Durante a campanha eleitoral autárquica, reservei-me o direito e o prazer de regressar a lugares onde já não estava há muito. Quero dizer que, de algum modo, regressei à Vila. Uma campanha pode ser inúmeras coisas. Entre elas, estão a redescoberta, o contacto e o reencontro. No Largo, a tinta do Martins da Avenida já quase se não vê. Quando a olhei, da Arcada, regressaram as pessoas de outro tempo, os seus significados e as suas inspirações para o tempo presente. É assim a minha forma de lidar com a vida, nunca estando só, nem me limitando a um só tempo ou uma só circunstância.
As caminhadas da campanha são estimulantes pelo testemunho que vamos colhendo sobre o correr dos tempos, sobre as vontades das pessoas, sobre a história de cada um com quem se pára e que nos transmite, em tempo brevíssimo, porém eficaz, o que anseia para a nossa cidade e para o nosso concelho.
Um desses regressos foi ao Bairro da Fábrica do Ferro, local onde tantas vezes andei, primeiro com a minha avó, mais tarde com o meu primo Paulo e onde subiram as emoções ao reparar em pequenos pormenores que já, talvez, poucos notem. Ainda por lá existem alguns postes de luz do início do bairro, ainda se conservam as altas portas de entrada, da fachada original, ainda lá se encontra, pela tarde, uma quietude que faz lembrar o tempo em que eu e o meu primo levávamos o velho pastor alemão, o Roy, até ao parque infantil, local que o próprio escolheu para morrer, junto dos miúdos com quem fora um cão feliz até ao fim dos seus dias. Mas, também o Bairro da Fábrica que guarda a mais esclarecida e combativa classe operária de que tenho memória, os operários da resistência à ditadura, os operários que arriscaram tudo dentro do tão pouco que tinham. Os operários que continuam a ser para mim uma inspiração e um modelo de entrega e coerência para com as sua interpretação da dignidade humana.
Ao cimo, a Pegadinha e as primeiras casas que o meu pai construiu e a imediata memória, não dos edifícios em si, mas do que ali começava no tocante à realização dos seus sonhos e da conquista da sua própria liberdade. A Pegadinha é também o lugar da minha própria origem, esse bairro do meu bisavô, onde os meus pais se conheceram e alimentaram um amor que durou 41 anos. No fundo, é para isso que as coisas servem: para nos acrescentar à capacidade de sermos coerentes e capazes face á nossa tão própria e quase tão única noção de felicidade. Pensei para mim que o meu pai começou a ser realmente feliz a partir daquele lugar. Isso me basta para que o encare como uma marca, um ponto no mapa emocional que vou desenhando ao longo da vida. Todos nós os temos, um pouco por todo o lado.
É um pouco em tudo isto que também fundo a minha vocação política e a minha forma de encontrar razões para a política. É por sentir que o tempo não é uma coisa qualquer que possa passar ao lado do nosso próprio compromisso com a vida. A política deve emergir de um sentimento de pertença e de uma necessidade quase inexplicável de não conseguir deixar de cuidar das coisas. A política da acção, do fazer parte, do envolvimento, nunca restrita às instituições e aos lugares, mas fundada num estado de alma que inquieta e que nos impede de ignorar o pulsar futuro.
O que entusiasma na política, e o que faz realmente mudar o mundo, não é a obsessão por lugares de eleição, mas antes a insistência em participar, seja nas instâncias de decisão ou fora delas. Conheço bem os dois lados e asseguro que ambos possuem força suficiente para que se garanta o nosso espaço de intervenção. Mas sem a inquietação de que falava atrás, nem num lado, nem no outro, conheceremos esse prazer imenso que é a política.
Quando olho para Fafe reconheço as inúmeras inquietações de tantos e tantos cidadãos que ajudaram a erguer esta ideia de concelho. Grande parte não passou pelos locais de decisão mas fez parte da decisão, pela inspiração proporcionada, pela acção levada por diante, na sua rua, no seu bairro, no seu local de trabalho, nas suas associações ou nos seus partidos. Fundamental em política é perceber que a política é isto. E foi dessa política que andei à procura e foi essa que fui encontrando um pouco por todo o lado. Foi, também por isso, uma campanha coerente e obviamente feliz.