idade, vai e vem complexo de espaços e de memórias. Tudo porque falta a vida desprovida de acaso e de infortúnio.
Até que regressas aos poucos e tudo parece começar de um outro sítio e a luz da manhã surgir de uma outra forma, como um livro novo ou um chocolate muito mentiroso que te roube a infelicidade.

Monday, November 19, 2007

Poemas do Hospital - 2


Sabes o que é uma sombra?
Uma sombra é um espelho onde é possível ver o que já foste e o que serás; porque aí consegues a escura liberdade do que não vês mais a oferenda das noites que viveste e as que preparam em ti um mundo novo. É isso uma sombra, ou pelo menos a sua magia.

Poemas do Hospital - 1


para a Landa, além das flores

Dá-me ar; o das árvores, ainda que seja o que passou nos últimos dias.
Dá-me a flor da manhã e a tarde recolhida no lago mais adornado por antigas esculturas, no jardim mais clássico que na cidade houver.
Dá-me a tua mão exterior, ainda que seja de estátua e de brancura e segura aí o que quer que seja que vier do mundo e que nós consigamos testemunhar antes mesmo da imaginação.

O beijo da arte.


Kiss - quadro de Edvard Munch
Quando um quadro pode revelar uma idade, então esse quadro é uma obra prima. «O Beijo» de Edvard Munch levou-me a um tempo de invernia e profunda cumplicidade, há vinte anos, quando o mundo tinha as cores do seu quadro no interior mais interior que possuía.
Mais uma vez, a questão da verdade na arte se recoloca neste excelentíssimo exemplo. A única verdade que tem este quadro, e a que importa, é aquela que se liga à verdade que emerge da sua relação com o observador e, mais do que isso, com o seu vivente. Viver com a obra traz uma nova verdade sobre ela, longe do academismo que a rodeia, importantíssimo aspecto, porém de consequência menor na vida de cada um. Por outro lado,dirão, e bem, os críticos que sem o esforço da técnica, do pensamento e do encantamento do autor, verdade alguma existiria para quem quer que observasse. Porém, o que distingue o correcto do genial é sobretudo essa ligação ao «sangue do mundo» como diria Neruda, ou aquele que é o «penoso trabalho da arte» como me disse Júlio Cunha e o que daí resulta desse misterioso trabalho que ainda conserva as artes num refúgio incapaz de ser ensinado, a não ser pela vida e o que ela nos reserva de único, oferecendo-nos aquilo que tanto nos apraz, a utópica e ambicionada originalidade e genuinidade.

Sunday, November 18, 2007

Biografar o instante seguinte.


Os últimos almoços têm sido acompanhados pela biografia de Chagall. As biografias têm a capacidade de nos proporcionarem uma companhia muito efectiva e com a possibilidade de nos deslocarmos no tempo com a interpretação do biografado.
Andar assim pelo tempo dos outros, é como se estivesse em arrumações pelo meu. Por isso, gosto tanto de almoçar só e de me proporcionar estes prazeres, verdadeiros calmantes e estetizantes das horas seguintes, verdadeiras fontes de riqueza, seja no plano das emoções, seja no rendimento material das acções que diariamente me estão incumbidas.
A ambiência europeia do período compreendido entre as duas guerras é um dos meus cenários preferidos, seja no plano das artes, da proliferação das ideias, seja numa certa plasticidade urbana e vivência interior.
Às vezes, sinto-me como uma espécie de personagem a preto e branco a ouvir música que já nem o meu pai ouvia e a comover-me com coisas que só o meu avô era capaz de se ter comovido.
O quadro de Chagall, «Por cima da cidade», é para mim uma relíquia interior sem tempo, diria mais, é uma atitude que pratico diariamente naquilo que hoje parece rarear mas que não dispenso, o ser-se um todo em tudo. Quero dizer, não deixar a profissão à porta do amor, não deixar o amor à porta da política, não deixar a política à porta da arte, ainda que só por dentro, ainda que tudo pareça diferente na sua expressão materializada, ainda que seja apenas nas emoções essenciais, as que tudo mudam e tudo criam.

A dimensão das emoções.



Manhã aberta com os poemas da japonesa Ono no Komachi, uma autora da idade de Ouro (834-?).
São poemas sobre o amor, numa versão que sobretudo os artistas e os seus mais próximos entendem, uma vez tratar-se de uma época onde a narrativa do desejo e da entrega é, não explicada, mas explorada nos seus lados físicos e emocionais. Tenho uma profunda simpatia por este tempo, mais do que isso, pela forma como o mesmo se geria entre territórios materiais e imateriais, tangíveis e intangíveis, num ritmo profundo, inseparável, dedicado.
Acordar com estes poemas, ainda que num Hospital, como é o caso, dá a enganosa impressão de que se poderá estar para aqui a redimensionar o mundo, a refazer o gesto que dá consequência à vida, a tentar recomeçar a idade no ninho insubstituível do que sonhámos e vamos como os loucos mais felizes, rua adiante, perguntando se é verdade.

Thursday, November 15, 2007

Bilhete.


Olha como passa o teu tempo. Como não agarras as coisas com a intempestiva distorção de antigamente. Olha como se morre na face do mundo e se é tão feliz por isso, por todo esse milagre.
Não argumentes. Sabes bem que um argumento é sempre algo que fica aquém de um poema. Para piorar as coisas Deus quis que andasses pelo mundo a confrontar poemas e argumentos, aí descobrindo o único espaço para edificar o que quer que inventes sobre a felicidade.
Olha como passa o teu tempo e como daí se inventou todo o amor e toda a saudade. Olha como em volta tudo tem o timbre das campânulas e dos automóveis, das árvores e dos prédios, dos corpos e da sua inevitável partida.
Olha. Olha mas não vejas, imagina. Isso te basta. Isso é o suficiente que Deus te deu para que vivas, e pior, muito pior, para que faças feliz quem te rodeia.

A geometria do mundo.


Autumn Leaves
Sir John Everett Millais 1855-56


Não há geometria nas folhas das árvores. A menos que da geometria se solte a bela imprecisão, a indefinível cor ou a altiva imprevisibilidade.
Se isto houver na geometria, perceber-se-á, então, o indizível olhar do artista ou a beleza de todos os outonos que contam as folhas depositadas, ano após ano, no ennvelhecido coração.

Wednesday, November 14, 2007

Hotéis e solidão.


Lembro-me do velho Hotel da Curia. De por ali andar com o meu avô e com os primos brasileiros. Das gaivotas que ali são pequenos barcos a pedal que deslizam sobre o lago. Os Hotéis que tinham compotas de damasco e de morango e um café de saco muito diferente do nosso. Todos os hotéis têm cafés de diferente sabor. Lembro-me de tudo e isso é uma fortuna.
Nesse tempo importava muito o que se dizia e a forma como se dizia. Não havia lugar para impulsos básicos ou para a gala desmedida de um calão disfarçado de génio. Nesse tempo, tínhamos um peso correcto sobre os ombros, o peso justo dos outros e da sua liberdade. É certo que havia outros pesos e outras pesadas circunstâncias. Mas não em nossa casa.
Agradava-me a antipatia que se cultivava pelo mau génio e pelo o sábio ditado que «os nervos se curam com um pau» ou «até os doidos se educam». Agradava-me e nem sequer adivinhava que, neste tempo, iria encontrar tanta gente disfarçada de nervosa e tanto "doido" apresentado como génio. Em ambos os casos prevalece o egoísmo, o hedonismo e o egocentrismo. Sobre ambos deixo recair uma pesada indiferença e assumido afastamento. Sem lástima.
Lembro-me de tudo desse tempo e assumo as saudades, assim como essa forma tão intima de conservar o mundo. Talvez a pobreza seja isso, não ter memória alguma de alguém por quem gastámos algum tempo com o amor, com a privação ou com o desejo.
Talvez a pobreza não seja estar impedido de conhecer esses velhos hotéis, mas antes o não ter quebrado de vez o espelho que apenas reflecte uma só pessoa, ainda que nesse ambiente ou na mais velha favela. Disso não me queixo, graças a muitos e a esta minha feroz militância em olhar os passos em volta e a eles pertencer e a eles sempre me dar.

Tuesday, November 13, 2007

Poemas da cidade - 16


Há uma cidade que vai para dentro da diferença. É nessa que flúi o meu mais genuíno coração. Uma cidade com amores incautos, com estranhezas apaixonantes e novos dizeres.
Fico aí à espera e corro. É possível assim. As esperas foram sempre os momentos em que mais mundo corri, como a partir do silêncio consegui encontrar as mais belas conversas, as mais longas revelações.

Sunday, November 11, 2007

Poemas da cidade - 15


É um rio a atravessar uma cidade. Um rio como um pedaço de sangue atravessando as veias.
Daí em diante, será sempre o mesmo: aí ficarei parado à espera dos barcos, não importando se parto para as margens do mundo ou do coração.

Tu és uma árvore.


De regresso ao frio, assumo que, se vieres, hás-de ser uma árvore e do teu corpo infinito hão-de levantar-se a tarde, as chuvas, as memórias do amor e as certezas do que é corrente ao dia.
Assumo que, quando vieres, hás-de ser árvore e eu o seu delicado golpe de vento e de geada, desenhando juntos a face imperdível do Inverno que havemos de oferecer às mais íntimas e duráveis manhãs do mundo.

Sábado de S. Martinho em Amarante


Fomos à terra de Pascoaes e de Amadeo abrir a Feira do Livro do Externato de Vila Meã. Autores convidados: além de mim, a Juliana Miranda e o Carlos Vaz. Dissemos sobre os livros o que a eles nos prende e o que sentimos, a única maneira de não afugentar as pessoas e de trazer mais gente para o lado de dentro da literatura. Estivemos bem, como em casa, mais uma vez, num gesto de equipa que nos torna a todos muito próximos e a comungar de uma ideia de que só valem as coisas genuínas. Nada se força nesta editora. E assim está bem. E assim deve continuar.
A seguir, fomos ao atelier do Julio Cunha. A obra do Julio é muito povoada. Apetece escrever contos sobre cada quadro. São quadros onde temos muito por onde nos demorar e outro tanto para sermos outros e para deixarmos sobre o olhar lançado uma inapagável marca sobre o momento.
Depois provámos vinhos e comemos até quase de madrugada como o não fazia há muito tempo, numa casa povoada de arte e de gente que ainda cultiva o prazer de uma boa conversa, perto de uma lareira e à boca do coração.

Sunday, November 04, 2007

Elogio da loucura.


pintura de Abram Arkhipov - 1897

Impressionante, o facto de ser o espírito, muitas vezes, a ver mais do que os próprios olhos. Hoje, de manhã, as árvores do Largo estavam com tons de Outono, contrariando a imagem que delas tinha na tarde de ontem. A lição que se tira é a do sentido, o que se sente é tantas vezes mais real do que a própria realidade, aí se alojando as raízes de quase tudo, da beleza e do medo, da ousadia e da fraqueza, do rasgo e da imanência.
Sentir o mundo, à medida que vamos envelhecendo, é uma faculdade que se sobrepõe ao que os olhos vêem, que é o mesmo que dizer que o factual se submete ao interpretado, que o recriado se submete ao que é bruto, que o objectivo tende a dissipar-se e a dar lugar a uma espécie de ninho que fazemos a todo custo pela nossa passagem pelo chão das coisas e das emoções.

- É verdade que as emoções têm um chão, um chão suportado na desconfiança da lava que nas profundezas nunca se sabe quando entrará em ebulição, na desconfiança do céu que tantas vezes emudece, na leveza da terra quando dela nascem as nossas flores mais diáras, na lonjura do vento quando trás de outro chão o aroma da diferença. É verdade que as emoções também têm um chão, caso contrário onde nos poderíamos enterrar assim que acordamos para o que de mais real o dia guarda?

Saturday, November 03, 2007

Corpo e tempo.


Tarde de sábado, de um outono a 21 graus, incaracterístico e a prencher-se pela saudade de algum vento e outro tanto frio. Tarde para soltar na cidade um pouco de beleza e de surpresa pelo estranho que é estarmos nesta época e até as árvores parecerem mais verdes do que no verão.

-Atento ao corpo imaculado e quente, és tu a única ponte para o incêndio interior com que preencho o tempo. Engolia todo o teu silêncio e todo o teu desejo e talvez a seguir chegasse ao segredo com que são feitos todos os invernos, nos contornos mais do que prováveis do aconchego.

Friday, November 02, 2007

A paz invernal.


A incursão num imaginário de luz branda e de frio aceso deixa no dia a esperança de haver alguma reserva de felicidade para o Inverno que se aproxima.
Às vezes, distanciamo-nos do mundo, ou porque o tempo não chega para estarmos em vários mundos, ou porque aqui e ali a desilusão e o cansaço tomam conta do momento. Seja por que razão for, a distância, nestes casos, é sempre dolorosa e prejudicial. Daí que milite em combater os factores e tente a todo custo retomar o tempo que se foi perdendo sem registo.
A incursão no meu velho imaginário de Inverno afasta bestas e bestialidades, afasta metodicamente tudo e todos quantos são uma espécie de ruído e de imperfeição àquilo que o espírito sofrido e empenhado foi capaz de construir ao longo dos tempos. Acredito que há uma espécie de lógica marxista que assiste a cada um: a paz a quem a trabalha. Se há trabalho pelo qual me deve ser destinado um pedaço de chão é aquele que desenvolvo em função do equilíbrio entre os que amo e os que amam.
Neste Inverno, volto à exigência do silêncio e à imperativa necessidade de ser apenas o universo e as suas forças a levantarem a voz, a construírem as tempestades.

Conservador ou progressista?


Ser ou não ser conservador? Eis uma importante questão para a qual ainda não consegui dar uma resposta com a clareza que o assunto merece. Prefiro pensar que o que está normalmente em causa é a nossa vontade e sensatez em preservar o que deve ser preservado, aprofundando razões e sentido crítico, sem contudo perdemos a capacidade de aceitar o novo, porém que também daí venham contributos que reflictam dedicação e profundidade.
Grande parte das vezes, confunde-se o novo com o superficial e ainda sem história, facto que afasta os ditos e assumidos conservadores, ou, no outro extremo, confunde-se o existente com algo empedernido, parado no tempo, incapaz de ser mudado, o que afasta os ditos e assumidos progressistas.

Nesta manhã soalheira de Novembro, continuo a permitir que a vida se expresse numa fluidez equilibrada onde coisas do passado continuarão a ser coisas do futuro e que o novo surja e me ajude a ter uma história melhor e mais funda, até na interpretação, até na fruição do que foram os dias idos.

- Desta manhã, deixo-te a trepadeira em fogo no telhado da vizinhança e os seus gatos, a lembrarem todos os Outonos e o amor infinito que ainda tenho para te oferecer nos dias próximos, esses dias que levam tão alegremente ao fim da vida.

Thursday, November 01, 2007

A insensatez.


A insensatez é a ponte entre o rídiculo e o desperdício. É a morte deliberada. É a perda de tempo e de medida. É o adiamento até uma espécie de nunca mais.
A insensatez é uma espécie de fim premeditado. A insensatez é a negação do sensato que é nunca perder a imaginação, nunca perder a reflexão, nunca deixar de ser daqui e dali e não o ser ao mesmo tempo, desde que nisso haja um sentido e um caminho.
Morrer insensato é não ter nascido para si, o maior pecado, o único verdadeiramente mortal.