Wednesday, November 29, 2006

A pensão.


Em Portugal há um destino de alojamento que foi desaparecendo com a chegada em força dos hoteis: as pensões. As pensões com classe e com a intimidade regrada entre gerência e clientes são uma raridade.
Há muitos anos, as pensões eram sítios onde se podia viver um quotidiano alternativo entre estranhos que se transformavam em pouco estranhos, entre desconhecidos que se tornavam companhia efémera porém com nível e com gosto.
O ambiente das pensões era um ambiente com alma, quebrando as raízes tão fundas de um quotidiano, por vezes cansativo de tão pesado e de tão rotineiro. Viver numa pensão era sobretudo levar por diante o exercício agradabilíssimo de só mostrar aquilo que entendessemos ser mostrável naquele tempo e naquele contexto.
As pensões permitiam-nos olhar para dentro de um ponto qualquer mais distante. Olhar de fora, do longínquo que os ohos dos outros possuem quando nos vêem sem nos conhecer. Somos quase virgens, quase sem nome nesses lugares e contudo temos uma estética que desconhecíamos e sobre a qual raramente equacionamos olhar e definir aí o nosso limite e a nossa fronteira.

- Nem sabes. Estás sentado no sofá individual, junto à janela. Ouvem-se os carros compassadamente na rua Brancamp e as vozes das personagens da telenovela. Um negro senta-se com a mulher no outro sofá. Dás boa-noite, como quase sempre. Tentas mais uma vez não ligar muito ao miúdo de quatro anos que te olha com aquele jeito que os miúdos sempre olham, quando querem meter conversa para nos atazanar a noite logo de seguida. A tua face é uma máscara cheia de silêncio. A personagem da novela come sofregamente um pequeno almoço de frutas. Os negros comentam que também era assim na terra deles. Sorris. Eles vêem que sorriste e perguntam-te se já estiveste em África. Respondes que não. Dizes coisas que ouviste dizer sobre África. Eles ficam a pensar que gostarias de ir lá. Tu ficas a pensar se há em ti um aventureiro que seria capaz de deixar tudo e ver o céu claro de que todos falam e que tu nunca viste. Os negros sorriem-te. Tu sorris. Levantas-te por dentro e vais embora para África. Só voltarás de manhã, quando cheirar a café e a torradas na pensão ou quando fores um ser normal e mais experimentado no sonho, quando fores esse desterrado nortenho, felícissimo por viver numa pensão em Lisboa, de onde partem, pelo menos os barcos.

Tuesday, November 28, 2006

Houve um tempo.



Houve um tempo, de horas longas, de silêncios raramente violados na Vila nocturna, quase sem carros, quase sem gente.
O frio ouvia-se, a geada tinha um cheiro e as árvores deixavam na noite uma sonoridade despida quando o vento por elas passava.
A vidraça húmida e gelada, junto à minha face da infância, contava tudo o que desconhecia sobre o exterior inacessível, sobre as aventuras e as maravilhas que só eram verdadeiras no calor muito intocado do coração, o meu de menino quase preso no destino, quase velho, mas muito menino, mas pouco criança, mas muito a caminho, mas pouco a caminhar.
O meu coração, o primeiro, tão grande, tão espaçoso, tão a adequar-se ao desconhecido e ao imprevisto. Tão a conformar-se com o tempo que a vida leva a perceber o tempo que resta para o resto da vida.
Houve um tempo, de horas longas, onde falava baixinho e longamente o coração. Quase nada se ouvia para além disso. Hoje, parece-me perfeito. Hoje, parece impossível

Monday, November 27, 2006

A mão.


Começa na mão a estrada infinita.
A seguir, desprende-se do mundo o corpo amadurecido.
Tudo parece novo e a prazo. De quase tudo se duvida.
Menos da mão, da mão que deu provas tão cabais
de haver estrada infinita, de haver na memória
uma imagem ou uma razão pela qual, em silêncio,
se grita.

Sunday, November 26, 2006

O sentido.


Por onde as águas passam, os navegantes inscrevem rotas. Aí tudo se afasta e se desfaz. É esse o sentido da vida: inscrever rotas com a certeza do efémero e a companhia tão certa do vazio.

Uma folha para Cesariny.


Como tudo seria mais fácil se te pudesse oferecer o Outono e as coisas e os dizeres tivessem em nós a simplicidade e a beleza que têm as folhas quando se separam das árvores e vão com o vento esbarrar-se ciclicamente no apertado coração dos que sabem fazer coisas com os sentimentos.

Saturday, November 25, 2006

A infância vista daqui.


Há ciclos que se fecham para sempre. Saudades que ficam para sempre. Hoje, morreu uma grande parte da minha vida. Ou antes, fechou-se. Dolorosa e misteriosamente. Uma parte do que fui perdeu referência porque amanhã mesmo enterrarei a tia Alice e com ela vai tudo o que havia de futuro de uma infância que em mim morava e nela também. Vamos ambos fechar esse lado da infância, que ao contrário do que possa parcerer ainda poderia ser futuro, caso ela continuasse viva e a amar esse tempo em que eu era criança e ela cuidava de mim. Vamos os dois fechar esse ciclo e esperar que alguma vez possamos abrir outros com a mesma grandeza com que vivemos este.
Consegue-se ser criança sempre que alguém ainda sabe cuidar da criança que fomos e da que ainda temos. A tia sorria-me de um jeito que parecia estar continuamente a afagar o cabelo do miúdo que fui e que ela soube tão bem amparar com uma alegria que na minha infância rareava. Há anos pedi a Deus que a não levasse, que daria tudo para voltar a comer a marmelada que ela sempre fazia pelo Outono e que sempre me dava. Deus fez-me a vontade. Ainda tenho uma tigela deste ano por estrear e essa é hoje uma relíquia, por ser a última. Não sei a que saberá, não sei sequer quando a irei provar.
A tia e eu fomos uma espécie de legenda de um tempo que nunca deixámos morrer, esse período em que estávamos todos vivos e ela tinha uma força que aos poucos foi desaparecendo. Fomos até ao último instante em que nos vimos esse pacto: nunca deixar morrer o que de mais precioso e mais puro foi a nossa vida. Vivíamos ambos com isso, como se vive com o próprio ar ou com a imagem regular das estações ao longo dos anos.
É certo que amanhã terei pela frente uma despedida e que fisicamente nada mais me restará que uns retratos e uma velha tijela de marmelada. Amanhã morrerei um pouco mais, porém vivi com ela muito, vivi com ela tanto que mesmo agora que parte, tenho a mais absoluta certeza que vista daqui essa infância foi muito bela, muito íntima, e que só assim conseguimos chegar a lugares como os de hoje e chorar com alguma alegria por nos termos cruzado por ter sido tão linda a caminhada. Adeus, querida tia.

Wednesday, November 22, 2006

O caril da tia Yvette



Do espaço encontrado no turbilhão do dia, roubei à memória o primeiro sabor do caril da tia Yvette, provado há cerca de vinte anos, na companhia da avó Judite, mulher única e de incontável grandeza, bem como do tio Victor, que tem tanto de humano quanto de erudito.
O primeiro sabor do caril, com a mágica mistura da amizade e da grandeza de alma. Pergunto-me: quantas pessoas terão memórias assim para o almoço de hoje? Quanta gente saberá deste mistério que alimenta a alma e enobrece o dia? É esta a riqueza da memória, é este o cais tranquilo do amor.

Tuesday, November 21, 2006

O coração na rua.



Ainda que a cidade seja o rosto, a forma de um corpo jovem à espera de reinventar desejos, ajustar emoções ou exigir impossibilidades, nada nele me roubará o seu lado antigo e, por isso, futuro. Nada nele perderá a identidade que, como a casa mais amada, fomos capazes de erguer aqui na terra como na alma, desconhecendo adoravelmente o que de facto sabemos sobre o que é e onde existe essa ideia de casa, essa ideia de face.
A rua é um lugar de dentro e de aconchego. Só quem nunca foi capaz de amar uma rua ou uma cidade é que não perceberá este lado da existência, onde se pode morar uma vida interia, tal e qual como se pode viver no coração de uma pessoa, que, não sendo casa, é também, e indizivelmente, a melhor metáfora para o aconchego e a sua ideia.

Monday, November 20, 2006

O bode tocador de violino.



O dia renasce devagar, com um frio cada vez mais sério e mais belo. Da varanda onde me não encontro, vê-se o mundo quase todo. Apetecia-me estar lá e não aqui. Ser essa espécie de bode violinista que Chagall pintou com uma mulher ao ombro junto ao ouvido, sendo essa mulher a figura do que ainda não veio, do que ainda sei, e que, por agora, me bastaria que fosse a mais bela e serena imagem do frio, a tal que se avista da varanda ou do olhar de um velho tocador de violino, incompreendido ao ponto de parecer-se com um bode.

Sunday, November 19, 2006

A guerra dos tempos.

Volta-se muito a um estado de guerra, oriundo de inúmeras frentes que se abrem directamente do olhar aos dizeres, da sombra à reinvenção da luz, colhida em quase tudo para que não morramos.
Volta-se. Não há muito mais para contar, por esta tarde. O tempo foge e, hoje, curiosamente, não disse muito. Talvez, com isso, consiga esboçar uma noção provisória da perda ou de uma cansada quietude.
O frio chegou, finalmente. Com ele construirei a paisagem futura. Disso se vive. Tal como as formigas, ergo paisagens ao longo dos dias para que nada falte, quando nada houver.

O espelho.



E há, contudo, a paisagem emerecida, aquela onde seguras o rosto e aí sustentas as terras todas do mundo. Ergues uma cidade infinita e uma manhã onde só o passado se apoia e assegura uma felicidade inventada de modo perfeito.
Já te pude chamar a flor da manhã e na pele não ousei mais do que lavrar a cor e o perfume que não chegaram, senão nas imperfeições que fui acumulando vida fora, as imperfeições onde crescem a carne e o gesto, ditando a sombra que se arrasta.
Deito a memória do teu corpo sobre a ideia de noite quando ainda é manhã alta. A gente vai-se separando das horas através de outras horas onde somos o outro que amamos, junto ao qual construímos os mundos. Entre o Homem tido e o construído vai a distância dos sonhos e a medida do amor.