Thursday, July 26, 2007

Recordações do verão


Os cheiros a pinheiro e a terra vermelha devolvem-me um Algarve de há muitos anos. O mar e as suas falésias completam o retrato, provavelmente vulgar, mas a entrarem na absoluta raridade das emoções a que se não volta por força do tempo.
Esta tarde, a subir o caminho de acesso à praia, pai de filhos, a levá-los pelos mesmos caminhos, retomei uma série de gente que já só existe no lugar onde mais tempo se vive.

Atravessar o odor do pinho
e incendiar na idade
o oceano das coisas simples.

Atravessar o medo
e ficar à espera da morte
como de uma tarde com sol
onde fôramos felizes
e com frequência mergulhávamos
no que seria eterno e tinha então
a capa mais leve da luz do verão
ou das frases que nos faziam crescer
o corpo e a memória mais frágil.

Saturday, July 21, 2007

Perdido


Porque sei da tua voz como uma ferida
e do teu gesto como o caminho incendiado
no promontório mais fundo
do silêncio.
Porque sei de ti como um barco à deriva
no vento do meu desespero mais íntimo
e do meu pensamento mais puro.
Porque dizer o teu nome é mergulhar as mãos nas chuvas
mais distantes e mais invernosas da cidade mais bela
e longínqua, onde não estive ainda.
Porque ser do teu corpo é morar o lume que queima
todo o amor que não tive, e a idade errada onde não fui
o sereno viadante dos dias.
Porque ser do teu tempo é morrer lenta e tristemente no meu,
ouvindo a tua voz distanciar-se,
erguendo a cada instante a vez perdida
onde nada reconheço que tenha a marca, que tenha a vez,
que seja da luz da manhã
a coisa idêntica, o círculo fechado, a mão apertada,
o corpo indistinto.

Thursday, July 19, 2007

Os barcos da memória.


Foram alguns os barcos saídos da memória. Partíam, um a um, deixando na luz do dia um rasto de desaparecimento e de chegada. Sempre pareceram contraditórios esses barcos, ou talvez assim fosse a sua memória. O que é certo é que partiam e havia nisso um lado triste e de perda a que sempre se associavam, sendo esse o lado da chegada.
Ficava no cais, fosse ele qual fosse, a ver chegar tudo aquilo que fomos perdendo com a partida de cada barco. E perguntava muito, até que ponto haveria efectivamente viagem assim que cada embarcação deixava de ver-se.
Os dias foram passando e, aqui e ali, foram chegando notícias do que aconteceu ao mundo, por força dessas partidas, assim que os barcos que desapareceram tocavam costas longínquas e vidas de gentes que nem sequer sabíamos que existissem.
Dessas notícias, esboçámos novas feições e, a pouco e pouco, começávamos a preparar uma nova embarcação para soltar um dia, do mesmo modo, do mesmo irrecuperável modo de constatar este maravilhoso desconhecimento daquilo que pode provocar o que deixamos de ver, mas que partiu de nós alguma vez.
Também assim será a imagem reconstruída do Homem no seu Deus, do Homem no seu Amor, e até do Homem na sua materialidade.

Monday, July 16, 2007

A pessoa e a cidade.

E de passagem em passagem, tudo parece um estreito marítimo por descobrir, um cabo para virar ao sabor da tormenta.
O dia, com o peso do incómodo que é sentir, trasnfigurou-se numa estrada conhecida, da qual se não consegue sair por saber que é aí que reside a felicidade, com todos os perigos que a felicidade sempre comporta.
Uma estrada, com o mar ao fundo e uma paisagem de gente e de lugares que se conhecem, aparentando uma cidade. Isso mesmo, uma pessoa como se fosse uma cidade povoada aqui e ali de surpresa e de medo, de alegrias e desenganos.
Uma pessoa como uma cidade sem vista para outras, condenado a ser da cidade a sua própria miragem, condenado a reiventar na cidade as cidades todas que se não vêem.

O Minotauro

Foi hoje para a gráfica do Sr. Carneiro o primeiro número do «Minotauro», uma folha de intervenção artística que dirijo em nome da Labirinto.
Mais uma pedrada na indiferença e na falta de ideias para o mundo. Tenho-me resguardado muito na capacidade que vejo em volta para que as coisas mudem e que, a pouco e pouco, tudo pareça melhor e mais à medida daquilo que deveriam ser os nossos compromissos civilizacionais.

-Estás acordado, com um sorriso muito adolescente, muito ingenuamente a admirar estes últimos gestos. Estás acordado e a acusar-me de ainda querer mudar o mundo. E consegues, consegues de forma imperativa e doce, simultaneamente. Estás em pé, desse lado do espelho de onde nunca saíste. Tenho-te aí plantado como os orientais plantam as suas miniaturas de árvore que são, acima de tudo, monumentos sobre o tempo, esse tempo que vai passando e sobre o qual não nos queremos despedir, nem sequer permitimos que passe sem que o moldemos. Hoje, acabei por fazer um jornal. Sempre quisemos que assim acontecesse um dia. Aconteceu, hoje. Espero ver-te sorrir amanhã, quando formos outros, quando estivermos mais perto do fim, mas também mais perto de acabarmos cada vez mais tarde, por tudo o que fizemos e que fomos dando.

Saturday, July 07, 2007

A Máquina na Casa Fernando Pessoa


Intervenção de Catarina Nunes na apresentação de Máquina Royal na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a 6 de Julho de 2007.

Intervenção de Carlos Vaz.