Friday, December 28, 2007

Natal de 2007


Este Natal, comprei musgo a uma senhora que o vendia na berma da estrada, um cesto em vime para carregar a lenha e doces de antigas receitas na doçaria de S. Vicente, em Braga. Este Natal, quase sem tempo para a quadra, agarrei o que pude com a qualidade do que é nosso e nos faz sentir de cá. A qualidade da quadra volta muito ao que é genuíno e durável por oposição ao que brilha, ao que é efeméro e não é de cá.
Cada ano que passa sinto o Natal como um retornar às raízes, como se aí erguesse uma escultura aos gestos, aos dizeres e aos objectos que nos foram fazendo nascer ao longo dos anos. Porque ter um cesto que não acaba tão cedo é construir uma memória com a memória que o próprio objecto já consigo trás e nos identifica também. Porque o musgo do presépio, sendo deste ano, é o musgo de sempre, das idas ao monte, das chuvadas, das geadas, das unhas cheias de terra, dos dedos frios até doerem. Porque os doces são, no nosso coração, a receita antiga dos que partiram mas ainda acendem a fogueira mais intensa do que é mágico e nos faz sorrir sem programação ou obrigação de quadra.

Tuesday, November 20, 2007

Poemas do Hospital - 4


Tudo tem a tua brancura, quando a brancura é o que dizes, é o que fazes, é o que sentes e depois desaparece para que alguma vez, fora daqui, possa amanhecer e de um qualquer branco surja o sal, o leite, o primeiro malmequer na mais distante colina, a primeira vez em que rasgaste o corpo e descobriste aí a sua alvura, por ter sido do amor o rude golpe, por ter nascido aí a primeira vez em que começaste a não morrer para o mundo.

Poemas do Hospital - 3


Há um conjunto de livros para incendiar as horas, caixas de chocolate para tornar menos humana e menos normal a dor destes locais.
Formas inebriantes de enganar, exercícios de fuga, desenho de exílios, mentiras de idade, vai e vem complexo de espaços e de memórias. Tudo porque falta a vida desprovida de acaso e de infortúnio.
Até que regressas aos poucos e tudo parece começar de um outro sítio e a luz da manhã surgir de uma outra forma, como um livro novo ou um chocolate muito mentiroso que te roube a infelicidade.

Monday, November 19, 2007

Poemas do Hospital - 2


Sabes o que é uma sombra?
Uma sombra é um espelho onde é possível ver o que já foste e o que serás; porque aí consegues a escura liberdade do que não vês mais a oferenda das noites que viveste e as que preparam em ti um mundo novo. É isso uma sombra, ou pelo menos a sua magia.

Poemas do Hospital - 1


para a Landa, além das flores

Dá-me ar; o das árvores, ainda que seja o que passou nos últimos dias.
Dá-me a flor da manhã e a tarde recolhida no lago mais adornado por antigas esculturas, no jardim mais clássico que na cidade houver.
Dá-me a tua mão exterior, ainda que seja de estátua e de brancura e segura aí o que quer que seja que vier do mundo e que nós consigamos testemunhar antes mesmo da imaginação.

O beijo da arte.


Kiss - quadro de Edvard Munch
Quando um quadro pode revelar uma idade, então esse quadro é uma obra prima. «O Beijo» de Edvard Munch levou-me a um tempo de invernia e profunda cumplicidade, há vinte anos, quando o mundo tinha as cores do seu quadro no interior mais interior que possuía.
Mais uma vez, a questão da verdade na arte se recoloca neste excelentíssimo exemplo. A única verdade que tem este quadro, e a que importa, é aquela que se liga à verdade que emerge da sua relação com o observador e, mais do que isso, com o seu vivente. Viver com a obra traz uma nova verdade sobre ela, longe do academismo que a rodeia, importantíssimo aspecto, porém de consequência menor na vida de cada um. Por outro lado,dirão, e bem, os críticos que sem o esforço da técnica, do pensamento e do encantamento do autor, verdade alguma existiria para quem quer que observasse. Porém, o que distingue o correcto do genial é sobretudo essa ligação ao «sangue do mundo» como diria Neruda, ou aquele que é o «penoso trabalho da arte» como me disse Júlio Cunha e o que daí resulta desse misterioso trabalho que ainda conserva as artes num refúgio incapaz de ser ensinado, a não ser pela vida e o que ela nos reserva de único, oferecendo-nos aquilo que tanto nos apraz, a utópica e ambicionada originalidade e genuinidade.

Sunday, November 18, 2007

Biografar o instante seguinte.


Os últimos almoços têm sido acompanhados pela biografia de Chagall. As biografias têm a capacidade de nos proporcionarem uma companhia muito efectiva e com a possibilidade de nos deslocarmos no tempo com a interpretação do biografado.
Andar assim pelo tempo dos outros, é como se estivesse em arrumações pelo meu. Por isso, gosto tanto de almoçar só e de me proporcionar estes prazeres, verdadeiros calmantes e estetizantes das horas seguintes, verdadeiras fontes de riqueza, seja no plano das emoções, seja no rendimento material das acções que diariamente me estão incumbidas.
A ambiência europeia do período compreendido entre as duas guerras é um dos meus cenários preferidos, seja no plano das artes, da proliferação das ideias, seja numa certa plasticidade urbana e vivência interior.
Às vezes, sinto-me como uma espécie de personagem a preto e branco a ouvir música que já nem o meu pai ouvia e a comover-me com coisas que só o meu avô era capaz de se ter comovido.
O quadro de Chagall, «Por cima da cidade», é para mim uma relíquia interior sem tempo, diria mais, é uma atitude que pratico diariamente naquilo que hoje parece rarear mas que não dispenso, o ser-se um todo em tudo. Quero dizer, não deixar a profissão à porta do amor, não deixar o amor à porta da política, não deixar a política à porta da arte, ainda que só por dentro, ainda que tudo pareça diferente na sua expressão materializada, ainda que seja apenas nas emoções essenciais, as que tudo mudam e tudo criam.

A dimensão das emoções.



Manhã aberta com os poemas da japonesa Ono no Komachi, uma autora da idade de Ouro (834-?).
São poemas sobre o amor, numa versão que sobretudo os artistas e os seus mais próximos entendem, uma vez tratar-se de uma época onde a narrativa do desejo e da entrega é, não explicada, mas explorada nos seus lados físicos e emocionais. Tenho uma profunda simpatia por este tempo, mais do que isso, pela forma como o mesmo se geria entre territórios materiais e imateriais, tangíveis e intangíveis, num ritmo profundo, inseparável, dedicado.
Acordar com estes poemas, ainda que num Hospital, como é o caso, dá a enganosa impressão de que se poderá estar para aqui a redimensionar o mundo, a refazer o gesto que dá consequência à vida, a tentar recomeçar a idade no ninho insubstituível do que sonhámos e vamos como os loucos mais felizes, rua adiante, perguntando se é verdade.

Thursday, November 15, 2007

Bilhete.


Olha como passa o teu tempo. Como não agarras as coisas com a intempestiva distorção de antigamente. Olha como se morre na face do mundo e se é tão feliz por isso, por todo esse milagre.
Não argumentes. Sabes bem que um argumento é sempre algo que fica aquém de um poema. Para piorar as coisas Deus quis que andasses pelo mundo a confrontar poemas e argumentos, aí descobrindo o único espaço para edificar o que quer que inventes sobre a felicidade.
Olha como passa o teu tempo e como daí se inventou todo o amor e toda a saudade. Olha como em volta tudo tem o timbre das campânulas e dos automóveis, das árvores e dos prédios, dos corpos e da sua inevitável partida.
Olha. Olha mas não vejas, imagina. Isso te basta. Isso é o suficiente que Deus te deu para que vivas, e pior, muito pior, para que faças feliz quem te rodeia.

A geometria do mundo.


Autumn Leaves
Sir John Everett Millais 1855-56


Não há geometria nas folhas das árvores. A menos que da geometria se solte a bela imprecisão, a indefinível cor ou a altiva imprevisibilidade.
Se isto houver na geometria, perceber-se-á, então, o indizível olhar do artista ou a beleza de todos os outonos que contam as folhas depositadas, ano após ano, no ennvelhecido coração.

Wednesday, November 14, 2007

Hotéis e solidão.


Lembro-me do velho Hotel da Curia. De por ali andar com o meu avô e com os primos brasileiros. Das gaivotas que ali são pequenos barcos a pedal que deslizam sobre o lago. Os Hotéis que tinham compotas de damasco e de morango e um café de saco muito diferente do nosso. Todos os hotéis têm cafés de diferente sabor. Lembro-me de tudo e isso é uma fortuna.
Nesse tempo importava muito o que se dizia e a forma como se dizia. Não havia lugar para impulsos básicos ou para a gala desmedida de um calão disfarçado de génio. Nesse tempo, tínhamos um peso correcto sobre os ombros, o peso justo dos outros e da sua liberdade. É certo que havia outros pesos e outras pesadas circunstâncias. Mas não em nossa casa.
Agradava-me a antipatia que se cultivava pelo mau génio e pelo o sábio ditado que «os nervos se curam com um pau» ou «até os doidos se educam». Agradava-me e nem sequer adivinhava que, neste tempo, iria encontrar tanta gente disfarçada de nervosa e tanto "doido" apresentado como génio. Em ambos os casos prevalece o egoísmo, o hedonismo e o egocentrismo. Sobre ambos deixo recair uma pesada indiferença e assumido afastamento. Sem lástima.
Lembro-me de tudo desse tempo e assumo as saudades, assim como essa forma tão intima de conservar o mundo. Talvez a pobreza seja isso, não ter memória alguma de alguém por quem gastámos algum tempo com o amor, com a privação ou com o desejo.
Talvez a pobreza não seja estar impedido de conhecer esses velhos hotéis, mas antes o não ter quebrado de vez o espelho que apenas reflecte uma só pessoa, ainda que nesse ambiente ou na mais velha favela. Disso não me queixo, graças a muitos e a esta minha feroz militância em olhar os passos em volta e a eles pertencer e a eles sempre me dar.

Tuesday, November 13, 2007

Poemas da cidade - 16


Há uma cidade que vai para dentro da diferença. É nessa que flúi o meu mais genuíno coração. Uma cidade com amores incautos, com estranhezas apaixonantes e novos dizeres.
Fico aí à espera e corro. É possível assim. As esperas foram sempre os momentos em que mais mundo corri, como a partir do silêncio consegui encontrar as mais belas conversas, as mais longas revelações.

Sunday, November 11, 2007

Poemas da cidade - 15


É um rio a atravessar uma cidade. Um rio como um pedaço de sangue atravessando as veias.
Daí em diante, será sempre o mesmo: aí ficarei parado à espera dos barcos, não importando se parto para as margens do mundo ou do coração.

Tu és uma árvore.


De regresso ao frio, assumo que, se vieres, hás-de ser uma árvore e do teu corpo infinito hão-de levantar-se a tarde, as chuvas, as memórias do amor e as certezas do que é corrente ao dia.
Assumo que, quando vieres, hás-de ser árvore e eu o seu delicado golpe de vento e de geada, desenhando juntos a face imperdível do Inverno que havemos de oferecer às mais íntimas e duráveis manhãs do mundo.

Sábado de S. Martinho em Amarante


Fomos à terra de Pascoaes e de Amadeo abrir a Feira do Livro do Externato de Vila Meã. Autores convidados: além de mim, a Juliana Miranda e o Carlos Vaz. Dissemos sobre os livros o que a eles nos prende e o que sentimos, a única maneira de não afugentar as pessoas e de trazer mais gente para o lado de dentro da literatura. Estivemos bem, como em casa, mais uma vez, num gesto de equipa que nos torna a todos muito próximos e a comungar de uma ideia de que só valem as coisas genuínas. Nada se força nesta editora. E assim está bem. E assim deve continuar.
A seguir, fomos ao atelier do Julio Cunha. A obra do Julio é muito povoada. Apetece escrever contos sobre cada quadro. São quadros onde temos muito por onde nos demorar e outro tanto para sermos outros e para deixarmos sobre o olhar lançado uma inapagável marca sobre o momento.
Depois provámos vinhos e comemos até quase de madrugada como o não fazia há muito tempo, numa casa povoada de arte e de gente que ainda cultiva o prazer de uma boa conversa, perto de uma lareira e à boca do coração.

Sunday, November 04, 2007

Elogio da loucura.


pintura de Abram Arkhipov - 1897

Impressionante, o facto de ser o espírito, muitas vezes, a ver mais do que os próprios olhos. Hoje, de manhã, as árvores do Largo estavam com tons de Outono, contrariando a imagem que delas tinha na tarde de ontem. A lição que se tira é a do sentido, o que se sente é tantas vezes mais real do que a própria realidade, aí se alojando as raízes de quase tudo, da beleza e do medo, da ousadia e da fraqueza, do rasgo e da imanência.
Sentir o mundo, à medida que vamos envelhecendo, é uma faculdade que se sobrepõe ao que os olhos vêem, que é o mesmo que dizer que o factual se submete ao interpretado, que o recriado se submete ao que é bruto, que o objectivo tende a dissipar-se e a dar lugar a uma espécie de ninho que fazemos a todo custo pela nossa passagem pelo chão das coisas e das emoções.

- É verdade que as emoções têm um chão, um chão suportado na desconfiança da lava que nas profundezas nunca se sabe quando entrará em ebulição, na desconfiança do céu que tantas vezes emudece, na leveza da terra quando dela nascem as nossas flores mais diáras, na lonjura do vento quando trás de outro chão o aroma da diferença. É verdade que as emoções também têm um chão, caso contrário onde nos poderíamos enterrar assim que acordamos para o que de mais real o dia guarda?

Saturday, November 03, 2007

Corpo e tempo.


Tarde de sábado, de um outono a 21 graus, incaracterístico e a prencher-se pela saudade de algum vento e outro tanto frio. Tarde para soltar na cidade um pouco de beleza e de surpresa pelo estranho que é estarmos nesta época e até as árvores parecerem mais verdes do que no verão.

-Atento ao corpo imaculado e quente, és tu a única ponte para o incêndio interior com que preencho o tempo. Engolia todo o teu silêncio e todo o teu desejo e talvez a seguir chegasse ao segredo com que são feitos todos os invernos, nos contornos mais do que prováveis do aconchego.

Friday, November 02, 2007

A paz invernal.


A incursão num imaginário de luz branda e de frio aceso deixa no dia a esperança de haver alguma reserva de felicidade para o Inverno que se aproxima.
Às vezes, distanciamo-nos do mundo, ou porque o tempo não chega para estarmos em vários mundos, ou porque aqui e ali a desilusão e o cansaço tomam conta do momento. Seja por que razão for, a distância, nestes casos, é sempre dolorosa e prejudicial. Daí que milite em combater os factores e tente a todo custo retomar o tempo que se foi perdendo sem registo.
A incursão no meu velho imaginário de Inverno afasta bestas e bestialidades, afasta metodicamente tudo e todos quantos são uma espécie de ruído e de imperfeição àquilo que o espírito sofrido e empenhado foi capaz de construir ao longo dos tempos. Acredito que há uma espécie de lógica marxista que assiste a cada um: a paz a quem a trabalha. Se há trabalho pelo qual me deve ser destinado um pedaço de chão é aquele que desenvolvo em função do equilíbrio entre os que amo e os que amam.
Neste Inverno, volto à exigência do silêncio e à imperativa necessidade de ser apenas o universo e as suas forças a levantarem a voz, a construírem as tempestades.

Conservador ou progressista?


Ser ou não ser conservador? Eis uma importante questão para a qual ainda não consegui dar uma resposta com a clareza que o assunto merece. Prefiro pensar que o que está normalmente em causa é a nossa vontade e sensatez em preservar o que deve ser preservado, aprofundando razões e sentido crítico, sem contudo perdemos a capacidade de aceitar o novo, porém que também daí venham contributos que reflictam dedicação e profundidade.
Grande parte das vezes, confunde-se o novo com o superficial e ainda sem história, facto que afasta os ditos e assumidos conservadores, ou, no outro extremo, confunde-se o existente com algo empedernido, parado no tempo, incapaz de ser mudado, o que afasta os ditos e assumidos progressistas.

Nesta manhã soalheira de Novembro, continuo a permitir que a vida se expresse numa fluidez equilibrada onde coisas do passado continuarão a ser coisas do futuro e que o novo surja e me ajude a ter uma história melhor e mais funda, até na interpretação, até na fruição do que foram os dias idos.

- Desta manhã, deixo-te a trepadeira em fogo no telhado da vizinhança e os seus gatos, a lembrarem todos os Outonos e o amor infinito que ainda tenho para te oferecer nos dias próximos, esses dias que levam tão alegremente ao fim da vida.

Thursday, November 01, 2007

A insensatez.


A insensatez é a ponte entre o rídiculo e o desperdício. É a morte deliberada. É a perda de tempo e de medida. É o adiamento até uma espécie de nunca mais.
A insensatez é uma espécie de fim premeditado. A insensatez é a negação do sensato que é nunca perder a imaginação, nunca perder a reflexão, nunca deixar de ser daqui e dali e não o ser ao mesmo tempo, desde que nisso haja um sentido e um caminho.
Morrer insensato é não ter nascido para si, o maior pecado, o único verdadeiramente mortal.

Monday, October 01, 2007

Poemas da cidade - 14


É um sufoco andar vivo
e ter no peito
jardins estranhos
de onde se espreitam
exóticas dores,
onde se espalham águas sofridas,
que dão de beber a flores impossíveis
de envenenados odores.

Poemas da cidade - 13


Salva-te da luz
e agarra em cada pedaço de escuridão
a trave que te segure o coração.

Poemas da cidade - 12


Por onde se espraia o outono
é do território da luz a velha lenda.
Tudo se abandona na composição de gestos,
caídos, desde sempre, da carícia e do reencontro.

Poemas da cidade - 11


A planicie assente no que a luz pode ter feito à emanência da flor.
Assim o amor na latência da pele.

25-09-07

poemas da cidade - 10


As amoras desciam da sua boca para acender na pele o mais ousado segredo do verão.
Ao longe, essas tardes.
Ao perto, a mancha doce e o seu rasto nas mãos que roubaram e só deixaram o coração.

Monday, September 24, 2007

A medida do tempo.


Contarão os dias para que seja relida a interminável vocação de ser-se humano?
A que distância estarão circunstância e lugar, se do desejo partiram todas as naus que desenharam a estranha rota da apologiada razão e objectiva interferência nossa no nosso mundo?
Onde atracará a mais bela síntese? Onde residirá o rasto mais último e mais breve? Onde estaremos, na altura exacta de perdermos o coração e sermos do passado o único corpo e da memória a sobrevivência alheia no sempre emprestado corpo que vamos encontrando nos outros, mesmo quando mantemos o coração na provisória forma que nos deram?
A quem pertence o coração, o do mundo, porque outro não há?

Thursday, September 06, 2007

Até.



na hora de Luciano Pavarotti

Morrer mesmo, morre-se quando deixamos
de sentir
ou de dizer o que sentimos, ainda que para dentro,
ainda que só para a nossa inviolável tristeza,
a mais bela, a mais rica, a que mais custa a passar
para assim retardar a solidão.

Poemas da cidade - 9


A situação do teu peito é a de um promontório sobre a paisagem desabrigada do meu coração.
É essa a fronteira da visão e da ausência, o limite de quase tudo.

Wednesday, August 29, 2007

Poemas da cidade - 8


Quantas vezes a importância das coisas
é a flor mais breve do verão mais quente?
Quantas vezes foi só esta a aragem matinal
dos vivos?

Lisboa, 28 de Agosto de 2007

As tílias de Bonn


Também são tílias, estas.
Mas delas não rebentam, verão dentro,
o odor da infância
e o doloroso perfume dos que partiram.


Bona, 27 de Agosto de 2007

Poemas da cidade - 7


1- Uma cidade a abrir-se no corpo adormecido. Uma imagem atirada ao ruborizar do tempo. Um corpo, uma ave a atravessar a boca do sonho, beijando lenta e ferozmente a centelha dos dias.

2 - O odor era quase tudo; uma longa história sem fim à vista, uma palavra atrás de outra, uma espécie de pacto sobre o sangue do amor. O odor a espalhar-se sobre a pele do infindado corpo do olhar. A arrastar-se, só a distante terra do que faltou às mãos e justificou sempre o corção.

26 de Agosto de 2007, a caminho de Frankfurt.

Recuos e liberdades.


Recuo até ao nome onde arde a fala mais intensa, roubada ao volátil coração da tarde.
Recuo até ao incendiado interior dos olhos e das ruas noctívagas onde soltámos os animais mais improváveis e mais livres de todas as geografias.
Recuo até essa geografia como se ainda houvesse um corpo e brilhassem na noite essas ruas, a idade magnífica, a perda magnífica, a remota construção das mais belas ruínas da nossa idade.

Os pássaros e os Homens.


Sofrível é a imagem que reduz o pássaro
à condição humana.
Mais sofrível que a imagem do Homem
reduzido à condição prisioneira
de ter do céu a metafísica distância
e não o chão onde pássaros e Homens
deveriam cruzar destinos.

24-08-07

Saturday, August 18, 2007

Incógnita.


Até à incessante descoberta do coração, deixo que os passos atravessem o tempo ao ritmo das coisas que desconheço e que devo amar por força do destino.
O amor é um dever dos vivos.
Não serei mais o passageiro regular das coisas que lenta e fundamente mudariam a vida. Não serei mais esse passageiro, mas na incessante estrada do coração, outras vozes acalentam o que vier. Pergunto a medo, como um velho com mil anos: está aí alguém? Quem anda aí?
Só um dia, o coração saberá a resposta, a verdadeira, a que mais interessa.

Thursday, August 16, 2007

Avistar a nascente a partir do fim.


Um corpo com a frescura das nascentes, das primeiras correntezas, dos primeiros encontros com a noção das margens. Já foi assim esse corpo, conhecido pela luz pujante da madrugada. Um corpo comprometido com a força do dia, a sorver para si o desconhecimento e o pacto iniciático com a resposta que a terra pode proporcionar quando sobre ela passam as torrentes.
Um dia encontrei assim o mundo. Era tarde, e no que restava das horas apenas um som longínquo testemunhava a passagem breve daquele corpo. Sentei-me sobre essa ideia como se me debruçasse sobre a mais alta varanda para avistar infantilmente o fim do mundo. Ali permaneci até hoje com a serena expressão de quem jamais perderá a esperança de avistar esse lugar onde devem ir ter todos os corpos que guardaram em si a frescura das nascentes.

Tuesday, August 14, 2007

A subsistência dos sonhos.


Os últimos dias, dormindo onde calha e comendo quando calha, atravessam-me como balas e deixam no chão um rasto a novo e a decisivo combate.
Gasto, por dia, uma ração literária de subsistência, reduzida a cerca de um quarto de hora e vou olhando o mais que posso para a vida e para o mundo como se os não quisesse perder de vista neste coração viandante.
Há dias, na esplanada do Roi Espagnol, em Bruxelas, consegui beber uma Leffe Brune como se engolisse, no meio de um turbilhão de circunstâncias, toda uma idade de que me fui despedindo e voltando, como se engolisse as memórias e os textos que ali escrevia há anos, como se fosse possível empurrar para a alma empedernida os capítulos do meu primeiro romance alinhavados no café das Galerias St Hubert.
Há momentos, parei em Coimbra B e lembrei-me que há dois anos ali parava em sentido inverso, com o peito cheio de desconhecido e uma vontade enorme de poder fazer com que, da minha oportunidade de mudar de vida, algo pudesse ser acrescentado à vida dos outros. Assim foi. Descanso, portanto. E no fundo, há uma certa comoção interior. Talvez seja essa a verdadeira estação de onde hoje parto, em ração de subsistência e com mais desconhecido pela frente do que nunca.
É mais uma viagem. Quantos entrarão desta vez? O que eu dava por uma cerveja , algures no fim da próxima paragem…

Poemas da cidade - 6


Como pousar um copo com água na esplanada, ao sol, e aí prometer um oceano, a sua frescura e o seu risco. Aí banhar a dimensão da ousadia onde a arte emerge como um corpo de verão, o mais belo, o mais pronto para um nunca mais.

Monday, August 13, 2007

Poemas da cidade - 5


Que importa o sol sobre o verão das casas, se era um incêndio sobre o mar do rosto que exigias para a arquitectura do mais apaziguado silêncio das horas?

Poemas da cidade - 4


Por onde andarão os gatos e a sua felina criação da noite?
Por onde andará a sombra do coração?

Poemas da cidade -3


A calçada bordada de pássaros, âncoras e fados resgata a luz e o céu possível.
Tudo mais é a dura metafísica das coisas e a arma de todo o riso.

Thursday, August 09, 2007

Poemas da cidade - 2


Os pombos atravessam a música das ruas e seguem o rumo autêntico da humanidade no bicar o chão e no voo relativo.
São pombos essas criaturas do dia. São bilhetes para a estranha vocação da arte.

Poemas da cidade - 1


O verso é uma folha colhida ao vento, na doce ignorância da terra. À terra o privilégio do espanto pelo seu nascimento e imortalidade.
Ao verso o seu deixar de ser, o ser outro pelos que pelo chão passam e interpretam os ventos.

Thursday, July 26, 2007

Recordações do verão


Os cheiros a pinheiro e a terra vermelha devolvem-me um Algarve de há muitos anos. O mar e as suas falésias completam o retrato, provavelmente vulgar, mas a entrarem na absoluta raridade das emoções a que se não volta por força do tempo.
Esta tarde, a subir o caminho de acesso à praia, pai de filhos, a levá-los pelos mesmos caminhos, retomei uma série de gente que já só existe no lugar onde mais tempo se vive.

Atravessar o odor do pinho
e incendiar na idade
o oceano das coisas simples.

Atravessar o medo
e ficar à espera da morte
como de uma tarde com sol
onde fôramos felizes
e com frequência mergulhávamos
no que seria eterno e tinha então
a capa mais leve da luz do verão
ou das frases que nos faziam crescer
o corpo e a memória mais frágil.

Saturday, July 21, 2007

Perdido


Porque sei da tua voz como uma ferida
e do teu gesto como o caminho incendiado
no promontório mais fundo
do silêncio.
Porque sei de ti como um barco à deriva
no vento do meu desespero mais íntimo
e do meu pensamento mais puro.
Porque dizer o teu nome é mergulhar as mãos nas chuvas
mais distantes e mais invernosas da cidade mais bela
e longínqua, onde não estive ainda.
Porque ser do teu corpo é morar o lume que queima
todo o amor que não tive, e a idade errada onde não fui
o sereno viadante dos dias.
Porque ser do teu tempo é morrer lenta e tristemente no meu,
ouvindo a tua voz distanciar-se,
erguendo a cada instante a vez perdida
onde nada reconheço que tenha a marca, que tenha a vez,
que seja da luz da manhã
a coisa idêntica, o círculo fechado, a mão apertada,
o corpo indistinto.

Thursday, July 19, 2007

Os barcos da memória.


Foram alguns os barcos saídos da memória. Partíam, um a um, deixando na luz do dia um rasto de desaparecimento e de chegada. Sempre pareceram contraditórios esses barcos, ou talvez assim fosse a sua memória. O que é certo é que partiam e havia nisso um lado triste e de perda a que sempre se associavam, sendo esse o lado da chegada.
Ficava no cais, fosse ele qual fosse, a ver chegar tudo aquilo que fomos perdendo com a partida de cada barco. E perguntava muito, até que ponto haveria efectivamente viagem assim que cada embarcação deixava de ver-se.
Os dias foram passando e, aqui e ali, foram chegando notícias do que aconteceu ao mundo, por força dessas partidas, assim que os barcos que desapareceram tocavam costas longínquas e vidas de gentes que nem sequer sabíamos que existissem.
Dessas notícias, esboçámos novas feições e, a pouco e pouco, começávamos a preparar uma nova embarcação para soltar um dia, do mesmo modo, do mesmo irrecuperável modo de constatar este maravilhoso desconhecimento daquilo que pode provocar o que deixamos de ver, mas que partiu de nós alguma vez.
Também assim será a imagem reconstruída do Homem no seu Deus, do Homem no seu Amor, e até do Homem na sua materialidade.

Monday, July 16, 2007

A pessoa e a cidade.

E de passagem em passagem, tudo parece um estreito marítimo por descobrir, um cabo para virar ao sabor da tormenta.
O dia, com o peso do incómodo que é sentir, trasnfigurou-se numa estrada conhecida, da qual se não consegue sair por saber que é aí que reside a felicidade, com todos os perigos que a felicidade sempre comporta.
Uma estrada, com o mar ao fundo e uma paisagem de gente e de lugares que se conhecem, aparentando uma cidade. Isso mesmo, uma pessoa como se fosse uma cidade povoada aqui e ali de surpresa e de medo, de alegrias e desenganos.
Uma pessoa como uma cidade sem vista para outras, condenado a ser da cidade a sua própria miragem, condenado a reiventar na cidade as cidades todas que se não vêem.

O Minotauro

Foi hoje para a gráfica do Sr. Carneiro o primeiro número do «Minotauro», uma folha de intervenção artística que dirijo em nome da Labirinto.
Mais uma pedrada na indiferença e na falta de ideias para o mundo. Tenho-me resguardado muito na capacidade que vejo em volta para que as coisas mudem e que, a pouco e pouco, tudo pareça melhor e mais à medida daquilo que deveriam ser os nossos compromissos civilizacionais.

-Estás acordado, com um sorriso muito adolescente, muito ingenuamente a admirar estes últimos gestos. Estás acordado e a acusar-me de ainda querer mudar o mundo. E consegues, consegues de forma imperativa e doce, simultaneamente. Estás em pé, desse lado do espelho de onde nunca saíste. Tenho-te aí plantado como os orientais plantam as suas miniaturas de árvore que são, acima de tudo, monumentos sobre o tempo, esse tempo que vai passando e sobre o qual não nos queremos despedir, nem sequer permitimos que passe sem que o moldemos. Hoje, acabei por fazer um jornal. Sempre quisemos que assim acontecesse um dia. Aconteceu, hoje. Espero ver-te sorrir amanhã, quando formos outros, quando estivermos mais perto do fim, mas também mais perto de acabarmos cada vez mais tarde, por tudo o que fizemos e que fomos dando.

Saturday, July 07, 2007

A Máquina na Casa Fernando Pessoa


Intervenção de Catarina Nunes na apresentação de Máquina Royal na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a 6 de Julho de 2007.

Intervenção de Carlos Vaz.

Friday, June 08, 2007

A sala.


De todo o silêncio, o de hoje é uma sala, uma enorme sala, de cantos recatados, estáticos, com uma idade a esconder-se devagar. Tudo quieto. Tudo escondido. Entro com a insuportável sensação do medo e pergunto apenas com o pensamento. Pergunto por todos, por mim em idades muito distantes, em lugares muito distantes, em coisas e mais coisas que fazem parte da eterna arca que me acompanha e sobre a qual não consigo suportar mais do que três ou quatro frases que tenham em si o peso do passado e da saudade. Fico com a impressão da morte, sabendo muito bem que a morte, a nossa, não existe senão para os outros. Nunca fomos nós a morrer.
Abro as janelas da sala e desse silêncio. Recuo. Fecho-as novamente. Tapo-me com o que de mais abrigado possa ter, adormeço-me. Adormeço-me como quem foge e espero que do sono me surja algo que seja novo e me surpreenda.
Fico junto às paredes, porque as paredes dessa sala são as margens de todos os rios por onde passei e que conheci. Alguns cheguei a amá-los, mas não são esses que espero, nas margens desta sala, são outros, são os que ainda não conheci e não amei. Espero aqui esses rios, em forma de anjo, sem corpo, sem voz, sem materialidade, rios que tenham apenas uma direcção e nela uma possibilidade.
Adormeço-me como um viajante, sendo essa a mais nobre face que poderei ter para enfrentar a dúvida e, um dia, a eternidade.

Sunday, June 03, 2007

As esculturas citadinas.


As esculturas citadinas, esses corpos distantes, anónimos, essa possibilidade de enredar uma qualquer coisa que se estenda pelo dia e que entre na memória de modo lento e suave, como quase tudo que tem direito a permanecer na memória.
As cidades têm-nas cada vez mais. Apenas me relaciono com as mais antigas, com as que já não interessam a quem é comum e só consegue viver num único tempo. As outras, as mais contemporâneas despertam-me demasiado para a hora presente e isso para mim é trabalho, não é deleite e muito menos liberdade.
No Porto, na avenida dos aliados, ao fundo, está uma escultura extraordinária de uma mulher nua em cima de uma coluna. As pombas, param imenso por lá. O seu corpo branco, despido, na mais cinzenta cidade que conheço, não me lembra mulher alguma, mas antes a infância que por ali vivi, uma infância a cinzento e branco, bem como as vezes que ali atravessei a rua em direcção a Sá da Bandeira, para ir tomar café com o avô ou com o tio Orlando, na Brasileira do Porto.
Lembra-me uma cidade conservadora e grande, muito diferente da minha, conservadora e pequena. Uma estátua de mulher que me traz o contraste com os homens aprumados, de jornal debaixo do braço, o «Janeiro» ou o «Comércio», sobretudo esses. Aqueles homens com um ar elegante que só se equiparavam na minha terra a uma, bem contada, dúzia e meia de cidadãos.
As esculturas com gente a povoarem na cidade as nossas sempre incompletas histórias, mesmo aquelas que tiveram um fim aparente há muitos anos, mesmo aquelas cujos protagonistas já só existem no nosso coração incendiado pelo tempo. Histórias incompletas pelo que ainda modificam, pelo que acrescentam, pelo infinito a que sempre votamos aquilo que guardámos, aquilo a que juramos pertencer, como só aontece nas juras de amor eterno, ou na infantil impressão de que ninguém morrerá, de que só as coisas más e feias desaparecem para sempre.