Sunday, February 25, 2007

Mulheres.


Era um improvável corpo
por ser do corpo o seu impossível e o seu horizonte.
Uma ideia agarrada, enraízada no correr normal
dos dias.

Só quem nunca sonhou desconhecerá
que é nos dias comuns que a utopia maior
sempre repousa.

Ela aí estava, difícil, inalcançável.
Ela era uma espécie de tristeza e de fim,
também de começo e de esperança.

Até que um dia,
um pássaro que vinha da minha infância
me segredou:

- todos os sonhos nos molestam mais
que as certezas e que o vivido.

E de um veneno doce e sofrido
peguei na caneta e desatei a escrever
os textos que a pouco e pouco
do medo fui libertando,
o corpo mais provável que trago
assim que a solidão me atravesse
em silêncio e roubo.

Thursday, February 22, 2007

Flor da manhã.


A chuva sobre as árvores nuas
desprende a velha imagem de mundo,

a manhã, aos poucos, construída
na imponderada dor,
no incompreendido sofrimento,
solta-se como um pássaro
da flor mais clara,
da tímida e ancestral esperança.

Da vida e do tamanho do mundo.


Antoni Tapiés

Este dia de Carnaval, marcado pela descoberta e pelo enternecimento. Almoçávamos em Guimarães, quando ao final da refeição começámos a conversar com as pessoas da mesa ao lado, desconhecidas em absoluto.
Entre elas, uma senhora com 93 anos comentava connosco a beleza da neta do dono da casa e daí em diante se iniciou uma conversa sobre viagens, cruzeiros, resistências, surpresas felizes e crença na atitude de se estar vivo.
Passado algum tempo, os nossos vizinhos de mesa, a senhora, a filha e o genro, levantaram-se. Os mais novos despediram-se com um sorriso de paz, já de si invulgar neste tempo. A senhora agarrou-me as mãos, sorrindo, convidando-nos a visitá-la, dando-nos a morada, sempre a sorrir, demonstrando uma grandeza de vida muito rara.
É curioso estar em Guimarães e sentir que não é só o Centro Histórico que é património da Humanidade, é também o facto de ali viverem pessoas assim, pessoas que, se repetidas, fariam do mundo um lugar mais apetecível e mais crente nos dias próximos.
Para fechar em beleza o encontro, e dado o apelido, perguntei-lhe:

-Poças Falcão? É familiar do poeta Carlos Poças Falcão?
- Sou a sua mãe.

Carlos Poças Falcão, com quem nunca tive o prazer de privar, é um dos meus poetas. Isto bastará para que o caracterize. Não tenho muito mais de uma dezena.
Mundo pequeno, este. Mas tão grande.
Aproveitei o feriado e regressei ao livro «Nuvem», que por coincidência recomendei numa palestra que fiz sobre livros e autores há duas semanas, no clube de leitura do Instituto de Estudos Superiores de Fafe.

20 de Fevereiro de 2007

Sunday, February 18, 2007

O amor.



Regressou o sol ao inverno. A claridade favorece a disposição e o optimismo. Hoje, dia de São Valentim, apercebi-me uma vez mais de como no amor não existem perfeições à priori ou unilaterais. A perfeição no amor está ligada de forma umbilical à dedicação e à cedência.
O amor perfeito é sempre o amor esforçado, tal e qual como na seara o agricultor lança um olhar feliz e cansado, frente à dádiva que, do sol e das suas mãos, teve nascimento no corpo outro que é a terra. Também assim é no corpo do amor.

Friday, February 09, 2007

Perguntas.


desenho de César Taíbo «Nus trágicos de Timor»1997

Que trazes tu da ave mais breve?

Que trazes que não seja luz
ou despedida incompreensível do que é belo
e finito por condição?

Que trazes, senão a liberdade do olhar
insubmisso e largo, ao pé da terra
que não resigna e que nunca acaba?

Monday, February 05, 2007

Conceber o Deus em nós.



A fronteira é uma geometria que enlaça corpo e luz, a pele a desprender-se do tacto até dele ser a possível liberdade, abandonando o materialmente fundado.
A fronteira reside entre o que morre e o que permanece, sendo, por isso, importante termos ocupado um corpo de terra nascido, de sermos do tempo a sua boa nova, a sua única e irrepetível nova, para que noutro corpo, maior e imaterial, possamos sentir serenamente a alegria do infinito.

Fim de linha.


Chegámos ao fim da linha muitas vezes. Apetece-nos descer das viagens interiores e encontrar o sossêgo que vem da justiça e da alegria que a liberdade trás. Damos os primeiros passos na estação inventada e recorremos ao nosso olhar mais fundo para que abriguemos a rua e de seguida os momentos mais próximos. Tentamos ser felizes por curtos períodos de tempo. Ser feliz como quem é perfeito nesse sossêgo, ou como quem aí sabe viver a perfeição.
Chegámos muitas vezes ao fim da linha. Depois de termos visto muitas cidades de passagem, perguntamos regularmente pelo que faltou para que nessas cidades tão breves pudéssemos ter inscrito histórias das quais nunca nos esquecêssemos. E a resposta vem quase sempre daquela porção de desconhecimento que arrastamos vida adiante pela suposta falta de tempo ou de oportunidade.
Chegámos ao fim da linha. Perguntamos pelos que amamos e pelo sossêgo e quando a primeira voz que se escuta é a do medo também a paisagem é estranha e a ela não pertencemos. Aí nos chega a certeza de que não é esse, de que ainda não é esse o final da linha. Aí ressurge a vontade e a urgência de partir e deixar um sorriso muito ténue, uma espécie de gorjeta que se deixa ao destino sem qualquer compromisso em passar por ali, uma vez mais que seja.

Perda de memória.



Alguém terá que cuidar da memória. Preocupa-me a memória. Contudo, percepciono que são muito poucas as pessoas encarregadas disso. É verdade que as escolas têm essa missão, entre muitas outras. É verdade que às famílias caberia a parte principal, mas também aos governantes, sejam eles de bairro, freguesia, concelho ou nação.
Há, contudo, um silêncio ensurdecedor sobre esta matéria. Os cuidadores e os plantadores de memória rareiam.
A memória não é um exercício saudosista mas um pilar de futuro, uma esencialidade a que cada um tem direito. A memória ou se experimenta ou se ignora. É, por isso, urgente a sua estimulação, que é o mesmo que dizer que é urgente que se trabalhe sobre o tempo, sobre o seu uso, reflectindo sobre o seu saborear futuro.
O tempo, no seu passar e nos seus ritmos, está ignorado ao ponto de promover o desconhecimento sobre o próprio ser. E não há maior ignorância do que aquela que recai sobre a nossa própria passagem pela idade e pelo mundo. Daí a urgência, daí a inquietação.