Wednesday, April 25, 2007

Madrugada de sempre.

Como há muitos anos, inicío a manhã na sessão comemorativa da Câmara de Fafe, saudando a bandeira dessa pátria livre e limpa, lembrando a meninice e o tempo em que éramos muitos mais, em que ainda estavam vivos grande parte dos que deram força e sentido ao que se comemora.
As manhãs de cada 25 de Abril a abrirem no meu peito a imprescindível madrugada, a mais poética e profunda marca que a História do meu país deixou ao mundo.
Nunca como neste dia, sinto Portugal tão grande e tão universal. Nunca como nesta manhã recomeço tudo e tenho a ingénua e generosa vontade de tudo poder melhorar.
Não há, para mim, data na História dos Homens que tenha alcançado tão elevado grau de liberdade, de alegria e de essencialidade partilhada.
Se me pedissem para definir a poesia, bastaria apontar para os sorrisos que nas praças de Lisboa se espalharam, bastaria mostrar Salgueiro Maia, o eterno capitão, o eterno sonho, porque imaculado, porque fiel, porque direito e puro ao coração dos Homens que ainda virão.
Se me pedissem para definir a poesia, abriria uma janela sobre o meu país acabado de nascer, sabendo bem do doce veneno aí contido, do destinado amor, do irredutível ímpeto pelo que move e moverá a humanidade que importa, que perdura e que seguirá.
Quando abro essa janela sobre o meu país acabado de nascer e que é da poesia o seu corpo, comovo-me, comovo-me sempre, por ter a noção clara de quanto riqueza reside naqueles que com tal visão e tal entendimento foram bafejados.

Tuesday, April 24, 2007

Recriação da luz.

Quando o dia tem o peso daquilo que ainda não fomos capazes de cumprir e alguma mancha de desencanto tolda a visão e dificulta o horizonte, rendo-me à luz que, dos outros, sempre chega e nela retomo o caminho e recupero o dia que tenho à força que construir nas manhãs que não existem e que sempre desejei para o mundo, nunca, por nunca, estando só nesse gesto.

Saturday, April 21, 2007

O que persiste.

Alguns percursos, algum testemunho sobre a intensidade das emoções.
Já o tenho dito: tanto do que vivemos apenas vale pelo que sentimos e pelo que fazemos sentir.
Uma noite é um lugar infinito, quando tocado pela sublime arte de comunicar e de não esquecer. Uma noite como uma música que se repete, um aroma que retorna, um paladar a que se regressa, a qualquer hora, a qualquer instante, porque inscrito no que de eterno conseguimos construir em nós mesmos e na sombra que provocamos na alma e no corpo dos outros.

Sunday, April 15, 2007

Aceso por dentro.

Iluminar uma rota na cidade, onde a noite se anuncia com todos os seus mistérios, as suas formas, a sua linguagem de criar uma linha e depois um corpo. É assim que aguardam, na Coruña, os candeeiros vermelhos, junto ao passeio marítimo, ao longo do percurso de eléctrico. Estão apagados, porém acesos no coração estrangeiro que lhes levo. Acesos no devir, na função, na beleza, na expressão livre e, por isso, raríssimamente repetível.
O mesmo se exige à alma humana, ao pensamento e a tudo que acabe por ser factual na incontável diversidade de sentir, de perceber ou explicar o que poderá ser uma rua, uma cidade, uma noite iluminada, ou uma vida.

Saturday, April 14, 2007

O processo.

Do centro das preocupações fica a esperança, encarregada de rasgar alguma quietude e alguma luz.
Os dias deste novíssimo século têm deixado demasiados lugares vazios no aperfeiçoamento do espírito humano. Mas, o que será isso de espírito e de aperfeiçoamento? O espírito há-de ser sinónimo de vontade e de marca, de gesto e percurso, de palavra e rasto. O aperfeiçoamento há-se ser, por seu turno, a consequência partilhada e sentida, a sombra do passo dado sobre o coração alheio, tomado no instante da alegria e da liberdade.
O desafio que nos motivará a bater à desconhecida porta do futuro, com seus personagens, só na aparência conhecidos e explicados, com seus fantasmas, encobertos uns e subliminares outros, residirá no belíssimo e arrojado confronto de termos, seja em que medida for, acrescentado liberdade ao nosso tempo.
A liberdade não é senão o acto de acrescentar pactos com o outro, através dos quais a felicidade que proporcionam, a qualidade que assumem e a justiça que propagam estarão na base de um tempo maior e próximo, a que outros, por nós, se referirão como processo civilizacional.

Friday, April 13, 2007

A fuga.

Quando, há trinta anos íamos a Espanha, os pais compravam uma garrafa de Pedro Domeq e conversavam em seu torno, durante os serões de quase todo o inverno.
Quando há trinta anos íamos a Espanha, os pais davam-me caramelos e chocolates e eu dava a mim mesmo o infinito prazer de não ser dali, de ter um país para regressar, mas sobretudo de conhecer um lugar onde se tornava possível o desenho das mais belas fugas, de ser parte de um corpo tão irresistível como o da estranheza.

Thursday, April 12, 2007

Desembarque interior.



Desembarcar num porto. Ser o estrangeiro com o mundo às costas e um passado a confrontar a cada segundo. Ter do espaço a noção da evidência do que é novo, com o medo e o fascínio que sempre se associam. Não ter a quem deixar palavras, rastos, primeiras impressões.
Invadir a cidade a partir desse porto de desembarque. Perguntar pelo tesouro que se traz para a troca com o que aparecer ou com o que faltar.
Começar por ouvir as canções que se não sabem, depois as ruas, a seguir as casas. Parar, perguntar de novo. Desta vez sobre a distância a que se está do que se conhece. Escutar essa distãncia e conhecer melhor o que é próximo e que não existia. É esse o milagre da vida, a capacidade de se acrescentarem inexistências.
Desembarcar. Ser o estrangeiro e a seguir tomar cada pedaço e torná-lo distante, mas por dentro, distante para que signifique, distante para que seja o que se não tinha, para que seja o cais de uma próxima vez e não uma pergunta.
Desembarcar para haver mais chão e mais distância e ser estrangeiro e estranho como convém ao que se pretende que não envelheça, que se não transforme, que assim fique como só ao intangível é permitido.

Monday, April 09, 2007

Em torno de Nazim Hikmet


Quadra

«Como sementes deitadas à terra espalhei os meus mortos
alguns repousam em Odessa, alguns em Istambul, outros ainda em Praga,
o país que eu prefiro é toda a terra
quando chegar a minha hora, cubram me com a terra inteira.»
Nazim Hikmet


O poeta turco Nazim Hikmet é ainda hoje uma das grandes referências do século XX na Europa. Homem perseguido e condenado marcou um tempo de grande devoção sobre a concórdia e união entre povos, tendo como fim último a Liberdade. De um outro modo, hoje continuamos essa luta, ajudados por tudo o que a História nos foi ensinando, sobre como fazer, como partilhar a acção, mas também como sentir em conjunto.
Dessa terra inteira, fascinante mesmo, é senti-la e ter algo para contar que fortaleça o que demos, que enobreça aquilo por que combatemos, que engradeça esse conceito de Homem feito à imagem e semelhança de Deus ou da perfeição libertadora, como queiram.

Thursday, April 05, 2007

A liberdade.


Pensei para mim: a liberdade não é uma sentença, a liberdade não é uma questão de medida, a liberdade será qualquer coisa entre o conhecimento e a generosidade, entre o crescimento e a partilha, entre o dar e receber. Assim comecei a orar, evocando o mais nobre sentimento, numa praça da antiga Constantinopla, da actual Istanbul, da futura terra dos Homens livres e bons, aqui ou qualquer lugar.

Orar a diferença.

Adormecer sobre a grandeza da diferença. O prazer e a riqueza das viagens tem no anoitecer esta recorrente vantagem: o confronto com a diferença a dominar o balanço do dia que passou e a prospectivar o dia que virá. Sentir a diferença e assumi-la como se fosse, também esta, uma outra maneira de agardecer a Deus por mais um dia, pelos dias todos já vividos.

Wednesday, April 04, 2007

Istanbul 4


Na última manhã em Istanbul, dirigi-me à Mesquita Azul, em Sultan Ahmed.
Entrei. Um silêncio povoado de espanto e de liberdade deu-me a face e a mão de Deus. Senti-me de casa. Pedi o melhor e dei o melhor num breve instante de quietude. Experimentei uma forma de orar que desconhecia. Não sei porquê, mas senti que as coisas tinham alcançado o seu curso. Tudo estava pronto para que se seguisse caminho e, na bagagem, tudo estivesse mais forte, mais claro, mais livre.

Istanbul 3


Do meu quarto, no nono andar do hotel, ouvia-se o chamamento para a oração.
Do minarete uma espécie de música violava o silêncio da cidade.
Abri a janela, escutando e entregando-me a uma certa paz que, até então, desconhecia, mas que, curiosamente, não estranhei.
A lingua de Deus tem esta indizível e inexplicável universalidade.

Istanbul 2


Ofereceram-me esta tarde a rosa do profeta. Guardei-a no melhor silêncio e no sorriso mais vivo. As pessoas aqui em Istanbul têm sido de uma invulgar generosidade e trasnparência.
Para um sociólogo, estas vindas a terreno são preciosos elementos para que se consiga entender com proximidade aquilo que, ao longe, parece relativo e no relativo sempre se exila, para o melhor e para o pior.

Istanbul 1


Numa paragem de eléctrico, perto das margens do Bósforo, encontrei um banco em forma de livro, com a inscrição de um poema. Uns momentos depois, ofereciam-me um café turco no Grande Bazar, enquanto conversámos livre e pausadamente sobre a interculturalidade e a interreligiosidade.
Há dias de espanto e de satisfação. Há momentos que até parecem nem existir.