Sunday, September 14, 2008

Dois desenhos de Orlando Pompeu


Como os animais a mudarem de pele, também assim cultivo as estações no afecto que lhes dedico, colhendo de cada instante a sua beleza única.
Estes frutos, que sempre se renovam e que da beleza os vou roubando, provocam-me um desejado exílio sob o qual vou criando e recriando recantos que se oferecem à memória e à identidade, sendo essa a única fortuna com que se pode contar e a única atitude por que vale a pena o esforço dos dias.
Nos recantos da memória, estações dentro, abrigamo-nos nos que nos são mais próximos, estando vivos ou mortos, e aí vamos cuidando de nós como os velhos cuidam das suas flores e dos seus objectos.
Na mudança de estação, preparei a parede da sala com dois desenhos de Orlando Pompeu, criados numa noite de Abril, em Paris, no Café de Flore. Há muito tempo que Pompeu conhece a minha relação com o Flore e com o envolvente bairro de Saint-Germain des Près. Nesse registo de cuidar os tais recantos de memória, teve a amabilidade de criar para mim dois desenhos e de mos enviar.
Este gesto tem um significado que excede a própria obra, tem a decisão de alguém partilhar o momento e criar a memória desse mesmo momento com aquilo que sabe acerca do fascínio do outro. E isso é de uma beleza extraordinária.
Os dois desenhos que agora habitam a minha casa têm a eles agarrada a amizade que eu e o seu autor partilhamos e o deslumbramento que sentimos pela cidade e pelos cafés onde os pensadores do século passado e os artistas que mudaram o mundo frequentavam.
As obras de arte têm esta facilidade de irromper sobre a nossa intimidade e sobre os nossos sentimentos. Olhar um quadro e ver o seu significado enquanto algo que nos é exterior e depois acrescentar-lhe a história da sua intenção autoral e do que fica connosco para sempre.
Quando passeio em Saint-Germain lembro-me sempre dos tempos em que o pintor Pompeu saiu de Fafe e arriscou uma carreira por aqueles lados. Acabo sempre por fazer um brinde à sua memória e ao seu sucesso, nem que seja com uma vitel gelada no pico do verão. E sabe bem olhar o bairro de Camus e de Sartre e saber que um dos nossos por ali arriscou e ganhou, trazendo a sua história e a sua intimidade para junto de nós. Ser de Fafe passa por saber trazer para o nosso coração a felicidade dos nossos, as suas conquistas, os seus riscos, as suas marcas na mudança do mundo.
Neste mudar de estação, acrescentando dois quadros à sala, acrescento duas longas histórias, próximas e quentes o suficiente para entrarmos no Outono e nos Invernos que nos restam até que habitemos um para sempre na memória de alguém.
Neste mudar de estação, trago isto à intimidade da casa e entram cidades e pessoas, outras estações e outras ideias, outra companhia para romper a vulgaridade dos dias, essa sim insuportável e mortífera.

Thursday, August 28, 2008

O meu Goya, o do Carlos Vaz e o de quem o apanhar.


Há um roteiro obrigatório na obra de Goya. O roteiro dos retratos. A genialidade com que consegue dar alma aos seus modelos, reais ou inventados.
Desta vez, em Madrid, detive-me nos retratos e vislumbrei uma série de histórias e de personagens, sobre as quais me apeteceu tirar o triplo das férias para as poder escrever e dar vida a novas figuras que aí teriam o seu berço criativo.
Antes de mim, já o Carlos Vaz se deteve em Goya e na companhia das suas gravuras escreveu o romance «Capricho 43». Revisitar Goya é também levar comigo este amigo de há vários anos e ousado artista do nosso tempo.
Por isso, a arte tem roteiros, múltiplos, quase todos fascinantes. Os roteiros que sigo, à margem de muitíssimas convenções, são os da alma. Aqueles que partem de um abraço, a um pedaço enorme de espanto, a uma descoberta, a uma releitura, a uma criação ou recriação, ou, tão simplesmente, a um prazer genuíno e profundo quanto baste, capaz de não ser só nosso para poder vislumbrar o abraço dos outros, a sua descoberta, o seu espanto e o seu justo prazer. Se assim for, valeu a pena ter uma alma. Uma alma para compartilhá-la.
Disto também se fez e faz o segredo da arte e dos artistas.

Te quiero Madrid!


Regressámos a Madrid. A Madrid das emoções fortes, da cidade íntima e quente e do que aí Nação espanhola, que é uma coisa que quase não existe, soube guardar ao longo dos tempos para provar a sua força e a sua existência.
Uns dias por ali, a engolir o melhor que o mundo tem para nos dar, a sentir cada rua por estar a precisar, mais do que nunca, de sentir o que quer que fosse. E há muito mundo para ver e sentir em Madrid. Há um inesgotável privilégio que nos é possibilitado. Digo possibilitado, porque nada é gratuito, tudo exige atenção, seja através do que já guardámos com a nossa História de vida, seja pelo que as nossas emoções são capazes de intuir e construir.
Andar por Madrid sequioso de espanto e de sobrevivência. Andar a perguntar e a chamar pelos que mais amamos e pelos que sempre acompanharam os nossos muros da alma. Lá estavam todos, os que amamos e os quadros do nosso espanto e do nosso crescimento. Lá estavam os jardins e as coisas que agora lhes fomos contar e que são muito novas e muito belas e outras também novas e muito tristes, mas nossas, profundamente nossas. As árvores que já nos conhecem e que nós conhecemos, as casas onde parámos e fazemos brindes, pedindo coisas como só aos santos se pedem, acreditando que sempre depois de um brinde as dores diminuem e a sorte aumenta. É impossível estar-se em Madrid sem esta percepção da vida, sem esta reacção quase natural e impulsiva perante o melhor do mundo.
E depois as coisas que se descobrem e nos comovem, aumentando os nossos níveis de esperança. Quando os filhos nos falam dos quadros que viram e do que neles projectaram. E desses mesmos quadros serem os de sempre, agora, aumentados pela interpretação que os miúdos lhes deram a partir do seu olhar infantil. Ou então, quando estamos a ver a colecção de tapeçarias reais, no Escorial, e o mais velho diz que são inspiradas nos motivos que inspiraram as pinturas de Bosch e o mais novo diz que preferiu os retratos dos Reis Magos que estavam no Prado. Tudo isto é o que possibilita Madrid, e não é pouco, vem até ao mais importante que pode alcançar a nossa alma, porque acrescenta, porque nos acrescenta ao sangue, à herança de que nos podemos orgulhar por ser e por vir da Humanidade, mais do que da família.
E amar profundamente em Madrid, com o seu cheiro a cidade intensa, com a sua luz e os seus recantos, com as coisas que sussurra como na música, como no vinho, como no que conseguimos ser de extremos e de não abdicar. Amar em Madrid. Ter o privilégio de estar perdidamente apaixonado e passar pela cidade assim, como quem não se esquece de uma obra-prima, como quem marca tudo com o fito de não perder nada, com o fito de reter esse retrato e essa visão como se pertencêssemos a um quadro protegido e vislumbrado pela própria Humanidade.
Regressámos a Madrid, como o fazemos de dois em dois anos. Uma espécie de peregrinação ao nosso coração do mundo. Regressámos para colher estas emoções, para sobreviver no próximo inverno e no que virá, como fazem os bichos que colhem numa estação para sobreviver nas seguintes. Voltámos de lá bichos, bichos sequiosos por não esquecer, sequiosos por emprestar aos dias que se seguem, o tanto que nos foi proporcionado, o tanto por que lutámos enquanto por lá estivemos.

Tuesday, July 29, 2008

As estrelas do verão.




Contaria contigo as estrelas e só muito tarde adormeceríamos outra vez sobre a real impressão do verão. Depois, viria a quentura das noites, os desertos a assolar-nos o olhar e a rumorejar que há sempre um pedaço de infinito e de lonjura onde os dias voltarão a ser mágicos e tu voltarás a ter a voz que só ao amor é conhecida, para desvendar nos olhos um do outro as estrelas e os seus nomes, as estrelas e os seus seres, as estrelas e as suas juras, as estrelas e os seus impossíveis.

Sunday, July 27, 2008

O corpo do verão.


Como se torna outro o corpo do verão. A serenidade perdida, o cais de longínquas paragens a não aparecer, a ser uma espécie de mentira, a não ser o merecido descanso.
Como o verão se transforma num corpo de inexistência a soar muito rente a uma existência enorme e avassaladora que invade as expressões, os sorrisos e as coisas onde se não descansa por se não ter.
Um verão de roubo e de partida para o desconhecido menos apetecível. Eu que sempre gostei e cultivei desconhecidos e mudanças, eu que sempre abominei rotinas e com elas marquei vencedores duelos. Eu que nunca quis dias iguais e que, agora, desejo dias iguais.
É assim a morte. É assim o retrato mais duro do irremediável. É assim que se desenha a perda que tantas vezes escrevi e que só agora conheço na sua dimensão maior.
É o verão a incendiar nos olhos todos os verões. É o calor dos dias a ser a expressão vazia do frio das horas. É o ter raízes e isso segurar tudo e o ter raízes e isso desabitar o presente e o futuro de tudo.
A morte é um engano. Aprendi isso. A morte é uma contradição à conquista tão dedicada do amor que sempre cultivámos e que nos fez sentir superiores a tudo. A morte a parecer que estraga o amor, mas não. É a nossa incapacidade que abre tréguas e pausas a essa forma de amar, como se abrem feridas e desânimos e desistências no corpo que tem a nossa alma mais antiga e mais genuína.
Como se torna outro o corpo do verão, quando somos arremessados para a desconhecida idade da privação, aí construindo novos pactos, novos desafios que estarão certamente a assegurar a felicidade futura, sobre as palavras futuras, sobre os sorrisos futuros, o que fará de nós, um dia, também um corpo de amor e depois de privação, a mudar verões, a ser em quase tudo o que se não toca, a ser em quase tudo uma espécie de desejo que arrastará consigo a saudade e a mais verdadeira felicidade que vem da serena língua do amor, assim a aprendamos, assim a soubermos ensinar.

Monday, July 14, 2008

Pai


Até onde o infinito der
e os ventos soarem a certa profundidade das raízes;
Até onde o mar devolver a lembrança
do que juntos espalhamos em suas orlas
durante longínquos verões;
E enquanto desse infinito
quase mais nada houver que um sorriso
devolvido ao coração que um dia também entregarei

estaremos juntos, estaremos vivos pai.

Tuesday, July 01, 2008

ENSALADAS




O VIDEO DO ESPECTÀCULO
A assistir no Teatro da Comuna de 11 a 13 de Julho.


A APRESENTAÇÂO DE PAULO BRANDÃO

Quando estava a frequentar o final do Curso Geral do Conservatório, (cerca de 1970/71) tive oportunidade de conhecer Constança Capdeville e nesse contacto fui despertado para uma outra estética que mais tarde Eduardo Sérgio denominou “Intermédia”,ou seja a possibilidade de uma fusão em que as várias gramáticas se interpenetram numa outra linguagem, criando um novo objecto. Um objecto de síntese. Não se trata, portanto, de uma mistura de várias expressões, mas antes uma nova linguagem verdadeiramente sincrética e de uma amplitude enorme, que sujeita os intérpretes a uma apreensão poliestética e a um domínio cabal da expressão em diversos géneros ( musical, teatral, corporal, etc ) Sob esse ideal, foi imaginado o espectáculo Ensaladas. Já no projecto de Mateu Fletxa está bem presente a ideia de multiplicidade e coexistência de expressões ao nível do poético e inevitavelmente no plano da estrutura composicional musical. O salto do cómico ao dramático ou do profano ao sacro tem também um paralelismo nas métricas ou em dialectos importados (Crioulo, Castelhano ou Catalão etc) assim se justifica o próprio titulo e se dignifica a universalidade.Justificado e defendido pela ideia primitiva, naturalmente se despertou o movimento e se solicitou interiormente os ecos de Gil Vicente no seu Auto da Barca do Inferno, para que a Ensalada seja mais vasta e se projecte para além do espaço. Por fim a revelação das Marionetas, como que uma multiplicação paralela dos personagens.
Assim se reuniram e motivaram as simbioses que caracterizam o ideário de uma linguagem de compromisso entre várias expressões.

Paulo Brandão

Sunday, June 22, 2008

O armário das bolachas.



Ao visionar o quadro de John Peto, «The poor man's store» (1885), lembrei-me do armário das bolachas torradas e das bolachas Maria em casa do avô. Tinha uma arrumação tremendamente misteriosa aquele armário. Os jogos de luz e sombra que ali havia eram interpretados à luz do desejo. Desse mundo da infância, tive a sorte de poder criar desejos e de levar por diante conquistas, o que me veio a ser muito útil, sobretudo para perceber melhor o preço das coisas.
Sou do tempo em que muito poucas coisas estavam garantidas. Mesmo as bolachas não eram oferecidas sem regra. Era preciso fazer algo por merecê-las e mesmo merecendo-as nenhum excesso era permitido. E isso não foi traumático, mas antes pedagógico e motivo de felicidade, pois de cada vez que as ditas bolachas apareciam ao lanche era um bom momento que com elas surgia.
Veja-se então como estas coisas são efectivamente importantes, mais de trinta anos depois ainda consigo relembrar tudo e todos com um nunca negado rasgo de felicidade e afinal era só um armário, só umas bolachas, só um desafio e uma família como tantas outras.
Importante, porém, é perceber como é que isto poderá continuar, como poderá o tempo manter vivos os pequenos significados, as pequenas coisas, tão grandes para a alma, tão decisivas nas horas em que se experimenta a solidão ou a privação das coisas que nos vão largando para sempre.

Sunday, June 15, 2008


Diz-me que há um barco sempre de partida
onde mora o desejo que ofereceste ao mundo.
Diz-me que sou o seu marinheiro
e que onda alguma rebentará em terra
antes de ter saído livremente dos meus olhos
por te ter visto.

A ignorância e a Liberdade.


Pelo mundo, é preciso que se erga a voz contra a subreptícia e calamitosa ignorância. É preciso que se diga que em cada pedaço de metódica indiferença são séculos de civilização que estão em risco de derrocada e que por cada silêncio em torno disto são décadas de medo e de solidão que se voltam a erguer e esperar que, de novo, algo muito novo e muito puro tente rebentar barreiras e lançar ao espírito a superação do próprio espírito.
A questão em torno do nosso grau de civismo não é um exclusivo da política, das lideranças ou das crenças. Por tempo demais se tem propagado a ideia de que o mundo não avança por culpa de alguma coisa que sempre está acima de nós mesmos, sem que consigamos ter a honestidade intelectual de nos questionarmos até que ponto temos contribuído para que o mundo, o nosso e o dos outros, tenha efectivamente avançado. É como se alimentássemos em nós um enorme ditador que predestina a nossa desgraça e o nosso fracasso.
Os países são aquilo que a governança faz deles, mas também são aquilo que os seus cidadãos conseguem fazer do seu próprio dia-a-dia, com o muito ou o pouco talento que vão demonstrando para mudar as suas próprias vidas. E esta é a tremenda falha de análise que sistematicamente se tem quando se determina o sucesso de uma aldeia, de uma cidade, de um país ou de uma união de Estados.
Claro está que a desresponsabilização dos cidadãos no seu próprio papel social fortalece autoritarismos básicos e faz com que cada vez mais a exploração se denuncie não só pelo que se não pode consumir com o que o dinheiro compra, mas sobretudo em tudo aquilo que se não pode erguer em virtude de uma militante inércia, de uma flagrante ignorância ou de uma tranquila aceitação dos dias onde repetidamente se não faz, se não pensa ou se não sonha.
A ignorãncia e a indiferença voltam a atacar com uma força inacreditàvel e só uma revolução de mentalidades poderá levar-nos a sair de uma crise que muito pouco tem que ver com a subida do petróleo, dos bens essenciais ou das catástrofes naturais.
A mais dolorosa circunstância é a circunstância Humana quando desprovida de alma e de exigência, de utopia e de empenho, de exigência e de entrega. Perante isto, todas as outras tragédias são menores, ainda que tragédias sejam, circunstaciais e conjunturais. Pois, mau mesmo é que estruturalmente o Homem se transforme na sua própria negação, ou seja: que por si mesmo interrompa o que julgávamos ser o ininterrupto caminho para a Liberade.

Wednesday, June 11, 2008

A praia.


Tenho a praia inteira para incendiar as palavras que sempre guardas e com as quais vais construindo a última hipótese de haver um nome e um corpo, um cais derradeiro para aquilo que é da pele e só a pele conhece quando agarrada ao íntimo rumor do mundo.
Pára para escutar o mundo. Podes começar pelo oceano que escondes. Pára nesse turbilhão de coisas que não deixas de sentir e segreda-me uma qualquer coisa que se pareça com um paraíso onde seja difícil a felicidade. Assim é melhor. Dura mais. Sabe mais a vez única.
Deita-te sobre o areal desse olhar mais quente e mais fundo e sê o seu próprio entardecer para, a seguir, conheceres do vento as vibrações e os segredos e só depois a infatigável entrega do coração selvagem e puro, deportado e regressado, fóssil ou sangue ainda fresco sobre o instante onde ainda teimas matar toda a tristeza como se a negasses para sempre, ou dela fizesses a mais insinuante fábula para depois adormeceres sobre o cansaço mais belo do mundo.

Sunday, June 08, 2008

Ainda.


em memória do meu amigo e colega Laureano Silveira


Ainda não é das árvores esse magnífico outono de silêncios,
nem do vento um lírico canto de promontório e de sede se aproxima.

Ainda não é do chão o peso da terra bordada
por inúmeras gentes, acalentando a finitude
e o seu mais belo e resignado colo.

Ainda não vem da chuva a memória mais limpa
do que a perda sempre acrescenta
à alma viandante, docemente incompleta.

Ainda não anoiteceu suficientemente
para se escutar o coração dos desertos
e a livre linguagem dos seus insectos.

Ainda nenhuma brisa fez lembrar
a secura da pele e o envelhecer do corpo
ateado à bravura da vida.

Ainda o fogo
não gemeu tudo sobre a lembrança,
nem deixou em cinzas o olhar mais último
que resuma uma vida inteira.

E mesmo assim, ela chega, funesta
e incompreensível, a levar do quase tudo
o quase tanto
e a abrigar no quase nada
esse abismo de impossíveis,
doloroso retrato, canção interrompida,
ininterrupta palavra que tudo guarda,
sendo esse o pacto possível, a promessa profunda
com os que não morrem.

O barqueiro.


Sobre a circulação da vida, há uma espécie de cais onde atraca, a todo o instante, o que sobra de digno e perdurável dos nossos passos.
Como velhos barqueiros, aí acumulámos viagens e vamos perguntando em que lado do mundo entregaremos o legado que meticulosamente guardámos sobre a tal dignidade dos dias.
Na sempre mutável pele da tarde, apreciciamos a obra humana e a sua brevidade para, a seguir, descobrir a sua beleza e ter aí a visão perfeita de que o nosso corpo do dia é muito mais extenso do que nós mesmos, por integrar magnificamente o corpo do universo, a visão emocionada de Deus, a infinita palavra, a vez onde morrem derrotados a ignorância e o desdém, para ver renascer ideias e sonhos, como na natureza do ciclo do húmus se evidencia a conclusão da flor e do fruto.

Sunday, May 25, 2008

A Mãe da Farmácia.


Talvez eu tenha sido a nona pessoa a tratá-la por Mãe. A Mãe da Farmácia. Não era minha Mãe, mas muitíssimas vezes foi quase isso. Quando era pequeno, ia lá casa todos os dias. E todos os dias me acolhia um sorriso e uma voz que palavra alguma será suficiente para caracterizar a forma como aquele sorriso e aquela voz se caracterizavam no imenso coração que tinha o meu pequeno corpo.
As outras pessoas tratavam-na por D. Maria Eugénia e faziam-no de uma forma que, até nas coisas mais simples e quotidianas, revelava um permanente encantamento. A Mãe não parecia deste mundo, tal era a forma como conseguia todos os dias reservar uma dose de condescendência, de paz e de entrega aos outros.
À hora do lanche, saíamos ambos da salinha e íamos para junto do fogão a lenha preparar o leite. Ainda tenho na memória o cheiro do leite que às vezes caía sobre o ferro durante a fervura, dado que nessa altura não havia ainda leite pasteurizado mas havia um leite com um sabor e um cheiro que nada tinha de idêntico ao de hoje. Durante os lanches ia-me ensinando coisas, perguntando outras e, com um ar inesquecivelmente terno, ia verificando os meus progressos de linguagem, sorrindo sempre que eu não caía numa armadilha de português ou demonstrava conhecimento sobre uma personagem qualquer que estivesse aparentemente distante da minha idade. E sempre houve ali um tesouro, na forma como era capaz de cuidar e de sentir como sua cada pessoa que entrava naquela casa. Talvez, também por isso, permitiu e achasse natural que eu a tratasse por Mãe.
A existência de pessoas assim é que nos fazem manter viva a esperança na humanidade e que essa mesma humanidade há-de sempre revelar-se nos momentos mais difíceis. Não consigo medir o quanto lhe devo, para além deste enormíssimo amor e da forma como não desaparecerá do lado melhor de cada um de nós.
No momento em que nos despedíamos, ouvi a minha mãe dizer:
A D. Maria Eugénia foi a melhor pessoa que conheci na vida.
Fiquei em silêncio, perguntando-me quantas mais pessoas estariam a pensar o mesmo naquele instante, e como a vida valeu tanto a pena, querida Mãe.

Um quadro à tarde.


O quadro «View of the Ducal Palace in Venice», que Canaletto pintou em 1755, acompanhou-me durante uma parte da tarde, dando sentido a esta instabilidade metereológica de Maio. Veneza com os seus canais é uma das minhas imagens de infância, ainda que nunca lá tenha estado. A literatura de Sophia encarregou-se disso, desde o primeiro instante em que contactei com o «Cavaleiro da Dinamarca».
Alguma vez, em algum lugar, haverá um canal onde será possível navegar sobre a tranquilidade dos dias e o seu enigma, sobre a calmaria da noite e o seu perfume a histórias de intermináveis pactos.
Alguma vez, em algum lugar, haverá de ser possível uma gôndola que nos leve a esse lugar nenhum, revelando nesse sítio que é finalmente possível adormecer sobre a infinita voz do amor.

Saturday, May 24, 2008

Contornos.


O que fazer aos contornos deste abismo de encontros com o que é longínquo e perto, morto e revivido, partido e nunca desmarrado?
O que fazer com esta parte humana de nós que morde de sofreguidão a finitude e renega o seu mais doloroso silêncio e a sua mais que provável entrega ao esquecimento do mundo?
O que fazer a esta condição humana de erguer sonhos como se fossem flores, tão breves e tão frágeis, mas tão mágicos e tão puros que nos enfeitiça a hora e larga no olhar a aparente eternidade que têm todas as dúvidas?

Thursday, May 22, 2008

dez anos de solidão


(um vídeo do Pedro sobre Santa Maria, a ilha do Daniel)

Na passada segunda-feira, apresentei o livro «Dez anos de solidão», de Daniel Gonçalves, em Ponte da Barca. Uma noite de profunda intimidade literária, capaz de me salvar de algumas nuvens negras que por cá têm andado.
O Daniel é o poeta português que melhor sabe cantar o silêncio e tem-nos dado a honra e a amizade de sermos com ele compagnons de route.
Caminhar neste livro é desbravar importantítissimas faces do que também somos e do que nunca devemos adiar. Um livro enquanto objecto de vida, enquanto passo, enquanto decisão do momento, enquanto transformação vigorosa do que jamais acabará entre os viventes: o amor.
Da noite em Ponte da Barca, a descoberta do Pedro e da Susana e a sensação perfeita de que também eles são, da vida, coleccionadores de pequenas coisas, responsáveis por grandes rastos.

para o daniel

Toma no olhar este arquipélago de palavras indolores
e não deixes nunca que os seus pássaros e os seus peixes
abdiquem da poesia que guardam e que só eles sabem incrustar
nos horizontes onde se diluem a vida, a morte e a eternidade.

Monday, May 12, 2008

A arte de viver.


Este final de noite, regressei ao quadro de José Malhoa, «A praia das maçãs», e aí redescobri as idades e a importância de certos objectos perdidos na luz que apenas na memória habita. Os bancos em madeira com a cor moldada pelo passar do tempo, os muros caiados e disformes, mudados pelo Homem na eterna recepção das estações quentes, a sombra das coisas e as nossas sombras. Tudo a entrar por uma lenda de verão, tudo a chegar a uma espécie de quietude que só se conquista com a preserverança de olhar os dias de hoje com a sobranceria da simplicidade.
Nos últimos tempos, tenho andado, na medida do possível, a lavrar nos meus espaços os lugares onde pretendo colher alguns dias calmos, a sorver luzes inesquecíveis, brisas, sons de pássaros e de gente que não tolham a inteligência do dia.
Por isso voltei a este quadro, para daí ganhar renovada força e ir em frente nessa conquista de inenarrável contemplação, de recomendável forma de orar e agradecer a Deus o facto de nunca ter deixado de nos fazer chegar as estações quentes, as brisas, os pássaros, ficando em nosso arbítrio o difícil engenho de saber amar tudo isso.

Saturday, May 10, 2008

Misérias.


Já sabes: a vida é um poço de mistérios. De águas difíceis, quanto mais superficiais se tornam ou quanto estejam mais à mão dos que nunca se reviram na grande oportunidade que é andar vivo.
As manhãs sucedem-se e nelas cabem a irrepetível luz, as sonoridades que nos referenciam, as memórias, as dores e as injustiças. Já sabes que é assim. Que sempre foi assim. Que é assim com quase toda a gente. Contudo, difícil mesmo, é lidar com a pequenez do mundo, com a miserabilidade alheia, quando dela se sabe que é escolhida e desejada.
Talvez por ser crente me custe tanto perceber a aceitação da miserabilidade. A miserabilidade nada tem que ver com economia, mas com estados de alma, com decisões e com atitudes. O verdadeiro miserável é o que fica, o que mora e cultiva o lado obscuro do tempo, aí se erguendo e erguendo em seu torno a imoralidade do contraste.
Digo-te isto porque sabes bem o quanto tem custado somar misérias e miseráveis e admitir que neste ponto não existe um ponto de fuga de modo a que a vida se confine ao que descobrimos puro e ao que nessa simplicidade decidimos erguer.

Tuesday, May 06, 2008

O Jardim da minha terra.


O jardim do calvário, em Fafe, é um jardim suspenso, como muito poucos. Tem espécies de árvores, poucas, mas centenárias e algumas raras. E tem uma infinidade de memórias.
Por lá, vivi muito na infância e alguma coisa na adolescência. No jardim brincava-se a tudo, com cenários à altura da imaginação, e quando se perdia a inocência começava-se a perceber que aquele mesmo jardim tinha recantos que só o coração conhecia e que faziam das tardes lugares de incendiadas paixões, de amores aparentemente infinitos e seguramente secretos.
O jardim do sr Adriano que nos corria à cachaçada do parque infantil a partir dos dez anos, e que já morreu, e cuja falta se notará nos dias muito novos deste jardim restaurado. O jardim dos concursos do vestido de chita, com o Nelinho da Electra a tratar do som e a malta do Nun'Alvares a apresentar. O jardim dos concertos de música e dos encontros de verão das gentes que emigravam e que ali se passeavam para contar coisas boas e bonitas da vida que erguiam muito longe e que iam vencendo.
No dia 25 de Abril, fiquei emocionado e feliz por ver a requalificação do jardim sem se ter morto a memória. Até a terra é vermelha como no tempo da minha infância. Até a terra nos abre o coração e chama ao velho jardim os que, já não estando, são, como as árvores, as vozes de sempre que nos ensinaram a amar aquele espaço e senti-lo como uma espécie de coração que fazemos bater no peito de todas as idades e das criaturas que não deixamos morrer enquanto vivemos ou enquanto pudermos viver nos outros.

Sunday, May 04, 2008

As tardes de Maio.


As tardes de Maio a fazerem desaparecer o inverno, a levar-nos para sempre a última oportunidade que tivemos de haver frio e sermos íntimos, no ano que ainda corre.
As tardes de Maio, ao domingo, com coisas que se abandonam para fazer outras coisas que servem sobretudo a idade interior e para a qual não deve haver resistência que lhe cause danos maiores por força de uma imposta indiferença ou medo.
As horas circulam pela nossa vida como o vento circula pelas montanhas, arremessando coisas, suavizando outras, às vezes refrescando o dia, outras denunciando temores ou realçando a beleza, tudo sem que se veja, mas sentindo-se plenamente.
As horas passam pela nossa vida e difícil mesmo é colher delas a verdadeira dimensão, saber o quanto são únicas e o quanto serão sementes de alguma coisa naquilo que não é só nosso, nem é só deste nosso tempo.
As tardes de Maio, a morrerem muito devagar sobre o olhar sereno, como deveriam ser todas as mortes, todas as formas que Deus encontrou para nos fazer começar uma nova etapa no que não conhecemos, mas que temos destinado como parte da missão, essa sim a maior pergunta que a nossa luz e a nossa cruz não saberão, por enquanto, responder.

Friday, May 02, 2008

Guardar o coração.


Gostava de poder prender-te na memória, guardar-te numa série de palavras para fechar num caderno de acesso reservado, e criar um universo completamente novo e ordenado segundo as leis de um tempo que desconheço e que sempre me sorriu.
Tenho tendência para fugir, para correr atrás de coisas que, não existindo ainda, são fulgurantes e contam já inúmeras narrativas onde hei-de criar raízes e sentir-me em casa.
Parece um contra senso esta coisa de andar a refazer o mundo e querer criar raízes ou sentir-me em casa. Mas não há aí contra senso algum, é mesmo assim, a única forma que engendrei para a felicidade passa sempre por este alimentar o sempre novo que o vivido e o contado possuem.
Por isso, queria tanto guardar-te e desenhar continuadamente um lugar de fuga, um lugar de recomeço, um deixar que o mundo se molde e não acabe nunca por existir no coração de quem cria esse milagre, o único em que verdadeiramente vou acreditando.A partir dele, ergo também a única oração de que sou capaz: a de nunca interromper o amor.

Os lanches.


No centro dos dias, pouco povoados por emoções que fiquem, retomo através do quadro de Claude Monet, «Le Déjeuner», a idade em que as tardes tinham cheiro, quando só muito longe e compassadamente me dava conta de uma civilização que emergia e causava no seu caminho os desaparecimentos próprios que o crescimento produz.
O desconhecimento desses desaparecimentos trazia uma tranquilidade ingénua, muito estética, muito capaz de não morrer, pese o passar dos dias e as cicatrizes que a si se aliam.
No quintal da casa onde nasci, havia uma ramada de uvas americanas e uns muros cobertos de musgo que emprestavam ao verão um cheiro a liberdade que ainda trago na memória e que ainda consegue trazer-me felicidade.
A Vila tinha sons muito diferentes dos sons de hoje. Ouviam-se as pessoas que conversavam pelas ruas e que chamavam umas pelas outras de modo a que se reconhecessem histórias de convivência entre elas, a passarada, os ventos leves, os poucos carros.
O lanche era diferente dos lanches de hoje, porque dividia o tempo. O tempo para comer, mas também para que se estivesse junto de outras pessoas, para que se interrompesse a tarde, para que soasse a uma última etapa, antes de anoitecer.
Esta tarde, agarro a infância deste jeito e exilo-me por instantes aí, que é uma forma de questionar o que fazer do tempo que resta e não tarda há-de ser memória também. O desafio, contudo, é saber se se consegue levar a qualidade o suficiente para que possamos daqui em diante regressar a estes dias e segurar na face uma réstia de felicidade, uma reserva de alegria para iluminar os dias futuros, para distinguirmos a vivência da sobrevivência.

Wednesday, April 30, 2008

As primaveras de dentro.



Embora eu caminhe para ti
incessantemente ao longo de percursos sonhados,
a soma desses encontros
é inferior a um único vislumbre
concedido no despertar do mundo.
Ono no Komachi


As manhãs de Abril: com chuva a rondar as mil tristezas, a tactear o esforço que tem a estação de onde tudo volta a rebentar para o exterior circuito da beleza, com o caminho feito pelo lado de fora, para os olhares que na primavera se perdem e se confrontam com a expectativa das celebrações de um recomeço.

- Repara como é tão tardio o olhar que deixamos sobre aquilo que, de rumo em rumo, tem a legenda de qualquer coisa à espera de se tornar num ápice, numa nova esperança, numa espécie de regresso aos dias em que tudo volte a estar bem e se não perca e se não gaste, como tão dolorosa e incompreensivelmente a vida se vai desgastando.

Thursday, March 13, 2008

Retratos de Bled


3
Entre o sol e o mundo
existem os Homens
sem que conheçam,
na sua dimensão,
a distância
que os deixa absolutos.

Absolutos se também
do olhar nada souberem
se até do olhar
apenas absolutas coisas
conseguirem abarcar.

Wednesday, March 12, 2008

Dois retratos de Bled


1
Em frente o lago de Bled
e a ideia de que um lago
espelhando o luar
conta mais do que séculos
de palavras vindas de quem
na face nunca sentiu o deslizar
de um lago,
nem nos olhos reflectiu um luar.

2
E as montanhas
poderiam ser o corpo eterno
que tudo guarda
e sem ser Deus
resiste à despedida e ao anoitecer
dos que partem e mudam as manhãs
do mundo, sem nunca mudarem o lugar.

Tuesday, March 11, 2008

Desterrar.


Ao sobrevoar Frankfurt lembro-me sempre da cidade onde a pequena Heidi foi infeliz e tenho, quase por osmose, um sentimento idêntico. Desterrado, longe da Vila, nunca aí cheguei com sol e muito menos sem a magoada impressão da distância.
Desta vez vinha a conversar sobre o tempo que se foi diluindo, comparando-o em muitíssimos elementos. Cheguei ao lugar comum da saudade mas também ao desembocar num certo sabor a decepção com uma série de avanços que acabaram em retrocesso civilizacional.
Lembrei-me da D. Aurora que se sentava num banco de madeira do outro lado da rua da loja do meu avô e que eu ajudava a levantar-se quase diariamente para o lado oposto quando o sol desaparecia, lembrei-me da D. Guilhermina que pedia esmola e que gastava uma parte do dinheiro a comprar sacos de rebuçados mulatos para oferecer às crianças com quem se cruzava, do Bolinhas que apregoava cautelas e cantava com um sorriso como nunca mais vi, do Sr Sousa da estação e de com ele aperceber-me dos sinais que se faziam aos comboios quando partiam e quando chegavam, da Emília leiteira que pendurava todas as manhãs no portão da casa do Largo o leite do dia, das idas à Loja do Sr Damião Monteiro pedir ao Paulino e o Sr Domingos bocadinhos de espelho partido para espreitar as pernas às mulheres, de ajudar o sr Alfredo a fazer a montra da mercearia do Tininho Barros com latas de atum Bom petisco empilhadas... Tinha então cinco anos e toda esta fortuna.
Lembrei-me de tudo isto em Frankfurt e fiquei num estado pleno e lastimoso, tal e qual a pequena Heidi, longe do avô e das montanhas, ou talvez um pouco pior pois do meu lado o conhecimento da finitude de tudo isto é uma certeza que só a memória e as emoções conseguem salvar.
E durante a conversa questionei se ainda exisitirá algo assim tão diverso para as crianças, para os meus filhos, se haverá tanta gente e gente tão diferente, lugares simples que eram mágicos, actos pequenos que a vida não apaga. Calei uma profunda incerteza. E perguntei-me se não teremos que repensar a riqueza do imaginário que aos nossos proporcionamos, e perguntei-me que riqueza maior poderemos dar aos vindouros senão o enraízamento na sua acepção mais profunda e mais pura, onde cabe gente e lugares, coisas criadas e conquistadas, emoções que sejam só emoções mas que se não esqueçam e contrariem heroicamente a lei da morte.

Sunday, February 24, 2008

O Largo

Thursday, January 31, 2008

O avô e o mundo.


Hoje, o avô completaria 115 anos, no mesmo dia em que o Fígaro anuncia na sua primeira página os prognósticos para as próximas eleições nos EUA onde se discutirá mais do mesmo na linha de McCain, pelo menos em termos de política externa, ou se, no plano da viragem, eleger-se-á uma mulher ou um negro, por parte dos democratas. Este é o retrato fiel do simplismo a que se votou a discussão política.
Com o avô aprendi que a vida é demasiado complexa para que haja uma omnipresente linearidade de argumentos. Mas, com ele também fui aprendendo que é muito importante que nos situemos e nos definamos em regras basilares que devem ser o mais ricas possível para que se garanta a coerência nos nossos actos.
Ao relembrá-lo, dedico o momento a reflectir sobre a falta que faz a ideologia. É que sem esta, sem as suas regras, sem o seu sempre necessário aprofundamento, rapidamente se cai em tentações de relativizar tudo e de quase todos os actos serem tolerados por falta de base.
A política, em sociedades democráticas, deveria sustentar-se na inteligência e assim não deixar escapar as conquistas civilizacionais a que fomos assistindo, devendo ser destas a feroz guardiã.
Se assim fosse, não se centralizariam as discussões em superficialidades nascidas de preconceitos que, pelos vistos, ainda não estão sanados. Hillary não será boa presidente por ser mulher, como Obama não será bom presidente por ser negro. Triste é vermos, ainda hoje, que se uma mulher ou um negro forem eleitos isso ainda constitui uma vitória de alguns princípios civilizacionais. A lição a tirar é a de que o que faz falta é aprofundar a luta pelos direitos cívicos que, afinal, se reconhece não estão senão em letra de forma. Para os tornar em letra d’alma, mais importante do que eleger um ou outro candidato democrata (espero vivamente que aconteça) é pensar e agir sobre as causas e as consequências desta discussão.
Aprenda-se a lição de que a democracia e a liberdade não estão tão asseguradas e maduras conforme parece face aos magníficos diplomas legislativos que muito poucos sentem e ainda uma menor percentagem lêem.
É aqui que as ideologias fazem falta, para que haja regra e alguém que militantemente pugne por ela e a cultive e a aprofunde. Quando assim for, poderemos com mais propriedade falar em desenvolvimento civilizacional.
Razão tinha o avô quando dizia que não era com duas tretas que se constrói uma vida! Assim o é no mundo, e que estranho que ele vai…, o mundo.

Saturday, January 19, 2008

Poemas da Cidade - 21



Na doçura da tarde, os pássaros de inverno
bordam as direcções do olhar, dispersando
aqui e ali as melhores intenções
sobre o que deverá ser a felicidade
ou a liberdade servida ao ritmo natural
das estações.
Como num tecido muito artesanal,
assim é bordada a inteligência do dia,
no coração quase domingueiro,
na esperança quase infantil
de ter algo melhor para ser ou oferecer
ao instante seguinte,
esse maravilhoso e intransmissível mistério.

Marselha


Nas ruas de Marselha, junto ao porto velho, percebe-se bem o significado das cidades que guardam um estilo de vida interior, restrito a alguns, aos do grupo, aos da partilha, aos de sempre.
Nos bares e nos restaurantes a impressão que fica é a de que se está com alguma persistência a comemorar algo ou reforçar os sentimentos.
Numa cidade de contrastes e altamente intercultural é interessante a abordagem que se pode ter com os lugares de um modo sereno, porém implicado.
As cidades assim excitam-me, por me excitar a ideia adolescente de passar a vida a reforçar sentimentos ou a solidificar velhos pactos.

Sunday, January 13, 2008