Tuesday, May 29, 2007

O tesouro.



E das aves, meu grande amor, aprendi
que o caminho é uma casualidade,
uma imensa casualidade
entre aquilo que fomos acreditando,
aquilo que fomos dando
e tudo o que falta aos que da vida
nunca sentiram, como nós, um grande amor.

Tempo de emoções.


O tempo das emoções é um tempo invencível para aqueles que vêm por bem.
Este continua a ser um tempo de falar com a boca do coração no meio de multidões anónimas e cegas, vencidas há muito.
O tempo de rasgar bandeiras no precioso silêncio dos que acrescentam e de semear na renteza da fala o gesto que continua e nos define, aquele que alguma vez se perderá de vista e nos deixará nos olhos o brilho da alegria e da saudade. O brilho de seguirmos tranquilos, até se não escutar mais a nossa voz, para que também isso possa ser desnecessário por termos um corpo muito novo e muito pronto no coração daqueles que nos souberam guardar e guardar da nossa passagem todo o sussurro que nunca os deixará baixar as mais perigosas bandeiras que do silêncio se ergueram, por todos quantos tombaram e pelos que ainda não nasceram.

Sunday, May 27, 2007

Dimensões.



Já houve uma forma e um lugar onde a vida, muito lentamente, foi ganhando raízes, construindo sombras, deixando na aragem as vozes que guardámos, das quais nos é tão difícil apartar.
Nessa forma e nesse lugar, criaram-se corpos, corpos tocados, sobretudo por dentro, gerando um corpo novo em nós mesmos, gerando a forma e o lugar que alguma vez será a nossa única marca, a que lembrarão e da qual sentirão dificuldade em partir pela pertença que então criaram, sendo essa a primeira regra da metafísica que temos comprovada fisicamente.
O tempo define-se pela convergência entre o nosso, quase inexistente, corpo solitário e o outro corpo que é a forma e o lugar dos que lembramos mais um outro que ultrapassa as regras da posse e é marca de liberdade que se deixa.
Daí que, quando olho para as cidades, me lembre e me demore nessas formas e nesses corpos que acrescentam territórios d' alma, que acrescentam inifinito ao tempo corrente, que acrescentam esperança ao devir mais próximo e mais longo, sendo essa a grande aventura, sendo esse o mais belo rosto que a Deus conheço.

Saturday, May 26, 2007

Suportar a ausência.


Nas ruas procura-se apenas o que ha-de sustentar a nossa vida quando não existirem os que amamos, sejam eles coisas ou pessoas.
Nas ruas como mendigos do dia, recolhemos os instantes, apaixonados coleccionadores de falas e de perfumes, de promessas e desejos, de rotas e de inflecções. Em volta, o que se não vê é o que vai morrendo, o que efectivamente se perde.

-Fazes falta à primavera, pensei para comigo. Fazes falta à ave migratória que sem a tua voz de pássaro não consegue trazer-me o lendário das terras quentes. Fazes falta no aroma que tinham os serões, aqueles que nunca terminavam por serem intermináveis as palavras que deixavas.

Tuesday, May 22, 2007

Procura.


Entro pelas ruas onde se esconde a beleza e a impossibilidade. Dou uns passos à procura do que nunca deixei de procurar e encontro.
Encontro um rio e uma rua. Ambos abertos, ambos com uma luz muito baixa, ambos a não permitir muito mais do que uma constatação do que foi a vida. E isso não é pouco. Não é nada pouco. Surpreendo-me com essa visão a espalhar-se ao final da tarde na rua e no rio que acabo de abrir no meu peito mais recatado. Fico por aí. Pergunto-me, converso-me. Dou comigo muito maior do que as coisas de que me vão dando notícias.
Tenho uma relíquia, uma espécie de filigrana interminável onde vou trabalhando até que eu acabe um dia, sem que ela acabe nunca. A tarde sucumbe a uma espécie de sono onde a noite entra e tudo é possível na imaterialidade dos sonhos.

A cantora de Monmartre.


1
Corpo desalojado, habitante de sombra e de música. Corpo inexsitente e longo, agora debruçado sobre o tempo dorido na parede encardida, a inesquecível, a dos dias de folia e extâse, a dos dias futuros e desconhecidos.
2
Ao piano. Nota a nota, o silêncio do canto onde a música se eleva ao cume do vazio e da emoção.
3
Quando cantavas, eu escrevia. Escrevia para os amigos que não tinha, para a família que não via, para os homens que invadiam praças e queriam rasgar mundos novos no corpo do velho mundo.
Era um tempo cheio de cantoras como tu e escritores como eu, cheios de desaires e solidões que acabavam sempre por trazer novidades e progressos na sua voz espavorida, esses pássaros esganiçados e loucos que, longe de nós, anunciavam a liberdade. Nesse tempo em que tu cantavas e eu escrevia.
4
O teu canto era tanto mais belo quanto solitário. O que ensaiavas no velho quarto sem vistas que não fossem a dos vizinhos da frente.
O teu canto nas tardes de Dezembro, a voz fria de saudade como o corpo de vazio.
O teu canto durante as tardes, a irromper pela eternidade sem que o soubesses, nesse amor que te dediquei e que nunca cantaste.
5
És uma violação do mundo quando cantas, porque a tua voz é uma ferida na ignorância alheia, a que desconhece o que nunca teve e a isso responde com a riqueza superflua do que já possui.
6
Ao fundo da rua é o teu quarto. Ao fundo do meu coração, o teu canto.

Paris 13 de Maio de 2007.

Monday, May 21, 2007

O corpo puro.

Talvez haja um corpo a nascer lentamente de uma história. Um corpo muito novo e muito puro, incapaz de reconhecer o mal e a angústia da posse. Um corpo que apenas guarda o que se não vê e nisso aposta quase tudo, do mesmo modo e com a mesma intensidade que o mais feroz jogador.
Esse corpo tem um longa estrada sobre si, cheia de histórias, todas elas vocacionadas para a criação magnífica do olhar que se lança sobre o que é passado.
Como guarda apenas o que se não vê, o corpo fica parado a olhar essa imorredoura paisagem com uma sensação semelhante ao de um barco deslizando pela suave correnteza de um rio. Um rio do qual se desconhece o seu início, avistando-se contudo o lugar de partida e o trajecto ao longo do tempo.
Esse corpo também não sabe nada sobre o que signífica e onde se encontram o início e o fim das coisas. Não se importa com isso. Nesse não se importar, reside a noção de Deus. Está, deste modo, de contas ajustadas com a metafísica. Apenas a Deus cabe o exercício de origem e de final.
Ao corpo cabe a missão de preparar uma narrativa que sustente esses dois momentos. Que os sustente no sentido de alimentar, que o enrede, que o liberte para ser muito longínquo e para que as suas vozes ou ecoem na distância ou sussurrem.

- Dou-te este corpo porque sei que não guardas coisas, apenas guardas o que se não vê. Dou-te a única forma que consegui para não ser finito, dou-te como quem diz vejo-te, dou-te como quem diz que somos um mesmo corpo, como o de Deus, como o mistério mais bem guardado do que é interminável e nos disseram sempre ser capacidade única dos Deuses.

Thursday, May 17, 2007

Teatro-Cinema de Fafe.



Ontem, dia de feiras francas em Fafe, apanhei um daqueles supapos na alma com que não contava. Foi extraordinário regressar ao velho teatro cinema, onde actuei em pequeno e onde não entrava há mais de 25 anos.
A ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, visitou o imóvel tendo-lhe sido solicitado apoio do Estado para o seu restauro. O Presidente da Câmara garantiu que a obra avançará com ou sem apoio.
Sentado, no meio de discursos e explicações, mais feliz do que um gaio, tive de esforçar-me para que não fosse visível a emoção, perante o confronto tão feliz com a saudade de uma Fafe desaparecida, mas tão intacta naquele sítio, naquelas cadeiras, naqueles camarotes, no palco que ainda conserva a cortina original, pintada a dourado em fundo bordeaux.
Lembrei-me das pessoas que ali vinham, das histórias de bailes no salão nobre em que o meu pai participava, dos comícios anti-fascistas que ali se realizavam, da minha querida e saudosa amiga Drª Maria Miquelina Summavielle a praguejar contra o regime, com a PIDE à porta. Lembrei-me do ambiente e da espetacularidade que era ver cinema ali, da especialidade do acto, da sua emoção.
Lembrei-me e fiquei apertado por dentro, sem saber muito bem o que fazer a seguir, se agradecer a todos por ali estarmos, se a Deus pelo edíficio não ter ruído já, se aos meus contrerrâneos por terem, como inteligentemente afirmou a ministra, merecido estes equipamentos.
No último balcão, jovens músicos de Fafe tocavam e, aí sim, foi o final feliz, o velho teatro agora para eles e para os que vierem, para os que vierem um dia sentar-se na cadeira onde hoje me sento e emocionar-se por tudo, pela beleza, pelo espaço, pelo que viveram ali, pelos que desapareceram, por tudo que é seu e que nunca nos deixará morrer, nem ao teatro, nem à nossa querida terra.

Monday, May 14, 2007

Paris.


Regresso de Paris. A cidade está cada vez mais suja e mais deserta. Contudo, o meu amor, quase inexplicável, pelo sítio mantém-se intacto, como se mantém a fé numa sociedade cada vez com menos classes, cada vez mais justa, mais esclarecida, melhor para todos.
Andei imenso de Metro, como de costume. Nos lugares de sempre, voltei a angustiar-me pela falta de referências e pela constatação de que quase todos ou éramos turistas, ou andávamo-nos a safar.
Voltei a não encontrar a paz e o sossêgo que caracterizam a civilização. Se há algo que me repele nas pessoas é a sua incapacidade contemplativa. Quem não contempla dificilmente se demora a sentir e por, consequência, a dar. Não vi muita gente assim. Voltei a não ver muita gente assim. E porquê? Talvez porque em Paris, como em tantos outros lugares, asfixiaram a classe média.
Em Paris, ou vivem os muito ricos ou os miseráveis. Ambos produzem submundos, realidades próprias, com regras próprias, longe das civilizações e do processo de consciência colectiva.Ambos se sentem confortáveis para criar regras apetecíveis e muito suas. Ambos se distanciam da maioria, ambos não se importam com a maioria. E o que raio vem a ser a maioria?
A maioria é a primeira expressão do cudidado com o outro. E isso, que efectivamente rareia. O que é pena. O que é dramático.
Volto de Paris com a sensação de que se está a perder a civilização e não há nada pior do que isso.
Por cá, espro que a canção se aplique e que isto nos sirva de exemplo: «Lisboa não sejas francesa/ Tu és portuguesa(...)».
Mas, como no filme, também não deixa de ser verdade e de se poder argumentar: «We will always have Paris». É assim que me sinto, inconformado com a realidade, sem contudo baixar os braços, estando pronto a acreditar que um povo que ajudou a derrotar nazis, também há-de ser capaz de regressar a um estatuto que exiba, como já exibiu, o romantismo do mundo, o progresso do mundo e a sua tolerância.
Verdade, verdadinha, ainda não conseguiram roubar-me a riqueza de um acordeão a vencer os dias tristes, o rosto de uma mulher que espera, a expresão de amor de um homem que volta, as ruas livres, as flores à janela e gente, muita gente, a sentir e a saber que a liberdade é uma realidade e um imenso estado de espírito.
A sentir e a saber, com esse traço que da França tanto derramou no meu inconformado e militante coração. Um coração que sente e que sabe e que é sempre capaz de virar costas a quem não quer perceber que o segredo das coisas ainda reside na imensa oportunidade de sabermos e de sentirmos.

Wednesday, May 09, 2007

A Europa.


As noites estão a voltar ao calor do verão. Hoje, dia da Europa, tenho o pensamento num continente diverso e unido, com pessoas crentes em muita coisa e outras nada crentes, tenho a alma a vadiar por esse mundo europeu que já por si é um sonho, um sonho de encontro e de paz, pese tudo o que está mal, todas as injustiças e todas as desordens. Viver numa Europa que baniu a sombra da guerra é quase viver no paraíso e num inominável avanço da civilização, que o digam os nossos pais.
Esta noite, tenho o coração em Istanbul, na rosa do profeta que me ofereceram os irmãos turcos. Tenho aí um sonho que se parece com um filho pequeno, o sonho de os ver junto de nós, sem terem de vender a alma, bastando que façam o caminho da liberdade, bastando que estendam o coração como quem estende a mão, num gesto esclarecido e verdadeiro, próprio de irmãos, próprio de quem não pede para ter de dar, próprio de quem não cobra.
O meu sonho de Europa ainda é a diversidade, ainda é sentirmos Deus num chamamento do minarete, como o senti nas noites solitárias de Istanbul, ou na capelinha do monte com pequenos sinos a anunciarem o período da oração.
O meu sonho de Europa ainda é essa diversidade que ensina e não a diversidade que compete e que oprime. Ainda está muito rente à voz antiga das cidades velhas com gente que traz no peito histórias inifinitas de viajantes e de estrangeiros que serviram muito mais para nos alimentar o espírito do que para reforçar o ouro. Ainda é a Europa de fugas e de descobrimento, de encontro e de dádiva, de espanto e de paixão.
O meu sonho de Europa é que cada europeu tenha uma Europa muito diferente a pulsar no seu melhor coração e saiba contar uma história com outro sabor, que cheire a outra coisa, que reluza de um outro modo.
A melhor Europa é a que não existe senão no coração dos europeus, unidos num enormíssimo ideal de liberdade e de paz, traduzido na mais bela e na mais indestrutível visão de uma Europa sentida. Sempre pronta para quem vier por bem, para quem vier movido pelo sonho, pronto a reequacionar, pronto a ser na diferença o ser completo, a ser na diferença o ser genuíno, aí encontrando o inesperado, aí desejando ainda mais inesperado como condição para a felicidade.

Sunday, May 06, 2007

Pela liberdade.


Daqui a dias, regressarei a Paris na habitual peregrinação a um passado de onde recuso sair. Aterrarei já na era Sarkozy. Aterrarei na evidência de todos os perigos para os quais tenho alertado e combatido. As democracias fracas são a melhor proveta para as fortes ditaduras.
A ignorância das massas é o mais eficaz elemento de fraqueza das democarcias. Souberam disso, de modo hiperbólico, todos os ditadores. Sabem-no bem todos os saudosistas militantes.
Um corajoso homem de esquerda, que conheci, disse em 1975, num Portugal a ferver: não se iludam, não há nada mais reaccionário do que o povo. Revolucionárias são as elites.
Ainda hoje, é difiícil dizer isto à esquerda do mundo, quanto mais naquele tempo! Contudo, subscrevo a afirmação, sobretudo no que nela existe de análise à consequência da ignorância militante, reprodutora de preconceitos que, normalmente, estão ao serviço dos instalados e dos poderosos.
Quando chegar a Paris, respirarei fundo, descansarei sobre o século XIX, e voltarei de novo e sempre, pronto para lutar, para acrescentar ao mundo aquilo que as minhas forças permitirem no sentido de ajudar a criar cidadãos, ou seja: a criar liberdade.

Árvore do mundo.




Para a Landa, no dia da mãe

Um corpo é infinito quando deposita
na manhã do mundo
a alma da mais luminosa madrugada,
corpo futuro da ansiada liberdade humana,
aquela que há-de vir e que começaste já
em teus frutos

Tu que és a mais bela árvore do mundo.

Saturday, May 05, 2007

O tempo não termina.

Anteontem assisti a uma peça levada a cena pelos alunos da Escola E.B 2,3 de Pevidém, da autoria do Dr. Santos Simões, integrada no festival de teatro amador da Póvoa de Lanhoso, uma iniciativa da Escola E.B 2,3 de Taíde.
No meio de tanta agitação e alguma angústia nos últimos tempos, foi possível retomar o lugar do coração mais saudável e mais limpo e com isso permitir-me uma lágrima ou outra fruto de uma indizível alegria, baseada no curso justo que a História também proporciona. O Dr Santos Simões foi um enormíssimo português, um homem de combate pelos valores da justiça e do bem estar social, com obra feita em múltiplos planos e instituições. Foi comovente ver que, passados poucos anos da sua morte, meninos que o não conheceram pessoalmente levavam à cena uma peça sua, de um jeito intenso e comprometido com aqueles que forma os seus valores e as suas ideias.
Ao ver como desempenhavam a história de «Dom Parlatatão» apercebi-me de como a vida tem tantas vezes um correr certo e muito belo. Que riqueza maior ambicionaria Santos Simões? Que riqueza maior ambicionamos nós, para lá daquela da constatação de que jamais esmorecerá o ímpeto de justiça, de amor e de paz que desejamos para o mundo?
Há dias que valem por meses. Este foi um deles. Pude dizê-lo aos miúdos e aos seus professores, pude ter esse desabafo, essa forma de os tratar tão genuinamente pelo infinita expressão que me vem de dentro e que se chama camaradagem.