Friday, December 29, 2006

De volta à felicidade.


Pelas frestas deste tempo invernoso, registo o aprazível caminhar pelas ruas, agasalhado até mais não poder, tendo, finalmente, tempo para olhar as pessoas e nelas referenciar esta nossa era.
Quando nos exilamos na distância dos nossos afazeres e, posteriormente, regressamos, é com alguma surpresa que encaramos o mundo, espantando-nos um pouco com o que entretanto foi mudando.
A distância provoca o espanto e, feliz e normalmente, o espanto provoca a alegria. As ruas das cidades continuam a ser a primeira porta para regressar à felicidade, pela sua diversidade, pela sua memória, pela narrativa tão infinita que sempre me dá a noção daquela que é, efectivamente, a minha única riqueza, a par com as melhores emoções: o contacto íntimo com a arte.

Wednesday, December 27, 2006

É a vida.



Quando anoitecer sobre a quadra das festas natalícias, estarei ao fim da rua, olhando em frente,na esperança de saber o rumo que nos levará ao próximo ano, por esta altura. Estarei no fim da rua, como se estivesse de frente para o mar numa ingénua tentativa de descobrir rotas e quebrar aos poucos a linha do horizonte.
Este ano de silêncio e de passagens estranhas entre os que ficaram e os que partiram. Um Natal de despedidas e de renovação de lugares à mesa, sem que se tenha tornado insuportável ou de profunda tristeza, apenas porque tanto nos espantou o termos de olhar a vida desta maneira , o termos ficado todos diferentes, o tudo ter que começar de uma outra forma.

Sunday, December 17, 2006

Bilhete para a tia Yvette



um breve beijo, para uma longa vida.

às vezes, é a terra numa coincidente
erupção com o historial da voz e do seu infinito;
descreve, onde toca, a lonjura e o ilimitado
sem deixar de ser rente e de a sentirmos
com a verdade dos bichos e o calor das tardes
de verões sucessivos.

às vezes, é uma velha árvore onde escondemos
e guardámos e da qual nunca saímos,
uma vez que daí se avistavam oceanos
e até as coisas que ainda não existiam.

às vezes, é tão real que da eternidade
terá corpo na compassada atitude
de sermos eternas crianças em seu colo
e disso depender o melhor que fizermos
ao mundo.

Saturday, December 16, 2006

O tio resistente e sereno.


Dezembro assolado pelo luto. Dezembro duro; o que é estranho, por ter sido quase sempre o contrário disto. O meu tio Albertino morreu com uma idade quase tão avançada quanto o seu testemunho. Mas foi cedo. Muito cedo. Aliás, morre-se sempre cedo perante os nossos dias maiores, perante os compromissos que temos com o coração. O meu tio Albertino, resistente ao fascismo, preso político e perseguido pela PIDE, foi um homem de preocupação com os outros, com o seu bem-estar, com o cumprimento do que é justo. Contudo, foi também um homem de uma sábia serenidade, uma serenidade muito pouco frequente nos resistentes. É curioso como recordo dele o tom moderado e uma ternura que sempre me demonstrou, sobretudo durante a infância nas frequentes visitas que fazia a sua casa. Convivi com esse lado de um revolucionário e guardo disso a melhor das memórias, até mesmo das mais privilegiadas.
Mas houve também o tio político, comunista e combatente. Ao contrário de muitos, sou dos que não esquece, nem deixa de reconhecer e agradecer a coragem de todos quantos sofreram por nós. Também a minha educação cristã a isso obriga. É que não se trata de nenhuma peça de retórica esta questão de antigos desalinhados. Ser resistente significou a privação não só da liberdade, mas a pobreza dos seus e a respectiva perseguição.
Nestas horas de despedida, junto ao túmulo do tio, várias coisas fui sentindo, entre elas a tristeza própria do fim dos ciclos, mas também um orgulho e um prazer enorme por nos termos curvado perante a sua memória e, nela, perante a de todos quantos estiveram dispostos a tudo para mudar o mundo. Quantos seremos capazes do mesmo? A nós, só nos resta aprender e tentar com o nosso melhor estar à altura daqueles que foram o nosso passado mais admirável. Como nos lembrou um sobrevivente do holocausto, importante é não esquecer, nunca esquecer, para que a luta tenha valido a pena e a História se não repita.

Sunday, December 10, 2006

O princípio do fim.



Só é suposto recusar a sorte perante a aparente e final parede que nos mostra o vazio. Ter disso uma noção inultrapassável e resignar, ainda que momentaneamente, constitui os primeiro arremessos da morte tão inevitável, mas tão fantasiada e tão cheia de mentira a quem é deste mundo.

A permanência das coisas.



Nos dias de Dezembro, a caminhar devagarinho, como convém, para o Natal, retenho na memória a melhor voz que conheço para as primeiras noites de frio, a de Nat King Cole.
Ontem à noite, espaireci fazendo doce de abóbora que, em tudo, é inferior ao que a minha tia fez e me ofereceu há dois meses.
Ando, normalmente fora de moda. Gosto de ser assim. Já assim era aos 16 anos, quando me vestia com roupa que a esquerda romântica vestiu uns 10 ou 20 anos antes de eu nascer.
Guardo das coisas o que elas têm de mais demorado. Encosto-me ao tempo, como os velhos se encostam às paredes viradas ao sol, sentindo um conforto idêntico.

- Quando podias sair de casa e olhar demasiado em volta, para quase tudo colheres em volta, sentias-te um bicho. Um bicho perfeito e agasalhado no conforto do seu lugar. Hoje, ainda procuras aí resguardo. É nesse trajecto que nos voltamos a encontrar e a saber um do outro. E quando nos vemos, percebemos muito bem que quase nada se perde, que o significado das coisas é sobretudo o resultado do que, existindo, fomos capazes de amar e que, por isso, nunca chegou a morrer.

Saturday, December 09, 2006

A janela.


Há uma janela virada para a face inexistente das ruas. Demoro-me nela a ver tudo que já vi. Procuro aí a repetição impossível ou a explicação absurda da indesejada finitude. Pergunto-me sobre os trajectos, sem que isso doa. Mais diferente é quando pergunto pelas pessoas. Algum silêncio esvazia e ecoa a pergunta. Olho de forma reflexa para trás. Consegue-se sorrir e parar, por instantes, de perguntar. Contudo, quando olho em frente há sinais de que todos continuam. Dou uns passos, afasto-me da janela, torno-me de novo numa espécie de conformado, não sei se com a mortalidade, se com a imortalidade.

Dança de Natal.


Andei pelo Porto, à hora de almoço, a ouvir jazz dos anos 50, enquanto chovia e se abria sobre os passos a imagem surpreendente do frio e a salvação estética dos últimos dias.
Andei a abrir o Natal possível sobre a melhor arca de memórias urbanas, sobre os recantos tão antigos e tão à flor da pele da cidade que, como eu, é triste e expansiva, é suave e se ilumina apenas quando o dia se torna definitivo e inteiro.

- Dá-me o teu braço, fecha no meu corpo as primeiras palavras e não te esqueças nunca de dançar com a cidade o entardecer das árvores e da tua voz assim quente, assim baixa, a rasgar o frio, como os amantes mais eternos anseiam rasgar seus corpos.

Tuesday, December 05, 2006

Quietude.


Desprendo a tarde de outono. A cidade é um lugar fóssil. Mora no meu coração. Parto como se abandonasse tudo, como se quase tudo desconhecesse. Não consigo ler nos passos existência alguma. Silencio, gesto a gesto, a expressão do dia. Fico quieto. Sobre os meus olhos descansa ou adormece a parte de passado que amanhecerá no que ainda não sei, mas que serei capaz de amar, como se ama fossilmente.

Sunday, December 03, 2006

Os pedaços.



Faseadamente, a vida despede-se.
Os ciclos encerram-se
e, no ressurgimento, os pedaços
são a fonte única de beleza
e a única bagagem
que só nos deixará
quando nada soubermos.

Friday, December 01, 2006

O importante e o relativo.



Quando se assume que o mais importante é que sejamos dignos daquilo que a vida nos traz, vindo de tempos que ainda não eram os nossos; quando do dia registamos a sua luz e a grandeza das cores que são irrepetíveis e que, com o nosso olhar, são também as cores que ficam do mundo; quando à distância das mãos temos todo o mar e toda a terra, todas as árvores e as estações que sempre partem para depois voltar, talvez consigamos perceber muito de perto que o caminho é aquilo que cosntruímos e que nem o tempo conseguirá destruir, pelo facto tão simples e tão grande que é a evidência de que o tempo só existe efectivamente enquanto alguém nos mantém vivos, ainda que na memória, daí em diante mais nenhum tempo existe, nem nada terá corpo.