Friday, June 08, 2007

A sala.


De todo o silêncio, o de hoje é uma sala, uma enorme sala, de cantos recatados, estáticos, com uma idade a esconder-se devagar. Tudo quieto. Tudo escondido. Entro com a insuportável sensação do medo e pergunto apenas com o pensamento. Pergunto por todos, por mim em idades muito distantes, em lugares muito distantes, em coisas e mais coisas que fazem parte da eterna arca que me acompanha e sobre a qual não consigo suportar mais do que três ou quatro frases que tenham em si o peso do passado e da saudade. Fico com a impressão da morte, sabendo muito bem que a morte, a nossa, não existe senão para os outros. Nunca fomos nós a morrer.
Abro as janelas da sala e desse silêncio. Recuo. Fecho-as novamente. Tapo-me com o que de mais abrigado possa ter, adormeço-me. Adormeço-me como quem foge e espero que do sono me surja algo que seja novo e me surpreenda.
Fico junto às paredes, porque as paredes dessa sala são as margens de todos os rios por onde passei e que conheci. Alguns cheguei a amá-los, mas não são esses que espero, nas margens desta sala, são outros, são os que ainda não conheci e não amei. Espero aqui esses rios, em forma de anjo, sem corpo, sem voz, sem materialidade, rios que tenham apenas uma direcção e nela uma possibilidade.
Adormeço-me como um viajante, sendo essa a mais nobre face que poderei ter para enfrentar a dúvida e, um dia, a eternidade.

Sunday, June 03, 2007

As esculturas citadinas.


As esculturas citadinas, esses corpos distantes, anónimos, essa possibilidade de enredar uma qualquer coisa que se estenda pelo dia e que entre na memória de modo lento e suave, como quase tudo que tem direito a permanecer na memória.
As cidades têm-nas cada vez mais. Apenas me relaciono com as mais antigas, com as que já não interessam a quem é comum e só consegue viver num único tempo. As outras, as mais contemporâneas despertam-me demasiado para a hora presente e isso para mim é trabalho, não é deleite e muito menos liberdade.
No Porto, na avenida dos aliados, ao fundo, está uma escultura extraordinária de uma mulher nua em cima de uma coluna. As pombas, param imenso por lá. O seu corpo branco, despido, na mais cinzenta cidade que conheço, não me lembra mulher alguma, mas antes a infância que por ali vivi, uma infância a cinzento e branco, bem como as vezes que ali atravessei a rua em direcção a Sá da Bandeira, para ir tomar café com o avô ou com o tio Orlando, na Brasileira do Porto.
Lembra-me uma cidade conservadora e grande, muito diferente da minha, conservadora e pequena. Uma estátua de mulher que me traz o contraste com os homens aprumados, de jornal debaixo do braço, o «Janeiro» ou o «Comércio», sobretudo esses. Aqueles homens com um ar elegante que só se equiparavam na minha terra a uma, bem contada, dúzia e meia de cidadãos.
As esculturas com gente a povoarem na cidade as nossas sempre incompletas histórias, mesmo aquelas que tiveram um fim aparente há muitos anos, mesmo aquelas cujos protagonistas já só existem no nosso coração incendiado pelo tempo. Histórias incompletas pelo que ainda modificam, pelo que acrescentam, pelo infinito a que sempre votamos aquilo que guardámos, aquilo a que juramos pertencer, como só aontece nas juras de amor eterno, ou na infantil impressão de que ninguém morrerá, de que só as coisas más e feias desaparecem para sempre.