Wednesday, January 31, 2007

O aniversário.



ao avô Bernardino, pelos seus 114 anos.

Quantas horas, querido avô, teremos
para salvar a imparável e imensurável vida?

Nunca é só a nossa vida, nunca é só o nosso tempo.

Esse é o desafio. Essa é a dificuldade.
Mas, é também essa a beleza e a certeza de que se morre
apenas quando, dos dias, formos a sua estranheza e a indiferença
daqueles que de nós vieram e disso nada souberam.

Saturday, January 27, 2007

A Máquina em Castelo Branco



A «Máquina Royal» esteve em Castelo Branco, na boca e no coração dos amigos que encontrámos, no sorriso e na incansável atitude do Miguel Nascimento, no interminável abraço do João quando vê crescer o sonho que o move, na dedicada inteligência do João Ricardo e na imparável palavra de arma de Fernando Paulouro.
Juntaram-se o Hugo de Santarém, o Pequicho de Leiria e o João de Portalegre, mais a D. São do Jornal do Fundão. Estivemos juntos, como se houvesse uma lareira onde nos aquecemos devagar contra o frio que quase sempre chega do lado mais sombrio do esquecimento.

Monday, January 22, 2007

É pelo pacto que vamos.


É-me incaracterística a descrença. Não sei como se vive sem optimismo, ou fé em algo, por muito lúcida que seja a colecção de desânimos que vamos conhecendo e que se transformam tantas vezes em motivação para um olhar novo.

- Sabes, a manhã é uma invenção muito pouco do domínio do visível, mas antes do sensível e este, em nós, tem-se feito de pactos, quase todos com o calor do sangue, quase todos aparentando um para sempre.

Sunday, January 21, 2007

Ponte sobre o Lima.


Sobre o rio Lima descansam muitas memórias. É um rio literário. É um rio interior que soma serenidades e olhares ternos. Em pequeno via-o muito daqui. Vínhamos cá aos Domingos. A ponte inseparável da História que os anos lhe proporcionara.
Pensava nisto: nos anos sobre as coisas. E era pequeno. Porém, o primeiro fascínio foi sempre o de tocar a ideia dos objectos, através do que neles já existiu para lá da nossa passagem. Ganhei, desde aí um grande afecto e um maior respeito pela História. Gosto de coisas que me suscitam perguntas e aquela ponte sobre aquele rio têm uma infinidade delas. Ai do amor que nada pergunta!

Friday, January 19, 2007

Poema breve sobre o tempo.



Trago comigo a lonjura, apenas para que, de mim, nada desapareça que tenha amado.
Trago a lonjura para que em mim dure a mais rente noção do que, no futuro, será sempre o seu passado.

Thursday, January 18, 2007

O inverno da infância.



Ouve-se um ruído que vem do vento e vem do frio. A paisagem de inverno é um suporte de olhares longos e de sabedorias serenas. O frio não perdoa muito, é definido e obriga a que se actue sob pena do desolamento tomar o lugar do aconchego e da guarida.

Esta manhã de inverno, trago o cheiro do fogão a lenha da casa do Largo e com ele o da infância, o leite quente pela manhã e a visão da chuva que lá fora apressava as gentes, enquanto eu e a minha solidão preparávamos a primeira brincadeira do dia, numa casa estranhamente despovoada de outras crianças.

Wednesday, January 17, 2007

Sobre ti mesmo.


Espreita da janela o que for entreaberto com a vida
e debruça-te o mais que puderes dessa varanda
assim que queiras saber dos pássaros, dos oceanos, das dunas,
daquilo que não sendo teu te é imprescindível
ao que alguma vez conseguires dizer de ti mesmo.

A papelaria


Noite de Janeiro. A cidade continua a desaparecer. Não são só as pessoas a partirem, são também os lugares e as memórias que a eles se agarraram ao longo da vida.
Há dias, fechou a papelaria do Rabeca. A minha mãe trouxe-me de lá um último «Larousse de poche», para a tradução que ando a fazer da Mireille Fargier-Caruso, mais uns postais da antiga vila, do tempo em que eu teria os meus dez anos.
Não consegui passar pela papelaria e despedir-me do Sr. Pereira naquele contexto. Foi a papelaria onde durante anos comprei os meus livros, as minhas canetas e os meus cadernos escolares. Agora, desapareceu para sempre e, com isso, mais um pedaço deste corpo de lembranças que transporto pelo tempo. Custou-me. Aliás, está a custar-me escrever sobre isto. Mas a escrita é mesmo assim, tem momentos destes, momentos onde se perde, onde se é irrecuperável.
Acordar na cidade sem a papelaria do Rabeca é acordar noutra cidade. Só peço a Deus, que muito em breve, descubra alguma coisa nova por cá, não para ocupar o seu lugar, mas para compensar, para fazer com que a vida seja uma coisa normal, com ritmos normais, com inevitabilidades que vamos compreendendo, à medida que compensamos. Para pronunciar aquele resignado «é a vida».

Monday, January 15, 2007

Construtor de varandas.

Acordei com a notícia da morte do Professor Mesquitela Lima, figura incontornável da Antropologia Cultural. Recuei até à idade do liceu, ao seu livro de capa azul com uma figura de arte africana. Lembrei-me das aulas, mas sobretudo de como tudo aquilo foi importante para rasgar janelas no meu cérebro agarrado ainda ao conservador isolamento da minha terra, esse cérebro em formação tão inicial e iniciática perante a justificação do diferente, mas sobretudo pela expressão do distante e do fantástico.
Devo-lhe essa magnífica varanda sobre o mundo. Foi ele quem a construiu em mim através dos seus textos. Nunca mais fui igual. Até a beleza foi mudando tanto, ao ponto de a ver tão grande que a fui transformando em leitura pessoalíssima do meu mundo, para aos poucos ir escrevendo o que espero ser o sentimento pessoalíssimo de quem lê.
Hoje, encontrei-me com a Isabel Alves, à hora do café matinal, e na viagem para Braga lembrei-me que ela tinha um quadro que me trazia à memória este sentimento de raíz e de genuinidade de percurso. É um quadro da série «Diários», de 2004, e tem como título «Uno».
É essa imagem que utilizarei, substituindo as flores, perante a memória do velho professor que hoje se despede do mundo.

Saturday, January 13, 2007

A «Máquina» vista por dentro.


Há dias, graças à publicação do 1º volume de «Máquina Royal», fui distinguido pelo jornal «Povo de Fafe» como a personalidade do ano de 2006 no âmbito das Artes e Letras.
A importância destas distinções centra-se sobretudo nas emoções. As emoções que reservamos para e com aqueles que são os de casa. É agradável saber que a nossa obra, em primeiro lugar, sabe bem àqueles a quem nos habituámos a olhar nos olhos, todos os dias, anos a fio.
O seu director, Dr. Ribeiro Cardoso, tem para com a nossa terra de Fafe uma dedicação e um amor muito semelhante ao que também cultivo, pondo de lado diferenças estéticas, políticas ou religiosas. Sorrimos ambos quando fafenses acrescentam às coisas, porque é de todos nós o orgulho de cada um dos nossos.
Por isso, soube tão bem este prémio, por ser daqui, por ser de dentro, por ter vindo do lado de quem olhando para terra, sabe bem para onde olha e porque olha.

Thursday, January 11, 2007

A poesia experimentada.


O ritmo dos dias marca-se, essencialmente, pela forma como a luz natural nasce e se apaga com o correr das horas.
A interpretação da luz é das primeiras interpretações que fazemos, nas múltiplas formas que ela assume pelas outras tantas formas de que é composto o espírito humano. E são tantas as suas aparições que temos para si uma dedicação poética essencial, mesmo para aqueles que passaram pelo mundo sem se acharem poéticos, ou desconhecendo objectivamente qualquer rasgo mais ousado de criatividade ou apropriação emocional.
A luz é a primeira definição de poesia que se experimenta, que o digam o candeeiro de luz breve e serena da mesinha de cabeceira, a luz tão nova nos céus de Março, que o conte a luz clara da secretária ou a luz baixa dos cinemas e dos bares onde as relações começam ou terminam.
Toda a gente já experimentou a poesia desta maneira, ou de modo análogo. Por isso, me entristece e custa tanto perceber por que razão são tão poucos os que a lêem.

Wednesday, January 10, 2007

Saldos e liquidações.


No período de saldos e liquidações, andando pelas ruas, tenho-me questionado se, de facto, não estarão muitas outras coisas, além dos próprios bens, em fim de estação.
Há dias ocorreu-me que já estava mais do que na altura de esvaziar as almas da superficialidade rentável com que se foi vivendo desde há duas décadas e dar lugar a uma nova estação, onde as pessoas pudessem partir um pouco para dentro, para o fundo delas e dos outros, recomeçando então um mundo diferente, sobretudo onde elas estivessem mais e se sentisse mais intensamente a sua marca.

Tuesday, January 09, 2007

O abandono das coisas.


Há dias, dei comigo a pensar sobre o destino que damos às coisas e aos lugares. Mais propriamente, à cadência com que o fazemos e à forma, consciente ou não, como tratamos ou abandonamos o que é tangível e intangível.
Andava a escrever um poema em torno de uma velha pereira que eu tinha no quintal da casa onde nasci, plantada no tempo do meu avô e por onde a minha avó, falecida antes dos quarenta anos, terá brincado com os seus filhos e onde eu próprio brinquei anos mais tarde. É curioso notar que, quando deixei a casa, com cerca de onze anos, não me dei conta de que estava a fechar uma época para sempre. A casa já não existe, a pereira foi arrancada e com ela arrancados os gestos todos e todas as memórias que aquela árvore guardou durante tantos anos. Hoje, lembro-me que se a tivesse, tinha ainda o privilégio de a tocar e sentir que estava a tocar em algo que a minha avó tocou, ainda feliz, ainda sem sofrer da tuberculose que a matou. Se ainda existisse a árvore naquele sítio eu estaria à sombra no lugar onde os meus ascendentes estiveram à sombra, teria o privilégio de ter a mesma coisa, porém acrescido dessa memória.
Nas cidades, acontece isto repetidamente. Temos que nos despeidr dos lugares e das coisas, sem que muitas vezes pensemos no que estamos efectivamente a perder . Mas tem de ser assim em muitos casos. Mas não tem de ser assim em muitos outros, e nisso não se tem pensado muito...

Monday, January 08, 2007

Oração crítica.


Será ainda a imagem múltipla e irrepetível de Deus, aquela que se avista em todas as metamorfoses da luz? Talvez sim, dada a unicidade entre a obra criada e o seu Criador.
Uma das formas de orar, que frequentemente encontro, é a de olhar o céu e a sua vez única perante a luz e a paisagem em volta, sorrindo, sentindo alegria por estar vivo, tendo a indescritível sensação de que nunca mais verei um céu como aquele, a cada oração e a cada visionamento. Assim deveriam ser todas as formas de orar: inifinitamente novas e irrepetíveis.

Travessias.

Hoje, ao anoitecer, atravessei a velha ponte de Barcelos, ainda iluminada, por força da quadra natalícia. Um leve manto de pequeníssimas luzes fez-me atravessar o rio, como se atravessasse a divisória que separa a realidade da ficção mais pura.
Ao longe, ficava a cidade que resistiu ao novo riquismo da luz em excesso e que nos deixa ao olhar a magnífica visão da História, para que nela construamos, rua a rua, viela a viela, as ruas e as vielas da mais urgente e serena alegria de viver.

Sunday, January 07, 2007

Os poetas e a poesia.


Pergunto-me, onde andarão os que ainda não são poetas. Que mundo é este? Que razões colocará aos que ainda não escreveram um único verso e que já nasceram há muito mais do que um único ano? Onde estarão? Que perguntas haverá que se lhes coloque, para que consigam um primeiro verso? Não há versos sem perguntas, nem razões. O mais certo é que existam e andem por aí. Mas não os vejo. E nem sei se o defeito é meu, se deles que se não mostram.
Há dias, um homem disputava comigo a estante de poesia da Bertrand de Guimarães. Pedi licença para tirar da prateleira um livro. «Desculpe, faça o favor!» respondeu-me de modo amistoso e camarada. Apeteceu-me ter-lhe batido nas costas, apertado a mão e dito: «Cá estamos, não é? A ver poesia, não é?», mesmo que dizer isto fosse rídiculo e desgraçadamente militante. Fiquei entusiasmado por sermos mais do que um naquele canto minúsculo da livraria. Fez-nos parecer a ambos elementos de um grupo separatista que quase ninguém conhece, de uma minoria a batalhar por uma causa que quase ninguém ouviu falar. A poesia tem destes encantos. Creio que sempre os teve e que, mesmo neste aparente desvario idiossincrático, nunca deixou de existir poetas. A poesia é uma espécie de alquimia do mundo, que transforma coisas noutras coisas mais valiosas, a atingir a preciosidade dos momentos mais significativos, na maior parte das vezes breves, mas simultaneamente inesquecíveis. A poesia é como uma espécie de paixão, quando a paixão é a primeira grande síntese do amor, explicando o inexplicável, pelo menos na sua forma breve e de rajada, sem deixar de ser profunda e sem deixar de ser para sempre.

Oviedo e Palabras para Julia.






Tive para este Domingo a memória de uma tarde de inverno num jardim de Oviedo, com árvores nuas, esguias, com uma luz muito clara e com a minha alma viajante a recolher cada detalhe para que, passados anos, ainda pudesse durar a felicidade, ainda fosse possível sentir aquele frio e aquela luz e daí nascer a salvação do dia.
Há dias recuperei, ao fim de vinte anos, uma música de Paco Ibañez que nunca me saiu da memória: «Palabras para Julia». Ouvi-a pela primeira vez em vinil, um empréstimo do pintor António Santana, naquele tempo como uma recomendação, como um contributo para a minha formação cultural. Ainda hoje, quando regresso a Madrid, mais propriamente a Picasso me lembro dele, do seu atelier de Arquitectura, da sua paixão por Picasso, das inúmeras fotos a preto e branco.
Os jardins de Oviedo e a canção de Paco Ibañez chegaram. Tudo pareceu perfeito, quieto, intenso. Tudo como merece quem contempla e tem do vivido uma experiência como a lenda da formiga e da ciagrra, sendo eu a formiga, guardando cigarras nas suas expressões múltiplas.

- Estende-me a mão, talvez te salve. É um segredo esta inexistência de fronteiras entre os tempos. É um segredo, ou a forma como os mortais sempre se habituaram a retardar a morte. Seja como for, estende-me a mão, e se mais não for voltarás aos sentidos.

Friday, January 05, 2007

As notícias.


Suportar as notícias, ajustá-las à cabeça como se ajustam as roupas na cama mais íntima. Sentir o mundo como se sente o tempo, não pela impotência ou resignação, mas pela crueza e realidade das coisas.
Suportar, puxar as notícias para cima, arranjá-las até que sobre elas consigamos sono e sonho. Começar, então, a inadiável e honrosa tarefa de mudar o mundo a partir daí, o começo perfeito de quase tudo.

Thursday, January 04, 2007

O poema


Abro-te o poema
um corpo exposto e último
a correr pelo tempo,
como um fugitivo pelas ruas
atrás de um sonho.

Abro-te o poema
como só é possível
à carne incendiada pelo amor.

Tuesday, January 02, 2007

Um quadro de Chichorro




Primeiros gestos do novo ano com textos e e quadros revisitados. A galeria Belo Belo, em Braga, mostra todo o ano Roberto Chichorro. É um privilégio tê-lo à distância do olhar. Hoje mesmo, ao cruzar-me com um dos seus quadros, não pude deixar de pensar de como se não deve perder nunca a intimidade e o seu calor, tão bem narrada por Chichorro, de forma tão verdadeira, tão ao jeito do povo quente, no seu olhar e na sua história, tão como nós quando chega a hora magnífica do amor.


Monday, January 01, 2007

Morrer em vida e renascer.



para daniel gonçalves

Não há recuperação para o que se não fez.
Só o que é novo e o que é futuro irá a tempo.

É isso, na vida, que significa morrer.
Morrer em vida é frequente e igualmente triste.

Mas é natural. Compreende a distância entre Deus
e os Homens.

É uma espécie de Outono ou de Inverno do agir humano
num espírito de queda, porém com a salvação

da Primavera efectiva e dos dias quentes de verão
onde tudo se diferenciará por ter existido
a tão dura lenda do que é passado e intocável,
um possível chão para rebentarem as flores e os frutos
das emoções sempre tão novas e primeiras,
guardadas como um tesouro, à espera da luz definitiva
que as fará brilhar para sempre.