Wednesday, August 29, 2007

Poemas da cidade - 8


Quantas vezes a importância das coisas
é a flor mais breve do verão mais quente?
Quantas vezes foi só esta a aragem matinal
dos vivos?

Lisboa, 28 de Agosto de 2007

As tílias de Bonn


Também são tílias, estas.
Mas delas não rebentam, verão dentro,
o odor da infância
e o doloroso perfume dos que partiram.


Bona, 27 de Agosto de 2007

Poemas da cidade - 7


1- Uma cidade a abrir-se no corpo adormecido. Uma imagem atirada ao ruborizar do tempo. Um corpo, uma ave a atravessar a boca do sonho, beijando lenta e ferozmente a centelha dos dias.

2 - O odor era quase tudo; uma longa história sem fim à vista, uma palavra atrás de outra, uma espécie de pacto sobre o sangue do amor. O odor a espalhar-se sobre a pele do infindado corpo do olhar. A arrastar-se, só a distante terra do que faltou às mãos e justificou sempre o corção.

26 de Agosto de 2007, a caminho de Frankfurt.

Recuos e liberdades.


Recuo até ao nome onde arde a fala mais intensa, roubada ao volátil coração da tarde.
Recuo até ao incendiado interior dos olhos e das ruas noctívagas onde soltámos os animais mais improváveis e mais livres de todas as geografias.
Recuo até essa geografia como se ainda houvesse um corpo e brilhassem na noite essas ruas, a idade magnífica, a perda magnífica, a remota construção das mais belas ruínas da nossa idade.

Os pássaros e os Homens.


Sofrível é a imagem que reduz o pássaro
à condição humana.
Mais sofrível que a imagem do Homem
reduzido à condição prisioneira
de ter do céu a metafísica distância
e não o chão onde pássaros e Homens
deveriam cruzar destinos.

24-08-07

Saturday, August 18, 2007

Incógnita.


Até à incessante descoberta do coração, deixo que os passos atravessem o tempo ao ritmo das coisas que desconheço e que devo amar por força do destino.
O amor é um dever dos vivos.
Não serei mais o passageiro regular das coisas que lenta e fundamente mudariam a vida. Não serei mais esse passageiro, mas na incessante estrada do coração, outras vozes acalentam o que vier. Pergunto a medo, como um velho com mil anos: está aí alguém? Quem anda aí?
Só um dia, o coração saberá a resposta, a verdadeira, a que mais interessa.

Thursday, August 16, 2007

Avistar a nascente a partir do fim.


Um corpo com a frescura das nascentes, das primeiras correntezas, dos primeiros encontros com a noção das margens. Já foi assim esse corpo, conhecido pela luz pujante da madrugada. Um corpo comprometido com a força do dia, a sorver para si o desconhecimento e o pacto iniciático com a resposta que a terra pode proporcionar quando sobre ela passam as torrentes.
Um dia encontrei assim o mundo. Era tarde, e no que restava das horas apenas um som longínquo testemunhava a passagem breve daquele corpo. Sentei-me sobre essa ideia como se me debruçasse sobre a mais alta varanda para avistar infantilmente o fim do mundo. Ali permaneci até hoje com a serena expressão de quem jamais perderá a esperança de avistar esse lugar onde devem ir ter todos os corpos que guardaram em si a frescura das nascentes.

Tuesday, August 14, 2007

A subsistência dos sonhos.


Os últimos dias, dormindo onde calha e comendo quando calha, atravessam-me como balas e deixam no chão um rasto a novo e a decisivo combate.
Gasto, por dia, uma ração literária de subsistência, reduzida a cerca de um quarto de hora e vou olhando o mais que posso para a vida e para o mundo como se os não quisesse perder de vista neste coração viandante.
Há dias, na esplanada do Roi Espagnol, em Bruxelas, consegui beber uma Leffe Brune como se engolisse, no meio de um turbilhão de circunstâncias, toda uma idade de que me fui despedindo e voltando, como se engolisse as memórias e os textos que ali escrevia há anos, como se fosse possível empurrar para a alma empedernida os capítulos do meu primeiro romance alinhavados no café das Galerias St Hubert.
Há momentos, parei em Coimbra B e lembrei-me que há dois anos ali parava em sentido inverso, com o peito cheio de desconhecido e uma vontade enorme de poder fazer com que, da minha oportunidade de mudar de vida, algo pudesse ser acrescentado à vida dos outros. Assim foi. Descanso, portanto. E no fundo, há uma certa comoção interior. Talvez seja essa a verdadeira estação de onde hoje parto, em ração de subsistência e com mais desconhecido pela frente do que nunca.
É mais uma viagem. Quantos entrarão desta vez? O que eu dava por uma cerveja , algures no fim da próxima paragem…

Poemas da cidade - 6


Como pousar um copo com água na esplanada, ao sol, e aí prometer um oceano, a sua frescura e o seu risco. Aí banhar a dimensão da ousadia onde a arte emerge como um corpo de verão, o mais belo, o mais pronto para um nunca mais.

Monday, August 13, 2007

Poemas da cidade - 5


Que importa o sol sobre o verão das casas, se era um incêndio sobre o mar do rosto que exigias para a arquitectura do mais apaziguado silêncio das horas?

Poemas da cidade - 4


Por onde andarão os gatos e a sua felina criação da noite?
Por onde andará a sombra do coração?

Poemas da cidade -3


A calçada bordada de pássaros, âncoras e fados resgata a luz e o céu possível.
Tudo mais é a dura metafísica das coisas e a arma de todo o riso.

Thursday, August 09, 2007

Poemas da cidade - 2


Os pombos atravessam a música das ruas e seguem o rumo autêntico da humanidade no bicar o chão e no voo relativo.
São pombos essas criaturas do dia. São bilhetes para a estranha vocação da arte.

Poemas da cidade - 1


O verso é uma folha colhida ao vento, na doce ignorância da terra. À terra o privilégio do espanto pelo seu nascimento e imortalidade.
Ao verso o seu deixar de ser, o ser outro pelos que pelo chão passam e interpretam os ventos.