Sunday, January 22, 2012

Mudança


Esta foi a casa da Máquina Royal desde a sua fundação em 2003.
A partir de agora este blog mudou de sítio:
www.maquinaroyal.wordpress.com

Friday, January 20, 2012

Origem.

 Foto PMM -Moledo

Quando voltares ao início, pergunta. Aprecia a paisagem e encontra aí os vazios, mas também os pássaros, as árvores e os objetos que já foram teus. Olha-os um a um. Fala-lhes da saudade que sentiste, sem pressas. Demora aí o coração. Lembra-te como o mundo não tinha uma imensidão de coisas, de lugares e de pessoas que hoje tem. E vê como era, antes de tudo te ter chegado ao olhar. A primeira coisa óbvia é que foi possível viver sem tudo isso. A segunda é que é possível. A terceira é a de que se vive uma belíssima inconstância e um fundo mistério.
Já estivemos mais sós. Já estivemos mais acompanhados. A constante é que estamos sempre com o dificílimo coração. Quando voltares ao início, não te esqueças que o mundo é maior que o teu olhar. Mas também foi isso que te fez entender que o mar só é o mar porque um dia lhe juntámos uma palavra, uma sonoridade, uma tristeza, uma paixão. E andes por onde andares, ele ha-de lá estar sempre para que voltes, abrindo luminosamente a viagem que ainda falta.

Thursday, January 12, 2012

A direção do vento

Pintura: Autumn Trees in the Wind
 Autor: John E. Maguire

Que vento sopraria das colinas da infância quando o homem olhou o caminho, mediu-lhe lonjura e solidão, e decidiu que seguiria a viagem? Que reserva de ternura teria ele entre as mãos, agasalhadas que estavam no casaco invernoso e na invernosa narrativa dos que partem? Que estações o olhar teria tocado e onde as voltaria a tocar, como se toca uma velha música, numa velha rua de uma cidade onde nunca fomos, mas onde já fomos felizes?
Que vento sopraria nessa hora que o guardasse no instante, no modo e no lugar, agora que parte e que tem no corpo guardado tudo e, mesmo assim, pouco sabe da riqueza, sabendo contudo alguma coisa do desejo, sendo esse na viagem o seu mais íntimo tesouro?

Tuesday, January 10, 2012

Flor do Mundo

Foto PMM - Fafe

A flor do mundo é uma revelação
do que fora o dia sob o perfume
que encerra a difícil pergunta:
- de que nos servem os deuses,
se não percebemos as flores?

Monday, January 09, 2012

Outros lugares.

 Foto PMM - Bilbao
Na manhã, há uma viagem que faço para o inverno de outros lugares. Não são fugas, mas reencontros, por força de leis desprovidas de regras que limitem o tempo e o espaço vividos. Uma tarde em Paris, há muitos anos, tomava leite com café numa esplanada em Monmartre. Estavam 0 graus nas ruas e não sei que tempo estaria no meu coração. Apenas recordo o pacto. O pacto que fiz comigo, com a minha forma de olhar. Um comprometimento com o rasto dos Homens e da Natureza. Trazer esse rasto para dentro, como se traz a lenha durante o inverno, como se recolhia o leite da porta antigamente, como recuperávamos a mudança do mundo para o nosso gesto mais premente.

- Esta manhã, pergunto-te: onde estarás a mudar as coisas, a recolher o inverno ou a ternura dos gestos que não voltaram? Esta manhã, asseguro-te que não há mais funda confissão do que aquela que se faz sobre os passos dados.

Friday, January 06, 2012

Flor do tempo



As flores do inverno evocam na paisagem o que fomos noutras estações e cantam no nosso coração a balada mais suave sobre a magistral e tão fugaz passagem do tempo.
Algum dia acabaríamos por perguntar a uma flor sobre nós.

Tuesday, January 03, 2012

O teu lugar

 Foto PMM - Genebra
Há um lugar para ti no meu olhar. Uma estação vazia. Vazia de comboios, vazia de árvores. Vazia para que a possamos preencher juntos. E já sabes, uma estação é um repositório de viagens. As que fizemos e as que ainda vamos fazer depois dessa magnifica paisagem de vazios a que todo o Homem tem direito.
Estende-me o corpo. Tenho muitas e demoradas histórias para viver sobre ele. No fundo, o que importa são as histórias, tudo mais é fruto do momento. Estende-me esse corpo que não termina, que não envelhece, que não morre. O teu corpo que é uma nau onde se encerram as maravilhas da humanidade para que não sucumbam quando os diluvios chegarem e tu estiveres longe e eu estiver longe. Vês como são as narrativas que importam?Dá-me esse corpo que é uma lenda porque eu não quero que me morras nunca. Deixa-o comigo. Eu sei tratar dele como se trata de uma cria ou de um sonho. O teu corpo é uma cidade. Cheio de gente, cheio de gritos, cheio de risos, cheio de ternura, cheio de casas, cheio de abandonos, cheio de abraços, cheio de tantos vazios que te assolam. Mas não entristeças, eu estarei sempre por aqui para preencher contigo esses vazios e continuar a história.
O teu corpo é uma carta. Uma extensa carta que nunca chegarás a enviar, por não ser possível temporalmente escrever sobre um corpo assim e um olhar desregrado como o que tenho onde te tenho. O meu olhar é a tua casa. Podes entrar e deixa que a ideia de haver um vazio incompleto nos resguarde e aqueça o coração das coisas que desconhecemos, o melhor da vida se olhado e sentido do lado de cá de todo o tempo vivido.

Sunday, January 01, 2012

Vamos, coração!

Foto PMM - Varsóvia
Fomos andando, coração. Fomos fazendo estrada e tempo. Fazendo noite e dia. Fazendo fome e sede. O caminho, coração, é uma frase sobre a expressão de um rosto que só os outros conheceram porque o viram, porque lhe perguntaram, porque não era o deles, porque era o nosso, o nosso rosto e a nossa frase e o velho, o nosso tão velho caminho, coração.
Hoje, estamos a olhar para estrada e a tentar adivinhar o que é que houve para trás, o que é que existiu de facto, o que não foi engolido pelo esquecimento. Começamos, então, a contar. A contar o tempo que resta ao que não esquecemos, ao que significa. Agarramos-lhe o pulso, contamos os batimentos, depois damos as mãos.Estamos juntos, coração. Anoitece devagarinho. Já sabes que não morreremos assim que parares, mas quero-te dizer que quando parares começaremos a morrer. Mas hoje não é o dia.
Anda um pouco mais. Olha a estrada. Ainda há tanta estranheza, coração. Vamos, abriga-te comigo nesta casa e espera que a tempestade passe e quando passar, vais ver, não seremos os mesmos. Talvez nos estejamos a despedir de alguma coisa. Ainda avistamos o amor, a cidade, os amigos, as árvores, os tantos deuses que já sentimos. Ainda avistamos, coração.
Mas cansamo-nos por vezes e, outras, até parece que o fim está próximo. Mas faz parte. O cansaço é do corpo a melhor prova de que o espírito existe.
Pronto. Aí estamos de novo na estrada, coração. Aí estamos e são sempre tão belos os primeiros passos que se não fosse por ti poderia até chorar ao senti-los, mas lembro-me bem, coração, que um dia me  disseste enquanto o fazia:
- Chora apenas se tocares a miséria extrema, se não te restar mais nenhuma palavra, até lá, não chores, escreve.

Tuesday, December 27, 2011

A idade dos sonhos

 Foto PMM - Fátima

Tornar ao espaço onde brincava durante as tardes
e reinventar a íntima geometria dos objectos,
compará-los com o corpo. Permitir essa invasão
e entender o sonho.
Um sonho em criança é uma construção
do que se toca,do que se intui e da privação.
Na idade adulta é o mesmo,
apenas cresce a duvidosa necessidade de julgar
e com isso o entristecer.

Monday, December 26, 2011

Adeus

Foto PMM - Gaia
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Olha pela janela e conta os pássaros, as árvores da paisagem, as crianças, os velhos e volta para ti como se te esperasse o paraíso no curso dessa viagem. Lembra-te de mim e do que te não disse. Faz disso a nossa melhor história.
Um dia, apanhámos o comboio numa estação no Sul de Itália. Houve uma mulher muito bela que me pediu lume enquanto tu me pedias para te dizer se alguma vez te trocaria. Lembro-me de te ter respondido que nunca troquei nada nem ninguém. Que apenas vou morrendo frequentemente e que, como tal, há pessoas e lugares que me perdem. Lembro-me que me abraçaste cheia de medo, não que eu morresse, mas que me pudesses perder. Então, antes de entrarmos para o comboio, perguntei-te se querias fazer a viagem comigo, mesmo correndo o risco de eu não ser eterno. Disseste-me, enquanto se te embaciavam os olhos: 
- Todos havemos de morrer um dia, pelo menos uma vez, e nem por isso deixamos de viver.
O comboio partiu ao final da tarde. Uma tarde quente de Setembro. Estávamos no Sul de Itália e os teus olhos morriam nos meus de tão belos, de tão irrepetíveis. Percebiam que o amor ē uma ciência, é uma imensa sabedoria. Saber que se nasce para morrer um dia, a cada dia, e que mesmo assim, e que só assim, é possível construir a beleza e seguir. Nem o amor nem a beleza se conquistam à chegada, só quando partem se elevam. E, quando  partem, ficam e contam o que será.
Apanha comigo um comboio e deixa o caminho para os que não saem do lugar. Há um planeta inteiro para nos morrer no coração e hoje ē o dia. Apanha esse comboio e deixa-me onde ainda não chegou o coração. Nem o teu, nem o meu. É aí que quero morrer. Por ser aí essa pátria de esperança, muito virgem, muito virgem de despedidas de todos os outros lugares por onde passámos e não paramos, mas que nos faltam e, por faltarem, significam.
Apanha comigo esse comboio e deixa-me nessa viagem. Se eu não chegar nunca, não me procures, eu sou a tua viagem. Se me não vires esta tarde não faz mal, estou no sul de Itália numa velha estação a dizer-te com os olhos embaciados que o amor não se explica e que por isso te posso morrer. Estou nessa estação à espera que partas e que entendas que o amor também é uma despedida, uma longa e bela despedida.
Apanha comigo esse comboio e olha pela janela. Podes acenar assim que o comboio começar o seu curso e vê, vê com os olhos molhados como ficamos nessa estação, julgando-nos eternos. Vê como partimos, como se está sempre a partir. Podes acenar. Podes dizer uma ou duas palavras sobre essa parte de nós que ficou e que morrerá por ali.
Chega-te a mim. Está a arrefecer nesta carruagem. E o futuro, o futuro é sempre um lugar frio. Assim que chegarmos, estaremos a morrer novamente, mas é isso o amor, a sabedoria do amor. Estaremos a morrer e tu a perguntares se eu ficarei e eu a dizer que se fica muito quando se morre.
Assim que chegarmos, vou dizer que nunca te deixarei. Que morro muitas vezes e que, por  isso, há pessoas e lugares que me perdem.  Apanha comigo esse comboio. Não deixes de dizer adeus, pois só dizemos adeus ao que queremos levar para sempre.

Sunday, December 25, 2011

Escrever a viagem

 Foto PMM - Coimbra
E, de súbito, falta-me muito um deus que ajude a perceber como se pode durar mais sobre um tempo que só na aparência é idêntico para todos. O tempo é o que temos de mais relativo. O tempo é uma invenção da felicidade e da tristeza. Move-se e consome-se entre estes dois pólos, mais depressa ou mais devagar consoante estes dois estados. A duração das vidas é esta viagem, magnífica, intensa, cheia de dimensões onde nos demoramos. Dimensões que säo portos de muitos abrigos, abrigos de muitas tempestades e bonanças.
Um dia, estava sentado num desses portos de interiores viagens e recuei uns séculos até à velha Flandres e era então um mercador que procurava duas coisas: alguém a quem pudesse vender a minha mercadoria e, ao mesmo tempo, conseguir saber o destino dessas coisas que vendia na vida e no sentimento daqueles que as compravam. Era um mercador em busca de conhecer um bocado mais da felicidade que envolve o mundo. Uma tarde, já quase noite, em Antuérpia, uma rapariga contou-me que o seu noivo apaixonou-se por ela quando a viu pentear-se em frente ao espelho que eu lhe vendera e que, desde essa altura, aquele espelho tornou-se um confidente que não dispensa e a quem quase tudo pergunta.
Desde essa tarde que não mais esqueci o espelho que vendi àquela mulher e nunca mais deixei de perguntar a mim mesmo que histórias continuaria aquele objecto a contar, que amores e desamores, que angustias e paixões?  O que teria aquele espelho trazido para o pulsar do mundo?
Saí do Porto de Antuérpia e voltei a este tempo e a este modo, sem grandes diferenças encontrar entre o que escrevo e o mercador que fui naquele porto na Flandres, no centro da memória e do desejo. Escrevo porque não consigo deixar de acrescentar objectos ao coração das pessoas de todos os tempos, criar esse objecto-palavra e soltá-lo para sempre sobre outras vidas que o hão-de guardar para si, mudando cada um e com isso mudando o pulsar do mundo. Não escrevo por muito mais.

Que ningém falte.


O relógio de sala a dar as horas. A compassar as horas. As horas não se dão, conquistam-se. O pêndulo é uma espécie de coração da casa. Desde a morte do avô que ninguém o acertou. Sempre que nos esquecemos de dar corda, aguardamos até ao minuto exacto onde parou e recomeçamos. É como se quiséssemos prender o tempo, uma vez que não podemos mais prender as pessoas. Ao menos as horas. As horas são as mesmas, são as do seu tempo, do tempo em que éramos todos vivos da mesma maneira. O relógio da sala é um coração secreto da família. Bate sem as leis da vida. Há um de nós que se encarrega de o continuar assim que outro para. E quando se para nasce-se dum outro jeito.
Ontem, fizemos o pinheiro. É interessante como por cá se usa o termo fazer o pinheiro. Na verdade somos nós que o fazemos. O pinheiro de Natal não é obra da natureza mas antes uma obra do coração. Do coração mais alegre ou mais ferido, mais novo ou mais cansado. É uma enorme imagem do tempo. Diria até que é uma metáfora. A vida toda é uma metáfora. Raramente fazemos aquilo que objectivamente sugerem os nossos gestos. E o pinheiro de Natal não é excepção. O pinheiro é tudo menos um só pinheiro. O pinheiro é um monumento: um monumento ao que já se viveu por estas alturas, um monumento às nossas companhias, ao nosso Deus. Mesmo quem o não tem, arranja um Deus por esta altura para partilhar. E nisso se vê a generosidade humana: até um Deus o Homem é capaz de arranjar só para não estar só, nem deixar só os que o rodeiam neste simbolismo. O pinheiro nasce-nos todos os anos, como nascem as flores e os frutos, como nascem as folhas que caem todos os outonos.
Chegam-me as fotos. Há uma caixa cheia de retratos antigos. Retratos cheios de vozes, cheios de gestos, cheios de toques. A caixa das fotografias é um exército escondido, pronto a não nos deixar cair em momento algum. Mudamos a idade a olhar as fotos, mudamos a cor dos olhos, do cabelo, mudamos a voz. Somos até incapazes de falar, apenas para que se não regresse ao corpo e à forma que vamos tendo por estes dias presentes.
Os dias presentes são uma coisa muito difícil de perceber. Porque ainda não são passado, mas hão-de ser e ainda não são futuro mas hão-de ser. Quando regressamos aos retratos, regressamos a uma estranheza intima. Estranhamos este enigma do tempo:  não estarmos na mesma dimensão dos retratos, mas ao mesmo tempo conhecermos cada silaba desse linguajar que têm os que nas fotos ainda falam. Mesmo que esses sejamos nós mesmos a nascer outra vez, noutras idades.
Quando era pequeno a cidade não existia. Mas existia uma Vila que não cabe no meu coração, ainda hoje. Uma Vila mágica, com uma luz mágica, uma voz mágica, com um corpo que sempre confundi com o meu corpo. As ruas da Vila eram como se fossem uma parte de mim, um rasto que desaparecia assim que os passos se dirigiam para outros lugares. Por esta altura, ia muito com a avó à Igreja Matriz , rezar pelos outros, rezar pelo mundo.
Era fantástico explicar a uma criança a possibilidade de rezar pelo mundo. No tempo da Vila, não viajávamos mas éramos capazes de ter a noção de que havia mais mundo, um mundo muito maior e um mundo onde eram possíveis e eficazes as orações que por ele fazíamos, sobretudo nesta quadra. Rezar pelo mundo. Na mais bela pequenez da Vila e do coração da infância.
E na Matriz, nasceu-me o primeiro Deus. A Matriz é um lugar verdadeiramente divino. A Matriz é como se fosse a minha casa. Imagino-me exilado e a regressar um dia com o coração nas mãos, tendo a absoluta certeza de que seria a Matriz o primeiro sítio onde parava para estar só e agradecer o regresso. Não é uma questão de filiação religiosa. É uma questão de verdade. De estagnação boa do tempo. Na Igreja Matriz nasceu-me o primeiro Deus e nasceu-me um sítio onde percebi que poderiam existir sítios acima dos Homens.
A natureza também está acima dos Homens. Vivemos cercados de montes e sobre esses montes começámos desde cedo a construir a ideia de desafio, de distância, de horizonte. Os montes, para quem vive no vale, têm esse sentido. Os montes de onde trazíamos as pinhas para a lareira, os montes onde escondíamos os animais que lá não existiam, mas que existiam apenas porque o nosso medo ou a nossa fantasia assim o ditavam. E pronto, a vida é mesmo isso, há uma aparência de cientificidade em tudo, mas na realidade o mundo que nos comanda é o que não existe, é o que se deseja e o que se teme. O que existe é apenas instrumental. E mesmo o que é tangível e comprovável pelas leis da Física, nasce para fazer nascer uma série de outras coisas que agigantam o seu lado gerador de sentidos e infinitas leituras, sendo contudo a mesma e única coisa.
A nossa rua de sempre arrefeceu e está tão bonita. Tem muitas idades esta rua. Em cada pedra da calçada reconheço o meu corpo, as fugas, as chegadas, os medos, os arranhões de quando corria com as outras crianças que já cá moraram e que já cá não estão na sua maioria. Fui ficando ao longo dos anos e vendo crescer a cada dia um pedaço diferente desse espaço como se fossem flores, flores renovadas de uma jarra que se tem no mais nobre dos aposentos da casa ou no mais íntimo. A nossa rua, amo-a tanto. A maior violência que o destino me poderá trazer será o de não morrer aqui, o de partir com a certeza de não regressar. Não sei como me poderei despedir da rua, ou de me despedir da ideia de não ver nada de novo a acontecer sobre ela, ou ainda pior: saber que vai acontecer muita coisa e eu não estar.
Um dia recebi uma bicicleta pelo Natal e decidi que partiria todos os dias. A minha bicicleta era um invento de liberdade. E, nesse ano, o Natal inventou-me a liberdade. Mas uma bicicleta é também uma parte do corpo e uma parte do sonho. A bicicleta de todas as partidas, do vento a dar-me na face quando descia para a aldeia onde o avô tinha a fábrica, a muita velocidade, a uma velocidade em segredo. A bicicleta a fazer com que tudo crescesse em mim. Tudo entre o medo e a astúcia, entre o deslumbramento e a angústia, entre o ficar e o partir.
A vida é um ritmar de partidas e chegadas. Partir não fisicamente, mas partir pelo pensamento, com quase tudo a ser possível, com quase tudo a ser uma funda inquietação do mundo. Partir pelos filmes, pelos primeiros que assistia nas matinés do velho cinema  e que rendiam todo o mês, em busca de extraordinárias personagens, de lugares longínquos, em busca de ter o longe perto. Um dos maiores atributos da arte, é o de fazer rebentar distâncias, tornando o longe mais perto mas também tornando o perto muito longe, o que é fascinante.
Aprendi, então, a medir distâncias, o espaço também não é o que aparenta. Ainda me lembro dos teus olhos e dos meus em frente ao Flore, em Paris, sem que lá estivéssemos plenamente. Estávamos era na nossa juventude, no que sabíamos dos artistas que para lá fugiam e dessa parte de nós que também queria ter fugido. Estávamos a falar ambos com os adolescentes que fomos e que nunca estiveram em Paris. Estávamos ali e tudo não era mais do que o que queríamos daquele lugar. Uma tarde, em Zagreb, andei pelas ruas ininterruptamente a rever as minhas idades e dei comigo a medir distâncias entre aqueles sítios e a nossa terra. Na realidade, sai-se muito pouco. É tão raro sair da nossa rua. E é tão bom que assim seja. Arrefeceu na nossa rua. É Natal. Faz sentido que assim seja.
Anoiteceu já. Daqui a nada chegam todos para a ceia. O gato anda inquieto, roça-se mais nas minhas pernas, do que no resto do ano. Parece pressentir que nesta altura a ternura é mais dividida. Os gatos detestam dividir emoções. Eu também sou em parte assim, daí me entender tão bem com os gatos. Mas, hoje é uma excepção, sempre foi, sempre há-de ser.  O gato está de patas para o ar. E isso é o pior que pode acontecer a um bicho daquela idade e com personalidade felina. Um gato de patas para o ar a fazer habilidades é o mesmo que um quarentão a dançar música moderna em frente a uma rapariga de vinte. É o extremo da carência e o limite da dignidade. Vou ter que lhe assegurar que ninguém o substituirá na cadeia emocional aqui de casa. Afinal, a quadra ensina-nos a não esquecer e o velho Félix nunca me faltou uma só vez à sobriedade que a casa tem de ter o resto do ano.
A mesa está posta desde as seis da tarde. Foi sempre assim. Já no tempo do avô assim era. Começamos cedo a celebrar, a ter cuidados, a trabalhar para que,de cada vez, se acrescente ao inesquecível. A mesa ainda está vazia, embora esteja  cheia. Está cheia de memórias. Já passei pelas cadeiras quase todas. Desde pequeno que a mobília da sala é a mesma. À medida que as fases da vida foram passando, fui mudando de lugar. O ciclo termina no lugar que hoje ocupo. Estou à cabeceira, na cadeira que era do avô e depois do meu pai. Este lugar na noite de Natal é um trono. Tenho-os em cada gesto. Tenho-os como se nunca pudesse desmerecer o lugar. A vida é assim mesmo, dizem os Homens, demonstram os deuses.
Não se pode saber, mas desta janela que dá para a rua, só se vê a antiga Vila. Nada mais do que isso. Estamos todos, estamos sempre. E ainda se nasce muito por cá. O Natal tem na festa inúmeros silêncios. Magnânimos todos eles. Silêncios de viagens ininterruptas, silêncios de aconchegos infinitos. Silêncios de onde despontam as vozes mais antigas, mas também as vozes que hão-de vir.
Esta noite, é uma síntese. Uma magnifica síntese onde nos atravessamos pelas margens do mais belo, do mais justo e do mais terno.
Estão quase todos a chegar. Arrefeceu muito lá fora. A Vila é o lugar mais bonito do mundo. O gato Félix recuperou a dignidade e enrolou-se a dormitar junto à minha cadeira. Vou abrir o vinho e esperar que ninguém falte, que ninguém nos falte esta noite ao coração. Feliz Natal.

Saturday, December 17, 2011

Cesária Évora



A voz é um continente. A voz é um país, porque os países
são o que sabem e o que sentem as suas gentes.
Que impossibilidade esta estranheza!
Que música mais eterna envolve o olhar e amarra o peito!

Haverá continuamente um outro verão,
onde não acaba o testemunho. Haverá uma outra noite
e alguém que dentro há-de sentir esse sentido e seguir com ele.

E há também uma certeza: nunca se morre no caminho se caminho houve.

Esta noite tenho um verão no coração, uma velha árvore e um mar.
E uma ilha que é sôdade e que hoje chora para que não pare nunca de cantar.